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sábado, 20 de janeiro de 2024

"Ode ao Dia Feliz" - Poema de Pablo Neruda


 
Edvard Munch (Norwegian painter, 1863–1944), 'Dance on the Shore', 1900.
 

Ode ao dia feliz


Desta vez deixai-me
ser feliz,
não aconteceu nada a ninguém,
não estou em nenhum sítio,
acontece somente
que sou feliz,
de coração pleno, quer
andando, dormindo ou escrevendo.

Que hei de eu fazer, sou
feliz,
sou mais vasto
do que a erva
nas planícies,
sinto a pele como uma árvore rugosa,
a água em baixo,
os pássaros em cima,
o mar como um anel
à roda da minha cintura,
a terra feita de pão e de pedra
e o ar cantando como uma guitarra.

Ao meu lado na areia
tu és areia,
cantas e és canto,
o mundo
é hoje a minha alma,
canto e areia,
o mundo
é hoje a tua boca,
deixa-me ser feliz
na tua boca e na areia,
ser feliz porque se eu respiro
é a ti que o devo,
ser feliz porque acaricio
os teus joelhos
e é como se acariciasse
a pele azul do céu
e a sua frescura.

Hoje deixai-me
ser feliz
sozinho,
com todos e ninguém,
ser feliz
com a erva
e a areia,
ser feliz
com o ar e a terra,
ser feliz,
contigo, com a tua boca,
ser feliz.


Pablo Neruda
, in 'Odes Elementares',
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1977.
Tradução de Luis Pignatelli 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

"Ode ao Inverno" - Poema de Pablo Neruda



Edvard Munch
 (Norwegian painter, 1863–1944), 'Building Workers in the Snow', 1920.
Óleo sobre tela, 71 x 100 cm, Munch Museum, Oslo, Noruega.


Ode ao Inverno 


Inverno, algo entre nós
existe,
colinas sob a chuva,
galopes
no vento,
janelas
onde se amontoaram as tuas vestes,
a tua camisa de ferro,
as tuas calças molhadas,
o teu cinturão de couro transparente. 

Inverno,
para alguns
és neblina
sobre as represas,
clamorosa clâmide,
rosa branca,
corola de neve,
mas para mim, Inverno,
és
um cavalo,
sobe-te do focinho a névoa,
gotas de chuva caem-te
da cauda,
rajadas elétricas
são as tuas crinas,
galopas
desenfreadamente
salpicando de lama
o viandante,
olhamos
e já passaste,
não te vemos a cara,
não sabemos
se são de água de mar
ou de cordilheira
os teus olhos, passaste
como a cabeleira
de um relâmpago,
não ficou ilesa uma árvore sequer,
as folhas
amontoaram-se
no solo,
os ninhos
ficaram esgarçados
no cimo das copas,
enquanto tu galopavas
na luz moribunda do planeta. 

És frio, inverno,
e os teus cachos
de neve negra e água
no telhado
perfuram
as casas
como agulhas,
ferem como facas oxidadas.
Nada te detém. 

Começam
os ataques de tosse, saem as crianças
com os sapatos encharcados,
nas camas a febre
é como
a vela dum navio
incendiada,
a cidade dos pobres
navegando para a morte,
a mina
escorregadia,
a batalha do vento.

Desde então,
inverno, passei a conhecer
a tua esburacada roupa
e o silvo
da tua buzina entre as araucárias
quando clamas
e choras,
cavaca na chuva louca,
desatado trovão
ou coração de neve.

O homem
na areia agigantou-se,
cobriu-se de tormenta,
o sal e o sol vestiram
de seda salpicada
o corpo da nova nadadora. 

Mas
quando chega o inverno
o homem
transforma-se num pequeno novelo
que caminha
com funerário guarda-chuva,
cobre-se
com asas impermeáveis,
torna-se húmido
e mole
como uma papa, refugia-se
nas igrejas,
ou lê notícias necrológicas. 

Entretanto,
em cima,
entre os carvalhos,
na cabeça das nevadas,
no litoral,
tu reinas
com a tua espada,
com o teu gelado violino,
com as plumas que esvoaçam
do teu peito indomável. 

Qualquer dia
encontrar-nos-emos,
quando
a grandeza
da tua formosura
não se abater
sobre o homem,
quando
deixares de perfurar
o teto
do meu irmão,
quando
puder amparar a mais alta
brancura do teu espaço
sem ser mordido,
passarei saudando
a tua majestade desatada. 

Descobrirei a cabeça
sob a mesma chuva
da minha infância
porque confiarei
nas tuas águas:
elas lavam o mundo,
arrastam os papéis,
trituram a pequena
imundice dos dias,
lavam
o rosto da terra,
as tuas mãos lavam,
e descem até ao fundo
lá onde
a primavera
dorme. 

Tu fá-la estremecer, feres
as suas pernas transparentes,
desperta-la, molha-la,
começa a trabalhar,
varre as folhas mortas,
reúne a sua fragrante
mercadoria,
sobe as escadas
das árvores
e de repente vemo-la
no cimo
com o seu novo vestido
e os seus antigos olhos verdes.
 

Pablo Neruda (1904–1973)
in "Odes Elementares", 1954.
Tradução de José Bento
 
 
Edvard Munch, 'From Saxegårdsgate', c. 1882, oil on canvas, 
Lillehammer Art Museum, Lillehammer 


"Que fogo poderia se igualar a um raio de sol num dia de inverno?"
 
"What fire could ever equal the sunshine of a winter's day [...]"

Henry David Thoreau
, Excursions - Página 115 - Ticknor and Fields, 1863
 

sexta-feira, 5 de junho de 2020

"A Doida de Albano" - Poema de Rodrigues Cordeiro


Edvard Munch (Norwegian painter, 1863–1944),“Entardecer”, 1888.
 

A Doida de Albano



Anda cá, meu filho escuta,
És amigo de tua mãe?
- Oh! Minha mãe que pergunta?
- Basta meu filho, pois bem;
Vai ver a velha Vicência
O amor que um filho lhe tem.

Faz vinte anos,
(Dizendo tira do seio um punhal!)
Que teu pai morreu a golpes
Deste ferro por meu mal;
E eu que devia vingá-lo
Fiz uma jura fatal.

- Uma jura?! Mãe Santíssima!
Oh! Minha mãe, que jurou?
- Eu jurei por este sangue,
Que em ferrugem se tornou,
Que tu, filho matarias
Esse que a teu pai matou.

Matas? – Mato, aqui o juro:
- E matas seja quem for?
Ainda que essa vingança
Te roube do seio o amor?
- Ainda assim. – Toma o ferro,
É Ricardo o matador.

- Ricardo o pai de Maria!
- Sim esse. – Oh! Mãe perdoai!
Pela amante o pai esqueces!
- Filho ingrato... parte... vai,
Cumpre a jura ou sê maldito
Se não vingares teu pai.

Nessa noite tinto em sangue,
Com os cabelos no ar,
O assassino de Ricardo
Foi aos pés da mãe lançar
O punhal, com que jurara
Do pai a morte vingar.

Sorriu-se a velha, e contente
Abraçava o vingador,
Quando eis súbito aparece
Qual bela estátua de dor,
Junto do grupo chorando
D’ Albano a cândida flor.

- Paulo, meu Paulo, vingança;
Perdi meu pai... não o vês...
Nestas lágrimas sentidas,
Que aqui derramo a teus pés?!
Paulo, meu Paulo, vingança;
Vinga-me tu por quem és...

Eu o vi banhado em sangue
Assisti-lhe ao triste fim,
Quis falar-me, já não pode
Com os olhos fitos em mim,
Expirou... vingança eterna!
Tu vingas-me, Paulo... sim?

Vingo, Maria, sossega:
Eu sei quem teu pai matou;
Vai morrer com o mesmo ferro
Que ainda há pouco o trespassou.
Isto dito, as punhaladas
O próprio seio cravou.

Foge a pobre espavorida,
Deixa Albano, e sem parar,
Entra em Roma no outro dia,
Por toda a gente a gritar:
- Quem me mata por piedade,
Quem me vem também matar?

Assim vagou três dias,
Ao fim do quarto enlouqueceu!
E ainda hoje o caminhante,
Que passa pelo Coliseu
Vê a pobre às gargalhadas
Pedindo vingança a Deus.

 1874

António Xavier Rodrigues Cordeiro, poeta ultrarromântico, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, tomou parte na revolução da Maria da Fonte e foi deputado anticabralista. 
Em 1844, fundou com João de Lemos o jornal de poesias O Trovador, órgão da juventude estudantil coimbrã da década de 40 e um dos principais repositórios do ideário poético da segunda geração romântica. 
Em 1854, fundou o jornal O Leiriense, onde publicou as crónicas históricas posteriormente coligidas nos dois volumes de Leituras ao serão.
A partir de 1862, dirigiu o Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, onde publicou várias biografias de escritores portugueses e brasileiros. 
Colaborou com artigos literários e poesias em vários outros periódicos, como O Bardo, O Panorama, o Jornal de Belas-Artes, a Revista Académica de Coimbra, O Instituto e A Revolução de setembro
Em 1889, reuniu a sua obra poética nos dois volumes de Esparsas. (daqui)


Edvard Munch, “Nu feminino de joelhos”, 1919.

 
"Nós somos todos loucos, toda esta raça maldita. Estamos envolvidos em ilusões, delírios, confusões, estamos todos loucos e em confinamento solitário."

William Golding,
  Darkness Visible, 1979


domingo, 2 de junho de 2019

"Poema do Homem-Rã" - António Gedeão


Edvard Munch, Shore with Red House, 1904, oil on canvas, 69 × 109 cm,  
 

Poema do homem-rã


Sou feliz por ter nascido
no tempo dos homens-rãs
que descem ao mar perdido
na doçura das manhãs.
Mergulham, imponderáveis,
por entre as águas tranquilas,
enquanto singram, em filas,
peixinhos de cores amáveis.
Vão e vêm, serpenteiam,
em compassos de ballet.
Seus lentos gestos penteiam
madeixas que ninguém vê.

Oh que insólita beleza!
Festivo arraial submerso.
Poema em líquido verso.
Biombo de arte chinesa.
No colóquio voluptuoso
dessa alegria pagã,
babam-se os olhos de gozo
na máscara do homem-rã.

Suspensas e sonolentas,
rendas de bilros voláteis,
esboçam-se as formas contráteis
das medusas nevoentas.
Num breve torpor elástico,
com dobras de sanefas,
estremecem as acalefas
e as alforrecas de plástico.

Com barbatanas calçadas
e pulmões a tiracolo,
roçam-se os homens no solo
sob um céu de águas paradas.

Passam por entre as lisonjas
das anémonas purpúreas,
por entre corais e esponjas,
hipocampos e holotúrias

Sob o luminoso feixe
correm de um lado para outro,
montam no lombo de um peixe
como no dorso de um potro.

Onde as sereias de espuma?
Tritões escorrendo babugem?
E os monstros cor de ferrugem
rolando trovões na bruma?

Eu sou o homem. O Homem.
Desço ao mar e subo ao céu.
Não há temores que me domem
É tudo meu, tudo meu.


António Gedeão,
in."Teatro do Mundo", 1958




Edvard Munch, Landscape at the Sea, 1918, oil on canvas, 120.9 x 160,  
 

"A felicidade entra e sai. É o relâmpago que vem do oriente e desaparece no ocidente. 
A terra inteira o vê e estremece; mas ele passa."
 
 
 

Edvard Munch, Melancholy, 189496


“O amor está acima da morte, como o céu acima do oceano.”
 
 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

"Dimensões" - Poema de Laura Riding


Edvard Munch, Anxiety, 1894, 94 × 74 cm. Munch Museum, Oslo



Dimensões


Meçam-me para um funeral 
Com minha cova rasa expressando 
De um jeito preciso, euclidiano, 
Meu ser tridimensional. 

Pode ser a vida tão pequena, tão magra? 
Meça-me no tempo. Mas o tempo não avança 
E é estranho e nada sabe de lei ou de mudança 
Mas só de morte, que é nada de nada. 

Meçam-me pela beleza. 
Mas beleza é o primeiro nome que a morte 
Deu à vida, seu primeiro falecer, chama 
Que tremeluz, um amaranto que se apaga 
E se apaga de novo na sombra mortiça da morte. 

Meçam-me não pela beleza, que teme lutar. 
Pois a beleza faz trégua com a morte, 
Comprando desonra e morte eterna 
Na esperança de sobreviver a vida. 

Meçam-me então pelo amor – mas não ainda, 
Pois lembro-me de vezes em que ele buscava 
Suas próprias medidas em mim, 
Mas fugiu, com medo que eu pudesse predizer 
Quão ampla e alta eu mesma era, profunda 
E de múltiplas medidas, mudando 
Minha escala sobre ele e assim provando 
Que tanto eu quanto ele éramos nada. 

Meçam-me por mim mesma 
E não pelo tempo nem amor nem espaço 
Nem pela beleza. Dêem-me só esta última graça: 
Que em minha lápide eu possa 
Ser uma régua eu mesma. 
Não gostaria que essas velhas crenças fracassassem 
E provassem que até eu era nada. 

 
Laura Riding
, "Mindscapes - poemas"
Seleção, tradução e introdução de Rodrigo Garcia Lopes,
São Paulo: Iluminuras, 2004.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

"A Fúria mais Fatal e mais Medonha" - Poema de Francisco Joaquim Bingre


Edvard Munch, "Jealousy", 1895, óleo sobre tela



A Fúria mais Fatal e mais Medonha


Das Fúrias infernais foi sempre a Inveja 
No mundo a mais fatal e a mais medonha, 
Pois faz dos bens dos outros a peçonha 
Com que a si mesma se envenena e peja. 

Com ira e com furor, raivosa, arqueja, 
Com vinganças, traições, com ódios sonha. 
Onde quer que se encoste e os olhos ponha, 
Tragar as ditas dos mortais deseja. 

Mãe dos males fatais à Sociedade, 
Vidas, honras destrói, cismas fomenta, 
Nutrindo na alma as serpes da Maldade. 

O próprio coração que come a alenta, 
Vive afogada em ondas de ansiedade, 
Da frenética raiva se alimenta.


Francisco Joaquim Bingre
(1763-1856)
in 'Sonetos'


domingo, 8 de novembro de 2015

"Viver é não saber que se vive" - Texto de Florbela Espanca


Edvard Munch, Melancholy, National Gallery, Oslo 
 
 
Viver é não saber que se vive


"Ponho-me, às vezes, a olhar para o espelho e a examinar-me, feição por feição: os olhos, a boca, o modelado da fronte, a curva das pálpebras, a linha da face... E esta amálgama grosseira e feia, grotesca e miserável, saberia fazer versos? Ah, não! Existe outra coisa... mas o quê? Afinal, para que pensar? Viver é não saber que se vive. Procurar o sentido da vida, sem mesmo saber se algum sentido tem, é tarefa de poetas e de neurasténicos. Só uma visão de conjunto pode aproximar-se da verdade. Examinar em detalhe é criar novos detalhes. Por debaixo da cor está o desenho firme e só se encontra o que se não procura. Porque me não esqueço eu de viver... para viver?"

20-04-1930



domingo, 6 de setembro de 2015

"A Tempo" - Poema de Vitorino Nemésio


August Strindberg (Swedish, 1849-1912), The Birch Tree (Autumn), 1902



A Tempo

 
A tempo entrei no tempo,
Sem tempo dele sairei:
Homem moderno,
Antigo serei.
Evito o inferno
Contra tempo, eterno
À paz que visei.
Com mais tempo
Terei tempo:
No fim dos tempos serei
Como quem se salva a tempo.
E, entretanto, durei. 

in 'O Verbo e a Morte


August Strindberg, The Town, 1903 


Johan August Strindberg (Estocolmo, 22 de janeiro de 1849 — Estocolmo, 14 de maio de 1912) foi um dramaturgo, romancista, ensaísta, contista e pintor sueco.
É autor, entre outros, de O Pelicano. Figura ao lado de Henrik IbsenSøren Kierkegaard e Hans Christian Andersen como os maiores escritores escandinavos. É um dos pais do teatro moderno. Seus trabalhos são classificados como pertencentes aos movimentos literários naturalista e expressionista.


Retrato de August Strindberg, 1892, por Edvard Munch,

terça-feira, 10 de abril de 2012

"Letreiro" - Poema de António Sardinha


Edvard Munch, "O Grito" (The Scream, 1893)



Letreiro


Tudo o que sou o sou por obra e graça 
da comoção rural que está comigo. 
Foi a virtude lírica da Raça 
a herança que eu herdei do sangue antigo.

Foi esta voz que em minhas veias passa 
e atrás da qual, maravilhado eu sigo. 
Como um licor de encanto numa taça, 
assim se quer esse condão comigo.

Olhai-me: – Eu vim de honrados lavradores. 
De avós e netos, sempre os meus Maiores 
fitaram o horizonte que hoje eu fito.

«O que estaria além da curva estreita?» 
– E da pergunta, a cada instante feita. 
nasceu em mim a ânsia pro Infinito.


António Sardinha, A Epopeia da Planície 



António Sardinha


António Maria de Sousa Sardinha (Monforte, 9 de Setembro de 1887 — Elvas, 10 de Janeiro de 1925) foi um político e poeta português. 
Destacou-se como ensaísta e argumentador, produzindo uma obra que se afirmou como a principal referência doutrinária do Integralismo Lusitano. A sua defesa de uma monarquia tradicional, orgânica, antiparlamentar serviu de inspiração a uma influente corrente do pensamento político português da primeira metade do século XX. 
António Sardinha foi um adversário da Monarquia da Carta (1834-1910) chegando, no tempo de estudante na Universidade de Coimbra, a defender a implantação de uma República Portuguesa. Depois de 5 de Outubro de 1910, profundamente desiludido, acabou por se converter ao ideário realista da monarquia orgânica. 
A lusitana antiga liberdade do verso de Luís de Camões era uma referência dos integralistas, tendo no municipalismo e no sindicalismo duas palavras-chave de um ideário político que não dispensava o Rei, entendido como o Procurador do Povo e o melhor garante e defensor das liberdades republicanas. 
António Sardinha era anti-iberista. Em vez da fusão dos Estados de Portugal e de Espanha, propôs uma aliança entre todos os povos hispânicos, a lançar por intermédio de uma aliança entre os dois Estados da Península - Espanha e Portugal, ambos reconduzidos à monarquia. A Aliança Peninsular entre as duas Monarquias seria, na sua perspetiva, o ponto de partida para a constituição de uma ampla Comunidade Hispânica (dos povos de língua portuguesa e espanhola), a base mais firme onde assentaria a sobrevivência da civilização ocidental. António Sardinha morreu jovem, com apenas 37 anos. 

Obras poéticas: Tronco Reverdecido (1910), Epopeia da Planície (1915), Quando as Nascentes Despertam (1821), Na Corte da Saudade (1922), Chuva da Tarde (1923), Era uma Vez um Menino (1926), O Roubo da Europa (1931), Pequena Casa Lusitana (1937). Ensaio: O Valor da Raça (1915), Ao Princípio Era o Verbo (1924), Ao Ritmo da Ampulheta (1925), entre outras.

Edvard Munch em 1921 


Edvard Munch (Løten, 12 de Dezembro de 1863 — Ekely, 23 de Janeiro de 1944) foi um pintor norueguês, um dos precursores do expressionismo alemão. Edvard Munch frequentou a Escola de Artes e Ofícios de Oslo vindo a ser influenciado por Courbet e Manet. No lugar das ideias, o pensamento de Henrik Ibsen e Bjornson marcou o seu percurso inicial. A arte era considerada como uma arma destinada a lutar contra a sociedade. Os temas sociais estão assim presentes em O Dia Seguinte e Puberdade de 1886. Com A Menina doente (Das Kränke Mädchen - 1885) inicia uma temática que surgiria como uma linha de força em todo o seu caminho artístico. Fez inúmeras variações sobre este último trabalho, assim como sobre outras obras, e os seus sentimentos sobre a doença e a morte, que tinham marcado a sua infância (a mãe morreu quando ele tinha 5 anos, a irmã mais velha faleceu aos 15 anos, a irmã mais nova sofria de doença mental e uma outra irmã morreu meses depois de casar; o próprio Edvard estava constantemente doente), assumem um significado mais vasto, transformados em imagens que deixavam transparecer a fragilidade e a transitoriedade da vida. Edvard Munch em Paris, descobre a obra de Van Gogh e Gauguin, e indubitavelmente o seu estilo sofre grandes mudanças. Em 1892 o convite para expor em Berlim torna-se num momento crucial da sua carreira e da história da arte alemã. Inicia um projeto que intitula O Friso da Vida. Edvard Munch representou a dança em 1950. Aos trinta anos ele pinta O Grito, considerada a sua obra máxima, e uma das mais importantes da história do expressionismo. O quadro retrata a angústia e o desespero e foi inspirado nas deceções do artista tanto no amor quanto com seus amigos. O Grito é uma das peças da série intitulada O Friso da Vida. Os temas da série recorrem durante toda a obra de Munch, em pinturas como A Menina Doente (1885), Amor e Dor (1893-94), Cinzas (1894) e A Ponte. Rostos sem feições e figuras distorcidas fazem parte de seus quadros. Em 1896, em Paris, interessa-se pela gravura, fazendo inovações nesta técnica. Os trabalhos deste período revelam uma segurança notável. Em 1914 inicia a execução do projeto para a decoração da Universidade de Oslo, usando uma linguagem simples, com motivos da tradição popular. Munch retratava as mulheres ora como sofredoras frágeis e inocentes (Puberdade e Amor e Dor), ora como causa de grande anseio, ciúme e desespero (Separação, Ciúmes e Cinzas). As últimas obras pretendem ser um resumo das preocupações da sua existência: Entre o Relógio e a Cama, Auto-Retrato de 1940. Toda a obra está impregnada pelas suas obsessões: a morte, a solidão, a melancolia, o terror das forças da natureza.


Edvard Munch, Death in the Sickroom (1895)


Edvard Munch, Ashes (1894)


Edvard Munch, The Sick Child (1907)


Edvard Munch, The Dance of Life (1899–1900)


Edvard Munch, Weeping Nude, 1913-1914


Edvard Munch, O dia seguinte, 1894-95


Edvard Munch, Lady from the sea


Edvard Munch, The Storm, 1893


Edvard Munch, Red Virginia Creeper, 1898-1900


Edvard Munch, Red Creeper, 1900


Edvard Munch, Clair de lune, 1893


Edvard Munch, Evening on Karl Johan, 1892


Keane - Somewhere Only We Know

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"O Cavalo" - Poema de Natália Correia

 
René Magritte, The anger of gods, 1960


O Cavalo 


Teus poros exalam o fumo
Do lar dos deuses de onde vieste.
Rompante de espuma e de lume
És sol quadrúpede ou mar equestre?

Desfilando derramas o ouro
Do teu rio inacabável,
Desmedido relâmpago louro
De um deus equídeo possante e frágil.

Tudo existiu para que fosses
No contraluz desta madrugada
Mitológica proporção perfeita
Em purpúrea bruma recortada.

Pois que te é divino mister
Humanos olhos extasiar
A dúvida é só perceber
Se vieste do sol ou do mar. 


Natália Correia
Poesia Completa / 
Inéditos, 1985/90
 Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999
 

Natália Correia retratada por Bottelho


Natália de Oliveira Correia (Fajã de Baixo, São Miguel, 13 de Setembro de 1923 — Lisboa, 16 de Março de 1993) foi uma intelectual, poetisa e ativista social açoriana, autora de extensa e variada obra publicada, com predominância para a poesia. Deputada à Assembleia da República (1980-1991), interveio politicamente ao nível da cultura e do património, na defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres. Autora da letra do Hino dos Açores. Juntamente com José Saramago (Prémio Nobel de Literatura, 1998), Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues foi, em 1992, um dos fundadores da Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC). 

A obra de Natália Correia estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio. Colaborou com frequência em diversas publicações portuguesas e estrangeiras. Foi uma figura central das tertúlias que reuniam em Lisboa nomes centrais da cultura e da literatura portuguesas nas décadas de 1950 e 1960. Ficou conhecida pela sua personalidade livre de convenções sociais, vigorosa e polémica, que se reflete na sua escrita. A sua obra está traduzida em várias línguas. Na madrugada de 16 de Março de 1993, morreu, subitamente, com um ataque cardíaco, em sua casa, depois de regressada do Botequim que fundou em 1971, com Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta, onde durante as décadas de 1970 e 1980 se reuniu grande parte da intelectualidade portuguesa.

A sua morte precoce deixou um vazio na cultura portuguesa muito difícil de preencher. Legou a maioria dos seus bens à Região Autónoma dos Açores, que lhe dedicou uma exposição permanente na nova Biblioteca Pública de Ponta Delgada, instituição que tem à sua guarda parte do seu espólio literário (que partilha com a Biblioteca Nacional de Lisboa) constante de muitos volumes éditos, inéditos, documentos biográficos, iconografia e correspondência, incluindo múltiplas obras de arte e a biblioteca privada. (Fonte: wikipédia)


Paul Gauguin, Riders on the Beach I (Cavaliers sur la plage I), 1902
 Museum Folkwang, Essen
 

"Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!"

(William Shakespeare)


Paul Gauguin, Riders on the Beach II, 1902
 

"A carne é o alimento de certos animais. Todavia, nem todos, pois os cavalos, os bois e os elefantes se alimentam de ervas. Só os que têm índole bravia e feroz, os tigres, os leões etc. podem saciar-se em sangue. Que horror é engordar um corpo com outro corpo, viver da morte de seres vivos." - Pitágoras


Edvard Munch, Horse Team, 1919


"A raça humana não pode prosperar enquanto não aprender que há tanta dignidade em cultivar campos quanto em escrever um poema." - Booker Washington 


Booker Taliaferro Washington, (5 de abril de 1856, em Condado de Franklin, Virginia, EUA - 15 de novembro de 1915) foi um escritor e educador estadunidense. Por falta de recursos da família não frequentou a escola e, aos nove anos, começou a trabalhar para sobreviver, inicialmente numa fábrica de sal e, depois, em minas de carvão. Determinado a estudar, entrou para o Instituto Normal e de Agricultura de Hampton (1872), onde trabalhou como zelador para custear os estudos. Graduado (1875), passou a lecionar para crianças e adultos. Julgando a cultura e a qualificação profissional mais eficazes que a luta política pelos direitos civis, conseguiu entrar para a administração de Hampton (1879) e participou de um bem-sucedido programa experimental de educação indígena. Foi nomeado diretor da nova escola normal de negros em Tuskegee, Alabama (1881), onde ficou até sua morte. Seu sucesso nessa função tornou-o porta-voz dos negros americanos. Entre seus livros destacaram-se duas autobiografias, Up from Slavery (1901) e My Larger Life (1911). (Fonte: wikipédia)
 
 
Walter Crane, "Neptune's Horses", 1892

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"Noite de Saudade" - Poema de Florbela Espanca



Edvard Munch, Evening on Karl Johan Street, 1892 



Noite de Saudade


A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura...
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Por que és assim tão escura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma Saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!


Florbela Espanca
in 'Livro de Mágoas', 1919
 

The Corrs - Dreams