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segunda-feira, 8 de abril de 2013

"Escola" - Poema de Nuno Júdice



Su Blackwell (English artist, b. 1975), 'Hope' ('Esperança'), 2009. 
Escultura em papel (www.sublackwell.co.uk)



Escola


O que significa o rio, 
a pedra, os lábios da terra 
que murmuram, de manhã, 
o acordar da respiração? 

O que significa a medida 
das margens, a cor que 
desaparece das folhas no 
lodo de um charco? 

O dourado dos ramos na 
estação seca, as gotas 
de água na ponta dos 
cabelos, os muros de hera? 

A linha envolve os objetos 
com a nitidez abstrata 
dos dedos; traça o sentido 
que a memória não guardou; 

e um fio de versos e verbos 
canta, no fundo do pátio, 
no coro de arbustos que 
o vento confunde com crianças. 

A chave das coisas está 
no equívoco da idade, 
na sombria abóbada dos meses, 
no rosto cego das nuvens. 


Nuno Júdice
in "Meditação sobre Ruínas" 
 


Su Blackwell (English artist, b. 1975), 2008 


The Book Sculptures of Su Blackwell

domingo, 21 de outubro de 2012

"Figueira" - Poema de Ana Hatherly


 

Figueira 


Ó árvore que irrompes da tua secura 
suportando o penoso desdobrar de teus ramos 
amaldiçoada 
ofereces ainda a doçura de teus frutos 
a sombra de tuas folhas 
a firmeza do teu apego à terra 

Ó dura bruta forma 
heroína da escassez 
ó teimosa 
que insistes e insistes 
e nos ensinas 
que a vida é feita de incessantes mortes 
e que a nós 
suas futuras vítimas 
nos aguarda 
a todo o momento 
a derrocada do templo 
sem nenhum outro fruto 
além da amargura 

Ó doçura 
porque amargas tanto 
a nossa tentação de florir 
ao mesmo tempo sendo tudo 
e nada ? 


Ana Hatherly


Fruto da figueira - Figo

Fruto - Figo

Fruto - Figo


"Fazer poesia é confessar-se."

(Friedrich Klopstcock)



Portrait of Friedrich Gottlieb Klopstock, c. 1779
by Jens Juel (Danish painter, 1745–1802).
 

Friedrich Gottlieb Klopstock foi um poeta alemão (Quedlinburg, 2 de Julho de 1724 - Hamburgo, 14 de Março de 1803). 
Antigo aluno da escola de Schulpforta, estudou teologia nas universidades de Jena e Leipzig. Discípulo de Johann Jakob Bodmer e da escola suíça, descobriu com entusiasmo a obra de John Milton. Decidiu escrever uma epopeia religiosa intitulada Der Messias, acerca da vida de Cristo, à qual se dedicou durante vinte anos (1748/68). Com esta obra em vinte cantos, Klopstock tornou-se o poeta mais admirado da jovem geração. Antes de publicá-la, já se consagrara com suas primeiras odes An Meine Freund, de 1747. 
Dedicou-se também ao teatro. Escreveu inicialmente tragédias: A morte de Adão, de 1757 e Salomão, de 1763. No entanto, destacou-se com o teatro patriótico, representado pela trilogia centralizada na personagem Hermann, herói da resistência da velha Germânia aos romanos. É considerado como um precursor do Romantismo, antecipando-se na escolha de temas patrióticos para as suas odes. 
Embora tivesse passado grande parte da sua vida na Dinamarca, onde recebia um pensão do rei Frederico V, foi um dos precursores do movimento nacional na Alemanha. Saudou com entusiasmo as revoluções americana e francesa. Porém, quando a República Francesa quis torná-lo cidadão honorário, Klopstock recusou em sinal de protesto contra os excessos da revolução na França. Contribuiu ainda nos campos da filologia e da história da literatura.


 
Su Blackwell - Esculturas em papel
 
“Cultura opõe-se a natura ou natureza, isto é, abrange todos aqueles objetos ou operações que a natureza não produz e que lhe são acrescentados pelo espírito (...). A religião, a arte, o desporto, o luxo, a ciência e a tecnologia são produtos da cultura.”


António José Saraiva, em "Cultura", colecção “O QUE É”, Difusão Cultural, 1993.

(António José Saraiva (Leiria, 31 de Dezembro de 1917 — Lisboa, 17 de Março de 1993) foi um professor e historiador de Literatura portuguesa.)


A vida é feita de pequenos nadas - Sérgio Godinho

 
A vida é feita de pequenos nadas
 
 
(Segunda-feira
trabalhei de olhos fechados
na terça-feira
acordei impaciente
na quarta-feira
vi os meus braços revoltados
na quinta-feira
lutei com a minha gente
na sexta-feira
soube que ia continuar
no sábado
fui à feira do lugar
mais uma corrida, mais uma viagem
fim-de-semana é para ganhar coragem)

muito boa noite, senhoras e senhores
muito boa noite, meninos e meninas
muito boa noite, Manueis e Joaquinas
enfim, boa noite, gente de todas as cores
e feitios e medidas
e perdoem-me as pessoas
que ficaram esquecidas
boa noite, amigos, companheiros, camaradas
a vida é feita de pequenos nadas
a vida é feita de pequenos nadas

Somos tantos a não ter quase nada
porque há uns poucos que têm quase tudo
mas nada vale protestar
o melhor ainda é ser mudo
isto diz de um gabinete
quem acha que o cassetete
é a melhor das soluções
para resolver situações
delicadas
a vida é feita de pequenos nadas

E o que é certo
é que os que têm quase tudo
devem tudo aos que têm muito pouco
mas fechem bem esses ouvidos
que o melhor ainda é ser mouco
isto diz paternalmente
quem acha que é ponto assente
que isto nunca vai mudar
e que o melhor é começar a apanhar
umas chapadas
a vida é feita de pequenos nadas

(Segunda-feira...)

Ouvi dizer que quase tudo vale pouco
quem o diz não vale mesmo nada
porque não julguem que a gente
vai ficar aqui especada
à espera que a solução
seja servida em boião
com um rótulo: Veneno!
é para tornar desde pequeno
às colheradas
a vida é feita de pequenos nadas
boa noite, amigos, companheiros, camaradas
a vida é feita de pequenos nadas.


Su Blackwell - Esculturas em papel
 
 
"(...) a história é infinita. Podemos interceptá-la em qualquer ponto. Era uma vez uma cidade onde os habitantes sabiam tanto do sofrimento humano que quando acordavam deitavam-se logo."

Ana Hatherly, in "351 Tisanas"

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

“Pense por si próprio", in "Cartas a um jovem filósofo” - Texto de Agostinho da Silva


Su Blackwell (book sculptures), Sea monster


Pense por si próprio


“Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.” 

Agostinho da Silva, “Cartas a um jovem filósofo”


Su Blackwell, The Wild Swans, 2008


Algum Dia 

Algum dia um novo Papa
anunciará altivo
que Deus é raiz quadrada
de um quantum negativo 

e o Deus que tanto procuro
em que atingido me afundo
é aquele ser-não-ser
do que acontece no mundo 

da matéria mais que densa
é que é divertido ser
ali se nada acontece
tudo pode acontecer. 


 Agostinho da Silva 

[George Agostinho Baptista da Silva, filósofo, poeta e ensaísta português, nasceu no Porto em 13 de Fevereiro de 1906 e morreu em Lisboa no Hospital de S. Francisco de Xavier num domingo de Páscoa, a 3 de Abril de 1994.]
 

 Su Blackwell, The Pearl 

As ondas

As ondas quebravam uma a uma. 
Eu estava só com a areia e com a espuma. 
Do mar que cantava só para mim.



Bee Gees