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domingo, 26 de novembro de 2023

"Viajar? Para viajar basta existir" - Texto de Bernardo Soares / Fernando Pessoa


Paul Klee (Swiss-born German artist, 1879 –1940), Insula dulcamara, 1938,
Zentrum Paul Klee, Berne
 


Viajar? Para viajar basta existir

 
Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

“Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo”. Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Polos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.


Bernardo Soares (Heterónimo de Fernando Pessoa),
in Livro do Desassossego, fragmento 451, ed. Richard Zenith, Assírio & Alvim, 11ª ed.
 

Paul Klee, Nach der Überschwemmung, 1936, Beyeler Foundation



Abstracionismo
 
 
O entendimento da arte como ato criativo situado para além da mera perceção visual do mundo sensível constitui o ponto de partida principal do abstracionismo. Nascida na segunda década do século XX, a arte abstrata tem origem nas diversas reações ao Impressionismo e desenvolve-se entre 1913 e 1933.
A primeira obra totalmente abstrata foi pintada por Kandinsky, uma das figuras históricas do abstracionismo, em 1913. Paralelamente à atividade pictórica, Kandinsky converteu-se no teorizador dos fundamentos do abstracionismo lírico, cujas linhas fundamentais são a liberdade da cor e do traço, enquadradas num entendimento filosófico e orgânico da pintura. Nas telas e aguarelas deste pintor alemão, as massas cromáticas, às quais o artista atribui um significado simbólico, enunciam uma plasticidade sem forma e uma nova sensibilidade. Cada obra é fruto de uma pesquisa controlada e metódica, de uma experiência espontânea vivida pelo autor, à qual não é estranha a exploração incessante das suas emoções e sensações perante o real.
Em França, o fauvismo e os primórdios do cubismo influenciam outros autores que enveredam pelo caminho da não figuração, como Delaunay, Kupka e Picabia.
Noutros países são experimentadas outras vias da abstração, de cariz mais geométrico: o Raionismo, o Suprematismo e o construtivismo na Rússia, e o Neoplasticismo da Holanda. Os fundamentos deste último movimento, igualmente conhecido por De Stijl, são definidos essencialmente por Piet Mondrian, cuja obra se define através de uma gramática geométrica clara e objetiva, na qual a harmonia é obtida através de um equilíbrio entre a forma e a cor. (daqui)
 

sábado, 30 de março de 2019

"Poemas da ciência de voar" - Eduardo White

 

Poemas da ciência de voar


Uma mão relampeja na casa da escrita.
Faísca Troveja.
Procura um claro instante para a aparição.

Pode-se vê-la correr pelo dorso do papel,
deitada do seu lado ou do seu modo rastejante,
pode-se vê-la provando o ruminante delírio das palavras,
a sua rasante arrumação,
e leva vozes aquela mão em cada delicada passagem,
rítmica, latejante
ou um nervo animal que faz lembrar
a textura pedestre do papel.
Mas a mão voa, explosiva,
e não cai nem agoniza no espaço vibrante onde se comunica.

Voar é um fervoroso recolhimento.
E no que é quase a medida elementar do esquecimento
a escrita navega
num estuário de silêncio.
Escrever é uma droga antiga,
uma bebedeira que queima com lentidão
a cabeça,
traz as luzes desde as vísceras,
o sangue a ferver nas vias tubulantes,
traz a natureza estimulante das paisagens
que temos dentro.

Ocorre-me agora
a pupila minúscula de uma criança.
A sua engenharia
desde o corpo na guerreira pequenez
ao dedo provador da boca.
Ocorre-me esta criança
este monge da franqueza em seu templo de inocência.
Amo-a. Vivo-a.

Voar é poder amar uma criança.
Sonhar-lhe o peso no colo, as mãos acariciantes
sobre a palma da alma.

Voar é tardar a boca
na rosa do rosto de uma criança.
Pronunciar-lhe a ternura,
a seda fresca e pura
da sua infância.

Voar é adormecer o homem
na mão sonhadora
de uma criança.


Eduardo White

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

"Doutor eu tenho uma guerra tremenda dentro da minha cabeça" - Poema de António Amaral Tavares


Paul Klee, Tod und Feuer (Death and Fire), 1940



Doutor eu tenho uma guerra tremenda dentro da minha cabeça


Doutor eu tenho uma guerra tremenda dentro da minha cabeça
um euro e trinta e cinco cêntimos 16 de Agosto de 2011
não dá para o tabaco. Quero lembrá-lo que o verão está a acabar

e eu já ouço passos nos caminhos da lama e do medo
e há coisas que só no verão se fazem e eu ainda não fiz
como ouvir o rumorejar do mar nos meus pulsos.

Os seus medicamentos doutor deixam-me sem mim
o meu pai disse-me que a minha doença só lhe traz problemas
doutor há uma pedra intraduzível entre nós dois

quero dizer-lhe que há pessoas muito pobres que querem
o meu rim esquerdo doutor o mundo não é perfeito
e não me diga para lhe contar tudo como a um padre

eu não quero morrer outra vez essa frase fá-lo muito feio.
Acredite que vi gente morrer porque era maior que o corpo
tenho a impressão que o corpo não sabe o que tem dentro

acredite que consigo fundir uma lâmpada só com o olhar
já fundi muitas lâmpadas só com o olhar
e que vi um anjo atravessar os muros de um hospício

rasante e belo como uma garça.
Doutor há muito pouco tempo para a poesia.
Isto que lhe digo é verdade todos os dias doutor. 


António Amaral Tavares
(Daqui)


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

"Amor" - Poema de Natércia Freire


Paul Klee (1879-1940), Eros, 1923



Amor


 Vibrátil, fina, perfumada e clara
ondula a aragem que o amor provoca.
Longe respira a vida. Aqui o sonho.
Tudo é infância de águas e colinas
Na manhã dos teus olhos.
E voos de mãos dadas.
E cantos, cantos de infinito amor,
Nos galhos, nas correntes e nas sombras veladas.

Envolve-se de nuvem nosso abraço.
Vibrátil, fina, perfumada e clara
ondula a aragem. Fadas e duendes
agitam instrumentos na folhagem.

Vibrátil, fina, imperceptível, fluída
orquestra ao longe. Ao fundo dos sentidos.
Dedos de flores ondeiam sobre a pele
de Céus indefinidos.

Cantam mistérios bocas fascinadas.
Abrem corolas sob a luz que as toca.
Vibrátil, fina, perfumada e clara
ondula a aragem que o amor provoca. 
 in 'Antologia Poética'


domingo, 29 de janeiro de 2012

"O quociente e a incógnita" - Poesia matemática de Millôr Fernandes


 
Paul Klee (Swiss-born German artist, 1879–1940), 'Strong dream', 1929


O quociente e a incógnita


Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.

Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a, do Ápice à Base,
uma figura ímpar:
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo octogonal, seios esferóides.

Fez da sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.

“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”

E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.

E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.

Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.

E enfim resolveram se casar,
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.

E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.

E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes até aquele dia
em que tudo vira afinal monotonia.

Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Frequentador de círculos concêntricos, viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.

Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.

Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade como aliás em qualquer
sociedade.


Millôr Fernandes,
Texto extraído do livro "Tempo e Contratempo"
Edições O Cruzeiro - Rio de Janeiro, 1954,
 publicado com o pseudónimo de Vão Gogo.



Paul Klee, 'Contemplation', 1938 
 

"O último refúgio do oprimido é a ironia, e nenhum tirano, por mais violento que seja, escapa a ela. O tirano pode evitar uma fotografia, não pode impedir uma caricatura. A mordaça aumenta a mordacidade."

Millôr Fernandes, 'O Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr'
  

Paul Klee, drawn by August Macke in 1914
 

Paul Klee

Artista suíço, Paul Klee nasceu em 1879, na Suíça. Filho de um professor de música, começou desde cedo a tocar violino.
 Em 1900 inscrevia-se na Academia de Belas-Artes de Munique, começando por utilizar a pena e a tinta e a gravura. Os temas continham algo de sinistro e satírico, na tradição do fantástico presentes em artistas como Francisco Goya, William Blake ou Odilon Redon. 
Na sua primeira exposição individual em 1910 apresentava gravuras. O contacto com o grupo de artistas alemães Blaue Reiter e sobretudo uma viagem à Tunísia em 1914 assumiram uma importância fundamental na evolução da sua estética.
Começou a pintar aguarelas de paisagens e motivos de arquitetura, construindo as composições a partir de formas simples que criam um ambiente ingénuo e bem-humorado. Em O Zoo (1918) desenvolveu a técnica iniciada na Tunísia. As imagens possuem um aspeto deliberadamente infantil, o que empresta a toda a construção uma característica poética não isenta de humorismo.
Em 1920 foi convidado por Gropius a integrar o corpo docente da escola Bauhaus e a partir daqui o seu trabalho vai refletir a ideologia da escola, mas num ambiente muito pessoal. 
Em Juniper (1930) apresenta uma visão humorística da estética construtivista que então singrava na Bauhaus. Procurou ainda teorizar as suas conceções de Arte em Maneiras de Estudar a Natureza (1923), Esboços de Pedagogia (1925) e Experiências Exatas no Realismo da Arte (1928), sem contudo propor um todo sistemático e coerente. 
Com a ascensão do regime nazi, regressou a Berna em 1933. Começou a pintar com linhas pretas, grossas, construindo composições simples e ousadas: Sinais Negros (1938), Jogo de Crianças (1939). O humor dos trabalhos anteriores era contudo menos evidente e o clima era por vezes mesmo ameaçador, como em Morte e Fogo e Máscara (1940). 
Veio a falecer na cidade de Berna em 1940. Apesar de ter partilhado as teorias de Kandinsky, Paul Klee desenvolveu um universo pictural muito próprio, partindo de formas abstratas e fantásticas e criando uma arte subjetiva espontaneamente poética.

Paul Klee. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-01-29].


Ne-Yo, One in a Million