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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

"Não desafies a alegria" - Poema de João José Cochofel



George Segal (American sculptor and painter, n. 1924),
Helen in Wicker Rocker, 1978



Não desafies


Não desafies 
a alegria.

Quando ela chegar 
um instante só 
não lhe perguntes 
porquê?

Estende as mãos ávidas 
para o calor
da cinza fria.


João José Cochofel, in 'Breve' 
 


George Segal (American sculptor and painter, n. 1924), Untitled


«Não se pode ensinar alguém a amar a grande poesia quando esse alguém chega até nós sem esse amor. Como é que se pode ensinar a solidão?»


Harold Bloom, in O Cânone Ocidental,
Tradução de Manuel Frias Martins



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

"Acendem-se as Luzes" - Poema de João José Cochofel


Marcel Rieder (French painter, 1862–1942), Songeuse devant la cheminée, 1932.
 


Acendem-se as Luzes


Acendem-se as luzes 
nas ruas da cidade. 

Ainda há claridade 
ao alto das cruzes 
da igreja da praça 
e para lá dos telhados 
já meio esfumados 
na mesma cor baça 
do casario velho 
que recobre a encosta 
e mal entremostra 
as cores de Botelho, 
sobranceiro à massa 
fluida e movente 
das cordas de gente 
por onde perpassa 
um ar de alegria 
que é do tempo quente 
e deste andar contente 
que no fim do dia 
leva para casa, 
a paz das varandas, 
o álcool das locandas, 
tanta vida rasa 
minha semelhante. 
Solidão povoada 
que a tarde cansada 
suspende um instante 
ao acender das luzes. 

Em cada olhar uma rosa 
de propósito formosa 
para que a uses. 




Marcel Rieder, Two women on veranda overlooking the sea.


"Através do teu coração passou um barco
que não pára de seguir sem ti o seu caminho." 


Sophia de Mello Breyner Andresen, Navegações, 1983.


sábado, 2 de julho de 2016

"O Verão estala por todos os poros" - Poema de João José Cochofel



Émile Munier (French academic artist, 1840–1895),
'Girl with Basket of Cherries', 1877.


O Verão estala por todos os poros


O Verão estala por todos os poros
da casca das árvores,
da língua dos cães,
das asas das cigarras,
do bico do peito das mulheres
tão acerado
que rasga o céu de calor
com um golpe preciso
de lanceta.


João José Cochofel, in 'Quatro Andamentos', 1964;
in 'Obra Poética',  Lisboa, Caminho, 1988.



Émile Munier, 'May I Have One Too', 1880.



«Não posso ver, hoje, a fome crescente e a chacina entre nações sem comoção. E a emoção pelos seres, pelos outros, pela natureza, pelo Cosmos, gera o poema.»

Fiama Hasse Pais Brandão