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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

"Romance" - Poema de Afonso Lopes Vieira



Giacomo Balla (Italian painter, art teacher and poet, 1871–1958),
'Flight of the Swallows' ('Voo das Andorinhas'), 1913.


Romance


Por noite velha, truz truz,
Bateram à minha porta.
— De onde vens, ó minha alma?
— Venho morta, quase morta.

Já eu mal a conhecia,
De tão mudada que vinha;
Trazia todas quebradas
Suas asas de andorinha.

Mandei-lhe fazer a ceia,
Do melhor manjar que havia.
— De onde vens, ó minha alma,
Que já mal te conhecia?

Mas a minha alma, calada,
Olhava e eu não respondia;
E nos seus formosos olhos
Quantas tristezas havia!

Mandei-lhe fazer a cama
Da melhor roupa que tinha
«Por cima damasco roxo
Por baixo cambraia fina».

— Dorme, dorme ó minha alma,
Dorme e, para te embalar,
A boca me está cantando
Com vontade de chorar.


Afonso Lopes Vieira,
in 'Ilhas de Bruma', 1917



Umberto Boccioni, 'Estados de espírito (estudo): aqueles que ficam', 1911.
 Óleo sobre tela, Museu de Arte Moderna de Nova York.



Umberto Boccioni, 'Estados de Alma III - Aqueles que permanecem', 1911,
 MoMA, Nova York


"A vida é o pouco que nos sobra da morte."

Walt Whitman
 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

"A Paz sem Vencedor e sem Vencidos" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Umberto Boccioni, sketch of "The City Rises", 1910.


A Paz sem Vencedor e sem Vencidos 


Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 
A paz sem vencedor e sem vencidos 
Que o tempo que nos deste seja um novo 
Recomeço de esperança e de justiça 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 

A paz sem vencedor e sem vencidos 

Erguei o nosso ser à transparência 
Para podermos ler melhor a vida 
Para entendermos vosso mandamento 
Para que venha a nós o vosso reino 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 

A paz sem vencedor e sem vencidos 

Fazei Senhor que a paz seja de todos 
Dai-nos a paz que nasce da verdade 
Dai-nos a paz que nasce da justiça 
Dai-nos a paz chamada liberdade 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 

A paz sem vencedor e sem vencidos 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Dual", 1972.
 

Umberto Boccioni, Self-portrait, 1905.
 
Umberto Boccioni foi um pintor e escultor italiano, nascido no dia 19 de outubro de 1882, em Reggio di Calabria, e falecido no dia 16 de agosto de 1916, em Sorte (Verona), em consequência de uma queda de cavalo durante manobras militares. 
Foi um dos representantes máximos do movimento futurista que defendia o progresso acidental, a máquina e o estilo de vida ruidoso e agitado da vida urbana. 


Umberto Boccioni, Self-portrait, oil on canvas, 1905,
 Metropolitan Museum of Art.
 
Em 1901, mudou-se para Roma para estudar, acabando por fazer amizade com outros pintores, pertencentes a este movimento. No início, mostrou-se interessado na pintura impressionista, principalmente na obra de Cézanne. Fez então algumas viagens a Paris, São Petersburgo e Milão.


Umberto Boccioni, The City Rises, 1910.
 
Regressando em 1910, entrou em contacto com Carlo Carrà, Luigi Russolo e Filippo Tommaso Marinetti e, um ano depois, encontrava-se entre os autores do "Manifesto Futurista de Pintura", do qual foi um dos principais teóricos. Foi com a intenção de procurar as bases dessa nova estética que viajou para Paris, onde se encontrou com Pablo Picasso e Georges Braque.


Horizontal Volumes by Umberto Boccioni, 1912.
 
Ao retornar, em 1912, publicou o "Manifesto Técnico da Pintura Futurista", no qual foram registados os princípios teóricos da arte futurista: condenação do passado, desprezo pela representação naturalista, indiferença em relação aos críticos de arte e rejeição dos conceitos de harmonia e bom gosto aplicados à pintura. 
Nesse mesmo ano, participou da primeira exposição futurista mas as suas obras ainda deixavam transparecer a preocupação do artista com os conceitos propostos pelo cubismo. Os retratos deformados pelas sobreposições de planos ainda não conseguiam expressar com clareza a sua conceção teórica. 


Umberto Boccioni, Dynamism of a Cyclist, 1913.

Um ano mais tarde, com sua obra Dinamismo de um Jogador de Futebol, Boccioni conseguiu finalmente fazer a representação do movimento por meio de cores e planos desordenados, como num pseudofotograma.


Umberto Boccioni, Unique Forms of Continuity in Space, 1913.
 
Em 1911, inicia a sua atividade como escultor, com obras menos numerosas que as suas pinturas mas mais livres e atrevidas e onde sempre afloram elementos neoimpressionistas, conseguindo um intercâmbio surpreendente entre o côncavo e o convexo, superando as experiências cubistas. 


'Development of a Bottle in Space', bronze sculpture 
by Umberto Boccioni, 1913, Metropolitan Museum of Art.
 
Nas suas obras escultóricas, que combinam madeira, ferro e cristal, Boccioni pretende ilustrar a interação que se estabelece entre um objeto em movimento e o espaço que o rodeia.
Apesar de tudo, permaneceu sempre muito ligado a uma conceção romântica e tradicional do movimento e do quadro como janela. 
Em 1915, participou como voluntário na Primeira Guerra Mundial e, é nesta altura que começa a distanciar-se do futurismo (da velocidade e do dinamismo), aproximando-se de uma análise das imagens plásticas, isto é, dos volumes arredondados e mais estáticos, influenciado por Cézanne.

Umberto Boccioni. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-03].


Portrait of Ferruccio Busoni, 1916 by Umberto Boccioni, 


Umberto Boccioni, Landscape-Mountains, 1916.