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terça-feira, 1 de outubro de 2024

"O lavrador percorrendo a vinha" - Poema de António Cabral



Elin Danielson-Gambogi
 (Finnish painter, 1861–1919), In the Vineyard II, 1898. 


O lavrador percorrendo a vinha

 
Ei-lo no meio da vinha, atento,
como se ouvisse o próprio coração.
Uma vide que toca é um músculo vibrando;
um cacho que descobre é um pensamento novo.

A terra ondula nos seus passos
e fez dele um arbusto sonhador.
Quando os seus olhos pousam num rebento
duas gotas de orvalho se iluminam.

Que ventos germinam além da montanha?
Que nuvens negras ou trovões?
Ele não sabe. Tem tempo de saber.
Esta manhã de Abril é boa, clara.

Alegremente o sol arde no rio:
amam-se as rolas no pinhal.
Ele percorre a vinha e colhe
um louro cacho de esperanças.


António Cabral
, "Poemas durienses"
 

Elin Danielson-Gambogi, In the Vineyard, 1898.
 
 
Sete notas para uma sinfonia

1

Só saberás a música do vinho,
quando ouvires o sol,
dedo a dedo na vinha,
esta guitarra.

2

No Douro só o nome é de ouro.
As verdades são mais ou menos assim.

3

Curvam-se os homens sob os cestos de uvas:
uma atitude de reverência.

4

Mudam-se os tempos, não muda a vindima:
a mesma lua sobre o pensamento.

5

Os homens põem capelas no cimo dos montes
para que os ouçam à distância.
Eis uma forma elegante
de dialogar com os mortos.

6

Se fores ao Tua,
esquece-te dos pronomes possessivos.

7

Certamente grandioso foi o pensamento
que antecedeu este rio.
Ainda se veem as escarpas e abundantes nevoeiros.
E as ideias perfilam-se em enormes socalcos.


António Cabral
, "Poemas durienses"

 
1. Só saberás a música do vinho, quando ouvires o sol, dedo a dedo na vinha, esta guitarra. 2. No Douro só o nome é de ouro. As verdades são mais ou menos assim. 3. Curvam-se os homens sob os cestos de uvas: uma atitude de reverência. 4. Mudam-se os tempos, não muda a vindima: a mesma lua sobre o pensamento. 5. Os homens põem capelas no cimo dos montes para que os ouçam à distância. Eis uma forma elegante de dialogar com os mortos. 6. Se fores ao Tua, esquece-te dos pronomes possessivos. 7. Certamente grandioso foi o pensamento que antecedeu este rio. Ainda se vêem as escarpas e abundantes nevoeiros. E as ideias perfilam-se em enormes socalcos.

© António Cabral - Todos os direitos reservados. Ler mais em: https://www.antoniocabral.com.pt/sete-notas-para-uma-sinfonia/ | ANTÓNIO CABRAL
i-lo no meio da vinha, atento, como se ouvisse o próprio coração. Uma vide que toca é um músculo vibrando; um cacho que descobre é um pensamento novo. A terra ondula nos seus passos e fez dele um arbusto sonhador. Quando os seus olhos pousam num rebento duas gotas de orvalho se iluminam. Que ventos germinam além da montanha? Que nuvens negras ou trovões? Ele não sabe. Tem tempo de saber. Esta manhã de Abril é boa, clara. Alegremente o sol arde no rio: amam-se as rolas no pinhal. Ele percorre a vinha e colhe um louro cacho de esperanças.

© António Cabral - Todos os direitos reservados. Ler mais em: https://www.antoniocabral.com.pt/o-lavrador-percorrendo-a-vinha/ | ANTÓNIO CABRAL

domingo, 1 de setembro de 2024

"Setembro" - Poema de Vasco Graça Moura

 


Damião Martins
(Pintor cubista brasileiro desde 1978), Colheita de uva, s.d.


Setembro


agora o outono chega, nos seus plácidos
meneios pelas vinhas, um dos vizinhos passa
um cabaz de maçãs por sobre a vedação:
redondas, verdes, o seu perfume vai
dentro de quinze dias ser mais forte.

a noite cai mais cedo e apetece
guardar certos vermelhos da folhagem
e amarelos e castanhos nas ladeiras
de setembro. a rádio fala no tempo variável
que vem aí dentro de dias. talvez caia

uma chuvinha benfazeja, a pôr no ponto certo
os bagos de uva. e há poalhas morosas, mais douradas.
aproveita-se o outono no macio
enchimento dos frutos para colhê-lo a tempo.
devagar, devagar. é mais doce no outono a tua pele. 


Vasco Graça Moura
, in "Poesia 2001/2005",
Quetzal Editores, 2006.


Damião Martins, Vindimas, s.d.
 
 
Vindimas

 
As vindimas consistem na colheita dos cachos de uvas, destinados à produção de vinho, quando estas atingem o grau indicado de amadurecimento. Os cachos são então enviados para os lagares, onde começa a produção de diversos tipos de vinhos. Para obter uma boa qualidade de vinho é necessário escolher a data exata em que se deve iniciar as vindimas.

As vindimas têm lugar, habitualmente, em setembro, após uma decisão nesse sentido tomada pelos enólogos, que desde o final de agosto anterior analisam amostragens para controlar a maturação das uvas, assim como a acidez, peso e cor. É necessário encontrar o grau de acidez indicado porque com o passar do tempo os ácidos transformam-se em açúcares, o que leva a um aumento do álcool.

Cabe aos produtores, em função da casta, determinar a relação que mais lhes convém em função do tipo de vinho que pretendem produzir. Posteriormente, deve ser feito o transporte dos cachos nas melhores condições, já que, devido ao calor próprio da época, as uvas amassadas começam a fermentar antes do tempo.

Também é possível prever a melhor altura para as vindimas através de um método popular que consiste em verificar quando murcham os pés das uvas e as peles dos bagos começam a contrair.

Marcada a data da vindima, a cada propriedade onde há cultivo de uvas acorrem então dezenas de trabalhadores sazonais, normalmente oriundos das terras vizinhas, e é iniciado um dos mais característicos momentos da etnografia portuguesa. Muitas vezes são famílias completas que se deslocam para as vindimas, numa tradição que atravessa gerações: as mulheres, auxiliadas pelas crianças, cortam os cachos, que são colocados em cestas de vime. Cabe então aos homens transportar estes cestos para os lagares. Antigamente eram grupos de homens que pisavam as uvas, sistema que gradualmente foi sendo substituído por métodos mecânicos.

Na época das vindimas são organizadas nas diferentes terras ou regiões onde existe esta atividade as chamadas Festas das Vindimas, uma tradição histórica que atrai imensos turistas, como acontece, por exemplo, na região do Douro, a mais antiga região demarcada de vinho do mundo. (daqui)
 
 
Damião Martins, Vindima, s.d.
 

Provérbios do Mês de Setembro
 
  • Trinta dias tem Novembro, Abril, Junho e Setembro; de vinte e oito, só há um, e os mais têm trinta e um.
  • Em Setembro, ardem os montes e secam as fontes.
  • Em Setembro, planta, colhe e cava que é mês para tudo.
  • Setembro a comer e a colher.
  • Setembro molhado, figo estragado.
  • Setembro ou seca as fontes ou leva as pontes.
  • Agosto, debulhar, Setembro, vindimar.
  • Corra o ano como for, haja em Agosto e Setembro calor.
  • Arranja bom Setembro, com a burra fico eu.
  • Chuvas verdadeiras, em Setembro as primeiras.
  • Em Setembro palha no palheiro e meninas ao candeeiro.
  • Em Setembro ramo curto, vindima longa.
  • Em Setembro secam as fontes e as chuvas lavam as pontes.
  • Em Setembro semeia o teu pão.
  • No pó semeia, que Setembro to pagará.
  • Se em Setembro a cigarra cantar, não compres trigo para guardar.
  • Setembro cara de poucos amigos, cara de figos.
  • Setembro é o Maio do Outono.
  • Setembro que enche o celeiro dá triunfo ao rendeiro.
  • Agosto tem a culpa, e Setembro leva a fruta.
  • Nuvens em Setembro: chuva em Novembro e neve em Dezembro.
  • Agosto madura, Setembro vindima.
  • Em Setembro tem Deus a mesa posta.
  • Para vindimar deixa o Setembro acabar.
  • Vindima molhada, pipa depressa despejada.
  • Agosto arder, Setembro beber.
  • Em Agosto secam os montes e em Setembro as fontes.

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

"Confiança" - Poema de Miguel Torga


Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Vindimas no Douro, s.d.



Confiança


O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...


Miguel Torga, in "Cântico do Homem", 1950.
 

Mota Urgeiro, Carregador de cestos no Douro - Vindimas, s.d
 


Alto Douro Vinhateiro - Região Demarcada do Douro
 
Subunidade de paisagem predominantemente humanizada descontínua. O Alto Douro Vinhateiro constitui a paisagem mais representativa e melhor conservada da Região Demarcada do Douro, a região vitícola demarcada mais antiga e regulamentada do mundo. A originalidade do estabelecimento dessa zona demarcada residia no facto de incluir a elaboração de um cadastro e de uma classificação das parcelas e respetivos vinhos, e a criação de mecanismos institucionais de controle e certificação do produto, apoiados em base legal. 
Entre as regiões de viticultura de montanha, o Alto Douro é a que possui maior escala, maior significado histórico, maior continuidade e maior variedade biológica das castas aí aperfeiçoadas. Dentro das regiões vitícolas históricas de montanha e de encosta europeias, o Alto Douro constitui a mancha mais significativa deste tipo de implantação. 
O Alto Douro é um excecional exemplo de uma paisagem humanizada, testemunho da ousadia e engenhosidade do homem, que num esforço sobre-humano, só justificável pela obtenção de um produto de elevada qualidade e elevado retorno económico como o Vinho do Porto, criou e desenvolveu técnicas de valorização do meio adverso, ao longo dos séculos, que permitiram o cultivo da vinha. É pois uma paisagem evolutiva, que concilia diferentes modos de organização e armação da vinha e de diferentes épocas. A construção de socalcos para a sua cultura, o elemento mais monumental da paisagem, de geometria variável, consoante a inclinação da encosta, às técnicas e época de terraceamento, com novas formas de armação de vinha, esculpiram uma paisagem de arquitetura complexa, de mosaicos caprichosamente dispostos e carácter cénico, acentuado pelos altos muros verticais ou perpendiculares aos socalcos que delimitam as quintas, bordejados por oliveiras e amendoeiras. Com esta paisagem vitícola esmagadora e inebriante, contrasta a modéstia e singeleza da património construído nos povoados, de ocupação concentrada, bem como a arquitetura sóbria das casas solarengas e quintas, cuja organização do núcleo construído ficou dependente dos aspetos funcionais da cultura da vinha. 
Paisagem cultural evolutiva viva resultante da interação do homem e da natureza, centrada na vitivinicultura, de alta qualidade, desenvolvida multissecularmente em condições ambientais difíceis, de que resultou um vinho mundialmente conhecido como "Porto" e "Douro". 
Constitui uma paisagem construída ao longo dos séculos segundo soluções ambientalmente otimizadas do ponto de vista de aproveitamento dos escassos recursos da água e solo, e do elevado declive do terreno, com culturas mediterrânicas adaptadas a essas condições formando mosaicos: a vinha, plantada predominantemente em socalcos construídos sobre extensos muros de xisto, que ajudavam a evitar a erosão, criando anfiteatros ao longo das encostas; a oliveira e a amendoeira, plantadas sobretudo como elementos separadores; as hortas e pomares nas terras mais férteis, junto às linhas de água; e os matos nas zonas mais altas. 
A paisagem é pontuada de branco pelos povoados, de ocupação concentrada, casas em banda junto ao caminho, adaptadas ao desnível do terreno, e muito sóbrias. Nas quintas, as casas do proprietário, erguidas no local mais destacado da paisagem, são de grande sobriedade, traça elementar, com decoração das fachadas conseguida essencialmente pelo contraste dos diferentes materiais e do ritmo dos vãos. Possuem capela adossada ou isolada, de carácter semipúblico, pequeno jardim fronteiro, normalmente de buxos, e os vários edifícios ligados à cultura da vinha, interligados de modo funcional e aproveitando o declive do terreno. (daqui)
 
 
 
 Mota Urgeiro, "Vindimas no Douro", s.d.
 

sábado, 2 de setembro de 2023

"A Infinita" - Poema de Pablo Neruda

 

José Malhoa (Pintor, desenhista e professor português, 1855–1933),
Vindima - Figueiró dos Vinhos, Portugal (Sétimo Mandamento), 1905.


A Infinita

Vês estas mãos? Mediram
a terra, separaram
os minerais e os cereais,
fizeram a paz e a guerra,
derrubaram as distâncias
de todos os mares e rios
e, no entanto,
quando te percorrem
a ti, pequena,
grão de trigo, calhandra,
não conseguem abarcar-te,
fatigam-se ao agarrar
as pombas gémeas
que repousam ou voam no teu peito,
percorrem as distâncias das tuas pernas,
enrolam-se na luz da tua cintura.
Para mim tu és tesouro mais rico
de imensidade do que o mar e seus cachos
e és branca e azul e extensa como
a terra nas vindimas.
Nesse território,
desde os pés à fronte,
andando, andando, andando,
passarei a vida.


Pablo Neruda,
in "Os Versos do Capitão" (Los versos del capitán).
Tradução de Albano Martins




Pablo Neruda, "Os Versos do Capitão".
Tradução de Albano Martins,
Editora: Campo das Letras.



Os Versos do Capitão

E vou contar-lhes agora a história deste livro, um dos mais controvertidos daqueles que escrevi. Foi durante muito tempo um segredo, durante muito tempo não ostentou o meu nome na capa, como se o renegasse ou o próprio livro não soubesse quem era o pai. Tal como os filhos naturais, filhos do amor natural, «Los versos del capitán» eram, também, um «libro natural». Os poemas que contém foram escritos aqui e ali, ao longo do meu desterro na Europa. Foram publicados anonimamente em Nápoles, em 1952. O amor por Matilde Urrutia, a nostalgia do Chile, as paixões cívicas, recheiam as páginas desse livro, que teve muitas edições sem trazer o nome do autor.

Para a 1ª edição, o pintor Paolo Ricci conseguiu um papel admirável e antigos tipos de imprensa «bodonianos», bem como gravuras extraídas dos vasos de Pompeia. Com fraternal fervor, Paolo elaborou também a lista dos assinantes. Em breve apareceu o belo volume, com tiragem limitada a cinquenta exemplares. Festejámos largamente o acontecimento, com mesa florida, «frutti di mare», vinho transparente como água, filho único das vinhas de Capri. E com a alegria dos amigos que amaram o nosso amor.
Alguns críticos suspicazes atribuíram a motivos políticos a publicação anónima do livro. «O partido opôs-se, o partido não o aprova», disseram. Mas não era verdade. Felizmente, o meu partido não se opõe a nenhuma expressão da beleza.
A única verdade é que não quis, durante muito tempo, que aqueles poemas ferissem Delia, de quem estava a separar-me. Delia del Carril, passageira suavíssima, fio de aço e mel que me atou as mãos nos anos sonoros, foi para mim durante dezoito anos uma companheira exemplar. O livro, de paixão brusca e ardente, atingi-la-ia como uma pedra atirada à sua terna compleição. Foram estas, e não outras, as razões profundas, pessoais e respeitáveis do meu anonimato.
O livro tornou-se depois, ainda sem nome e apelido, num homem, homem natural e valoroso. Abriu caminho na vida e eu tive, por fim, de o reconhecer. Andam agora pelos caminhos, quer dizer, pelas livrarias e as bibliotecas, os «versos do capitão» assinados pelo capitão genuíno.

Pablo Neruda (1904–1973), in "Confesso que Vivi"

 
Pablo Neruda, "Confesso que Vivi", 2ª Edição,
1976, editora: Publicações Europa-América.

"Confesso que Vivi" é um livro de cariz autobiográfico, escrito ao longo de vários anos pelo autor chileno Pablo Neruda e publicado postumamente no ano de 1974.
Em Portugal, foi publicado pela primeira vez, em abril de 1975, pelas Publicações Europa-América e, no Brasil, foi publicado como "Confesso que Vivi — Memórias", pela Difel — Difusão Editorial em 1978.


Sinopse
 
«Estas memórias ou recordações são intermitentes e por vezes fugidias na memória, porque a vida é precisamente assim. É a intermitência do sono que nos permite aguentar os dias de trabalho. Muitas das minhas recordações desvaneceram-se ao evocá-las, ficaram em pó como um vidro irremediavelmente ferido.
As memórias do memorialista não são as memórias do poeta. Aquele viveu talvez menos, mas fotografou muito mais, recreando-nos com a perfeição dos pormenores. Este entrega-nos uma galeria de fantasmas sacudidos pelo fogo e pela sombra da sua época.
Não vivi, talvez, em mim mesmo; vivi, talvez, a vida dos outros. De quanto nestas páginas deixei escrito se desprenderão sempre — como nos arvoredos de Outono, como no tempo das vindimas — as folhas amarelas que vão morrer e as uvas que reviverão no vinho sagrado.
A minha vida é uma vida feita de todas as vidas - as vidas do poeta.»Pablo Neruda

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

"Vindima" - Poema de Miguel Torga


Manuel dos Santos Castro (Artista plástico português que se destacou
na pintura
naïf, n. 1945), Vinha na latada, 2008.


Vindima 

 
Mosto, descantes e um rumor de passos
Na terra recalcada dos vinhedos.
Um fermentar de forças e cansaços
Em altas confidências e segredos.

Laivos de sangue nos poentes baços.
Doçura quente em corações azedos.
E, sobretudo, pés, olhos e braços
Alegres como peças de brinquedos.

Fim de parto ou de vida, ninguém sabe
A medida precisa que lhe cabe
No tempo, na alegria e na tristeza.

Rasgam-se os véus do sonho e da desgraça.
Ergue-se em cheio a taça
À própria confusão da natureza. 


Miguel Torga
, in "Libertação", 1944
 
 
Manuel Castro, Vindima, 2008
 
 
Manuel Castro, Transporte das Uvas, 2007
 

Manuel Castro, Vindima na Bairrada, 2006

 
Manuel Castro, Pisar as Uvas, 2004
 
 
«... De aí a nada, arregaçados, os homens iam esmagando os cachos, num movimento onde havia qualquer coisa de coito, de quente e sensual violação. Doirados, negros, roxos, amarelos, azuis, os bagos eram acenos de olhos lascivos numa cama de amor. E como falos gigantescos, as pernas dos pisadores rasgavam mácula e carinhosamente a virgindade túmida e feminina das uvas. A princípio, a pele branca das coxas, lisa e morna, deixava escorrer os salpicos de mosto sem se tingir. Mas com a continuação ia tomando a cor roxa, cada vez mais carregada, do moreto, do sousão,da tinta carvalha, da touriga e do bastardo.
A primeira violação tirava apenas a cada cacho a flor de uma integridade fechada. Era o corte. Depois, os êmbolos iam mais fundo, rasgavam mais, esmagavam com redobrada sensualidade, e o mosto ensanguentava-se e cobria-se de uma espuma leve de volúpia. À tona, a roçá-los como talismãs, passeavam então volumosos e verdadeiros sexos dos pisadores, repousados mas vivos dentro das ceroulas de tomentos…» 
 
 Miguel Torga, Excerto do livro "As vindimas" (daqui)
 
 
 
 "Vindima" de Miguel Torga. 
Editor: Dom Quixote, 2011 
 
 
Sinopse
 
O primeiro romance de Miguel Torga é uma homenagem ao Douro, às suas gentes e às suas paisagens. Um livro para todos os que amam esta extraordinária região. 

«Cingido à realidade humana do momento, romanceei um Doiro atribulado, de classes, injustiças, suor e miséria. E esse Doiro, felizmente, está em vias de mudar. Não tanto como o querem fazer acreditar certas más consciências, mas, enfim, em muitos aspetos, é sensivelmente diferente do que descrevi. Desapareceram os patrões tirânicos, as cardenhas degradantes, os salários de fome. As rogas descem da montanha de camioneta, a alimentação melhorou, o trabalho é menos duro. Também o rio já não tem cachões, afogados em albufeiras de calmaria. E, contudo, julgo sinceramente que não cansarás ingloriamente os olhos na contemplação do painel que pintei.» — Miguel Torga, 1988 (daqui)

 
Manuel Castro, Transporte do Vinho, 2005
 

"Uma das desvantagens do vinho é dar palavras aos pensamentos."

Samuel Johnson
(17091784),
Citado em The Life of Samuel Johnson, LL.DComprehending an Account.
In Two Volumes, Volume 1, - página 250James Boswell - Henry Baldwin, 1791. 
 
 
Manuel Castro, Festa do Vinho, 2009


"Enquanto está na garrafa, o vinho é meu escravo; fora da garrafa, sou escravo dele."

Juan Luis Vives (14921540),
Citado em "Vinhos‎" - Página 204, de Sérgio de Paula Santos,
T.A. Queiroz, Editor, 1982
 

Manuel Castro, Festa do Vinho, 2009


"A penicilina cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes."

Alexander Fleming
(1881–1955),
Citado em The Frugal Gourmet Cooks with Wine - página 82,
por Jeff Smith, publicado por Morrow, 1986.