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sábado, 16 de julho de 2022

"Dói-me esse rio de já me não amares" - Poema de Manuel Cintra


Louis Janmot (French painter and poet, 1814–1892), Flower of the Fields, 1845,
 

 
Dói-me esse rio de já me não amares 
 
 
 E dói-me esse rio de já me não amares
de já me não quereres assim como eu te quero
de não sobressaltares porque sou eu que te espero
em esquinas de lágrima ou sorriso
foi-se o amor chegou o siso
e eu
que não nasci para ter juízo

E dói-me o teu ventre que não afago
como quem depois de amanhã se afoga
e hoje apenas está, dê para o que der
e doa a quem doer

Passam sanguessugas pelos trilhos da memória
umas são mortas, outras são vivas,
outras são glória
de já não existir e teimar em persistir
e eu vou ao vento, sou palmeira seca,
sou teimoso sou frágil sou de teca de cetim
sou uns dias teu, outros assim assim

E dói-me o teu ventre que não afago
como quem depois de amanhã se afoga
e hoje apenas sente, e já pouco quer
para além de seres mulher

E sei que já não sinto o que senti nem sei quem sou
mas seja eu quem for fazes-me falta, ainda és música
perdi a pauta, nada sei cantar, acho que esta conversa
é coça umbigo, vai ter que parar

Mas dói-me o teu ventre que não afago
como quem não sabe nadar
e hoje é de festa, amanhã é de mar
é de mar 
 
in Não sei nunca por onde
Quasi Edições
 
 
Cintra, Manuel - "Não Sei Nunca por Onde" - poesia. 
V.N. de Famalicão, Edições Quasi, 2004.
Capa: Mimesis, sobre pintura de Luísa Correia Pereira. (Daqui)


[Sinopse: Cada nome da tua alma habita tenro cada nome da minha. A meio da noite fico cego, acho-te sol. E dobrado sobre ti pergunto: porquê tanto anil? Porquê sem retrocesso? E como resposta sinto uma pestana tua virar-me o olho do avesso. (daqui)]


 Manuel Cintra (daqui)
 

Manuel Cintra (1956-2020), autor de mais de vinte livros de poemas, foi também tradutor, jornalista, ator e encenador, sendo, no entanto, a poesia "a sua incontornável e apaixonada estrada", sublinhou a poeta e dramaturga Maria Quintans. "Ele era um grande poeta, mas foi muito marginalizado porque não alinhava com o sistema", disse ainda a escritora. 

Manuel Cintra começou a publicar poesia em 1981, com o livro "Do Lado de Dentro", na Editorial Presença, a que se seguiram mais de duas dezenas de obras. "Tangerina" (1990), "Borboleta" (2006), "Alçapão" (2009), "Marie" (2009), "Receber a Poeira" (2014), "Parto" (2014), "Peixa" (2016) são algumas das que publicou.
A editora Guilhotina publicou "Manobra Incompleta" em 2017, reunindo toda a poesia de Manuel Cintra. 

"Geralmente escrevo o poema já pronto, quase sem correções. Faço os possíveis por não enlouquecer. Como sabemos, a poesia é uma arma, neste caso visceral. Sempre no limite. Sempre numa nova manobra. A evitar o acidente. Ou a vivê-lo a fundo", costumava dizer o escritor, citado por Maria Quintans. 

Além de poeta e tradutor, foi também encenador e ator, tendo participado em várias produções do Teatro da Cornucópia.
Manuel Cintra era filho do linguista Luís Filipe Lindley Cintra e irmão do ator e encenador Luís Miguel Cintra (Daqui) 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Que de Mim? - Poema de António Gedeão


Louis Janmot (French painter and poet, 1814-1892) - Poème de l'âme 16 - Le Vol de l’âme


Louis Janmot - Poème de l'âme 17 - L’Idéal



Que de Mim? 


Em quê de mim, as diferentes
coisas que vejo, me tocam?
Em quê de ser eu provocam
excitações tão frementes?

Que coisa de mim se enleia,
que permanência me afirma,
que sentido faz sentir-ma
no espaço que me rodeia?

Que linhas de força estranha
me prolongam na paisagem,
me tornam, à sua imagem,
mar ou céu, vale ou montanha?

Que fluidez dissolvente
os meus olhos humedece
quando o Sol desaparece
nas angústias do poente?

Que de mim também se afoga
nesse horizonte distante,
murmúrio de agonizante
que em tons roxos se interroga?

Que de mim chove na chuva,
e se abre nos tons da aurora?
Que de mim nas flores se inflora
e nas tardes se enviúva?

Ó estrelas do céu sem fim!
Ó vagas do mar sem fundo!
Será tudo mesmo assim?
Eu e vós, partes do mundo?
Ou o mundo, parte de mim?


António Gedeão
,
Poesias Completas (1956-1967)
Portugália Editora 


Galeria de Louis Janmot
Louis Janmot, Autorretrato, 1832 


Anne-François-Louis Janmot (21 de Maio de 1814 - 1 junho 1892) foi um pintor e poeta francês. Foi também professor na École des Beaux-Arts. 
Ele nasceu em Lyon, filho de pais católicos que eram profundamente religiosos.
Janmot tem sido visto como uma figura de transição entre o Romantismo e o Simbolismo, prefigurando a parte francesa da Irmandade Pré-Rafaelita. Seu trabalho era admirado por Puvis de Chavannes, Odilon Redon, e Maurice Denis. Como Jean-Hippolyte Flandrin, outro pintor de Lyon e aluno de Ingres, Janmot realizou muitas encomendas para a decoração de igrejas. Em suas pinturas o acabamento impecável foi combinado com uma mística que tem paralelos na obra de seus contemporâneos, os nazarenos e os pré-rafaelitas.


Louis Janmot - Poème de l'âme 1 - Génération divine


Louis Janmot - Poème de l'âme 5 - Souvenir du ciel


Louis Janmot - Poème de l'âme 3 - L’Ange et la mère


Louis Janmot - Poème de l'âme 12 - L’Échelle d’or


Louis Janmot - Poème de l'âme 10 - Première Communion 


Louis Janmot - Poème de l'âme 13 - Rayons de soleil