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quinta-feira, 7 de maio de 2026

"Ah, abram-me outra realidade!" - Poema de Álvaro de Campos



Paul Signac (French Neo-Impressionist painter, 1863–1935),
'Capo di Noli', 1898, oil on canvas, 93.5 × 75 cm,
Wallraf–Richartz Museum, Cologne.


Ah, abram-me outra realidade!


Ah, abram-me outra realidade! 
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos 
E ter visões por almoço. 
Quero encontrar as fadas na rua! 
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras, 
Desta civilização feita com pregos. 
Quero viver como uma bandeira à brisa, 
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!

Depois encerrem-me onde queiram. 
Meu coração verdadeiro continuará velando 
Pano brasonado a esfinges, 
No alto do mastro das visões 
Aos quatro ventos do Mistério. 
O Norte — o que todos querem 
O Sul — o que todos desejam 
O Este — de onde tudo vem 
O Oeste — aonde tudo finda 
— Os quatro ventos do místico ar da civilização 
— Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo.

04-04-1929

Álvaro de Campos, in 'Livro de Versos' - Fernando Pessoa.
(Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.)
Lisboa: Estampa, 1993. - 99.


Paul Signac
(French Neo-Impressionist painter, 1863–1935),
'Portrait of Félix Fénéon' (French art critic, gallery director, writer
and anarchist, 1861–1944), 1890, Museum of Modern Art.



Neoimpressionismo

O Neoimpressionismo foi um movimento artístico  do final do século XIX, iniciado pelo pintor francês Georges Seurat (18591891), que, retomando a atenção dada pelo impressionismo ao tratamento da luz e da cor, introduziu novas técnicas e conceitos, como o Pontilhismo ou o Divisionismo. (daqui)

Pós-impressionismo

O Pós-impressionismo  foi um movimento artístico que, entre o final do século XIX e o início do século XX, procurou superar o Impressionismo, contribuindo para o despontar de diferentes vanguardas como o Expressionismo, o Fauvismo, o Cubismo, etc. (daqui) 

O movimento pós-impressionista surgiu como uma intelectualização do Impressionismo, entendido pelos artistas que o integraram como um método empírico de perceção da realidade. O pintor Georges Seurat (18591891) foi considerado o principal teorizador deste movimento e o primeiro a desenvolver a técnica do pontilhismo. Através da sua "pintura ótica", Seurat apresentou os fundamentos desta nova técnica, posteriormente seguida por outros pintores como Paul Signac (1863–1935). 

Ao contrário dos impressionistas que aplicavam e misturavam a tinta sobre a paleta, Seurat colocava-a diretamente sobre a tela em pequenos pontos de concentração variável, correspondentes às cores do objeto visto de perto. Por sua vez, estes pontos eram compostos na retina, através de um processo de mistura ótica. Um maior efeito lumínico e cromático era desta forma conseguido, pelo contraste simultâneo. Dando forma e expressão às formulações no campo da teoria da cor, Seurat tentou racionalizar as sensações causadas pela pintura. Na obra 'Grande Jatte', realizada entre 1884 e 1885, concretiza os fundamentos da sua estética e pesquisa pictórica.

Os seus contemporâneos Vincent van Gogh (18531890) Paul Gauguin (1848–1903) contribuíram igualmente para a definição de uma pintura baseada na simbologia codificada da cor, como meio de expressão de sentimentos e tensões.
Paul Cézanne (1839–1906) desenvolve uma representação objetiva, menos emotiva, que se revela tendência para a geometrização dos elementos formais da composição. 
(daqui)


Paul Signac, 'In the Time of Harmony: the Golden Age is not in the Past, it is in the Future'
('Au temps d'harmonie'), 
1893–95, oil on canvas, 310 x 410 cm.


domingo, 24 de novembro de 2024

"Guerra" - Poema de Maria de Lourdes Brandão


Eliseu Visconti (Pintor, desenhista e designer ítalo-brasileiro, 1866 - 1944),
 Volta às Trincheiras, 1917, Fundação Edson Queiroz.
 
 

Guerra


São olhos – narizes – braços e pernas – seios e sexos
vidas. Seres humanos.
Para alguns, apenas pedaços de carne
mas é carne que sente. Carne que sofre.
Corpos que uma bomba reduz a nada
e depois ficam na terra mutilados.
Cheirando a morte.

Eram olhos que viam o sol e a lua.
Azuis? Castanhos?
Narizes que aspiravam o perfume das matas.
Bocas que beijavam e falavam de amor.
Braços que enlaçavam.
Pernas que caminhavam.
Sexos que davam e recebiam prazer.
Cérebros e corações que pensavam. Batiam.
E gostavam de viver.

Agora.
São apenas pedaços de carne ensanguentada
que começam a apodrecer
e vão a enterrar.

Mas era carne que vivia. Corpos que sentiam.
Com sangue – veias – artérias – inteligência – livre arbítrio e opção
transformados em carne de canhão.
É gente como nós que morre na guerra.
Crianças que não entendem nada de nada.
Jovens. Muitos jovens, na plenitude da vida
(nas guerras, são sempre os jovens que mais sofrem,
justamente aqueles que ainda não viveram).
Homens e mulheres que têm tudo para dar.
E velhos e doentes.
Gente de carne e osso
milhares de seres humanos
Com olhos – narizes – braços – pernas – seios e sexos.

Há explicações para a guerra?
Ferir – matar – torturar... Porquê?
Por ambição?
Porque ter raiva e ódio de quem nem se conhece?
Porque semear tristezas e destruição?

Conheço as respostas mas não me dizem nada.
Democracia – liberdade – honra – dever – patriotismo
são palavras bonitas
mas não justificam transformar seres humanos
em carne de canhão!

Apalpem-se, senhores que fazem a guerra,
e pensem
é carne igual à vossa. Sensível. Macia.
Carne que tem vida
transformada, por vossa causa, em carne retalhada
membros amputados e chagas sangrando.
São mortes de corpos irreconhecíveis
uivando!

São milhares de seres humanos
que não sabem sequer porque mataram ou morreram.

Jogados como bichos, numa vala.
Reduzidos a um número.
A uma saudade.
Ao nada.

Que posso fazer contra a guerra
senão falar – gritar – escrever?
Que posso eu, que não sou ninguém,
dizer em favor da paz?
Apenas repetir, enquanto tiver forças,
não há carne de canhão
apenas seres humanos!
Carne que sente. Carne que sofre.
Gente que quer viver
e a guerra leva à morte.


Maria de Lourdes Brandão
, 'Vivências'


segunda-feira, 22 de abril de 2024

"A Terra" - Poema de Ary dos Santos



Charles Angrand (French artist, 1854–1926), The Harvesters, 1892,
Museum of Fine Arts, Houston
.


A Terra

 
É da terra sangrenta. Terra braço
terra encharcada em raiva e em suor
que o homem pouco a pouco passo a passo
tira a matéria-prima do amor.

Umas vezes o trigo loiro e cheio
outras o carvão negro e faiscante
umas vezes petróleo outras centeio
mas sempre tudo menos que o bastante.

Porque a terra não é de quem a trabalha
porque o trigo não é de quem semeia
e um trabalhador apenas falha
quando faz filhos em mulher alheia.

Quando o estrume das lágrimas chegar
para adubar os vales da revolta
quando um mineiro puder respirar
com as narinas dum cavalo à solta

quando o minério se puder tornar
semente viva de bem-estar e pão
quando o silêncio se puder calar
e um homem livre nunca dizer não.

Quando chegar o dia em que o trabalho
for apenas dar mais ao nosso irmão
quando a fúria da força que há num malho
fizer soltar faíscas de razão.

Quando o tempo do aço for o tempo
da têmpera dos homens caldeados
por pó e chuva por excremento e vento
mas por sua vontade libertados.

Quando a seiva do homem lhe escorrer
por entre as pernas como sangue novo
e quando a cada filho que fizer
puder chamar em vez de Pedro Povo.

As entranhas da terra hão de passar
o tempo da humana gestação
e parir como um rio a rebentar
o corpo imenso da Revolução. 
 

Ary dos Santos, in “Obra Poética”,
Lisboa, Ed. Avante, 1994.
 
 
Ary dos Santos,“Obra Poética” - Ano de edição: 10-2017
Editor: Editorial Avante
 
 
 
SINOPSE

José Carlos Ary dos Santos (1937-1984) foi um grande poeta e um enorme declamador. Os seus poemas e canções, de uma imensa riqueza simbólica, farão para sempre parte do património cultural nacional. Militante do Partido Comunista Português de 1969 até à sua morte, foi justamente apelidado de «Poeta de Lisboa e do seu povo, de Portugal e de Abril».
As Edições «Avante!», no ano em que José Carlos Ary dos Santos faria 80 anos de idade, reeditam as antologias Obra Poética e As Palavras das Cantigas, como dois volumes de uma obra ao mesmo tempo popular e erudita, com iguais doses de amor e de luta. (daqui)

Charles Angrand (French artist, 1854–1926), Wheat, Pastel drawing.
 

"O objetivo principal da agricultura não é cultivar lavouras, mas o cultivo e aperfeiçoamento dos seres humanos." 
 
"The ultimate goal of farming is not the growing of crops, but the cultivation and perfection of human beings."

Masanobu Fukuoka
, The One-Straw Revolution,
Published by: Other India Press, Mapusa, Goa, India, 8 edição. 2001, p. 119. 
 
 
Charles Angrand, The Harvest, 1890
 
 
 "Meu desejo mais profundo é semear sementes no deserto. Reverter os desertos é semear no coração das pessoas."
 
"My ultimate dream is to sow seeds in the desert. To revegetate the deserts is to sow seed in people's hearts."
 
Masanobu Fukuoka, The Road Back to Nature, tradução para o inglês por Frederic P. Metreaud, 
Japan Publications, 1987 - 377 páginas, p. 360.
 
 
Masanobu Fukuoka, criador do conceito de Agricultura natural.


Masanobu Fukuoka (2 de fevereiro de 1913 - 16 de agosto de 2008) foi um agricultor e microbiólogo japonês, autor das obras A Revolução de uma folha de Palha e A Senda Natural do Cultivo, onde apresenta suas propostas para o plantio direto assim como uma forma de agricultura que é conhecida por agricultura selvagem ou método Fukuoka.

Nos últimos 70-80 anos (desde a década de 40) utilizou o seu método para florestar zonas com tendência a desertificação. Na Tailândia, nas Filipinas, na Índia e em alguns países africanos transformou pequenas regiões desertificadas em áreas verdes. Também iniciou um projeto de reflorestamento na Grécia. Em 1988, recebeu o Prémio Magsaysay (Prémio Nobel da Paz no Extremo Oriente) por sua contribuição para o bem da humanidade. (daqui)
 

sábado, 10 de setembro de 2022

"O Voo" - Poema de Menotti Del Picchia



Charles Angrand (French artist, 1854–1926), The Western Railway at its Exit from Paris, 1886 
 


O Voo


Goza a euforia do voo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento,
desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o
de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu voo te leva sempre
para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão
se pressentires que amanhã estarás mudo
esgota, como um pássaro, as canções que tens
na garganta.
Canta. Canta para conservar a ilusão de festa e
de vitória.

Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste não és mais que um voo no tempo.
Rumo ao céu?
Que importa a rota.
Voa e canta enquanto resistirem as asas.

 
 "O Deus sem Rosto", de 1968.
 

Charles Angrand (French artist, 1854–1926), Couple in the street, 1887,
Musée d'Orsay, canvas, 38.5 x 33.0 cm.  
 

Neoimpressionismo é um termo criado pelo crítico de arte francês Félix Fénéon (1861-1944) em 1886 ao ver a obra Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, de Georges Seurat (1859-1891), considerado líder do período, em uma exposição da Société des Artistes Indépendants (Salon des Indépendants) em Paris. A França passava por um período de avanços tecnológicos e os pintores estavam buscando novos métodos. Os seguidores do neoimpressionismo, em particular, foram atraídos para cenas urbanas modernas, bem como paisagens e praias. A interpretação baseada na ciência de linhas e cores influenciou a caracterização de sua arte. As técnicas pontilhistas e divisionistas são muitas vezes mencionadas ao se falar neste movimento, pois eram as técnicas dominantes em seu início. (Daqui )    

 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

"Vírgula" - Poema de António Maria Lisboa


Georges Seurat, 1889-90, Le Chahut, óleo sobre tela, 170 x 141 cm, 


Vírgula 


Eu menino às onze horas e trinta minutos 
a procurar o dia em que não te fale 
feito de resistências e ameaças — Este mundo 
compreende tanto no meio em que vive 
tanto no que devemos pensar. 

A experiência o contrário da raiz originária aliás 
demasiado formal para que se possa acreditar 
no mais rigoroso sentido da palavra. 

Tanta metafísica eu e tu 
que já não acreditamos como antes 
diferentes daquilo que entendem os filósofos 
— constitui uma realidade 
que não consegue dominar (nem ele próprio) 
as forças primitivas 
quando já se tem pretendido ordens à vida humana 
em conflito com outras surge agora 
a necessidade dos oásis perdidos. 

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo 
e a custo na imensidão da desordem 
a que terão de ser constantemente arrancadas 
— são da máxima importância as velhas concepções pois 
a cada momento corremos grandes riscos 
desconcertantes e de sinistra estranheza. 

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida. 
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano 
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem 
como o frágil véu que nos separa vedados e proibidos. 


 in "Ossóptico e Outros Poemas"


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

"A Palavra" - Poema de Eduardo White


Maximilien Luce, Morning, Interior, 1890. The painting represents Gustave Perrot, a close friend of Luce
 and a fellow Neo-Impressionist. Oil on canvas, 64.8 x 81 cm. Metropolitan Museum of Art, New York 


A Palavra


A palavra renova-se no poema.
Ganha cor,
ganha corpo,
ganha mensagem.

A palavra no poema não é estática,
pois, inteira e nua se assume
no perfeito,
no perpétuo movimento
da incógnita que a adoça.

A palavra madura é espetáculo.
Canta.
Vive.
E respira. Para tudo isso
basta
uma mão inteligente que a trabalhe,
lhe dê a dimensão do necessário
e do sentido
e lhe amaine sobre o dorso
o animal que nela dorme destemido.

A palavra é ave
migratória,
é cabo de enxada,
é fuzil, é torno de operário,
a palavra é ferida que sangra,
é navalha que mata,
é sonho que se dissipa,
visão de vidente.

A palavra é assim tantas vezes
dia claro
sinal de paisagem
e por isso é que à palavra se dá,
inteiramente,
um bom poeta
com os seus sonhos,
com os seus fantasmas,
com os seus medos 
e as suas coragens,
porque é na palavra que muitas vezes está,
perdido ou escondido,
o outro homem que no poeta reside.


 (1963-2014)


Eduardo Costley White por Bruno Mikahil


Escritor moçambicano, Eduardo Costley White nasceu em Quelimane (Moçambique), a 21 de novembro de 1963 e faleceu a 24 de agosto de 2014.
Após uma formação durante três anos no Instituto Industrial, o escritor exerceu funções diretivas numa empresa comercial, foi membro do Conselho de Coordenação da revista "Charrua" e dirigente da Associação de Escritores de Moçambique.
Numa preocupação com as origens, Eduardo White tenta na sua poesia refletir sobre a sua história e sobre Moçambique, numa tentativa de apagar as marcas da guerra e de dignificar a vida humana. Para isso, escreve através de um amor diversificado que pode ser pela amada, pela terra ou mesmo pela própria poesia, sempre num tom de ternura, de onirismo, de musicalidade e, por vezes, de erotismo. (Daqui)

Livros publicados
  • Amar sobre o Índico (1984)
  • Homoíne (1987)
  • “País de Mim (1990); Prémio Gazeta revista Tempo
  • Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave (1992); Prémio Nacional de Poesia
  • Os Materiais de Amor Seguido de o Desafio à Tristeza (1996)
  • Janela para Oriente (1999)
  • Dormir com Deus e um Navio na Língua (2001); bilingue português/inglês; Prémio Consagração Rui de Noronha (Editora Labirinto)
  • As Falas do Escorpião (novela; 2002)
  • O Homem a Sombra e a Flor e Algumas Cartas do Interior (2004)
  • O Manual das Mãos (2004); Grande Prémio de Literatura José Craveirinha, Prémio TVZine para Literatura
  • Até Amanhã Coração (2007)
  • Dos Limões Amarelos do Falo, às Laranjas Vermelhas da Vulva (2009); Prémio Cores da Escrita
  • Nudos (2011), Antologia da sua obra poética
  • O Libreto da Miséria (2010-2012)
  • A Mecânica Lunar e A Escrita Desassossegada (2012)
  • O Poeta Diarista e os Ascetas Desiluminados (2012) Prémio Glória de Sant’Anna
  • Bom Dia, Dia (2014)

sábado, 12 de julho de 2014

"Noite Apressada" - Poema de David Mourão-Ferreira


Camille Pissarro, Boulevard Montmartre la nuit, 1898



Noite Apressada 


Era uma noite apressada
depois de um dia tão lento.
Era uma rosa encarnada
aberta nesse momento.
Era uma boca fechada
sob a mordaça de um lenço.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a casa perdida
no meio do vendaval;
imensa, a linha da vida
no seu desenho mortal;
imensa, na despedida,
a certeza do final.

Era uma haste inclinada
sob o capricho do vento.
Era a minh'alma, dobrada,
dentro do teu pensamento.
Era uma igreja assaltada,
mas que cheirava a incenso.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a luz proibida
no centro da catedral;
imensa, a voz diluída
além do bem e do mal;
imensa, por toda a vida,
uma descrença total!


in "À Guitarra e à Viola"


David Mourão-Ferreira


David Mourão-Ferreira, escritor português, nasceu em Lisboa, em 1927 e morreu, também nesta cidade, em 1996. Licenciou-se em Filologia Românica em Lisboa, onde chegou a ser professor catedrático, organizando e regendo, entre outras, a cadeira de Teoria da Literatura. Foi secretário de Estado da Cultura, entre 1976 e 1979; diretor do diário A Capital; diretor do Boletim Cultural do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian, entre 1984 e 1996; diretor da revista Colóquio/Letras; presidente da Associação Portuguesa de Escritores (1984-86) e vice-Presidente da Association Internationale des Critiques Littéraires. A sua obra reparte-se pela poesia; pela crítica literária, como Os Ócios do Ofício, Vinte Poetas Contemporâneos, Hospital das Letras ou Lâmpadas no Escuro (de Herculano a Torga); pelo ensaio; pela tradução; pelo teatro; pelo romance; e também pelo jornalismo. Embora os seus primeiros poemas datem de meados dos anos 40, a sua atividade poética começou a ganhar relevo quando foi codiretor, a par com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo, da revista Távola Redonda (1950-1954), que, sem apresentar programa ou manifesto, se orientava para uma alternativa poética à poesia social, baseada na "revalorização do lirismo", exigindo ao poeta "autenticidade e um mínimo de consciência técnica, a criação em liberdade e, também, a diligência e capacidade de admirar, criticamente, os grandes poetas portugueses de gerações anteriores a 1950. Sem reservas ideológicas ou preconceitos de ordem estética" (VIANA, António Manuel Couto - "Breve Historial" in As Folhas Poesia Távola Redonda, Boletim Cultural da F. C. G., VI série, n.º 11, outubro de 1988), atributos a que acresciam como exigências a reação contra a "imediatez da inspiração e contra o impuro aproveitamento da poesia para fins sociais", através do equilíbrio "entre os motivos e a técnica, entre os temas e as formas" (cf. MOURÃO-FERREIRA, David - "Notícia sobre a Távola Redonda" in Estrada Larga 3, p. 392). Foi no primeiro volume da Coleção de Poesia das Edições "Távola Redonda" que publicou a sua primeira obra poética, A Secreta Viagem, onde se encontram reunidos alguns dos traços que distinguiriam a sua poética posterior, nomeadamente a preferência pela temática amorosa, o rigor formal, a continuidade e renovação da lírica tradicional como, por exemplo, a de inspiração camoniana, ou a abertura a experiências poéticas estrangeiras. No poema "Dos Anos Quarenta", relembra leituras nessa etapa de iniciação poética: Proust, Thomas Mann, Rilke, Apollinaire, a "constelação pessoana", Álvaro de Campos, "E Régio Miguéis Nemésio", bem como as circunstâncias que rodearam essa descoberta, como o "despertar do deus Eros", a guerra, a queda dos fascismos e a perseverança da ditadura salazarista.
Da sua obra poética, cuja poesia se distingue pelo lirismo culto, depurado e subtil, destacam-se os seguintes livros: A Secreta Viagem, Do Tempo ao Coração, Cancioneiro do Natal, Matura Idade e Ode à Música.
A obra de David Mourão-Ferreira foi várias vezes reconhecida com prémios literários, como, por exemplo: Prémio de Poesia Delfim Guimarães, 1954, para Tempestade de verão; Prémio Ricardo Malheiros, 1960, para Gaivotas em Terra; Prémio Nacional de Poesia, 1971, para Cancioneiro de Natal; Prémio da Crítica da Associação Internacional dos Críticos Literários para As Quatro Estações; e, para Um Amor Feliz, os prémios de Narrativa do Pen Clube Português, D. Dinis, de Ficção do Município de Lisboa e o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Ao autor foi ainda atribuído, em 1996, o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.

David Mourão-Ferreira. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-12].


 
Vida e Obra de Camille Pissarro
Camille Pissarro, Self-portrait, 1873


Jacob Abraham Camille Pissarro (Charlotte Amalie, na ilha de São Tomás nas Índias Ocidentais Dinamarquesas, hoje Ilhas Virgens Americanas, 10 de Julho de 1830 — Paris, 13 de Novembro de 1903) foi um pintor francês, co-fundador do impressionismo, e o único que participou nas oito exposições do grupo (1874-1886).


 Camille Pissarro, Self-portrait, 1898


Seu pai, Abraham Frederic Gabriel Pissarro, era português criptojudeu de Bragança, que, no final do século XVIII, quando ainda pequeno, emigrara com a sua família para Bordéus, onde na altura existia uma comunidade significativa de judeus portugueses refugiados da Inquisição. A mãe dele era crioula e tinha o nome Rachel Manzano-Pomie.


Camille Pissarro, Self-portrait, 1903, Tate Gallery, London


Camille Pissarro, Two Women Chatting by the Sea, St. Thomas, 1856


Com 11 anos Camille Pissarro foi enviado a Paris para estudar num colégio interno. Voltou para a ilha São Tomás, a fim de tomar conta do negócio da família. Algum tempo depois, a sua paixão pela pintura fê-lo mudar de vida: fez em 1852 amizade com o pintor dinamarquês, Fritz Melbye e a oportunidade de concretizar seu sonho surgiu com um convite para acompanhar uma expedição do Fritz Melbye, enviado pelo governo das Antilhas Dinamarquesas, para estudar a fauna e a flora da Venezuela, onde passou dois anos.


Camille Pissarro et sa femme Julie Vellay,  en 1877, à Pontoise


Pissarro conquistou sua liberdade aos 23 anos. Em 1855, ele já estava em Paris com ajuda de Melbye, tentando iniciar sua carreira. O jovem antilhano fascinou-se com as telas de Camille Corot e travou amizade com Paul Cézanne, Claude Monet, Charles-François Daubigny, entre outros pintores impressionistas. Com Monet passou a sair para pintar ao ar livre, em Pontoise e Louvenciennes. Em 1861 casou com Julie Vellay, com quem teve oito filhos.


Camille Pissarro, Le verger (The Orchard), 1872


No decorrer da guerra franco-prussiana (1870-1871), na qual praticamente todos os seus quadros foram destruídos, residiu em Inglaterra. Quando voltou, começou a pintar na companhia de Cézanne


 Camille Pissarro, The garden of Pontoise, 1875


Com o objetivo de descobrir novas formas de expressão, Pissarro foi um dos primeiros impressionistas a recorrer à técnica da divisão das cores através da utilização de manchas de cor isoladas – o seu quadro "The Garden of Les Mathurins at Pontoise" (1876) é um exemplo.


Camille Pissarro, "The Garden of Les Mathurins at Pontoise", 1876


Camille Pissarro, "Les toits rouges, coin du village, effet d'hiver", 1877


Em 1877 pintou "Les toits rouges, coin du village, effet d'hiver". Durante os anos 1880 juntou-se a uma nova geração de impressionistas, os "neo-impressionistas", como Georges Seurat e Paul Signac, pintando em 1881 "Jeune fille à la baguette, paysanne assise" e experimentou com o pontilhismo


Camille Pissarro, "Jeune fille à la baguette, paysanne assise", 1881


A partir de 1885, militou nas correntes anarquistas, criticando severamente a sociedade burguesa francesa, deixando-nos "Turpitudes Sociales" (1889), um álbum de desenhos. 


Camille Pissarro, "Capital," from Turpitudes sociales, 1889–1890. 


Nos anos 1890 abandonou gradualmente o "neo-impressionismo", preferindo um estilo mais flexível que melhor lhe permitisse captar as sensações da natureza, ao mesmo tempo que explorou a alteração dos efeitos da luz, tentando também exprimir o dinamismo da cidade moderna, de que são exemplos os vários quadros que pintou com vistas de Paris ("Le Boulevard Montmartre, temps de pluie, après-midi", 1897), Dieppe, Le Havre e Ruão.


Camille Pissarro, Le Boulevard Montmartre, Temps de Pluie, Apres-Midi, 1897.
Oil on canvas.52.5 x 66 cm. Private Collection.

A obra de Pissarro  caracterizou-se por uma paleta de cores cálidas e pela firmeza com que consegue captar a atmosfera, por meio de um trabalho preciso da luz. Seu material predileto foi o óleo, mas também fez experiências com aguarelas e pastel. A estrutura dos quadros de Pissarro encontra total correspondência na obra de Cézanne, já que foi mútua a influência entre ambos. Como professor teve como alunos Paul Gauguin e seu filho Lucien Pissarro. Ao jovem Gauguin aconselhou a utilização das cores - esses conselhos surtiram efeito e Gauguin começa a utilizar a cor no seu estado puro.


Camille Pissarro, Les chataigniers a Osny (The Chestnut Trees at Osny), 1873


Durante seus últimos anos, realizou várias viagens pela Europa, em busca de novos temas. Hoje é considerado um dos paisagistas mais importantes do século XIX. Os seus trabalhos mais conhecidos são "Le Verger", "Les châtaigniers à Osny" e "Place du Théâtre Français".
Camille Pissarro morreu a 13 de Novembro de 1903 em Paris. Encontra-se sepultado no Cemitério do Père-Lachaise, Paris na França.


Camille Pissarro, "Place du Théâtre Français", 1898

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A arte de Ben Heine: Circulismo Digital


Marilyn Monroe - Circlism Digital by Ben Heine


Elvis Presley -  Circlism Digital by Ben Heine


Lady Gaga - Circlism Digital by Ben Heine


Bob Marley - Circlism Digital by Ben Heine 


Mad Hatter, Johnny Depp - Circlism Digital by Ben Heine


Steve Jobs - Circlism Digital by Ben Heine


Freddie Mercury -  Circlism Digital by Ben Heine  


She is My Mona Lisa - Circlism Digital by Ben Heine


Eminem - Circlism Digital by Ben Heine




Remembering What I Am - Circlism Digital by Ben Heine


Ben Heine, Self-Portrait


 Ben Heine,  Self-Portrait


Ben Heine, nascido em 12 de junho de 1983 em Abidjan, Costa do Marfim, é um artista belga multidisciplinar. Começou como pintor e cartunista político, mas tornou-se mais conhecido em 2011 devido aos seus projetos, "Lápis Vs Câmera" e "Digital Circlism
Ben Heine cria retratos detalhados de celebridades como Marilyn Monroe, Steve Jobs, Eminem, Bob Marley, Elvis Presley, etc., usando milhares de círculos. Essa técnica original que mistura o pontilhismo com a Pop Art chama-se "Digital Circlism" 
Usando o Photoshop CS4, Ben Heine aplica milhares de círculos num fundo preto, até criar um retrato colorido, realista. Cada círculo tem um tom, uma cor e tamanho diferente, o que torna demorada a criação de uma única obra de arte. 
  Para saber mais: benheine.com
 
 

sábado, 17 de março de 2012

"Minha alma é triste" - Poema de Casimiro de Abreu


Maximilien Luce (1858 -1941), Man Washing, 1887
 


Minha alma é triste


Minh'alma é triste como a rola aflita 
Que o bosque acorda desde o alvor da aurora, 
E em doce arrulo que o soluço imita 
O morto esposo gemedora chora. 

E, como a rola que perdeu o esposo, 
Minh'alma chora as ilusões perdidas, 
E no seu livro de fanado gozo 
Relê as folhas que já foram lidas. 

E como notas de chorosa endeixa 
Seu pobre canto com a dor desmaia, 
E seus gemidos são iguais à queixa 
Que a vaga solta quando beija a praia. 

Como a criança que banhada em prantos 
Procura o brinco que levou-lhe o rio, 
Minha'alma quer ressuscitar nos cantos 
Um só dos lírios que murchou o estio. 

Dizem que há, gozos nas mundanas galas, 
Mas eu não sei em que o prazer consiste. 
— Ou só no campo, ou no rumor das salas, 
Não sei porque — mas a minh'alma é triste! 

Minh'alma é triste como a voz do sino 
Carpindo o morto sobre a laje fria; 
E doce e grave qual no templo um hino, 
Ou como a prece ao desmaiar do dia. 

Se passa um bote com as velas soltas, 
Minh'alma o segue n'amplidão dos mares; 
E longas horas acompanha as voltas 
Das andorinhas recortando os ares. 

Às vezes, louca, num cismar perdida, 
Minh'alma triste vai vagando à toa, 
Bem como a folha que do sul batida 
Bóia nas águas de gentil lagoa! 

E como a rola que em sentida queixa 
O bosque acorda desde o albor da aurora, 
Minha'alma em notas de chorosa endeixa 
Lamenta os sonhos que já tive outrora. 

Dizem que há gozos no correr dos anos!... 
Só eu não sei em que o prazer consiste. 
— Pobre ludíbrio de cruéis enganos, 
Perdi os risos — a minh'alma é triste! 

Minh'alma é triste como a flor que morre 
Pendida à beira do riacho ingrato; 
Nem beijos dá-lhe a viração que corre, 
Nem doce canto o sabiá do mato! 

E como a flor que solitária pende 
Sem ter carícias no voar da brisa, 
Minh'alma murcha, mas ninguém entende 
Que a pobrezinha só de amor precisa! 

Amei outrora com amor bem santo 
Os negros olhos de gentil donzela, 
Mas dessa fronte de sublime encanto 
Outro tirou a virginal capela. 

Oh! quantas vezes a prendi nos braços! 
Que o diga e fale o laranjal florido! 
Se mão de ferro espedaçou dois laços 
Ambos choramos mas num só gemido! 

Dizem que há gozos no viver d'amores, 
Só eu não sei em que o prazer consiste! 
— Eu vejo o mundo na estação das flores 
Tudo sorri — mas a minh'alma é triste! 

Minh'alma é triste como o grito agudo 
Das arapongas no sertão deserto; 
E como o nauta sobre o mar sanhudo, 
Longe da praia que julgou tão perto! 

A mocidade no sonhar florida 
Em mim foi beijo de lasciva virgem: 
— Pulava o sangue e me fervia a vida, 
Ardendo a fronte em bacanal vertigem. 

De tanto fogo tinha a mente cheia!... 
No afã da glória me atirei com ânsia... 
E, perto ou longe, quis beijar a sereia 
Que em doce canto me atraiu na infância. 

Ai! loucos sonhos de mancebo ardente! 
Esperanças altas... Ei-las já tão rasas!... 
— Pombo selvagem, quis voar contente... 
Feriu-me a bala no bater das asas! 

Dizem que há gozos no correr da vida... 
Só eu não sei em que o prazer consiste! 
— No amor, na glória, na mundana lida, 
Foram-se as flores — a minh'alma é triste!


Casimiro de Abreu (1839-1860), poeta romântico brasileiro.
 


Miranda Lambert - New Strings



“As bibliotecas são fascinantes: às vezes parece-nos estar sob a marquise de uma estação ferroviária e, consultando livros sobre terras exóticas, tem-se a impressão de viajar a paragens longínquas”. - Umberto Eco