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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

"Já estou a ficar velho" - Poema de António Franco Alexandre



Steven Kenny
(American surrealist artist, born 1962),
'Man with Blinders', 2012.



Já estou a ficar velho


Já estou a ficar velho, ainda que tenha
esta figura fixa sem idade,
e me mantenha em forma o aparelho
a que todos aqui somos sujeitos:
a correria cega, a suspensão elástica,
o salto em trave e trampolim de folhas,
e outras altas artes de ginástica.
Mas eu bem sei sentir além da aparência,
e já me aconteceu, ao visitar o canto
onde o mundo se acaba em chão de areia,
ali ver o meu fim anunciado.
Quando em tranquilo pouso assim medito,
peso, e calculo tudo aquilo
que não fiz, e não tive, e não alcanço
com o rosto extravagante que me deram,
já tudo bem pensado considero
se não devo encontrar algum consolo
na ciência que conduz o feiticeiro,
e acreditar também, como me diz,
que é, esta vida, emaranhada teia
de mal fiado, mal dobado fio,
e a morte tão somente um singular casulo
de onde sairei transfigurado.
Mas não sei de que valha imaginar
um outro ser incólume e perfeito
que da minha substância seja feito
e tome, noutro mundo, o meu lugar;
se me não lembra, como serei eu?
Se for quem sou, ainda que mude a capa,
há de voltar aqui, onde hoje estou,
viver o mesmo instante, e ver
escapar-lhe das mãos o que me escapa;
veloz embora, e exímio no salto,
o que hoje perco, há de então perdê-lo,
e faltar-lhe outra vez o que me falta.


António Franco Alexandre, in 'Aracne',
Assírio & Alvim, 2004.
 


Steven Kenny, 'The Lantern', oil on linen 30 x 24 in. 
 
 

Steven Kenny, 'The Crux III' (Doves)
 

"My paintings most often focus on the human figure paired with elements found in nature. These surreal, symbolic juxtapositions are intended to work on at least two levels.

The first alludes to the fact that we are an integral part of the natural world and subject to its laws. This seems like an obvious statement until we step back and objectively assess our symbiotic relationship with each other and the Earth. Depending on your perspective, these relationships fall somewhere on the scale between harmonious and dysfunctional.

The second turns the lens around to look inward upon the stewardship of our own emotional, intellectual and psychological landscapes. The same pictorial subject matter allows me to make references to our individual journeys of self-exploration and discovery. Again, depending on who is holding the compass, we are either lost or on the right path.

At the very least, I desire to create images of beauty and mystery that allow the viewer to find their own personal significance in them." -
 Steven Kenny



Steven Kenny, 'The Shadow', 2010, oil on canvas, 30 x 30 inches 



Steven Kenny, 'Tethered Fulcrum', 2010, oil on linen, 16 x 40 inches


Coldplay - Magic (Official video) 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

"Geração à rasca - A nossa culpa" - Texto de Maria dos Anjos Polícia


 
Sherree Valentine Daines (British painter, b.1956)


Geração à rasca - A nossa culpa

 
Um dia, isto tinha de acontecer.
Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (atualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.

Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquer coisa phones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que coleciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato coletivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta.
Pode ser que nada/ninguém seja assim. 

Publicado 9th March 2011 por 'Assobio' (Maria dos Anjos Polícia)


Coldplay - 'The Scientist'


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

"Admira a beleza" - Poema de Rudolf Steiner


David Eustace (British artist, born in Birmingham in 1950)


Admira a beleza


Admira a beleza,
Defende a verdade,
Venera a nobreza,
Escolhe a bondade!
Assim é que o homem
Será conduzido,
Às metas na vida;
Aos retos caminhos
Na hora em que age:
À paz, quando sente;
À luz, quando pensa;
E aprende a confiar na 
Regência divina
De tudo o que há
No vasto cosmo,
No fundo d’alma.


Rudolf Steiner
(Tradução de autor desconhecido)


Rudolf Steiner (Kraljevec, fronteira austro-húngara, 27 de Fevereiro de 1861 — Dornach, Suíça, 30 de Março de 1925) foi filósofo, educador, artista e esoterista. 
Foi fundador da Antroposofia, da Pedagogia Waldorf, da agricultura biodinâmica, da medicina antroposófica e da Euritimia, esta última criada em conjunto com a colaboração de sua esposa, Marie Steiner-von Sivers
Seus interesses eram variados: além do ocultismo, se interessou por agricultura, arquitetura, arte, drama, literatura, matemática, medicina, filosofia, ciência e religião.


David Eustace


David Eustace nasceu em Birmighan, em 1950, e foi encorajado na escola, por seu professor de arte, a seguir uma carreira artística, mas constrangimentos financeiros forçaram-no a começar a aprender carpintaria. Foi somente alguns anos depois, quando ele já tinha vinte e um anos, que pode voltar a estudar. 


  David Eustace


Ele completou um curso inicial na Sutton Coldfield Art College, seguido por uma graduação em Fine Art na Exeter College of Art. Mais tarde, ele ainda esteve na Leicester Polytechnic, em 1976, e diplomou-se como professor.


  David Eustace


Após a graduação, David passou seis anos nos EUA trabalhando como muralista. Desde que retornou ao Reino Unido, em 1986, tem ganhado a vida como pintor e muralista – durante 25 anos ele foi baterista na blues band ‘Junkyard Angels'. E, agora, ele toca num quarteto de jazz chamado 'Shufflebones'.


David Eustace


David Eustace diz: 
“Foi somente quando eu parei de trabalhar para sobreviver que minha pintura tornou-se minha propriamente. Para mim, imaginação é a pedra de toque para explorar um mundo interior de sentimentos e sonhos.”


  David Eustace


O trabalho de David Eustace, além de ser exibido na Red Rag British Art Gallery, tem sido exibido nas principais galerias de arte britânicas. 


  David Eustace


Cada uma das pinturas expostas na Red Rag saem diretamente do estúdio de arte de David Eustace e como tudo na Red Rag British Art and Contemporary Art, podem ser enviadas para o mundo inteiro.


  David Eustace


Coldplay - Paradise (Peponi) African Style (ft. guest artist, Alex Boye)
The Piano Guys
 
 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

"Talvez quem vê bem não sirva para sentir" - Poema de Alberto Caeiro



Émile Vernon (British painter, 1872–1919), A Sweet Glance, c. 1919.
 

Talvez quem vê bem não sirva para sentir 


Talvez quem vê bem não sirva para sentir
E não agrada por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as coisas,
E cada coisa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o dourado sol seca a vontade de lágrimas que não posso deixar de ter.
Como o campo é vasto e o amor interior...!
Olho, e esqueço, como seca onde foi água e nas árvores desfolha.

Eu não sei falar porque estou a sentir.
Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa,
E a minha voz fala dela como se ela é que falasse.
Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro,
E a boca quando fala diz coisas que não só as palavras.
Sorri, e os dentes são limpos como pedras do rio. 

8-11-1929

Alberto Caeiro, in O Pastor Amoroso
(Heterónimo de Fernando Pessoa)


Coldplay - Charlie Brown



"Perante nós mesmo todos fingimos ser mais ingénuos do que somos: 
é deste modo que descansamos dos nossos semelhantes."

Friedrich Nietzsche


sábado, 3 de dezembro de 2011

"Não sei quantas almas tenho" - Poema de Fernando Pessoa



Henry Thomas Alken (English painter, engraver, caricaturist and illustrator, 1785–1851)
"Sporting Scene", 19th Century.



Não sei quantas almas tenho


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.

De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.

24-8-1930 

Fernando Pessoa,
'Novas Poesias Inéditas'




Henry Thomas Alken, "Grouse Shooting" 


"O Homem tem feito na Terra um inferno para os animais." 

Arthur Schopenhauer

Arthur Schopenhauer (Danzig, 22 de Fevereiro 1788 — Frankfurt, 21 de Setembro 1860) foi um filósofo alemão do século XIX. Seu pensamento é caracterizado por não se encaixar em nenhum dos grandes sistemas de sua época. Sua obra principal é "O mundo como vontade e representação" (1819), embora o seu livro Parerga e Paralipomena (1851) seja o mais conhecido. Schopenhauer foi o filósofo que introduziu o Budismo e o pensamento indiano na metafísica alemã. Ficou conhecido por seu pessimismo e entendia o Budismo como uma confirmação dessa visão. Schopenhauer também combateu fortemente a filosofia hegeliana e influenciou fortemente o pensamento de Friedrich Nietzsche.


Coldplay - Every Teardrop Is a Waterfall
 


"Cantiga" - Poema de Cecília Meireles




Cantiga 


Bem-te-vi que estás cantando
nos ramos da madrugada,
por muito que tenhas visto,
juro que não viste nada.

Não viste as ondas que vinham 
tão desmanchadas na areia,
quase vida, quase morte,
quase corpo de sereia...

E as nuvens que vão andando
com marcha e atitude de homem,
com a mesma atitude e marcha
tanto chegam como somem.

Não viste as letras, que apostam
formar ideias com o vento...
E as mãos da noite quebrando
os talos do pensamento.

Passarinho tolo, tolo,
de olhinhos arregalados...
Bem-te-vi, que nunca viste
como os meus olhos fechados...


Cecília Meireles, in Viagem


Coldplay - Yellow