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segunda-feira, 8 de setembro de 2025

"Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra" - Poema de Álvaro de Campos



Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Vista de Sintra, s.d.



Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra


Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir? 

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa? 
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...

11-5-1928

Álvaro de Campos

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. 
Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 37.


Mota Urgeiro, Sintra, óleo s/tela, 70 x 90 cm.
 

"Tudo em Sintra é divino, não há cantinho que não seja um poema."

Eça de Queiroz
, no livro "Os Maias."
 


Mota Urgeiro, Palácio da Pena - Sintra, óleo s/tela, 70 x 90 cm.
 

"Sintra daria um bom paraíso no caso de Deus fazer outra tentativa!"

José Saramago, no livro "Memorial do Convento."
 

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

"A minha terra é Viana" - Poema de Pedro Homem de Mello

 

 
Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Santuário de Santa Luzia, Viana do Castelo, s.d.



A minha terra é Viana


A minha terra é Viana
Sou do monte e sou do mar
Só dou o nome de terra
Onde o da minha chegar; 
Ó minha terra vestida
Da cor da folha da rosa
Ó brancos saios de Perre
Vermelhinhos de Areosa.

Virei costas à Galiza
Voltei-me antes para o mar
Santa Marta, saias negras
Tem vidrilhos de luar.

Dancei a Gota em Carreço
O Verde Gaio em Afife
Dancei-o devagarinho
Como a lei manda bailar; 
Como a lei manda bailar
Dancei em Vile a Tirana
E dancei em todo o Minho
E quem diz Minho diz Viana.

Virei costas à Galiza
Voltei-me então para o Sul
Santa Marta, saias verdes
Deram-lhe o nome de azul.

A minha terra é Viana
São estas ruas estreitas
São os navios que partem
E são as pedras que ficam;
É este sol que me abrasa
Este amor que não engana
Estas sombras que me assustam
A minha terra é Viana.

Virei costas à Galiza
Pus-me a remar contra o vento
Santa Marta, saias rubras
Da cor do meu pensamento.


Pedro Homem de Melo
, in Segredo, 1953.
Lello & Irmão - Editores, Porto.

["A minha terra é Viana" e "Havemos de ir a Viana" são dois poemas de Pedro Homem de Mello (1904-1984), notáveis por terem sido imortalizados na voz de Amália Rodrigues. Amália, com sua interpretação única, deu voz e alma a esses versos, tornando-os símbolos da ligação entre o poeta e a cidade de Viana do Castelo.]



Alfredo de Morais
(Ilustrador português, 1872 - 1971), "Feira d'Agonia", s.d.
(Romaria de Nossa Senhora da Agonia) - Viana do Castelo
Portugal.


Viana do Castelo
  • Aspetos geográficos 
 
Cidade, sede de concelho e capital de distrito, localiza-se na Região Norte (NUT II), no Minho-Lima (NUT III). Fica na margem direita do rio Lima, junto à sua foz, a uma altitude média de cinco metros.

O concelho tem uma área de 319,02 km2, distribuída por 27 freguesias: Afife, Alvarães, Amonde, Anha, Areosa, Barroselas e Carvoeiro, Cardielos e Serreleis, Carreço, Castelo do Neiva, Chafé, Darque, Freixieiro de Soutelo, Geraz do Lima (Santa Maria, Santa Leocádia e Moreira) e Deão, Lanheses, Mazarefes e Vila Fria, Montaria, Mujães, Nogueira, Meixedo e Vilar de Murteda, Outeiro, Perre, Santa Marta de Portuzelo, São Romão de Neiva, Subportela, Deocriste e Portela Susã, Torre e Vila Mou, Viana do Castelo (Santa Maria Maior e Monserrate) e Meadela, Vila de Punhe e Vila Franca. Dista cerca de 70 km do Porto e 390 km de Lisboa.

Em 2021, o município contava com 85 784 habitantes. O natural ou habitante de Viana do Castelo denomina-se vianense ou vianês.

O distrito, situado no extremo Norte do território continental português, no Minho, entre os rios Minho e Neiva, é limitado a norte e leste pela Espanha, a sul pelo distrito de Braga e a oeste pelo oceano Atlântico. Bastante montanhoso, atinge a altitude máxima na serra da Peneda, a 1416 m.

É banhado pelos rios Minho, Âncora, Lima, Neiva e seus afluentes, Coura e Vez. Nas serranias, a vegetação mais significativa é constituída por matas de carvalhos, pinheiros bravos e eucaliptos.

O clima varia conforme a proximidade do mar e a altitude, tornando-se cada vez mais rigoroso à medida que nos afastamos do oceano e que a altitude aumenta. São frequentes os fenómenos de condensação que originam nevoeiros e nebulosidade.

O distrito é marcado pela proximidade de Espanha, pela riqueza dos seus rios e solos e pela sua costa, banhada pelo oceano Atlântico. Fatores físicos que determinam uma forte ligação das gentes à terra, ao rio e também ao mar.

Compreende dez concelhos: Arcos de Valdevez, Caminha, Melgaço, Monção, Paredes de Coura, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Valença, Viana do Castelo e Vila Nova de Cerveira.

O distrito abrange parte do Parque Nacional da Peneda-Gerês, nos concelhos de Ponte da Barca, Melgaço e Arcos de Valdevez.

  • História e Monumentos
 
Povoada desde o Paleolítico, a cidade de Viana do Castelo detém um vasto património histórico. São vários os achados que comprovam a presença da cultura castreja, com destaque para a "cidade velha" de Santa Luzia. A civilização romana também se instalou neste território. Recebeu foral em 1258, outorgado por D. Afonso III, que lhe concedeu categoria de vila, chamando-lhe Viana da Foz do Lima.

Esteve envolvida na dinâmica dos Descobrimentos, assistindo-se a uma intensificação da atividade comercial. Tornou-se cidade em 1848, por decreto de D. Maria II, a qual lhe atribuiu o nome de Viana do Castelo em homenagem à resistência que a guarnição do seu castelo manteve durante o cerco que lhe fez a Junta do Porto, aquando do movimento revolucionário chamado Maria da Fonte. Atualmente, o castelo de Viana não passa de uma relíquia histórica.

Do seu vasto património edificado salienta-se: a Sé, a Igreja Matriz, Igreja de Santa Cruz, a Igreja da Caridade do Convento de Sant'Ana, o portal manuelino de Sant'Ana, as igrejas de S. Bento, de S. Domingos, do Carmo, do Convento de Santo António, da Senhora da Agonia, a capela-mor de S. Domingos, a Capela dos Malheiro Reimão, a fonte alegórica Viana e os quatro continentes, o chafariz da Praça (datado do século XVI), o Hospital da Misericórdia de Viana, os Paços do Concelho, a roqueta (uma das primeiras fortalezas abaluartadas da nossa costa), o Museu Municipal-Casa Barbosa Maciel, a estação do caminho de ferro, as casas da Carreira (com a sua fachada manuelina), dos Sá Sotomaior, dos Malheiro Reimão, dos Costa Barros e dos Melo Alvim.

Nos vários concelhos que compõem o distrito, encontram-se monumentos valiosos, quer pela sua arquitetura, quer pelo papel que desempenharam na defesa das nossas fronteiras. São exemplos: a ponte gótica, de Ponte de Barca; o centro histórico de Caminha, onde se salienta a Igreja Matriz e o forte da Ínsua, no estuário do rio Minho; a fortaleza de Valença; a fortaleza de Monção e o castelo e Igreja Matriz de Melgaço, entre outros.

  • Tradições, Lendas e Curiosidades
O feriado municipal da sede de distrito é a 20 de agosto.

Um pouco por todo o distrito realizam-se festas e romarias como sejam: a Festa da Senhora da Cabeça, na terça-feira de Páscoa; a Festa da Senhora das Dores e a Festa da Coca no dia do Corpo de Deus, em Monção; em agosto, as festas do concelho de Arcos de Valdevez, Santa Rita de Cássia em Caminha, a romaria de São João de Arga, a Festa da Cultura em Melgaço, a Senhora do Faro, a Bienal de Arte e festas concelhias em Vila Nova de Cerveira; em setembro, as Feiras Novas em Ponte de Lima e a Festa dos Homens do Mar em Vila Praia de Âncora.

Da tradição do concelho de Monção, faz parte a referida Festa da Coca, consistindo na recriação da lenda popular do combate entre S. Jorge e o dragão (a coca). Em Melgaço, o destaque vai para a lenda da Inês Negra. A cultura popular integra também várias lendas de mouras encantadas.

O artesanato apresenta uma produção importante a nível do distrito. A latoaria é uma das produções artesanais, com o fabrico de candeias e vasilhame. Uma das especialidades deste concelho são as artes do calçado - manufatura de chancas e socos. A confeção de adornos com flores, bordados, tapetes para procissões, arcos de romarias e palmitos está também bem patente nas artes desta região.

São também conhecidos os linhos e a cestaria, nomeadamente em Arcos de Valdevez, os trabalhos em cobre e estanho de Caminha, a olaria, os artigos feitos em palha, os jugos de Monção, as mantas e trapos de Melgaço, a fiação de lã, a talha, o fabrico de redes e barcos de pesca e a pirotecnia.

  • Economia
 
A tradicional agricultura minhota, praticada em pequenos campos, seguindo técnicas por vezes ainda muito artesanais, com o domínio da policultura, assume uma importância considerável nos vários concelhos que compõem o distrito.

Nos vales cultiva-se milho, legumes e vinha - o famoso vinho verde, de características únicas, é um dos produtos da região mais apreciados e exportados. À prática agrícola encontra-se normalmente associada à criação de gado, sobretudo bovino, salientando-se as raças galega e barrosã.

O setor secundário demonstra uma dinâmica assinalável. No distrito existem indústrias de laticínios, de transformação de madeiras, cerâmica, produtos alimentares e pirotecnia.

A construção civil contribui também para o desenvolvimento económico. A atividade piscatória é outra das suas riquezas, assente na riqueza piscícola dos seus rios, na sua maior parte ainda libertos do flagelo da poluição, onde ainda se pescam sáveis, salmões, lampreias e outras espécies cada vez mais raras.

O estado de conservação do seu património ambiental, a sua riqueza faunística e florística e a diversidade biogeográfica têm sido fatores determinantes para a afirmação do turismo rural, de montanha, de veraneio à beira-mar e até mesmo termal, no caso de Monção.

Paralelamente, assiste-se um pouco por todos os concelhos à expansão do setor terciário, com o crescimento do comércio e criação de serviços essenciais ao bem-estar da população. (daqui)
 

domingo, 6 de julho de 2025

"Dois anos depois, o peso do mundo" - Poema de José Manuel Barroso

 
Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Farol de Santa Marta - Cascais, s.d.
Óleo sobre contraplacado
 
 
Dois anos depois, o peso do mundo


Não é apenas aos sábados e domingos 
que sinto o peso do mundo nos pulmões 
às segundas feiras ainda respiro o ar 
que sobrou do fim de semana

seria muito menos pesado 
ter um arco íris nos olhos 
ou andar sonhando memórias 
pelas ruas da cidade ou atiçar um forno 
com pão quente ao meio dia

mas reparo que o céu anda veloz 
sobre a minha cabeça. Preciso dos poetas 
antes que despontem os ciprestes 
nas janelas dos gritos aprisionados. 


José Manuel Barroso


José Manuel Barroso (daqui)

José Manuel Barroso
nasceu em 1943, na vila das Lajes do Pico, Açores. Destacou-se como jornalista, sobretudo nas áreas de política e história, tendo trabalhado em diversos jornais: República, Jornal Novo, Diário de Lisboa, Diário de Notícias, O Primeiro de Janeiro, Comércio do Funchal e O Jornal. Foi diretor de O Primeiro de Janeiro e no Diário de Notícias foi editor executivo/ Porto, grande repórter, editor e diretor interino.
Dirigiu as agências noticiosas ANOP, NP e Lusa (da qual foi também presidente). Ganhou o Grande Prémio de Jornalismo do Clube Português de Imprensa. Serviu na Guiné, como capitão miliciano, tendo sido assessor de comunicação do general António de Spínola. Foi membro do Movimento das Forças Armadas (MFA) e publicou um livro sobre a Revolução de 1974, «Segredos de Abril». Foi condecorado pelo Presidente da República, em 2021, com o grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade. Escreve poesia desde abril de 2020, tendo publicado no final de 2022 um volume de poemas, «Se Ficares Conto-te o meu Sonho» (com edição Humus). Participou nos festivais de literatura do Douro, de Ovar e de Avis. Em 2024 ganhou o Prémio de Conto da Aveiro Capital Portuguesa da Cultura. (daqui)
 

 
Mota Urgeiro, Baía de Cascais, s.d.

 
"Jornalista é peixinho de aquário: colorido e faz gracinhas. O escritor é o peixe de mar profundo. O sol não entra, mas ele tem o oceano todo."

Carlos Heitor Cony 
 Fonte: Revista ISTO É. Edição n. 1786.











sábado, 8 de fevereiro de 2025

"Que pena não ser eu " - Poema de José Gomes Ferreira


Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Costa d'Oiro, Lagos, Algarve, s.d.

 

Que pena não ser eu


Que pena não ser eu um dos primeiros
homens a inventar as palavras,
para criar a verdade!

Encontrei-as já todas feitas
umas doces, outras amargas,
estas rudes, aquelas imperfeitas,
acasos de som
– mar de espuma de gaivotas e vagas.

Com este cheiro tão bom
a realidade.


José Gomes Ferreira
(Escritor e poeta português, 1900 - 1985) 
 

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

"Não nasci por acaso nestas pedras" - Poema de José Gomes Ferreira


Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Porto, Avenida dos Aliados, s.d.


  Poema


(O Eugénio de Andrade espera-me num Café.
Atravesso as ruas do Porto – a cidade onde nasci – 
com os punhos cerrados de dor.) 


Não nasci por acaso nestas pedras
mas para aprender dureza,
lume excedido,
coragem de mãos lúcidas.

Aqui no avesso da construção dos tempos
a palavra liberdade
é menos secreta.

Anda nos olhos da rua
pega lanças aos gestos,
tira punhais das lágrimas,
conclui as manhãs.

E principalmente
não cheira a museu azedo
ou musgo embalado
pela chuva da boca dos mortos.

Começa nos cabelos das crianças
para me sentir mais nascido nestas pedras.

Porto
– cidade de luz de granito.

Tristeza de luz viril
com punhos de grito.


José Gomes Ferreira
,
"Daqui houve nome Portugal" - Antologia de verso e prosa sobre o Porto,
organizada e prefaciada por
Eugénio de Andrade,
Editorial Inova, 1968.
 


Mota Urgeiro, Mercado da Ribeira, Porto, s.d..
 
 
"O Porto ergue-se em anfiteatro sobre o esteiro do Douro e reclina-se no seu leito de granito. Guardador de três províncias e tendo nas mãos as chaves dos haveres delas, o seu aspeto é severo e altivo, como o de mordomo de casa abastada."
 
Alexandre Herculano (Escritor, historiador, jornalista e poeta português, 1810–1877)
 

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

"Poema" - Cristovam Pavia


Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Azenhas do Mar, s.d.
 

 Poema


Súbitos mergulhadores descendo nas águas inimigas
Com os olhos fitos e os peitos esmagados,
Descendo devagar, ao som lento de segundos vertiginosos como séculos,
Todos nós vos acompanhamos e juntamos todas as nossas forças na mesma meditação.
Aqui, da terra firme,
Entre nuvens e terra,
Entre o suor e o orvalho,
Esperamos o termo com todas as nossas forças.
E sabereis a nossa mensagem:
Só há saída pelo fundo.


Cristóvam Pavia ou Cristovam Pavia,
pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho

 

sábado, 21 de setembro de 2024

"Obsessão" - Poema de Francisco Bugalho

 

 
Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Ribeira de Odivelas - Alentejo.



Obsessão

 
Dentro de mim canta, intenso,
Um cantar que não é meu:
Cantar que ficou suspenso,
Cantar que já se perdeu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido:
Cantar que passa perdido,
Que não é meu estando em mim.

Depois, sonâmbulo, sonho:
Um sonho lento, tristonho,
De nuvens a esfiapar...
E, novamente, no sonho
Passa de novo o cantar...

Sobre um lago, onde em sossego
As águas olham o céu,
Roça a asa de um morcego...
E ao longe o cantar morreu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido...
E este cenário partido
Volta a voltar, repetido,
E o cantar recanta em mim. 

 in "Margens"
 
 
Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Amanhecer no Alentejo.
 

"Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro, quando terminasse: 'Isto é um livro sobre o Alentejo'."


Citado em "José Saramago: il bagaglio dello scrittore‎" - Página 41, de Giulia Lanciani.
Publicado por Bulzoni, 1996 - 256 páginas.
 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

“As noites do Porto” - Poema de Nuno Júdice


Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Entardecer no Porto, s.d.

 
 As noites do Porto

 
Shakespeare podia ter vivido aqui. Podia
ter dançado na noite de S. João, quando o rio
transborda para as ruas nas correntes
humanas que as inundam. Podia ter escrito
nos invernos de ausência o que a noite
ensina sobre a privação. Podia ter
ensinado, à beira do cais, que o tempo lascivo
corre como a água, levando o que não há de
voltar e trazendo o que nunca terá nome
nem corpo. As almas, que empalidecem quando
o sol poente se reflete nos vidros,
cantam bruscamente o verão: reflexo de um
reflexo, frutos que se deixam colher pela
memória, seres sem ser que não hão de voltar
a nascer. Mas o que ele cantou, podia
tê-lo cantado aqui. Todos os lugares são,
afinal, lugar nenhum para quem não habita
senão a própria voz: sonho de outra margem,
cantor perdido no labirinto das pontes. Perto
da foz, sem o saber; sonhando a nascente,
como se não fosse ele próprio a única fonte.


Nuno Júdice, A Fonte da Vida,
Lisboa, Quetzal Editores, 1997
 
 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

"Metamorfose" - Poema de Jorge de Sena


Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Rua e Igreja e Torre dos Clérigos, Porto
 
 
 
Metamorfose


Para a minha alma eu queria uma torre como esta,
assim alta,
assim de névoa acompanhando o rio.

Estou tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se refletem na água.

E, contudo, a margem não pertence ao rio
nem o rio está em mim como a torre estaria
se eu a soubesse ter…
uma luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem
as nuvens não passem
tão alta tão alta
que a solidão possa tornar-se humana.
 
25/10/42

Jorge de Sena
, in Coroa da terra. 
Porto: Lello & Irmão, 1946
 
 

 
Jorge de Sena, Coroa da terra.
Edição/reimpressão: 05-2021
Editor: Assírio & Alvim
 
 
SINOPSE
 
É com certo arrepio que se lê a crueza de Jorge de Sena nas páginas de Coroa da Terra (1946), o seu segundo livro de poesia, dedicado à Cidade do Porto, o palco da sua errância. Mostra-se assim a visão de Sena, nas palavras de Francisco Cota Fagundes, como «uma poesia por vezes intencionalmente rude e nunca de bibelot d’inatité sonore […] que se fosse música, seria um longo e persistente réquiem dilacerante […] poemas em que a criança é um dos temas dominantes, como dominante e marcante é o seu carácter de poesia de resistência e de empenho».
 
 “Para a minha alma eu queria uma torre como esta, /assim alta, /assim de névoa acompanhando o rio […]”. Estes versos de Jorge de Sena em Metamorfose conduzem-nos até à Torre dos Clérigos, um dos elementos mais emblemáticos da cidade, cuja imponência inspirou o poeta. O autor estudou no Porto e, durante esse período, escreveu Coroa da Terra (1946), obra da qual faz parte Metamorfose e onde faz uma dedicatória “à cidade onde este livro foi, na sua maior parte, vivido e escrito […]”. (daqui)
 
 

Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Clérigos, Porto, Portugal
 
 
[O conjunto arquitetónico dos Clérigos, que integra a Torre, a Igreja e um Museu, é, de facto, local de passagem obrigatória para todos os que visitam a cidade do Porto. A Igreja e a Torre integram uma edificação do século XVIII, de inspiração barroca, que marcou a configuração urbana da cidade e, em 1910, foi classificada como Monumento Nacional. Nicolau Nasoni projetou-a com genialidade, criando numa rua desnivelada um edifício de referência, que pode ver-se de quase toda a cidade.
Igreja e Torre estão unidas pela Casa da Irmandade que, desde 2014, está aberta ao público como Museu, com uma exposição que convida a uma viagem pelo tempo e pelo espaço, pela imagem e pela devoção.(daqui)]
 

terça-feira, 31 de outubro de 2023

"Poente" - Poema de Alves Redol


Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Igreja de Santa Cruz, Santarém, s.d.
 
 

Poente



Final de dia, sereno, tropical.
Laivos rubros no azul do firmamento...
E o Sol lança um beijo maternal
Sobre a Terra – um beijo a seu contento.

Passam negras levando o seu bornal,
Como se fossem levadas pelo vento,
E pirogas, temendo o vendaval,
Atravessam a baía num momento.

A ilha de palhotas e palmeiras,
Junto à ponte, a água em cachoeiras,
Tudo isto, para mim era fatal...

Olhava o mar cheio de ansiedade...
Ia com ele a mais triste saudade:
- A saudade de meus Pais, de Portugal.
 
29 novembro de 1931

Alves Redol
, in Vida Ribatejana


 
 
 
“Querem muitos que o tempo passe, depressa, depressa, e um dia descobrem que o tempo os devorou, sorna e galanteador, nessa luta desigual entre o finito de cada um e o infinito do mundo onde temos a ilusão de mandar no tempo, talvez porque damos corda aos relógios e decidimos se a hora atrasa ou adianta.” 

Alves Redol, in "O Muro Branco", Editorial Caminho, abril de 1997‧
 

Alves Redol, fotografado por San Payo em 1950.
 

Alves Redol

 
Escritor português, natural de Vila Franca de Xira, António Alves Redol nasceu a 29 de dezembro de 1911 e faleceu 29 de novembro de 1969.
Figura central do Neorrealismo português, foi autor de uma vasta obra ficcional, que inclui o teatro e o conto.
Filho de um pequeno comerciante ribatejano, obteve um curso comercial e, cedo, teve de se iniciar no mundo do trabalho. Ainda jovem, partiu para Angola à procura de melhores condições de trabalho, mas lá conheceu a pobreza e o desemprego.
De regresso a Portugal, à capital, desenvolveu várias atividades profissionais e enveredou nos meandros da oposição ao Estado Novo ingressando no Partido Comunista.
De início, tornou-se colaborador do jornal O Diabo, mas a sua veia literária acabaria por se manifestar em 1939.
Empenhado na luta de resistência ao regime salazarista, compreendeu a literatura como forma de intervenção social e, nesse mesmo ano, surgiu o seu primeiro romance, Gaibéus, cujo assunto, relacionado com problemas sócio-económicos vividos pelos ceifeiros, fez desta obra o marco do aparecimento do Neorrealismo.
A sua literatura não se caracteriza pela escrita de histórias ficcionadas, mas essencialmente pela abordagem da realidade social e de experiências vividas.
Ao longo de uma longa e coerente produção literária, Alves Redol trouxe para o romance personagens, temas e situações, ignorados pela literatura, postura que lhe valeu, simultaneamente, o êxito junto de um grande público e o ataque impiedoso da crítica, que apontava como deficiências de escrita a linguagem simples da sua prosa e o esquematismo das tramas romanescas.
Acusações que pareciam corroboradas pela despretensão e modéstia literárias manifestadas pelo autor nas epígrafes das suas obras, como sucede em Gaibéus, precedido do aviso de que "Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem".
No prefácio a Barranco de Cegos (Lisboa, 1970), Mário Dionísio compara o destino da obra de Redol ao dos romances de Zola, que ao escolher temas malditos como o operariado e os conflitos sociais, recebeu durante anos a aversão dos críticos, até ser redescoberto em leituras inovadoras que revelaram a estrutura épica dos seus romances e a reformulação de mitos contemporâneos nessa prosa chocante, intensa, por momentos quase surrealista.
De entre a sua obra destacam-se Gaibéus (1939), Fanga (1943), a trilogia do Ciclo Port-Wine (1949-1953) e Barranco de Cegos (1962), porventura o seu romance mais conseguido.
Escreveu também as peças de teatro Forja (1948) e O Destino Morreu de Repente (1967). (daqui)
 

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

"Confiança" - Poema de Miguel Torga


Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Vindimas no Douro, s.d.



Confiança


O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...


Miguel Torga, in "Cântico do Homem", 1950.
 

Mota Urgeiro, Carregador de cestos no Douro - Vindimas, s.d
 


Alto Douro Vinhateiro - Região Demarcada do Douro
 
Subunidade de paisagem predominantemente humanizada descontínua. O Alto Douro Vinhateiro constitui a paisagem mais representativa e melhor conservada da Região Demarcada do Douro, a região vitícola demarcada mais antiga e regulamentada do mundo. A originalidade do estabelecimento dessa zona demarcada residia no facto de incluir a elaboração de um cadastro e de uma classificação das parcelas e respetivos vinhos, e a criação de mecanismos institucionais de controle e certificação do produto, apoiados em base legal. 
Entre as regiões de viticultura de montanha, o Alto Douro é a que possui maior escala, maior significado histórico, maior continuidade e maior variedade biológica das castas aí aperfeiçoadas. Dentro das regiões vitícolas históricas de montanha e de encosta europeias, o Alto Douro constitui a mancha mais significativa deste tipo de implantação. 
O Alto Douro é um excecional exemplo de uma paisagem humanizada, testemunho da ousadia e engenhosidade do homem, que num esforço sobre-humano, só justificável pela obtenção de um produto de elevada qualidade e elevado retorno económico como o Vinho do Porto, criou e desenvolveu técnicas de valorização do meio adverso, ao longo dos séculos, que permitiram o cultivo da vinha. É pois uma paisagem evolutiva, que concilia diferentes modos de organização e armação da vinha e de diferentes épocas. A construção de socalcos para a sua cultura, o elemento mais monumental da paisagem, de geometria variável, consoante a inclinação da encosta, às técnicas e época de terraceamento, com novas formas de armação de vinha, esculpiram uma paisagem de arquitetura complexa, de mosaicos caprichosamente dispostos e carácter cénico, acentuado pelos altos muros verticais ou perpendiculares aos socalcos que delimitam as quintas, bordejados por oliveiras e amendoeiras. Com esta paisagem vitícola esmagadora e inebriante, contrasta a modéstia e singeleza da património construído nos povoados, de ocupação concentrada, bem como a arquitetura sóbria das casas solarengas e quintas, cuja organização do núcleo construído ficou dependente dos aspetos funcionais da cultura da vinha. 
Paisagem cultural evolutiva viva resultante da interação do homem e da natureza, centrada na vitivinicultura, de alta qualidade, desenvolvida multissecularmente em condições ambientais difíceis, de que resultou um vinho mundialmente conhecido como "Porto" e "Douro". 
Constitui uma paisagem construída ao longo dos séculos segundo soluções ambientalmente otimizadas do ponto de vista de aproveitamento dos escassos recursos da água e solo, e do elevado declive do terreno, com culturas mediterrânicas adaptadas a essas condições formando mosaicos: a vinha, plantada predominantemente em socalcos construídos sobre extensos muros de xisto, que ajudavam a evitar a erosão, criando anfiteatros ao longo das encostas; a oliveira e a amendoeira, plantadas sobretudo como elementos separadores; as hortas e pomares nas terras mais férteis, junto às linhas de água; e os matos nas zonas mais altas. 
A paisagem é pontuada de branco pelos povoados, de ocupação concentrada, casas em banda junto ao caminho, adaptadas ao desnível do terreno, e muito sóbrias. Nas quintas, as casas do proprietário, erguidas no local mais destacado da paisagem, são de grande sobriedade, traça elementar, com decoração das fachadas conseguida essencialmente pelo contraste dos diferentes materiais e do ritmo dos vãos. Possuem capela adossada ou isolada, de carácter semipúblico, pequeno jardim fronteiro, normalmente de buxos, e os vários edifícios ligados à cultura da vinha, interligados de modo funcional e aproveitando o declive do terreno. (daqui)
 
 
 
 Mota Urgeiro, "Vindimas no Douro", s.d.
 

sexta-feira, 23 de junho de 2023

"Porto" - Poema de Vítor Cintra


Luciano dos Santos (Pintor e professor português, 1911 - 2006),
Porto - Ribeira e Ponte de D. Luíz I, s/d


Porto

 
Antiga, quer na História, quer na gente,
Jamais o teu passado será morto;
E, seja no futuro ou no presente,
Serás sempre a Invicta, nobre Porto.

Há muitos, muitos anos, junto ao Douro,
Fundaram-te, subindo encosta acima;
Com o rio fez-se eterno o teu namoro,
É ele que, banhando-te, te mima.

Chamaram-te cidade do trabalho
Por ser tão empenhada no labor
A gente, que em ti vive, e ao redor;

As cepas, fecundadas pelo orvalho,
Das margens do teu rio, são penhor,
De quanto há no teu pão pago em suor.
 Editora: Temas Originais, 2011
 
 
Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Ribeira do Porto, s.d.


“Se nessa cidade há muito quem troque o B pelo V, há muito pouco quem troque a honra pela infâmia e a liberdade pela servidão.”
 

Almeida Garrett (1799 - 1854)
[Sobre a cidade do Porto, local onde nasceu.]



 
"O Porto não é um lugar. É um sentimento.”