Mostrar mensagens com a etiqueta Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira). Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 18 de maio de 2026

"Um poema" - Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)


 
Jim Daly
 (American painter, born 1940), 'Inspired'


Um poema


Um poema
é a reza dum rosário
imaginário.
Um esquema
dorido.
Um teorema
que se contradiz.
Uma súplica.
Uma esmola.

Dores,
vividas umas, sonhadas outras...
(Inútil destrinçar.)

Um poema
é a pedra duma escola
com palavras a giz
para a gente apagar ou guardar...


Saúl Dias (1902-1983), 
in 'Obra poética', 2. ed. aumentada.
Brasília Editora, 1980.
 

sábado, 6 de dezembro de 2025

"Envelhecer" - Poema de Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)

  


Alfred Agache (French painter, 1843–1915), Study of an old woman, 1880, 
 Palais des Beaux-Arts de Lille.


Envelhecer


É bom envelhecer!

Sentir cair o tempo,
magro fio de areia,
numa ampulheta inexistente!

Passam casais jovens
abraçados!...

As árvores
balançam novos ramos!...

E o fio de areia
a cair, a cair, a cair...


Saúl Dias, in "Obra Poética", 1962
(Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira) 
 
 

domingo, 16 de novembro de 2025

"Quieta" - Poema de Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)


 
Jules Breton (French naturalist painter, 1827–1906), The Wounded Seagull, 1878.
Saint Louis Art Museum



Quieta


Passaste
subtil
na tarde quieta.

O ar anil
ondulou…
Como uma seta
uma ave baixou
da velha torre
e pousou quieta.

Eu era o esteta
procurando
entre fórmulas mil
o ancoradouro, a meta…

Inúteis tentativas!…

Tudo passou…
Tudo queimou
o tempo vil…

Só perdurou
o ar anil
da tarde quieta.


Saúl Dias,
in "Obra Poética", Portugália, 1962
(Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira) 
 
 

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

"Doido Varrido" - Poema de Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)


Peder Mørk Mønsted (1859 - 1941), Self-portrait, 1895 



(born 1859 - died 1941)
Per più informazioni leggi qui: https://www.tuttartpitturasculturapoesiamusica.com/2017/04/Peder-mork-Monsted.html
© Tutt'Art@ | Pittura * Scultura * Poesia * Musica |
Doido Varrido


O Poeta passa frio,
passa frio e passa fome.
No entanto, os dias consome
a cantar ao desafio,
ao desafio consigo,
sentado no botequim.
A conversa não tem fim,
não tem fim e não tem nome,
decorre sem alarido...
O Poeta é doido varrido
doido varrido isso sim!

Tantas vezes que ele morre
e outras tantas ressuscita!
Mas ressuscita pior.
Como um menino travesso,
volta as coisas do avesso
para as conhecer melhor.
E às vezes, tomba no chão
porque um intenso clarão
o assombrou de repente.
No meio da multidão
fica só, indiferente.

Indiferente com todos,
quer estranhos ou amigos.
Indiferente aos perigos
leva a vida sem maus modos.
Mas por que estranho desígnio
ele tem a pretensão
de aquele intenso clarão
ser um sinal lá dos céus,
e de, no meio do assombro,
pressentir a mão de Deus
tocar-lhe amiga, no ombro?


Saúl Dias, in "Essência"
(Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

"Todos os dias" - Poema de Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)



Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862–1925), St Francis, 1898.


Todos os dias


Todos os dias 
nascem pequeninas nuvens, 
róseas umas, 
aniladas outras, 
nacaradas espumas... 

Todos os dias 
nascem rosas, 
também róseas 
ou cor de chá, de veludo... 

Todos os dias 
nascem violetas, 
as eleitas 
dos pobres corações... 

Todos os dias 
nascem risos, canções... 

Todos os dias 
os pássaros acordam 
nos seus ninhos de lãs... 

Todos os dias 
nascem novos dias, 
nascem novas manhãs... 


Saúl Dias, in "Essência"
(Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

"O êxito parece a mais doce das coisas" - Poema de Emily Dickinson


Júlio Maria dos Reis Pereira ou Julio como artista plástico, 
Músicos e mulheres no espaço, 1925, óleo sobre cartão, 80 x 65 cm


O êxito parece a mais doce das coisas


O êxito parece a mais doce das coisas 
A quem nunca venceu na vida. 
Ter a compreensão de um néctar 
Exige a mais dolorosa necessidade. 

De entre o purpúreo Exército 
Que hoje empunhou a Bandeira 
Nenhum outro poderá dar uma tão clara 
Definição da Vitória 

Como o vencido - agonizante - 
Em cujo ouvido interdito 
A distante ária triunfal 
Ressoa nítida e pungente!


Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas"
Tradução de  Nuno Júdice 


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

"Ali" - Poema de Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)


Alicia Czechowski (American, b. 1953)



Ali


Ali sofreste. Ali amaste. 
Ali é a pedra do teu lar. 
Ali é o teu, bem teu lugar. 
Ali a praça onde jogaste 
o que o destino te quis dar. 

Ali ficou tua pegada 
impressa, firme, sobre o chão. 
Ninguém a vê sob o montão 
de cinza fria e poeirada? 
Distingue-a, sim, teu coração. 

Podem talvez o vento, a neve, 
roubar a flor que tu criaste? 
Ali sofreste. Ali amaste. 
Ali sentiste a vida breve. 
Ali sorriste. Ali choraste. 


Saúl Dias, in "Sangue"

[Júlio Maria dos Reis Pereira (ou Júlio, como artista plástico e Saúl Dias como poeta – Vila do Conde, 1902 — 1983), foi um pintor, ilustrador e poeta português.
Pertence à segunda geração de pintores modernistas portugueses e foi autor de uma obra multifacetada que se divide entre as artes plásticas e a escrita, tendo sido um dos mais importantes colaboradores da revista Presença.]


Alicia Czechowski, Salt Marsh


Alicia Czechowski, Lara as Flora, oil on linen, 28x22 inches


Alicia Czechowski, Insomnia, oil on linen,  36x36


Alicia Czechowski, Lady


Alicia Czechowski, Pink and red ruffled dress


Alicia Czechowski, Bar Interior painting
 

"Quem não gosta de estar sozinho é uma péssima companhia."

Gonçalo M. Tavares
Fonte - Diário de Notícias (2004)

[Gonçalo Manuel Tavares (Luanda, Agosto de 1970), mais conhecido na forma Gonçalo M. Tavares, é um escritor e professor universitário português, cuja primeira obra foi publicada em 2001.]


Leonard Cohen - I'm Your Man 



terça-feira, 18 de outubro de 2011

"Nunca mais" - Poema de Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)



Júlio (Pintor, ilustrador e poeta português, 1902–1983), Tarde de festa, 1925


Nunca mais


Passa um dia,
e outro a correr atrás dele
e outro e outro...
O tempo a todos impele,
tal o vento
levando, em doida correria,
revoadas de folhas outonais,
folhas de calendários sempre iguais,
uma a uma arrancadas,
perdidas nas estradas...
Nunca mais... Nunca mais...


Saúl Dias
(Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira), 
in Essência, 1973


Júlio Maria dos Reis Pereira
 
Saul Dias, poeta e artista plástico português, de nome verdadeiro Júlio Maria dos Reis Pereira, nasceu a 1 de novembro de 1902, em Vila do Conde, e faleceu a 17 de janeiro de 1983, na mesma cidade. Formou-se em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia do Porto. Conviveu, por intermédio do seu irmão, José Régio, com alguns dos nomes que integraram a geração da Presença.
Conhecido sobretudo como artista plástico, sob o nome de Júlio, os seus quadros foram expostos em inúmeras exposições individuais e coletivas, editou dois álbuns de desenhos (Música, Domingo), ilustrou as suas obras poéticas e as de outros poetas presencistas. Como poeta e como artista, colaborou em diversas publicações, como Presença, Revista de Portugal, Sudoeste, Atlântico, Távola Redonda, Panorama, Vértice, Síntese, Cadernos de Poesia, Cadernos do Meio-Dia, O Comércio do Porto, Jornal de Notícias, Diário de Lisboa. 
Como poeta da geração da Presença, a poesia de Saul Dias, seu pseudónimo, comunga de caracteres associados a uma estética presencista, como a obediência à sinceridade e ao "coração" ("É só com sangue que se escrevem versos."), o subjetivismo ou o influxo do expressionismo. Linguagem icónica e palavra poética assumem, na obra deste autor, uma complementaridade, seja por uma poesia que investe reiteradamente nas sensações cromáticas e sinestésicas, no visualismo das cenas e imagens feminis evocadas, seja por uma obra pictórica que consagrou a figura do "Poeta", num todo que se distingue pela delicadeza, pela simplicidade quase onírica, por uma visão ao mesmo tempo encantada, melancólica e levemente amarga da realidade. Da sua poesia, que trata liricamente temas como a adolescência e a vida da província, destacam-se as obras Mais e Mais... (1932), Tanto (1934) e Sangue (1952).) (daqui)


Europe - The Final Countdown