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domingo, 25 de maio de 2025

"Depoimento" - Poema de Miguel Torga


 

Depoimento

 
Foi na vida real como nos sonhos:
Nunca pisei um chão de segurança.
Procuro na lembrança
Um sólido caminho percorrido,
E vejo sempre um barco sacudido
Pelas ondas raivosas do destino.
Um barco inconsciente de menino,
Um barco temerário de rapaz,
E um barco de homem, que já não domino
Entre os rochedos onde se desfaz.

Mas o céu era belo
Quando à noite o seu dono o acendia;
E era belo o sorriso da poesia,
E belo o amor, dragão insatisfeito;
E era belo não ter dentro do peito
Nem medo, nem remorsos, nem vaidade.
Por isso digo que valeu a pena
A dura realidade
Desta viagem trágico-terrena
Sempre batida pela tempestade.


Miguel Torga
, Orfeu Rebelde, 1958.
Antologia Poética, 2.ª edição, Coimbra, 1985.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

"Ouve vou dizer-te" - Poema de Abel Neves

 
 
Guillaume Seignac (French painter, 1870-1929), The cherry girl 
 

Ouve vou dizer-te


Ouve vou dizer-te
abre com os dedos uma cereja
daquelas de fazer brinco quando a brisa é boa
tira-lhe o caroço
verás como isso é arrancar o coração do tempo
o carmesim do suco
é o choro e o riso
dos que se amam impacientes e belos


Abel Neves
,
In “Resumo - a poesia em 2012”  
Documenta/Fnac - 2013
 
 
Livro: "Resumo - a poesia em 2012"
(daqui)


"Quero fazer contigo o que a Primavera faz com as cerejeiras." 
 
Pablo Neruda,
em final do Poema 14 do livro:
"Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada", 1924  (daqui)
 
 
William Frederick Yeames (British painter, 1835-1918), Ripe Cherry


"As palavras são como as cerejas, atrás de umas vêm as outras."


Provérbio
(Provérbios portugueses)


Hans Zatzka (Austrian painter, 1859-1945/9), Roses and Cherries
 
 
 Poema

A vida é uma cereja
A morte um caroço
O amor uma cerejeira.

Poemas. São Paulo: Nova Fronteira, 2000, p. 65.