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segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

"Lavava no rio lavava" - Poema de Amália Rodrigues

Washerwomen of Fouesnant, 1869, Memorial Art Gallery.


Lavava no rio lavava

 
Lavava no rio, lavava
Gelava-me o frio, gelava,
Quando ia ao rio lavar.
Passava fome, passava,
Chorava, também chorava,
Ao ver minha mãe chorar!

Cantava, também, cantava!
Sonhava, também, sonhava!
E, na minha fantasia,
Tais coisas fantasiava,
Que esquecia que chorava,
Que esquecia que sofria!

Já não vou ao rio lavar,
Mas continuo a chorar!
Já não sonho o que sonhava!
Já não lavo no rio!
Por que me gela este frio
Mais do que então gelava?

Ai, minha mãe, minha mãe
Que saudades desse bem,
Do mal que então conhecia!
Dessa fome que eu passava,
Do frio que nos gelava,
E da minha fantasia!

Já não temos fome, mãe!
Mas já não temos também
O desejo de a não ter!
Já não sabemos sonhar,
Já andamos a enganar
O desejo de morrer!

Ed. Livros Cotovia
 

Amália Rodrigues - Fado: 'Lavava no Rio, Lavava'
 
 
Ícone do Fado, Amália Rodrigues (1920-1999) é uma das personalidades mais importantes da história da música do século xx. Desde a sua estreia profissional, em 1939, no Retiro da Severa, Amália foi um fenómeno de popularidade: arrebatou plateias, acendeu paixões e suscitou os mais animados debates. No pós-guerra, era já a grande figura de referência no panorama musical português. Mas também a sua carreira internacional foi apoteótica: o mundo foi o seu palco natural e a sua voz o instrumento privilegiado para cantar toda a poesia portuguesa, do repertório trovadoresco e renascentista à criação literária contemporânea. Popular e erudito, moderno e intemporal, o legado de Amália Rodrigues devolve ao nosso imaginário a poderosa imanência dos grandes temas da cultura portuguesa. (daqui)

domingo, 25 de abril de 2021

"Um adeus português" - Poema de Alexandre O’Neill



José Malhoa, O Ateliê do Artista (Antes da Sessão) ou Descanso do Modelo, 1893/1894,
 

Um adeus português 


Nos teus olhos altamente perigosos
vigora agora o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
E avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.
 

Alexandre O'Neill,  
  no livro ''No Reino da Dinamarca'', 1958
 
 
 No Reino da Dinamarca, «Poesia e Verdade»,
 Lisboa, Guimarães Editores; 2.ª ed., Lisboa, 
Relógio d’Água, 1997. (Daqui
 
 
 A história de um Poema
Alexandre O’Neill

Quando escrevi «Um Adeus Português», há quase quarenta anos, estava a sofrer pressões inacreditáveis, por parte de alguém da minha família, para não «ir atrás da francesa». A francesa, a minha querida e já falecida amiga Nora Mitrani, queria que eu fosse ter com ela a Paris, onde vivia. «Vens, ficas cá e depois se vê», era o que o seu otimismo me dizia por carta. Mas as coisas não se passaram assim. 

 A pressão (ou, melhor, a perseguição) chegou ao ponto de ter sido metida uma cunha à polícia política para que o passaporte me fosse denegado, o que aconteceu, não sem que eu, primeiro, tivesse sido convocado para a própria sede dessa polícia e interrogado pelo subinspetor Seixas. Seixas usou comigo de uma linguagem descomedida. Perguntou-me que ia eu fazer a Paris. Respondi: ‑ Turismo.
 
Quis saber se eu conhecia a senhora N. M. Eu disse que sim. Então Seixas retorquiu: ‑ Se calhar V.   quer ir porque essa gaja lhe meteu alguma coisa na cachola. Com a serenidade que me foi possível, fiz-lhe saber que se enganava, que N. M. não era uma gaja e que eu não tinha cachola. Pareceu surpreendido. Depois, irritado, mandou-me sair. E assim estive anos sem conseguir passaporte. 
 
Claro que o poema não se gerou apenas desta situação, mas ela contribuiu poderosamente, com outros fatores circunstanciais bem conhecidos, para que o poema aparecesse. Era uma época em que tudo cheirava e sabia a ranço, em que o amor era vigiado e mal tolerado, em que um jovem não era senhor dos seus passos (errados ou certos, não interessa). 
 
Semanas depois, «nascia» o poema e, com ele publicado, uma relativa notoriedade. É que o poema, ingénuo como é, tem realmente a força do nojo e do desespero combinados com um derrame/contenção sentimental que não mais igualei. Então, durante algum tempo, fiquei conhecido como o poeta de «Um Adeus Português». 
 
A minha amiga, que não voltei a ver (quando a fui procurar em Paris já tinha morrido), ainda tomou conhecimento deste poema. Escreveu-me: «Li o teu Adeus. Fiquei atrozmente comovida.» 
 
Claro que um poema não é feito de nojos, desesperos e derrames sentimentais, mas, no caso, a felicidade de expressão foi vivamente alimentada por uma raiva e um amor desmesurados, quer dizer, adolescentes. E o poema foi ficando e passando para as antologias.
 
Explico tudo isto porque outro dia me chegou às mãos um número da Europe dedicado à literatura de Portugal. E lá aparece, numa tradução bastante pobre, o tal «Adeus... ». Não é que, na nota proemial, em que me definem como sarcástico, desesperado e terno, dizem que o poema foi inspirado por Nora Mitrani! Eu acho que, por enquanto, isso é comigo. Também o João Botelho (o do excelente filme Conversa Acabada) me telefonou a pedir-me autorização para usar o título do poema para título de um 
novo filme seu. Dei-lha logo. E nem sequer lhe perguntei se o que ele vai fazer tem a ver com o poema ou não. Isso é lá com ele. Como, insisto, é só comigo que Nora Mitrani tenha sido ou não a inspiradora de «Um Adeus Português». Pelo menos antes da presente explicação.  
Tempos. 

Alexandre O'Neill, Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 94, 1984
 
 
Alexandre O’Neill

"Há mar e mar, há ir e voltar."   
 
[Ficaram famosos alguns slogans publicitários da sua autoria, e este que foi encomendado pelo Instituto de Socorros a Náufragos, para uma campanha de prevenção dos afogamentos nas praias portuguesas, converteu-se em provérbio.] 
 

 - Alexandre O’Neill -
 
Poeta português, Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões nasceu a 19 de dezembro de 1924, em Lisboa, e morreu a 21 de agosto de 1986, na mesma cidade. 
Para além de se ter dedicado à poesia, Alexandre O'Neill exerceu a atividade profissional de técnico publicitário. 
Fundador do Grupo Surrealista de Lisboa, com Mário Cesariny, António Pedro, José-Augusto França, diretamente influenciado pelo surrealismo bretoniano, desvinculou-se do grupo a partir de Tempo de Fantasmas (1951), embora a passagem pelo surrealismo marque indelevelmente a sua postura estética. 
A sua distanciação em relação a este movimento não obstou a que um estilo sarcástico e irónico muito pessoal se impregnasse de algumas características do Surrealismo, abordando noutros passos o Concretismo, preocupando-se não em fazer "bonito", mas sim "bom e expressivo".
Para Clara Rocha, a poesia de Alexandre O'Neill coincide com o programa surrealista a dois níveis: "a libertação total do homem e a libertação total da arte. O que implica: primeiro, uma poesia de 'intervenção', exortando os homens a libertarem-se dos constrangimentos de toda a ordem que os tolhem e oprimem (familiares, sociais, morais, quotidianos, psicológico, políticos, etc.); segundo, a libertação da palavra de todas as formas de censura (estética, moral, lógica, do bom senso, etc.)" (cf. ROCHA, Clara - prefácio a Poesias Completas, 1982, p. 12). 
Para Fernando J. B. Martinho (retomando um artigo de Quadernici Portoghesi), a diferença de O'Neill relativamente à poética surrealista situa-se na "preferência, relativamente à oposição 'falar/imaginar', pelo primeiro polo", numa consequente atenção dispensada, nos livros posteriores a Tempo de Fantasmas, como No Reino da Dinamarca ou Abandono Vigiado, "à sociedade portuguesa de que vai traçar como que a radiografia, surpreendendo-a na sua mediocridade, nos seus ridículos, nos seus pequenos vícios provincianos" (MARTINHO, Fernando J. B., op. cit., 1996, pp. 39-40). 
Nessa medida, e ainda segundo o mesmo crítico, se "o surrealismo ortodoxo põe a sua crença na existência de um 'ponto do espírito em que [...] o real e o imaginário' deixariam 'de ser percebidos contraditoriamente', em Alexandre O' Neill toda a busca parece centrar-se na 'vida' e no 'real'" (id. ibi, p. 40).
Recebeu, pelas suas Poesias Completas, o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários (1983). (Daqui)
 
 
 
 José Malhoa (1855 – 1933),  O Fado, 1910
 
[“O Fado”, de 1910, é considerada uma das obras-primas do autor e está em exposição no Museu do Fado. Nesta obra, Malhoa retrata Amâncio, um conhecido marginal ou “fadista” – então sinónimo e tocador de guitarra da Mouraria – e Adelaide da facada, uma mulher de má vida, conhecida por exibir no rosto uma cicatriz provocada por uma navalha. Este magnifico quadro é uma evocação da boémia e da marginalidade – da sociedade lisboeta do inicio do século XX -, representando não só a melancolia do género musical que o inspirou, mas toda uma classe social que raramente era representada em obras de arte na época.] (Daqui)
 
 
- José Malhoa -
 
Pintor português, nascido a 28 de abril de 1855 nas Caldas da Rainha, José Malhoa frequentou a Academia de Belas Artes, sendo discípulo de Lupi e Anunciação.

Assumiu integralmente a pintura em 1881, após o sucesso do quadro Seara Invadida. Imprimiu uma certa crueza à tradição romântica de que fora herdeiro, pintando o quotidiano do homem do campo, impregnado de sentimentalismo cristão e de um pitoresco paganismo, ou ainda o meio popular dos fadistas. Os Bêbados (1907) e O Fado (1910) figuram entre as suas obras mais conhecidas.

Por último, representou o outono (1918) com uma sensibilidade já impressionista. O prestígio atingido ainda em vida valeu a José Malhoa numerosas consagrações e homenagens, assim como muitos discípulos e seguidores. Veio a falecer em Figueiró dos Vinhos em 1933. (Daqui)


 
 
José Malhoa pretende estabelecer uma sensação outonal através de uma cortina de pequenas pinceladas luminosas. Ramalho Ortigão entende esta obra como o resultado da influência de Claude Monet na pintura portuguesa e mais tarde, a crítica situa-o como exemplo intencional do divisionismo da estética pós-impressionista.
Na verdade, há uma tentativa de mostrar o indizível de uma paisagem em jogos luminosos, e de sobrepor, à evocação do motivo, jogos de pincelada solta, geradora de luz, característica de uma divulgação internacional, e tardia, do impressionismo de 1870. Como se Malhoa quisesse provar a sua capacidade de ser moderno.
No entanto, foi um exercício empírico e sem consequências, revelando a sua proverbial facilidade plástica sem pôr em causa um culto fixado nos valores celebratórios de um específico naturalismo. 
 
Maria Aires Silveira  (Daqui)
 

domingo, 17 de novembro de 2019

"Maria Lisboa" - Poema de David Mourão-Ferreira


Luís Dourdil, Varinas


Maria Lisboa



É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata;
na canastra, a caravela,
no coração, a fragata.

Em vez de corvos no xaile,
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile com o mar.

É de conchas o vestido,
tem algas na cabeleira,
e nas velas o latido
do motor duma traineira.

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio: Maria;
seu apelido: Lisboa. 


David Mourão-Ferreira,
In Obra Poética


Mariza - Maria Lisboa

Composição / Music by: David Mourão-Ferreira / Alain Oulman 


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

"Entrega" - Poema de Pedro Homem de Mello





Entrega


Descalço venho dos confins da infância,
Que a minha infância ainda não morreu.
Atrás de mim em face ainda há distância.
Menino Deus, Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.

Venho da estranha noite dos poetas,
Noite em que o mundo nunca me entendeu.
Vê, trago as mãos vazias dos poetas.
Menino Deus, amigo dos poetas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.

Feriu-me um dardo, ensanguentei as ruas
Onde o demónio em vão me apareceu.
Porque as estrelas todas eram suas.
Menino, irmão dos que erram pelas ruas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.

Quem te ignorar ignora os que são tristes,
Ó meu irmão Jesus, triste como eu.
Ó meu irmão, menino de olhos tristes,
Nada mais tenho além dos olhos tristes
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!


Pedro Homem de Mello




Ricardo Ribeiro e Pedro Jóia - Entrega 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

"Sonetos do Regresso" - Poemas de Carlos de Oliveira


Henry Mosler (American artist, 1841-1920), The Lost Cause, 1869



Sonetos do Regresso

I

Volto contigo à terra da ilusão, 
mas o lar de meus pais levou-o o vento 
e se levou a pedra dos umbrais 
o resto é esquecimento: 
procurar o amor neste deserto 
onde tudo me ensina a viver só 
e a água do teu nome se desfaz 
em sílabas de pó 
é procurar a morte apenas, 
o perfume daquelas 
longínquas açucenas 
abertas sobre o mundo como estrelas: 
despenhar no meu sono de criança 
inutilmente a chuva da lembrança. 

II 

Acordar, acender 
o rápido lampejo 
na água escusa onde rola submersa 
como o lodo no Tejo 
a vida informe, peso dúbio 
desse cardume denso ou leve 
que nasce em mim para morrer 
no mar da noite breve; 
dormir o pobre sono 
dos barbitúricos piedosos 
e acordar, acender 
os tojos caudalosos 
nesta areia lunar 
ou, charcos, nunca mais voltar.


in 'Cantata'


Ana Moura - Tens os olhos de Deus


sexta-feira, 8 de abril de 2016

"Morena"- Poema de Guerra Junqueiro



Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862-1925), Girl Shelling Peas, 1886. 



Morena

 
Não negues, confessa
Que tens certa pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena.

Pois eu não gostava,
Parece-me a mim,
De ver o teu rosto
Da cor do jasmim.

Eu não... mas enfim
É fraca a razão,
Pois pouco te importa
Que eu goste ou que não.

Mas olha as violetas
Que, sendo umas pretas,
O cheiro que têm!
Vê lá que seria,
Se Deus as fizesse
Morenas também!

Tu és a mais rara
De todas as rosas;
E as coisas mais raras
São mais preciosas.

Há rosas dobradas
E há-as singelas;
Mas são todas elas
Azuis, amarelas,
De cor de açucenas,
De muita outra cor;
Mas rosas morenas,
Só tu, linda flor.

E olha que foram
Morenas e bem
As moças mais lindas
De Jerusalém.
E a Virgem Maria
Não sei... mas seria
Morena também.

Moreno era Cristo.
Vê lá depois disto
Se ainda tens pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena! 


Guerra Junqueiro,
in 'A Musa em Férias'



Interpretação do tema "Morena"

sábado, 26 de março de 2016

"Povo que lavas no rio" - Poema de Pedro Homem de Mello


Arkady Rylov (Russian and Soviet Symbolist painter, 1870-1939),
The Mouth of the Orlinka River, 1928.



Povo que lavas no rio


Povo que lavas no rio
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia…
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão…
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!

Procissões de praia e monte
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros a fonte?
Guardo o jeito desses braços…
Mas a tua vida, não!

Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama…
Tive a mesma condição
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las…
Mas a tua vida, não!

Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão
Rasguei certo corpo ao meio…
Vi certa curva em teu seio…
Mas a tua vida, não!

Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão…
Povo! Povo! Eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso.
Mas a tua vida, não!

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!


Pedro Homem de Mello, in "Miserere"


Dulce Pontes - Povo que lavas no rio

terça-feira, 4 de agosto de 2015

"Sei de um rio" - Poema de Pedro Homem de Mello


Fotografia de Rui Videira, Rio Douro, Porto, Portugal 


Sei de um rio


Sei de um rio…
Sei de um rio
Em que as únicas estrelas
Nele, sempre debruçadas
São as luzes da cidade

Sei de um rio…
Sei de um rio
Rio onde a própria mentira
Tem o sabor da verdade
Sei de um rio

Meu amor, dá-me os teus lábios!
Dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede!
Mas o sonho continua…

E a minha boca (até quando?)
Ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
“– Sei de um rio…
Sei de um rio…”

Sei de um rio…
Ai!
Até quando?


Pedro Homem de Mello


CAMANÉ - "Sei de um Rio"
(Composição: Pedro Homem de Mello e Alain Oulman)


"Tudo aquilo que, até hoje, escrevi ou mostrei, resultou, apenas, do que sentiram, durante meio século, os meus olhos, os meus ouvidos, os meus pés (e o mesmo será dizermos o meu corpo e a minha alma!) de bailador." Pedro Homem de Mello

[Pedro da Cunha Pimentel Homem de Melo (Porto, 5 de Setembro de 1904 — Porto, 5 de Março de 1984) foi um poeta, professor e folclorista português.]

quarta-feira, 26 de março de 2014

"A música o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas" - Texto de Fernando Pessoa


 Éguas de manada, 1929, óleo sobre tela, 106 x 126 cm
 
 
 
A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas


« – A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas. Mas por música não deve entender-se só aquela que se toca, se não também aquela que fica eternamente por tocar. Por luar, ainda, não se deve supor que se fala só do que vem da lua e faz as árvores grandes perfis; há outro luar, que o mesmo sol não exclui, e obscurece em pleno dia o que as coisas fingem ser. Só os sonhos são sempre o que são. É o lado de nós em que nascemos e em que somos sempre naturais e nossos. – Mas, se o mundo é ação, como é que o sonho faz parte do mundo? – É que o sonho, minha senhora, é uma ação que se tornou ideia; e que por isso conserva a força do mundo e lhe repudia a matéria, que é o estar no espaço. Não é verdade que somos livres no sonho? – Sim, mas é triste o acordar... – O bom sonhador não acorda. Eu nunca acordei. Deus mesmo duvido que não durma. Já uma vez ele mo disse.»

Fernando Pessoa, in A Hora do Diabo


Simão César Dórdio Gomes, Dois banhistas à beira do Douro, 1928



Simão César Dórdio Gomes, Autorretrato da Natureza Morta, 1924
 
 
Biografia
 
Simão César Dórdio Gomes nasceu em Arraiolos a 26 de Julho de 1890 e morreu no Porto em 1976. Com 12 anos apenas matriculou-se na Academia de Belas Artes de Lisboa, que frequentou entre 1902 e 1910. Aí teve como mestres mais marcantes Luciano Freire, em Desenho, e Veloso Salgado, em Pintura. Embora este último o tenha de algum modo influenciado, as suas primeiras obras revelam sobretudo o fascínio que sobre ele exercia Columbano, com os seus tons sombrios. 
Em 1910 ganhou em concurso uma bolsa do legado Valmor, que lhe permitiria continuar os estudos em Paris, para onde seguiu na companhia do seu amigo e colega o escultor Francisco Franco. Aí frequentou a Academia Julian e as aulas de Jean-Paul Laurens, mas em 1911 a estadia foi interrompida por questões que envolveram os bolseiros (Francisco Franco, Santa-Rita, José Campas e o próprio Dordio) e o ministro de Portugal em Paris, João Chagas. 
Apesar dos contactos que teve em Paris e da companhia de outros artistas, como Santa-Rita ou Eduardo Viana, que tão grande importância teriam no movimento modernista português, neste período pouca alteração sofreu a pintura de Dordio Gomes que, de regresso a Portugal, se radicou de novo em Arraiolos durante 10 anos, seguindo a senda regionalista tradicional, que aprendera na escola. 
Em 1921 foi-lhe renovada a bolsa e partiu novamente para Paris, onde permaneceu ate 1926. Este 2º período viria a ser decisivo na obra de Dordio Gomes. Apesar de frequentar a Escola Nacional de Belas Artes de Paris e o atelier de Ferdinand Cormon, o contacto com as novas correntes e movimentos internacionais, bem como a frequência da tertúlia de artistas portugueses que viviam em Paris na altura, como Diogo de Macedo, Abel Manta, Manuel Jardim, Heitor Cramês, entre outros, permitiram-lhe dar à sua obra um cunho moderno. 
Deixando de lado Columbano e o naturalismo tradicional, sofreu uma nítida influência de Cezanne, na cor e forma, fazendo até uma breve e incipiente incursão pelo cubismo, que nunca assimilou totalmente; datam desta época as suas obras mais conhecidas: as Casas de Malakoff e o Autorretrato da natureza morta. Durante esta estadia teve ainda oportunidade de visitar outros países, como a Bélgica, a Suíça e a Holanda, e ainda de passar oito meses em Itália, país que viria a ter grande importância na obra futura deste artista, pelo interesse que lhe despertou a pintura a fresco, através do conhecimento direto que teve da obra dos grandes mestres italianos. 
De regresso a Portugal, deteve-se seis anos no Alentejo, entrando a sua obra na 3ª fase, de volta à temática regionalista, mas com um tratamento completamente diferente das suas primeiras pinturas, continuando a fazer-se sentir a influência de Cezanne no arrojo da forma e na exuberância da cor, que chega a ser violenta. São deste período inúmeras obras com motivos da paisagem alentejana, onde sobressaem os sobreiros e os cavalos em liberdade e ainda a decoração do salão nobre dos Paços do Concelho de Arraiolos com 11 painéis dedicados aos trabalhos e à vida da terra alentejana, que ele criticou, mais tarde, na sua autobiografia pela “urdidura álacre e dissonante, destituída de verdadeiro senso estético ou decorativo”, mas que revelam a originalidade do pintor no tratamento dos temas regionais. 
Em 1933 concorreu ao lugar de professor de pintura da Escola Superior de Belas Artes do Porto, sendo admitido em 1934 e aí se mantendo ate ao jubileu em 1960. O entusiasmo e abertura que sempre pôs na sua atividade docente foram determinantes para a renovação do ensino nesta Escola, permitindo a formação de uma geração de artistas modernos que se distinguiram nas décadas seguintes.
Com a vinda para o Norte, começou uma nova fase da obra de Dordio Gomes. A paleta viva e quente, própria para as terras alentejanas, com a sua luminosidade agressiva e contrastante, foi substituída por outra mais suave e que transmite a luz difusa da atmosfera do Porto. O rio Douro com a sua paisagem e os seus trabalhos característicos foi o tema preferencial desta época. Mas foi também o período em que se dedicou à pintura a fresco, velho sonho desde a viagem a Itália, executando decorações em vários interiores do Porto: antigo café Rialto em 1944, Baptistério da Igreja de Nª Srª da Conceição em 1947, Livraria Tavares Martins em 1948, Igreja de Nª Srª do Perpétuo Socorro em 1952, Igreja dos Redentoristas em 1953, Escola Superior de Belas Artes do Porto em 1954, Câmara Municipal do Porto em 1957.
Ao longo da sua vida, Dordio Gomes participou em inúmeras exposições, quer dentro dos esquemas tradicionais, por exemplo das exposições anuais da Sociedade Nacional de Belas Artes (entre 1913 e 1919 sem interrupção e depois até 1942 espaçadamente), quer integrado nos modernistas, a cuja primeira geração pertenceu. Foi assim que fez parte dos 5 Independentes (com Diogo de Macedo, Henrique e Francisco Franco e Alfredo Migueis) que expuseram em 1923 na Sociedade Nacional Belas Artes, grupo de pintores e escultores residentes em França na altura, e que, declarando-se “independentes de tudo e de todos” vieram abanar um pouco o meio artístico, constituindo esta exposição a “primeira manifestação modernista dos anos 20” (J. A. França).
Em 1930 foi um dos expositores do I Salão dos Independentes, onde se reuniu grande parte dos artistas modernos de então. Participou também nas Exposições de Arte Moderna organizadas pelo Secretariado de Propaganda Nacional / Secretariado Nacional de Informação em Lisboa e no Porto, sendo-lhe atribuído em 1938 o prémio Columbano e, em 1945, o prémio António Carneiro. Em Lisboa ainda, é de salientar a sua presença nas Exposições de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, onde recebeu o 1º prémio de pintura, em 1957 e fez parte do júri, em 1961. No Porto participou em várias exposições coletivas e nas Exposições Magnas da Escola Superior de Belas Artes do Porto, como professor, entre 1954 e 1960, sendo alvo de uma homenagem nesta última, por ocasião do seu jubileu, em que foi agraciado com a insígnia de Cavaleiro da Ordem de Santiago de Espada. 
Concorreu a inúmeras exposições no estrangeiro, de que salientamos a Exposição Internacional do Rio de Janeiro, em 1922, e a Exposição Internacional de Paris, em 1937, tendo recebido em ambas a medalha de ouro, a XXV Bienal de Veneza, em 1950, as Bienais de S. Paulo, em 1951, 1953 e 1955 e a Exposição Internacional de Bruxelas, em 1958. A sua primeira exposição individual foi apresentada na Sociedade Nacional de Belas Artes em 1923, com as obras do 2º período alentejano. Em 1946, foi a vez do Porto, na Livraria Portugália; em 1956 o Museu de Évora organizou uma Retrospetiva da Pintura de Dordio Gomes; em 1965 outra Retrospetiva, desta vez na companhia de Abel Manta, foi levada a cabo pela Sociedade Nacional de Belas Artes; em 1975 foi novamente o Porto, na Galeria do Jornal de Notícias. Já depois da sua morte, ocorrida em 22 de Julho de 1976, a Escola Superior de Belas Artes do Porto organizou em 1978 uma homenagem a mestre Dordio Gomes. (Daqui)
 
 
 
Simão César Dórdio Gomes. "Fado do ciúme" - Amália Rodrigues


sábado, 12 de outubro de 2013

"Barco Negro" - Poema de David Mourão-Ferreira



Frederik Sødring (Danish landscape painter, 1809–1862), 'The Chalk Cliffs at Møn', 1831. 



Barco Negro


De manhã temendo que me achasses feia,
acordei tremendo deitada na areia,
mas logo os teus olhos disseram que não
e o sol penetrou no meu coração.

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
e o teu barco negro dançava na luz;
vi teu braço acenando, entre as velas já soltas.
Dizem as velhas da praia que não voltas:

São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
que nem chegaste a partir,
pois tudo em meu redor
me diz que estás sempre comigo. 

No vento que lança areia nos vidros;
na água que canta, no fogo mortiço;
no calor do leito, nos bancos vazios;
dentro do meu peito estás sempre comigo.


David Mourão-Ferreira


Barco Negro - Mariza (Concerto em Lisboa)


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

"Ode para o futuro" - Poema de Jorge de Sena


Eugène Delacroix, A Paz descendo sobre a Terra
 
 

Ode para o futuro


Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.


Jorge de Sena


Jorge de Sena
 

Jorge Cândido de Sena (Lisboa, 2 de Novembro de 1919 — Santa Barbara, Califórnia, 4 de Junho de 1978) foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário português.
Foi autor de uma obra marcada sobretudo pela reflexão humanista acerca da liberdade do Homem. "Pensador que sente e sentidor que pensa" (Eugénio Lisboa), os seus poemas partem geralmente de um objeto para fixar uma meditação sobre o "eu" e o seu lugar no mundo. Depois de concluir os estudos liceais, ingressou na Escola Naval, curso que não concluiu por impedimentos vários, vindo a formar-se em Engenharia Civil na Universidade do Porto. Ainda durante os estudos universitários, publicou, sob o pseudónimo Teles de Abreu, as suas primeiras composições poéticas em periódicos como Presença e travou conhecimento com o grupo de poetas que viria a reunir-se em torno de Cadernos de Poesia, convivendo, entre outros, com José Blanc de Portugal, Ruy Cinatti, Alberto Serpa e Casais Monteiro. O seu nome surgiria, com efeito, associado a essa publicação que, em 1940, sob o lema de "Poesia é só uma" pretendia distinguir-se pelo ecletismo e pelo diálogo entre várias tendências e gerações poéticas, vindo a codirigir as suas 2.ª e 3.ª séries e subscrevendo uma conceção de poesia que "com todos os seus ingredientes, recursos, apelos aos sentidos, resulta de um compromisso firmado entre um ser humano e o seu tempo, entre uma personalidade e uma sua consciência sensível do mundo, que mutuamente se definem". É, aliás, no âmbito das edições de Cadernos de Poesia que, em 1942, é publicada a sua primeira obra poética: Peregrinação. Ainda durante os anos 40, colaborou com Aventura (1942-43), Litoral (1944), Portucale (2.ª série, 1946), Seara Nova (nas páginas da qual trava, em 1949, polémica com os surrealistas), mantendo ainda colaboração regular com Diário Popular e encetando uma atividade de não somenos importância na sua atividade literária como tradutor de poesia (entre outras obras, saliente-se, na sua bibliografia, 90 e Mais Quatro Poemas de Constantino Cavafy (Porto, 1970), Poesia de Vinte e Seis Séculos: I - de Arquiloco a Calderón, II - de Bashó a Nietzsche (Porto, 1972), Poesia do Século XX (Porto, 1978). A partir de meados dos anos 40 intensificou, paralelamente à atividade profissional como engenheiro da Junta Autónoma de Estradas, a sua atividade de conferencista, proferindo comunicações que incidem frequentemente sobre dois dos seus temas diletos: Camões e Fernando Pessoa (de quem editará, em 1947, as Páginas de Doutrina Estética). Durante os anos 50, afirmou-se como uma das presenças mais influentes e complexas da cultura e literatura portuguesas; é durante essa década que publica algumas das suas mais conhecidas obras poéticas (Metamorfoses, Evidências, Fidelidade); que publica a sua primeira tentativa dramática, a tragédia O Indesejado; que colabora com publicações como Gazeta Musical e de Todas as Artes, Árvore, Notícias do Bloqueio, Cadernos do Meio-Dia; e que organiza a terceira série da antologia Líricas Portuguesas.




A sua postura humanista e o espírito de inconformismo contra a ditadura fascista levaram-no, em 1959, após o envolvimento numa tentativa falhada de golpe de Estado militar contra o regime salazarista, a optar por um exílio voluntário no Brasil, onde viria a exercer funções de docência nos domínios da Literatura Portuguesa e da Teoria da Literatura, nas Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras de Assis e de Araraquara, em S. Paulo. Publicou, então, uma série de obras ensaísticas como Da Poesia Portuguesa e desenvolveu uma intensa atividade como congressista, não deixando ainda de, como redator no jornal Portugal Democrático, participar em ações de denúncia da ditadura a partir do exterior. Em 1961, publicou o primeiro volume da sua obra poética completa, encerrando a que tem sido encarada como uma primeira fase poética. No ano anterior publicara o seu primeiro livro de ficção, a coletânea de contos Andanças do Demónio. Face aos obstáculos que sistematicamente eram levantados à sua progressão na carreira académica (primeiro, a sua naturalidade, depois a inadequação curricular entre a sua formação e a lecionação), em 1965 transferiu-se para a Universidade do Wisconsin, Madison, nos Estados Unidos da América, em cujo departamento de Espanhol e Português seria nomeado professor catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira; em 1970, transferiu-se para a Universidade de Califórnia, em Santa Bárbara, onde viria a ser nomeado, dois anos depois, chefe do departamento de Literatura Comparada e, em 1975, chefe do Departamento de Espanhol e Português. Entretanto, participou em inúmeros congressos internacionais; tornou-se membro da Modern Languages Association e da Renaissance Society of America; e empreendeu várias deslocações à Europa, nunca interrompendo a edição quer de títulos de teoria e história literária e estudos literários clássicos, modernos e contemporâneos, quer a obra poética pessoal, publicando, antes e depois da primeira visita autorizada a Portugal em nove anos de exílio, entre 1968 e 1969, os livros de poesia Arte de Música e Peregrinatio ad Loca Infeta. Após o 25 de abril, recebeu várias homenagens públicas em Portugal, sendo condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique e, a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago e Espada. No ano da sua morte, 1978, vieram a público, revistos pelo autor, os volumes Poesia II e Poesia III, a que se seguiriam, postumamente, os volumes 40 Anos de Servidão e Post-Scriptum II. A obra de Jorge de Sena ocupa uma posição singular na literatura contemporânea nacional e internacional, dado o facto de, enquanto mediadora de uma história literária e cultural com que o autor estabelece um diálogo existencial e textual, se apresentar, segundo o prisma por que for encarada, simultaneamente como clássica, moderna, socialmente empenhada, confessional e surrealizante. Apreciando o conjunto da poesia de Jorge de Sena, no fim dos anos 50, António Ramos Rosa observa como "surrealismo e classicismo" nela se defrontam, "numa extrema tensão, para se fundirem, apesar de aparentemente irreconciliáveis, numa expressão poética de uma grande elegância prosódica, muitas vezes lapidar e finamente musical, e sempre de um conteúdo intelectual, sensível ou afetivo, extremamente rico e depurado", dando corpo a uma poesia complexa que "é, ao mesmo tempo, um exercício espiritual, e um exercício de linguagem, uma poesia de conhecimento e de interrogação filosófica ou metafísica, mas sempre da mais alta intimidade reflexiva que a alma humana possa ter consigo mesma e, ao mesmo tempo, uma poesia mais direta, que corajosamente afronta alguns problemas cruciais da condição humana presente. (ROSA, António Ramos in Cadernos do Meio-Dia, fevereiro de 1959, cit. in SENA, Jorge de - Obra Poética I, 3.ª ed., Lisboa, Ed. 70, 1988, p. 224). A obra poética de Sena, fundindo classicismo e modernismo, realiza a evolução possível na poesia pós-Pessoa, ao superar o subjetivismo que Pessoa anulou com a invenção heteronímica, através da projeção dos sentimentos do sujeito sobre uma superfície objetiva onde aqueles se cristalizam sem emanarem de uma identidade precisa (cf. MAGALHÃES, Joaquim Manuel - Os Dois Crepúsculos, Lisboa, A Regra do Jogo, Lisboa, 1981, pp. 55-56), ou, por outras palavras, "O homem investido pela história e pelo mundo, o homem mediado pela vida exterior tanto como pelo conhecimento que a cultura significa, [informa] em suma um Sena que é mais importante para Sena que ele mesmo enquanto subjetividade privada". Naquele que é um dos mais exaustivos estudos sobre a poesia de Jorge de Sena, Luís Adriano Carlos defende que a "visão poética seniana [incorpora] de forma singular não só uma visão estética mas também uma visão filosófica, uma visão histórica e uma visão tipológica", estabelecendo nomeadamente ligações intertextuais com um campo textual filosófico que introduz "na "razão poética" uma razão dialética - e uma razão fenomenológica, reintegradas numa razão existencial", apresentando, assim, a sua obra poética como "simultânea e correlativamente "objeto histórico" e "objeto fenomenológico" (CARLOS, Luís Adriano - Poética e Poesia de Jorge de Sena, antinomias, tensões, metamorfoses, 2 vols., Porto, Faculdade de Letras, 1993, p. 11, vol. I, p. 13). Em 1979, foi publicado o seu único e inacabado romance, Sinais de Fogo, que tem como objeto a aprendizagem (sexual, poética, política) de um protagonista, pelo olhar do qual é reconstituída uma sociedade portuguesa, provinciana e burguesa, que tem como pano de fundo histórico a guerra civil espanhola.

Jorge de Sena. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-10-31]


Pinturas de Eugène Delacroix
Eugène Delacroix, Louis d'Orleans devoilant une maitresse
 

Eugène Delacroix, Mademoiselle Rose 


Eugène Delacroix, Head of a woman


 Eugène Delacroix, Frightened Horse  


Eugène Delacroix, The Natchez, 1835
 

Eugène Delacroix, Flowers, 1833
 

Eugène Delacroix, Young tiger playing with its mother



Carminho - Alma 2012 - Album Completo



Maria do Carmo de Carvalho Rebelo de Andrade (Lisboa, 20 de Agosto de 1984), conhecida como Carminho, é uma fadista portuguesa. Nasceu numa família de músicos, sendo a sua mãe, Teresa Siqueira, e o seu irmão, Francisco Andrade, também cantores.
Apesar de ter começado a cantar desde criança, só aos 22 anos decidiu fazer carreira musical depois de uma longa viagem pelo mundo que demorou 11 meses que a ajudou a tomar essa decisão. Diz que não precisou de coragem e explica simplesmente que é feliz a cantar o fado.
Tem passado por várias casas de fado como A Taverna do Embuçado, Petisqueira de Alcântara e Mesa de Frades. Esteve na Suíça, numa quinzena temática portuguesa e com esse grupo, Tertúlia de Fado Tradicional gravou quatro canções ("Toca Pr'á Unha", "O Vento Agitou O Trigo", "Fado Pombalinho" e "O Fado da Mouraria") do CD "Saudades do Fado", editado em 2003
Carminho participou no filme "Fados" de Carlos Saura de 2007. O disco com a banda sonora inclui a faixa "Casa de Fados" com a participação de Vicente da Câmara, Maria da Nazaré, Ana Sofia Varela, Carminho, Ricardo Ribeiro e Pedro Moutinho
Em Maio de 2008 participou num concerto de Tiago Bettencourt, também actuou na Casa da Música, na Expo Zaragoza 2008 e foi convidada para o espectáculo comemorativo dos 45 anos de carreira de Carlos do Carmo, no Pavilhão Atlântico. Nesse mesmo ano interpretou "Gritava contra o silêncio", excerto de um conto de Sophia de Mello Breyner Andersen, no primeiro disco de inéditos de João Gil
O disco de estreia, "Fado", produzido por Diogo Clemente  foi editado a 1 de Junho de 2009. 
Participa na campanha de 2011 do Pirilampo Mágico gravando o single "Ser Feliz" com Ney Matogrosso. É um dos vários nomes convidados para o disco "Os Fados e as Canções do Alvim" de Fernando Alvim. 
Colabora também com Pablo Alborán no tema "Perdonáme" que foi um grande sucesso em Espanha e Portugal.
Em Março de 2012 lançou o seu segundo disco intitulado "Alma". A edição brasileira irá incluir duetos com Chico Buarque ("Carolina"), Milton Nascimento ("Cais") e Nana Caymmi ("Contrato de Separação")