Ícone do Fado, Amália Rodrigues (1920-1999) é uma das personalidades mais importantes da história da música do século xx. Desde a sua estreia profissional, em 1939, no Retiro da Severa, Amália foi um fenómeno de popularidade: arrebatou plateias, acendeu paixões e suscitou os mais animados debates. No pós-guerra, era já a grande figura de referência no panorama musical português. Mas também a sua carreira internacional foi apoteótica: o mundo foi o seu palco natural e a sua voz o instrumento privilegiado para cantar toda a poesia portuguesa, do repertório trovadoresco e renascentista à criação literária contemporânea. Popular e erudito, moderno e intemporal, o legado de Amália Rodrigues devolve ao nosso imaginário a poderosa imanência dos grandes temas da cultura portuguesa. (daqui)
Nos teus olhos altamente perigosos vigora agora o mais rigoroso amor a luz de ombros puros e a sombra de uma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo à roda em que apodreço apodrecemos a esta pata ensanguentada que vacila quase medita E avança mugindo pelo túnel de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira onde passo o dia burocrático o dia-a-dia da miséria que sobe aos olhos vem às mãos aos sorrisos ao amor mal soletrado à estupidez ao desespero sem boca ao medo perfilado à alegria sonâmbula à vírgula maníaca do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta cama comigo em trânsito mortal até ao dia sórdido canino policial até ao dia que não vem da promessa puríssima da madrugada mas da miséria de uma noite gerada por um dia igual
Não podias ficar presa comigo à pequena dor que cada um de nós traz docemente pela mão a esta pequena dor à portuguesa tão mansa quase vegetal
Não tu não mereces esta cidade não mereces esta roda de náusea em que giramos até à idiotia esta pequena morte e o seu minucioso e porco ritual esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira da cidade onde o amor encontra as suas ruas e o cemitério ardente da sua morte tu és da cidade onde vives por um fio de puro acaso onde morres ou vives não de asfixia mas às mãos de uma aventura de um comércio puro sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante que vai ser que já é o teu desaparecimento digo-te adeus e como um adolescente tropeço de ternura por ti.
Quando escrevi «Um Adeus Português», há quase quarenta anos, estava a
sofrer pressões inacreditáveis, por parte de alguém da minha família,
para não «ir atrás da francesa». A francesa, a minha querida e já
falecida amiga Nora Mitrani, queria que eu fosse ter com ela a Paris,
onde vivia. «Vens, ficas cá e depois se vê», era o que o seu otimismo me
dizia por carta. Mas as coisas não se passaram assim.
A pressão
(ou, melhor, a perseguição) chegou ao ponto de ter sido metida uma cunha
à polícia política para que o passaporte me fosse denegado, o que
aconteceu, não sem que eu, primeiro, tivesse sido convocado para a
própria sede dessa polícia e interrogado pelo subinspetor Seixas. Seixas
usou comigo de uma linguagem descomedida. Perguntou-me que ia eu fazer a
Paris. Respondi: ‑ Turismo.
Quis saber se eu conhecia a senhora N. M. Eu disse que sim. Então Seixas retorquiu: ‑ Se calhar V. quer ir porque essa gaja lhe meteu alguma coisa na cachola. Com a serenidade que me foi possível, fiz-lhe saber que se enganava, que N. M. não era uma gaja e que eu não tinha cachola. Pareceu surpreendido. Depois, irritado, mandou-me sair. E assim estive anos sem conseguir passaporte.
Claro que o poema não se gerou apenas desta situação, mas ela contribuiu poderosamente, com outros fatores circunstanciais bem conhecidos, para que o poema aparecesse. Era uma época em que tudo cheirava e sabia a ranço, em que o amor era vigiado e mal tolerado, em que um jovem não era senhor dos seus passos (errados ou certos, não interessa).
Semanas depois, «nascia» o poema e, com ele publicado, uma relativa notoriedade. É que o poema, ingénuo como é, tem realmente a força do nojo e do desespero combinados com um derrame/contenção sentimental que não mais igualei. Então, durante algum tempo, fiquei conhecido como o poeta de «Um Adeus Português».
A minha amiga, que não voltei a ver (quando a fui procurar em Paris já tinha morrido), ainda tomou conhecimento deste poema. Escreveu-me: «Li o teu Adeus. Fiquei atrozmente comovida.»
Claro que um poema não é feito de nojos, desesperos e derrames sentimentais, mas, no caso, a felicidade de expressão foi vivamente alimentada por uma raiva e um amor desmesurados, quer dizer, adolescentes. E o poema foi ficando e passando para as antologias.
Explico tudo isto porque outro dia me chegou às mãos um número da Europe dedicado à literatura de Portugal. E lá aparece, numa tradução bastante pobre, o tal «Adeus... ». Não é que, na nota proemial, em que me definem como sarcástico, desesperado e terno, dizem que o poema foi inspirado por Nora Mitrani! Eu acho que, por enquanto, isso é comigo. Também o João Botelho (o do excelente filme Conversa Acabada) me telefonou a pedir-me autorização para usar o título do poema para título de um
novo filme seu. Dei-lha logo. E nem sequer lhe perguntei se o que ele vai fazer tem a ver com o poema ou não. Isso é lá com ele. Como, insisto, é só comigo que Nora Mitrani tenha sido ou não a inspiradora de «Um Adeus Português». Pelo menos antes da presente explicação.
[Ficaram famosos alguns slogans publicitários da sua autoria, e este que foi encomendado pelo Instituto de Socorros a Náufragos, para uma campanha de prevenção dos afogamentos nas praias portuguesas, converteu-se em provérbio.]
- Alexandre O’Neill -
Poeta português, Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões nasceu a 19 de dezembro de 1924, em Lisboa,
e morreu a 21 de agosto de 1986, na mesma cidade.
Para além de se ter
dedicado à poesia, Alexandre O'Neill exerceu a atividade profissional de
técnico publicitário.
Fundador do Grupo Surrealista de Lisboa, com
Mário Cesariny, António Pedro, José-Augusto França, diretamente influenciado pelo surrealismo bretoniano, desvinculou-se do grupo a partir de Tempo de Fantasmas
(1951), embora a passagem pelo surrealismo marque indelevelmente a sua
postura estética.
A sua distanciação em relação a este movimento não
obstou a que um estilo sarcástico e irónico muito pessoal se impregnasse
de algumas características do Surrealismo, abordando noutros passos o Concretismo,
preocupando-se não em fazer "bonito", mas sim "bom e expressivo".
Para
Clara Rocha, a poesia de Alexandre O'Neill coincide com o programa
surrealista a dois níveis: "a libertação total do homem e a libertação
total da arte. O que implica: primeiro, uma poesia de 'intervenção',
exortando os homens a libertarem-se dos constrangimentos de toda a ordem
que os tolhem e oprimem (familiares, sociais, morais, quotidianos,
psicológico, políticos, etc.); segundo, a libertação da palavra de todas
as formas de censura (estética, moral, lógica, do bom senso, etc.)"
(cf. ROCHA, Clara - prefácio a Poesias Completas, 1982, p. 12).
Para Fernando J. B. Martinho (retomando um artigo de Quadernici Portoghesi), a diferença de O'Neill relativamente à poética surrealista situa-se na "preferência, relativamente à oposição 'falar/imaginar', pelo primeiro polo", numa consequente atenção dispensada, nos livros posteriores a Tempo de Fantasmas, como No Reino da Dinamarca ou Abandono Vigiado,
"à sociedade portuguesa de que vai traçar como que a radiografia,
surpreendendo-a na sua mediocridade, nos seus ridículos, nos seus
pequenos vícios provincianos" (MARTINHO, Fernando J. B., op. cit.,
1996, pp. 39-40).
Nessa medida, e ainda segundo o mesmo crítico, se "o
surrealismo ortodoxo põe a sua crença na existência de um 'ponto do
espírito em que [...] o real e o imaginário' deixariam 'de ser
percebidos contraditoriamente', em Alexandre O' Neill toda a busca
parece centrar-se na 'vida' e no 'real'" (id. ibi, p. 40).
Recebeu, pelas suas Poesias Completas, o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários (1983). (Daqui)
[“O Fado”, de 1910, é considerada uma das obras-primas do autor e está em exposição no Museu do Fado.
Nesta obra, Malhoa retrata Amâncio, um conhecido marginal ou “fadista” –
então sinónimo e tocador de guitarra da Mouraria – e Adelaide da
facada, uma mulher de má vida, conhecida por exibir no rosto uma
cicatriz provocada por uma navalha. Este magnifico quadro é uma evocação
da boémia e da marginalidade – da sociedade lisboeta do inicio do
século XX -, representando não só a melancolia do género musical que o
inspirou, mas toda uma classe social que raramente era representada em
obras de arte na época.] (Daqui)
- José Malhoa -
Pintor português, nascido a 28 de abril de 1855 nas Caldas da Rainha, José Malhoa frequentou a Academia de Belas Artes, sendo discípulo de Lupi e Anunciação.
Assumiu integralmente a pintura em 1881, após o sucesso do quadro Seara Invadida.
Imprimiu uma certa crueza à tradição romântica de que fora herdeiro,
pintando o quotidiano do homem do campo, impregnado de sentimentalismo
cristão e de um pitoresco paganismo, ou ainda o meio popular dos
fadistas. Os Bêbados (1907) e O Fado (1910) figuram entre as suas obras mais conhecidas.
Por último, representou o outono
(1918) com uma sensibilidade já impressionista. O prestígio atingido
ainda em vida valeu a José Malhoa numerosas consagrações e homenagens,
assim como muitos discípulos e seguidores. Veio a falecer em Figueiró dos Vinhos em 1933. (Daqui)
José Malhoa pretende estabelecer uma sensação outonal através de uma cortina
de pequenas pinceladas luminosas. Ramalho Ortigão entende esta obra
como o resultado da influência de Claude Monet na pintura portuguesa e
mais tarde, a crítica situa-o como exemplo intencional do divisionismo
da estética pós-impressionista. Na verdade, há uma tentativa de
mostrar o indizível de uma paisagem em jogos luminosos, e de sobrepor, à
evocação do motivo, jogos de pincelada solta, geradora de luz,
característica de uma divulgação internacional, e tardia, do
impressionismo de 1870. Como se Malhoa quisesse provar a sua capacidade
de ser moderno. No entanto, foi um exercício empírico e sem
consequências, revelando a sua proverbial facilidade plástica sem pôr em
causa um culto fixado nos valores celebratórios de um específico
naturalismo.
Descalço venho dos confins da infância,
Que a minha infância ainda não morreu.
Atrás de mim em face ainda há distância.
Menino Deus, Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.
Venho da estranha noite dos poetas,
Noite em que o mundo nunca me entendeu.
Vê, trago as mãos vazias dos poetas.
Menino Deus, amigo dos poetas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.
Feriu-me um dardo, ensanguentei as ruas
Onde o demónio em vão me apareceu.
Porque as estrelas todas eram suas.
Menino, irmão dos que erram pelas ruas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.
Quem te ignorar ignora os que são tristes,
Ó meu irmão Jesus, triste como eu.
Ó meu irmão, menino de olhos tristes,
Nada mais tenho além dos olhos tristes
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!
Fotografia de Rui Videira, Rio Douro, Porto, Portugal
Sei de um rio
Sei de um rio…
Sei de um rio
Em que as únicas estrelas
Nele, sempre debruçadas
São as luzes da cidade
Sei de um rio…
Sei de um rio
Rio onde a própria mentira
Tem o sabor da verdade
Sei de um rio
Meu amor, dá-me os teus lábios!
Dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede!
Mas o sonho continua…
E a minha boca (até quando?)
Ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
“– Sei de um rio…
Sei de um rio…”
Sei de um rio…
Ai!
Até quando?
Pedro Homem de Mello
CAMANÉ - "Sei de um Rio"
(Composição: Pedro Homem de Mello e Alain Oulman)
"Tudo aquilo que, até hoje, escrevi ou mostrei, resultou, apenas, do que sentiram, durante meio século, os meus olhos, os meus ouvidos, os meus pés (e o mesmo será dizermos o meu corpo e a minha alma!) de bailador." - Pedro Homem de Mello
[Pedro da Cunha Pimentel Homem de Melo (Porto, 5 de Setembro de 1904 — Porto, 5 de Março de 1984) foi um poeta, professor e folclorista português.]
Éguas de manada, 1929, óleo sobre tela, 106 x 126 cm
A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas
« – A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas. Mas por música não deve entender-se só aquela que se toca, se não também aquela que fica eternamente por tocar. Por luar, ainda, não se deve supor que se fala só do que vem da lua e faz as árvores grandes perfis; há outro luar, que o mesmo sol não exclui, e obscurece em pleno dia o que as coisas fingem ser. Só os sonhos são sempre o que são. É o lado de nós em que nascemos e em que somos sempre naturais e nossos. – Mas, se o mundo é ação, como é que o sonho faz parte do mundo? – É que o sonho, minha senhora, é uma ação que se tornou ideia; e que por isso conserva a força do mundo e lhe repudia a matéria, que é o estar no espaço. Não é verdade que somos livres no sonho? – Sim, mas é triste o acordar... – O bom sonhador não acorda. Eu nunca acordei. Deus mesmo duvido que não durma. Já uma vez ele mo disse.»
Simão César Dórdio Gomesnasceu em Arraiolos a 26 de Julho de 1890 e
morreu no Porto em 1976.
Com 12 anos apenas matriculou-se na Academia de Belas Artes de Lisboa,
que frequentou entre 1902 e 1910. Aí teve como mestres mais marcantes
Luciano Freire, em Desenho, e Veloso Salgado, em Pintura. Embora este
último o tenha de algum modo influenciado, as suas primeiras obras
revelam sobretudo o fascínio que sobre ele exercia Columbano, com os
seus tons sombrios.
Em 1910 ganhou em concurso uma bolsa do legado Valmor, que lhe
permitiria continuar os estudos em Paris, para onde seguiu na companhia
do seu amigo e colega o escultor Francisco Franco. Aí frequentou a
Academia Julian e as aulas de Jean-Paul Laurens, mas em 1911 a estadia
foi interrompida por questões que envolveram os bolseiros (Francisco
Franco, Santa-Rita, José Campas e o próprio Dordio) e o ministro de
Portugal em Paris, João Chagas.
Apesar dos contactos que teve em Paris e
da companhia de outros artistas, como Santa-Rita ou Eduardo Viana, que
tão grande importância teriam no movimento modernista português, neste
período pouca alteração sofreu a pintura de Dordio Gomes que, de
regresso a Portugal, se radicou de novo em Arraiolos durante 10 anos,
seguindo a senda regionalista tradicional, que aprendera na escola.
Em 1921 foi-lhe renovada a bolsa e partiu novamente para Paris, onde
permaneceu ate 1926. Este 2º período viria a ser decisivo na obra de
Dordio Gomes. Apesar de frequentar a Escola Nacional de Belas Artes de
Paris e o atelier de Ferdinand Cormon, o contacto com as novas correntes
e movimentos internacionais, bem como a frequência da tertúlia de
artistas portugueses que viviam em Paris na altura, como Diogo de
Macedo, Abel Manta, Manuel Jardim, Heitor Cramês, entre outros,
permitiram-lhe dar à sua obra um cunho moderno.
Deixando de lado
Columbano e o naturalismo tradicional, sofreu uma nítida influência de
Cezanne, na cor e forma, fazendo até uma breve e incipiente incursão
pelo cubismo, que nunca assimilou totalmente; datam desta época as suas
obras mais conhecidas: as Casas de Malakoff e o Autorretrato da natureza
morta.
Durante esta estadia teve ainda oportunidade de visitar outros países,
como a Bélgica, a Suíça e a Holanda, e ainda de passar oito meses em
Itália, país que viria a ter grande importância na obra futura deste
artista, pelo interesse que lhe despertou a pintura a fresco, através do
conhecimento direto que teve da obra dos grandes mestres italianos.
De regresso a Portugal, deteve-se seis anos no Alentejo, entrando a sua
obra na 3ª fase, de volta à temática regionalista, mas com um tratamento
completamente diferente das suas primeiras pinturas, continuando a
fazer-se sentir a influência de Cezanne no arrojo da forma e na
exuberância da cor, que chega a ser violenta.
São deste período inúmeras obras com motivos da paisagem alentejana,
onde sobressaem os sobreiros e os cavalos em liberdade e ainda a
decoração do salão nobre dos Paços do Concelho de Arraiolos com 11
painéis dedicados aos trabalhos e à vida da terra alentejana, que ele
criticou, mais tarde, na sua autobiografia pela “urdidura álacre e
dissonante, destituída de verdadeiro senso estético ou decorativo”, mas
que revelam a originalidade do pintor no tratamento dos temas
regionais.
Em 1933 concorreu ao lugar de professor de pintura da Escola Superior de
Belas Artes do Porto, sendo admitido em 1934 e aí se mantendo ate ao
jubileu em 1960. O entusiasmo e abertura que sempre pôs na sua
atividade docente foram determinantes para a renovação do ensino nesta
Escola, permitindo a formação de uma geração de artistas modernos que
se distinguiram nas décadas seguintes.
Com a vinda para o Norte, começou uma nova fase da obra de Dordio Gomes.
A paleta viva e quente, própria para as terras alentejanas, com a sua
luminosidade agressiva e contrastante, foi substituída por outra mais
suave e que transmite a luz difusa da atmosfera do Porto. O rio Douro
com a sua paisagem e os seus trabalhos característicos foi o tema
preferencial desta época. Mas foi também o período em que se dedicou à
pintura a fresco, velho sonho desde a viagem a Itália, executando
decorações em vários interiores do Porto: antigo café Rialto em 1944,
Baptistério da Igreja de Nª Srª da Conceição em 1947, Livraria Tavares
Martins em 1948, Igreja de Nª Srª do Perpétuo Socorro em 1952, Igreja
dos Redentoristas em 1953, Escola Superior de Belas Artes do Porto em
1954, Câmara Municipal do Porto em 1957.
Ao longo da sua vida, Dordio Gomes participou em inúmeras exposições,
quer dentro dos esquemas tradicionais, por exemplo das exposições anuais
da Sociedade Nacional de Belas Artes (entre 1913 e 1919 sem interrupção
e depois até 1942 espaçadamente), quer integrado nos modernistas, a
cuja primeira geração pertenceu.
Foi assim que fez parte dos 5 Independentes (com Diogo de Macedo,
Henrique e Francisco Franco e Alfredo Migueis) que expuseram em 1923 na
Sociedade Nacional Belas Artes, grupo de pintores e escultores
residentes em França na altura, e que, declarando-se “independentes de
tudo e de todos” vieram abanar um pouco o meio artístico, constituindo
esta exposição a “primeira manifestação modernista dos anos 20” (J. A.
França).
Em 1930 foi um dos expositores do I Salão dos Independentes,
onde se reuniu grande parte dos artistas modernos de então.
Participou também nas Exposições de Arte Moderna organizadas pelo
Secretariado de Propaganda Nacional / Secretariado Nacional de
Informação em Lisboa e no Porto, sendo-lhe atribuído em 1938 o prémio
Columbano e, em 1945, o prémio António Carneiro. Em Lisboa ainda, é de
salientar a sua presença nas Exposições de Artes Plásticas da Fundação
Calouste Gulbenkian, onde recebeu o 1º prémio de pintura, em 1957 e fez
parte do júri, em 1961.
No Porto participou em várias exposições coletivas e nas Exposições
Magnas da Escola Superior de Belas Artes do Porto, como professor, entre
1954 e 1960, sendo alvo de uma homenagem nesta última, por ocasião do
seu jubileu, em que foi agraciado com a insígnia de Cavaleiro da Ordem
de Santiago de Espada.
Concorreu a inúmeras exposições no estrangeiro, de que salientamos a
Exposição Internacional do Rio de Janeiro, em 1922, e a Exposição
Internacional de Paris, em 1937, tendo recebido em ambas a medalha de
ouro, a XXV Bienal de Veneza, em 1950, as Bienais de S. Paulo, em
1951, 1953 e 1955 e a Exposição Internacional de Bruxelas, em 1958.
A sua primeira exposição individual foi apresentada na Sociedade
Nacional de Belas Artes em 1923, com as obras do 2º período alentejano.
Em 1946, foi a vez do Porto, na Livraria Portugália; em 1956 o Museu de
Évora organizou uma Retrospetiva da Pintura de Dordio Gomes; em 1965
outra Retrospetiva, desta vez na companhia de Abel Manta, foi levada a
cabo pela Sociedade Nacional de Belas Artes; em 1975 foi novamente o
Porto, na Galeria do Jornal de Notícias. Já depois da sua morte,
ocorrida em 22 de Julho de 1976, a Escola Superior de Belas Artes do
Porto organizou em 1978 uma homenagem a mestre Dordio Gomes. (Daqui)
Simão César Dórdio Gomes. "Fado do ciúme" - Amália Rodrigues
Frederik Sødring (Danish landscape painter, 1809–1862), 'The Chalk Cliffs at Møn', 1831.
Barco Negro
De manhã temendo que me achasses feia, acordei tremendo deitada na areia, mas logo os teus olhos disseram que não e o sol penetrou no meu coração.
Vi depois, numa rocha, uma cruz, e o teu barco negro dançava na luz; vi teu braço acenando, entre as velas já soltas. Dizem as velhas da praia que não voltas:
São loucas! São loucas!
Eu sei, meu amor, que nem chegaste a partir, pois tudo em meu redor me diz que estás sempre comigo.
No vento que lança areia nos vidros; na água que canta, no fogo mortiço; no calor do leito, nos bancos vazios; dentro do meu peito estás sempre comigo.
Falareis de nós como de um sonho. Crepúsculo dourado. Frases calmas. Gestos vagarosos. Música suave. Pensamento arguto. Subtis sorrisos. Paisagens deslizando na distância. Éramos livres. Falávamos, sabíamos, e amávamos serena e docemente.
Uma angústia delida, melancólica, sobre ela sonhareis.
E as tempestades, as desordens, gritos, violência, escárnio, confusão odienta, primaveras morrendo ignoradas nas encostas vizinhas, as prisões, as mortes, o amor vendido, as lágrimas e as lutas, o desespero da vida que nos roubam - apenas uma angústia melancólica, sobre a qual sonhareis a idade de oiro.
E, em segredo, saudosos, enlevados, falareis de nós - de nós! - como de um sonho.
Jorge de Sena
Jorge de Sena
Jorge Cândido de Sena (Lisboa, 2 de Novembro de 1919 — Santa Barbara, Califórnia, 4 de Junho de 1978) foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário português.
Foi autor de uma obra marcada sobretudo pela reflexão humanista acerca da liberdade do Homem. "Pensador que sente e sentidor que pensa" (Eugénio Lisboa), os seus poemas partem geralmente de um objeto para fixar uma meditação sobre o "eu" e o seu lugar no mundo. Depois de concluir os estudos liceais, ingressou na Escola Naval, curso que não concluiu por impedimentos vários, vindo a formar-se em Engenharia Civil na Universidade do Porto. Ainda durante os estudos universitários, publicou, sob o pseudónimo Teles de Abreu, as suas primeiras composições poéticas em periódicos como Presença e travou conhecimento com o grupo de poetas que viria a reunir-se em torno de Cadernos de Poesia, convivendo, entre outros, com José Blanc de Portugal, Ruy Cinatti, Alberto Serpa e Casais Monteiro. O seu nome surgiria, com efeito, associado a essa publicação que, em 1940, sob o lema de "Poesia é só uma" pretendia distinguir-se pelo ecletismo e pelo diálogo entre várias tendências e gerações poéticas, vindo a codirigir as suas 2.ª e 3.ª séries e subscrevendo uma conceção de poesia que "com todos os seus ingredientes, recursos, apelos aos sentidos, resulta de um compromisso firmado entre um ser humano e o seu tempo, entre uma personalidade e uma sua consciência sensível do mundo, que mutuamente se definem". É, aliás, no âmbito das edições de Cadernos de Poesia que, em 1942, é publicada a sua primeira obra poética: Peregrinação. Ainda durante os anos 40, colaborou com Aventura (1942-43), Litoral (1944), Portucale (2.ª série, 1946), Seara Nova (nas páginas da qual trava, em 1949, polémica com os surrealistas), mantendo ainda colaboração regular com Diário Popular e encetando uma atividade de não somenos importância na sua atividade literária como tradutor de poesia (entre outras obras, saliente-se, na sua bibliografia, 90 e Mais Quatro Poemas de Constantino Cavafy (Porto, 1970), Poesia de Vinte e Seis Séculos: I - de Arquiloco a Calderón, II - de Bashó a Nietzsche (Porto, 1972), Poesia do Século XX (Porto, 1978). A partir de meados dos anos 40 intensificou, paralelamente à atividade profissional como engenheiro da Junta Autónoma de Estradas, a sua atividade de conferencista, proferindo comunicações que incidem frequentemente sobre dois dos seus temas diletos: Camões e Fernando Pessoa (de quem editará, em 1947, as Páginas de Doutrina Estética). Durante os anos 50, afirmou-se como uma das presenças mais influentes e complexas da cultura e literatura portuguesas; é durante essa década que publica algumas das suas mais conhecidas obras poéticas (Metamorfoses, Evidências, Fidelidade); que publica a sua primeira tentativa dramática, a tragédia O Indesejado; que colabora com publicações como Gazeta Musical e de Todas as Artes, Árvore, Notícias do Bloqueio, Cadernos do Meio-Dia; e que organiza a terceira série da antologia Líricas Portuguesas.
A sua postura humanista e o espírito de inconformismo contra a ditadura fascista levaram-no, em 1959, após o envolvimento numa tentativa falhada de golpe de Estado militar contra o regime salazarista, a optar por um exílio voluntário no Brasil, onde viria a exercer funções de docência nos domínios da Literatura Portuguesa e da Teoria da Literatura, nas Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras de Assis e de Araraquara, em S. Paulo. Publicou, então, uma série de obras ensaísticas como Da Poesia Portuguesa e desenvolveu uma intensa atividade como congressista, não deixando ainda de, como redator no jornal Portugal Democrático, participar em ações de denúncia da ditadura a partir do exterior. Em 1961, publicou o primeiro volume da sua obra poética completa, encerrando a que tem sido encarada como uma primeira fase poética. No ano anterior publicara o seu primeiro livro de ficção, a coletânea de contos Andanças do Demónio. Face aos obstáculos que sistematicamente eram levantados à sua progressão na carreira académica (primeiro, a sua naturalidade, depois a inadequação curricular entre a sua formação e a lecionação), em 1965 transferiu-se para a Universidade do Wisconsin, Madison, nos Estados Unidos da América, em cujo departamento de Espanhol e Português seria nomeado professor catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira; em 1970, transferiu-se para a Universidade de Califórnia, em Santa Bárbara, onde viria a ser nomeado, dois anos depois, chefe do departamento de Literatura Comparada e, em 1975, chefe do Departamento de Espanhol e Português. Entretanto, participou em inúmeros congressos internacionais; tornou-se membro da Modern Languages Association e da Renaissance Society of America; e empreendeu várias deslocações à Europa, nunca interrompendo a edição quer de títulos de teoria e história literária e estudos literários clássicos, modernos e contemporâneos, quer a obra poética pessoal, publicando, antes e depois da primeira visita autorizada a Portugal em nove anos de exílio, entre 1968 e 1969, os livros de poesia Arte de Música e Peregrinatio ad Loca Infeta. Após o 25 de abril, recebeu várias homenagens públicas em Portugal, sendo condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique e, a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago e Espada. No ano da sua morte, 1978, vieram a público, revistos pelo autor, os volumes Poesia II e Poesia III, a que se seguiriam, postumamente, os volumes 40 Anos de Servidão e Post-Scriptum II. A obra de Jorge de Sena ocupa uma posição singular na literatura contemporânea nacional e internacional, dado o facto de, enquanto mediadora de uma história literária e cultural com que o autor estabelece um diálogo existencial e textual, se apresentar, segundo o prisma por que for encarada, simultaneamente como clássica, moderna, socialmente empenhada, confessional e surrealizante. Apreciando o conjunto da poesia de Jorge de Sena, no fim dos anos 50, António Ramos Rosa observa como "surrealismo e classicismo" nela se defrontam, "numa extrema tensão, para se fundirem, apesar de aparentemente irreconciliáveis, numa expressão poética de uma grande elegância prosódica, muitas vezes lapidar e finamente musical, e sempre de um conteúdo intelectual, sensível ou afetivo, extremamente rico e depurado", dando corpo a uma poesia complexa que "é, ao mesmo tempo, um exercício espiritual, e um exercício de linguagem, uma poesia de conhecimento e de interrogação filosófica ou metafísica, mas sempre da mais alta intimidade reflexiva que a alma humana possa ter consigo mesma e, ao mesmo tempo, uma poesia mais direta, que corajosamente afronta alguns problemas cruciais da condição humana presente. (ROSA, António Ramos in Cadernos do Meio-Dia, fevereiro de 1959, cit. in SENA, Jorge de - Obra Poética I, 3.ª ed., Lisboa, Ed. 70, 1988, p. 224). A obra poética de Sena, fundindo classicismo e modernismo, realiza a evolução possível na poesia pós-Pessoa, ao superar o subjetivismo que Pessoa anulou com a invenção heteronímica, através da projeção dos sentimentos do sujeito sobre uma superfície objetiva onde aqueles se cristalizam sem emanarem de uma identidade precisa (cf. MAGALHÃES, Joaquim Manuel - Os Dois Crepúsculos, Lisboa, A Regra do Jogo, Lisboa, 1981, pp. 55-56), ou, por outras palavras, "O homem investido pela história e pelo mundo, o homem mediado pela vida exterior tanto como pelo conhecimento que a cultura significa, [informa] em suma um Sena que é mais importante para Sena que ele mesmo enquanto subjetividade privada". Naquele que é um dos mais exaustivos estudos sobre a poesia de Jorge de Sena, Luís Adriano Carlos defende que a "visão poética seniana [incorpora] de forma singular não só uma visão estética mas também uma visão filosófica, uma visão histórica e uma visão tipológica", estabelecendo nomeadamente ligações intertextuais com um campo textual filosófico que introduz "na "razão poética" uma razão dialética - e uma razão fenomenológica, reintegradas numa razão existencial", apresentando, assim, a sua obra poética como "simultânea e correlativamente "objeto histórico" e "objeto fenomenológico" (CARLOS, Luís Adriano - Poética e Poesia de Jorge de Sena, antinomias, tensões, metamorfoses, 2 vols., Porto, Faculdade de Letras, 1993, p. 11, vol. I, p. 13). Em 1979, foi publicado o seu único e inacabado romance, Sinais de Fogo, que tem como objeto a aprendizagem (sexual, poética, política) de um protagonista, pelo olhar do qual é reconstituída uma sociedade portuguesa, provinciana e burguesa, que tem como pano de fundo histórico a guerra civil espanhola.
Jorge de Sena. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-10-31]
Pinturas de Eugène Delacroix
Eugène Delacroix, Louis d'Orleans devoilant une maitresse
Eugène Delacroix, Mademoiselle Rose
Eugène Delacroix, Head of a woman
Eugène Delacroix, Frightened Horse
Eugène Delacroix, The Natchez, 1835
Eugène Delacroix, Flowers, 1833
Eugène Delacroix, Young tiger playing with its mother
Maria do Carmo de Carvalho Rebelo de Andrade (Lisboa, 20 de Agosto de 1984), conhecida como Carminho, é uma fadista portuguesa. Nasceu numa família de músicos, sendo a sua mãe, Teresa Siqueira, e o seu irmão, Francisco Andrade, também cantores.
Apesar
de ter começado a cantar desde criança, só aos 22 anos decidiu fazer
carreira musical depois de uma longa viagem pelo mundo que demorou 11
meses que a ajudou a tomar essa decisão. Diz que não precisou de coragem
e explica simplesmente que é feliz a cantar o fado.
Tem passado por várias casas de fado como A Taverna do Embuçado, Petisqueira de Alcântara e Mesa de Frades. Esteve na Suíça, numa quinzena temática portuguesa e com esse grupo, Tertúlia de Fado Tradicional gravou quatro canções ("Toca Pr'á Unha", "O Vento Agitou O Trigo", "Fado Pombalinho" e "O Fado da Mouraria") do CD "Saudades do Fado", editado em 2003
O disco de estreia, "Fado", produzido por Diogo Clemente foi editado a 1 de Junho de 2009.
Participa na campanha de 2011 do Pirilampo Mágico gravando o single "Ser Feliz" com Ney Matogrosso. É um dos vários nomes convidados para o disco "Os Fados e as Canções do Alvim" de Fernando Alvim.
Em Março de 2012 lançou o seu segundo disco intitulado "Alma". A edição brasileira irá incluir duetos comChico Buarque ("Carolina"), Milton Nascimento ("Cais") e Nana Caymmi ("Contrato de Separação")