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sábado, 24 de junho de 2023

"João Batista" - Poema de Sílvia Araújo Mota


Bartolomé Esteban Murillo (Spanish Baroque painter, 1617–1682),
The Christ Child and the Infant John the Baptist (right) with a Shell
or The Holy Children with a Shell, c. 1670/75. Oil on canvas.
Museo del Prado, Madrid.


João Batista

 
João Batista, pregador judeu,
no início do Séc. I, chamado
de João, o Batizador,
citado por Evangelizadores
nasceu 2 a.C e morreu 30 d.C.

Filho do Sacerdote Zacarias
e de Isabel, prima de Maria,
a jovem Mãe de Jesus.
Batizou muitos judeus,
incluindo seu primo Jesus.

João foi reconhecido Profeta!
Considerado pelos cristãos,
como o precursor do Prometido,
o Messias, Jesus Cristo, por ele
batizado no Rio Jordão.

João Batista introduziu
o Batismo de Gentios
nos Rituais Judaicos
de Conversão, adaptados
para o Batismo do Cristão.

João nasceu na cidade de Judá,
a seis quilómetros de Jerusalém.
Sua mãe pertencia à Sociedade
Religiosa para a Educação,
das “Filhas de Aarão”.

João foi muitas vezes chamado
de “Encarnação de Elias.”
Até na forma de se vestir,
com peles de animais
e no método de exortação.

O Discurso principal de João
era sobre a vinda do Messias
fonte de Esperança para a Nação
que esperava sempre o dia
de tornar-se digna e independente.

Os judeus defendiam a ideia
da sua nacionalidade
ter iniciado com Abrahão
e que culminaria, na Verdade,
com a chegada do Messias da Salvação.

João, na aldeia chamada
“Adão” pregou sobre o Messias:
“Aquele que viria”, do qual
não seria digno de atar-lhe as alparcas...”
A polémica surgiu, naturalmente...

Importante notar o novo Batismo
que João trouxe aos arrependidos...
A experiência do Batismo de Jesus
motivou ainda mais a sua fé
e seus Ministérios vividos.

A mando do Rei Herodes Antipas,
João ficou dez meses preso até à morte,
porque lhe fez críticas pelo discurso...
A cabeça de João foi entregue ao Rei
e o corpo queimado, em uma fogueira.

Belo Horizonte, 27 de agosto de 2007.
(Professora e escritora brasileira, n. 1951)


Bartolomé González y Serrano (Spanish Baroque painter, 1564–1627),
Saint John the Baptist, c. 1621. Oil on canvas, 150 x 90 cm,
Museum of Fine Arts, Budapest.
 

 
 Anton Raphael Mengs (German painter, 1728-1779),
  St. John the Baptist Preaching in the Wilderness, 1760
 

Personagem bíblica e santo do Cristianismo, S. João Baptista terá nascido na Judeia, no ano 2 a. C., e morrido em 30 d. C. Era filho de Zacarias, um sacerdote judaico, e de Isabel, prima de Maria. Introduziu o batismo, como prática na conversão de gentios, cerimónia que mais tarde seria adotada pelo cristianismo.
Surge como um precursor de Jesus Cristo, que veio a batizar, no rio Jordão, e a reconhecer como o verdadeiro messias. Partiu para o deserto para pregar.
Censurou Herodes Antipas por ter cometido adultério com a sua cunhada, Herodíade. Foi, por isto, preso e, mais tarde, decapitado, a pedido de Salomé, sobrinha do rei e filha de Herodíade. (daqui)




O Nascimento de João Batista (ou Dia de São João ou Nascimento do Precursor) é uma festa cristã celebrando o nascimento de João Batista, um profeta que previu o advento do Messias na pessoa de Jesus Cristo e o batizou. Esta festa é amplamente comemorada no mundo cristão no dia 24 de junho e é uma das festas juninas. É também o único santo cujo nascimento e martírio, este último em 29 de Agosto, são evocados em duas solenidades pelo povo cristão.
A noite de 23 de Junho, véspera do Dia de São João, marca o início da celebração da festa de São João Batista. O Evangelho de Lucas (Lucas 1:36, 56-57) afirma que João nasceu cerca de seis meses antes de Jesus; portanto, a festa de São João Batista foi fixada em 24 de junho, seis meses antes da véspera de Natal. Este dia de festa é um dos poucos dias santos que comemora o aniversário do nascimento, ao invés da morte, do santo homenageado.  (daqui)
 

domingo, 25 de dezembro de 2022

"Nasceu um Menino" - Poema de José Régio



Charles Le Brun (Peintre et décorateur français, 1619–1690), 'L'Adoration des bergers', 1689, 
Paris, Musée du Louvre. 


Nasceu um Menino


Nasceu, nasceu um Menino,
Nasceu um Menino mais,
No bercinho pouco fino
Das palhas duns animais!

Que num vil curral por quarto
E entre uns pedregulhos nus,
Teve a santa dor do parto
A Mulher que o deu à luz.

Mas de cada vez, no mundo,
Que mais um ser aparece,
Quem pode descer ao fundo
Do que o Destino nos tece?

À hora em que Este chegava,
Lá para um cerro distante,
Por cada fibra chorava
Um velho cedro gigante.

Chorava porque sabia
Que em seu peito condenado
Aquele Menino, um dia,
Seria crucificado.

Ora cada vez, no mundo,
Que nasce mais um Menino,
Quem pode descer ao fundo
Do que nos tece o Destino?

Já, pelos céus fora, um astro
Descendo sobre o curral,
Abre para sempre um rastro
De alvor sobrenatural.

E o velho cedro, que chora
Porque se julga precito,
Pelos séculos fora
Será sagrado e bendito.

Que abertos pelos espaços,
No azul sereno e profundo,
Do sangue duns outros braços
Seus braços dão Vida ao mundo.


José Régio, em ‘Obra Completa’


Charles Le Brun, 'Le Sommeil de l'Enfant Jésus' ou 'Le Silence', 1655, Musée du Louvre.


“Uma boa consciência é um Natal contínuo.”

(Benjamin Franklin)




'Charles Le Brun', portrait by Nicolas de Largillière (French portrait painter, 1656–1746)

 
Charles Le Brun 

Charles Le Brun foi um pintor, decorador e teórico francês nascido a 24 de fevereiro de 1619, em Paris, França.
Filho de um escultor que lhe ensinou a profissão, Charles Le Brun cedo revelou vocação para a pintura, começando aos treze anos a trabalhar no atelier do pintor François Perrier. Nessa altura, o talento do jovem chamou a atenção do Chanceler Pierre Séguier que o tomou para sua guarda.

Em 1633, graças ao seu protetor, o artista foi trabalhar para o atelier de Simon Vouet, que teve também entre os seus discípulos futuras grandes personalidades das artes, André Le Nôtre, Pierre Mignard e Eustache Le Sueur. Completou a sua formação numa estadia no Palácio de Fontainebleau onde estudou as coleções de arte reais.

Reconhecido pelo seu grande talento e com o apoio financeiro do seu protetor, Le Brun partiu para Roma, em 1642, a fim de estudar os grandes escultores e pintores italianos e de conhecer os grandes artistas europeus da época, como foi o caso de Nicolas Poussin que veio a ser seu mestre.

De regresso a Paris, em 1646, recebeu várias encomendas, como a do superintendente Fouquet para quem realizou as esculturas dos jardins e as tapeçarias do seu soberbo palácio em Vaux-le-Vicomte ou a da Corporação dos Ourives que lhe encomendou o quadro O Martírio de S. André (1647) para a Catedral Notre-Dame, em Paris. A pedido do Cardeal Mazarino, Le Brun e André Le Nôtre ficaram responsáveis pela transformação do Pavilhão de Caça de Luís III no Palácio de Versalhes.

Em 1660, foi nomeado Primeiro Pintor Real, tornou-se diretor, em 1663, da Manufatura Real dos Gobelins (famosas tapeçarias francesas) e da Mobília Real e chanceler vitalício da Academia Real de Pintura e Escultura, que tinha fundado, em 1648, juntamente com outros onze pintores. Fundou ainda, em 1666, a Academia de França, em Roma, com o objetivo de formar e estimular o talento de jovens pintores e escultores. Depois, ocupou-se exclusivamente da decoração da nova residência real, o Palácio de Versalhes.

Realizou trabalhos de decoração e pintura na Escada dos Embaixadores, na Galeria dos Espelhos, nas salas da Paz e da Guerra e nos grandes apartamentos reais, constantemente inspirado na mitologia e na arte italiana e honrando sempre o Rei Sol - Luís XIV. Le Brun foi ainda o criador da Art Officiel, uma arte colocada ao serviço do poder e das grandes instituições.

Em 1683, com a morte de Jean-Baptiste Colbert, um dos protetores do artista, Le Brun foi substituído, nas suas funções de superintendente dos edifícios, das artes e das manufaturas, por Pierre Mignard, protegido do Marquês de Louvois. Em resultado desta substituição, o artista passou a produzir apenas quadros de temáticas religiosas e a ocupar-se do Palácio de Montmorency.

Como teórico, escreveu o tratado A Expressão das Paixões (1663), no qual analisou os diferentes estilos e géneros de pinturas, e Método para Aprender a Desenhar as Paixões (1698, edição póstuma), no qual descodificou, apoiando-se nas teorias de Nicolas Poussin, a expressão visual das paixões na pintura.

Quanto aos seus trabalhos, destacam-se ainda, para além dos acima mencionados, a decoração pictural da Galeria de Apolo (1663), no Louvre, e os quadros O Retrato Equestre do Chanceler Séguier (1655-1657), Alexandre e Porus (1673) e Adoração dos Pastores (1690), entre muitos outros. Charles Le Brun faleceu a 12 de fevereiro de 1690, em Paris. (daqui)
 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

"Loa" e "Natal" - Poemas de Miguel Torga


 

Ambrogio Bergognone (Italian painter of the Renaissance, c. 1470–1523),
The Virgin and Child with Saints, c.1490, London, National Gallery
 

Loa


É nesta mesma lareira,
E aquecido ao mesmo lume,
Que confesso a minha inveja
De mortal
Sem remissão
Por esse dom natural,
Ou divina condição,
De renascer cada ano,
Nu, inocente e humano
Como a fé te imaginou,
Menino Jesus igual
Ao do Natal
Que passou.


Miguel Torga, in 'Diário XI', 1969



Ambrogio Bergognone, The Virgin and Child, 1940,
London,
National Gallery


Natal


Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.

Natal da fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina.

Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.


Miguel Torga, in 'Diário XII', 1974


sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

"Natal" - 3 Poemas de Miguel Torga

 


Hans Zatzka (Austrian painter, 1859–1945), 'Mary and Child with Angels' 


Natal

(1982)

Solstício de inverno.
Aqui estou novamente a festejá-lo
À fogueira dos meus antepassados
Das cavernas.
Neva-me na lembrança,
E sonho a primavera
Florida nos sentidos.
Consciente da fera
Que nesses tempos idos
Também era,
Imagino um segundo nascimento
Sobrenatural
Da minha humanidade.
Na humildade
Dum presépio ideal,
Emblematizo essa virtualidade.
E chamo-lhe Natal.

Miguel Torga
(Poema extraído de "Diário VII", 1982)

 


Pompeo Batoni (Italian painter, 1708
–1787), 'The Holy Family with St Elizabeth 
and the Infant St John the Baptist', 1777, Hermitage Museum, St Petersburg
 

 Natal

(1987)

Nasce mais uma vez,
Menino Deus!
Não faltes, que me faltas
Neste inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens um presépio
Mais agasalhado.

Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar,
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te sonhar.


Miguel Torga
(Poema extraído de "Diário XIV", 1987)

Natal

(1988)

Menino Jesus feliz
Que não cresceste
Nestes oitenta anos!
Que não tiveste
Os desenganos
Que eu tive
De ser homem,
E continuas criança
Nos meus versos
De saudade
Do presépio
Em que também nasci,
E onde me vejo sempre igual a ti.


Miguel Torga
(Poema extraído de "Diário XV", 1988) 
 
 
'The Virgin and Child, known as the Durán Madonna', 1435–38, 
Museo del Prado, Madrid
 
 


Rogier Van Der Weyden, pintor flamengo, nasceu por volta do ano de 1400, em Tournai, tendo falecido em Bruxelas sessenta e quatro anos depois. 
A sua obra foi conhecida nos grandes centros e mesmo célebre enquanto ainda vivia, e representou um avanço significativo para a História da Arte. De facto foi considerado, a par de Robert Campin e Jan van Eyck, um dos artistas fundamentais do Quattrocento na Flandres. 
Não existem dados que permitam a reconstituição de uma biografia incontestável, e mesmo as obras que se dizem da sua autoria foram-lhe atribuídas com base num estilo muito característico que todas elas possuem em comum. 
Crê-se que terá estudado na oficina de Rogelet de la Pâture (apesar de alguns estudiosos o identificarem com este mesmo pintor), entre 1427 e 1432, e que a partir de 1436 se estabeleceu em Bruxelas como pintor oficial da cidade. Ao serviço de Bruxelas terá pintado duas cenas de grande dimensão alusivas à Justiça, por volta do ano de 1439. 
No ano seguinte poderá ter ido a Roma, na sequência do Jubileu que se celebrava, visitando Milão e Florença e tendo-se estabelecido em Ferrara, onde trabalhou para Leonel d'Este. 
Pensa-se igualmente que terá dirigido uma oficina de grandes dimensões e importância. As inovações artísticas de que foi portador foram sobretudo no tratamento iconográfico e da imagem com grande espiritualidade, tendente para o dramatismo. 
Os temas das suas pinturas são em grande parte religiosos, como a Deposição (c. 1435) e São Lucas a retratar a Virgem, obras que a par do Tríptico Miraflores pertencem ao início da sua carreira e, como tal, mostrando clara influência de Robert Campin (provavelmente seu mestre) na característica escultórica das figuras. 
Pensa-se que o Juízo Universal ainda não patenteia os conhecimentos que poderia ter adquirido em Itália e que mais tarde se mostrariam em obras suas, vendo-se nesta obra, pelo contrário, a tendência ainda medieval preconizada por Jan van Eyck. 
Para a família Médicis pintou um Enterro e Madona com o Menino e Quatro Santos e na década de 1450 pintou obras como o Tríptico Bladelin, o Políptico dos Sete Sacramentos, um tríptico com a Crucifixão e a Anunciação, e já no final da sua vida, além de retratos com tratamento de luz bastante elaborado, o Tríptico de São João e o de Santa Colomba. (daqui)
 

domingo, 12 de dezembro de 2021

"Retábulo" e "Natal" - Poemas de Miguel Torga



Gerhardt Wilhelm von Reutern (Baltic-German military officer and painter,
1794–1865), The Holy Family, 1858, Russian Museum
 

Retábulo
 

Estranho Menino Deus é o dum poeta!
O que nasce e renasce há muitos anos
Na minha noite de Natal, fingida,
Mal corresponde à imagem conhecida
Das sucursais do berço de Belém.
É uma criança tímida que vem
Visitar os meus sonhos, e, ao de leve,
Com mãos discretas, tece
Um poema de neve
Onde depois se deita e adormece.


Miguel Torga
,
Poema extraído de "Diário VII", 1954

 
Lorenzo Lotto (Italian Renaissance painter, draughtsman, and illustrator, c. 1480–1556/57),


Natal



Devia ser neve humana
A que caía no mundo
Nessa noite de amargura
Que se foi fazendo doce…
Um frio que nos pedia
Calor irmão, nem que fosse
De bichos de estrebaria.

 
Poema extraído de "Diário IV", 1948
 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

"Setenário das Dores de Nossa Senhora" - Sonetos de Alphonsus de Guimaraens



William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905),
The Song of the Angels, 1881 


PRIMEIRA DOR
 
Et tuam ipsius animam pertransibit gladius…
São Luc., II, 35.
I

Nossa Senhora vai... Céu de esperança
Coroando-lhe o perfil judaico e fino...
E um raio de ouro que lhe beija a trança
É como um grande esplendor divino.

O seu olhar, tão cheio de ondas, lança
Clarões longínquos de astro vespertino.
Sob a túnica azul uma alva Criança
Chora: é o vagido de Jesus Menino.

Entram no Templo. Um hino do Céu tomba.
Sobre eles paira o Espírito celeste
Na forma etérea de invisível Pomba.

Diz-lhe o velho Simeão: "Por uma Espada,
Já que Ele te foi dado e que O quiseste,
A Alma terás, Senhora, traspassada..."

II

Sofrer por Ele! E pálida, ofegante,
Nossa Senhora aperta-O contra o seio.
E nas linhas tranquilas do semblante
Descem-lhe nuvens de magoado anseio.

Sofrer por Quem! Ventura semelhante,
Só a um peito como o seu de estrelas cheio...
Sofrer por Esse que do Céu distante
Na voz do Arcanjo do Senhor lhe veio...

Que lhe importavam lágrimas sem brilho,
Nessas horas de paz erma e saudosa,
Se ela chorava por seu próprio Filho...

Sofrer pela amargura dessa Boca,
E aos Pés depor-lhe a vida desditosa,
Vida que eterna ainda seria pouca!
 
III

Que lhe importavam lágrimas? Chorasse
Desde o nascer do sol até o sol posto;
Tivesse prantos quando a lua nasce,
Quando, entre nuvens, ela esconde o rosto.

Junto ao seu Berço, a contemplar-lhe a Face,
De Mãe Divina no sublime posto,
Temendo que uma estrela O despertasse,
Gozo teria no maior desgosto.

Por Ele toda a mágoa sofreria…
Ah! corresse-lhe em fonte ardente o pranto
Na paz da noite e nos clarões do dia.

Sofrer por Ele… Sim. Tudo por Esse
A quem beijava os Olhos, mas contanto
Que Ele, o seu Filho amado, não sofresse!

* * *

SEGUNDA DOR
 
…Angelus Domini apparuit in somnis Joseph…
Qui consurgens accepit puerum et matrem ejus
nocte, et seccessit in Aegyptum.

S. Matth., II, 13, 14.

I

Eram pastores rudes e pastoras
Que o sol do Oriente em beijos enrubesce,
E transforma em visões encantadoras
Na suavidade da alva que amanhece:

Eram bandos de velhos, e de louras
Crianças gentis, as mãos postas em prece,
Frontes humildes, Almas sonhadoras,
Por onde a bênção do Senhor floresce:

Era a sublime adoração do povo,
À luz daquele celestial Presepe,
Diante do leito de um menino novo:

Diante do leito em que Ele adormecia,
Hoje de flores, amanhã de crepe,
Berço de Deus, Santo-Sepulcro um dia...

* * *

TERCEIRA DOR

Fili, quid fecisti nobis sic? Ecce pater tuus et
ego dolentes quaerebamus te.

S. Luc., II, 48.

Foi por aquelas ruas circulares
Que O perdeste, Senhora, e que O não viste,
Sorrindo sob a luz dos seus olhares,
Ele, o Cordeiro amargurado e triste…

Quem pudera chorar os teus pesares,
Quem, na angústia a que o peito não resiste,
Te guiara em via-sacra pelos lares,
Sentindo toda a mágoa que sentiste!

Três dias procuraste, em mágoa imensa,
Sofrendo a multidão dos hebreus rudes,
Do Filho eterno a celestial Presença…

(Fé, Esperança, Caridade, hinário
De alívio à Mãe aflita, áureas Virtudes
Que haveis de segui-la até o Calvário!)

* * *
 
Alphonsus de Guimaraens,
Setenário das Dores de Nossa Senhora


[Além do lirismo, os versos de Alphonsus Guimaraens refletem a preocupação pelo sentimento religioso e pela meditação cristã. De família católica, o poeta tornou-se o maior cantor da Virgem, dedicando a Nossa Senhora um conjunto de 49 sonetos, reunidos sob o título de Setenário das Dores de Nossa Senhora.]  (Daqui)
 
  

Bartolomé Esteban Murillo
(Spanish Baroque painter, 1617–1682),
Maria Immaculata, c. 1660–1665, Madrid, Prado Museum
 

Imaculada Conceição
Solenidade religiosa que evoca a História de Portugal

 
Primeira celebração do culto da Imaculada Conceição decorreu no dia 8 de dezembro de 1320, em Coimbra, e consagrou-se com a coroação da Imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa como Rainha e Padroeira de Portugal durante as cortes de 1646.
 
A Igreja Católica assinala anualmente a 8 de dezembro, feriado nacional em Portugal, um reconhecimento à importância desta data na espiritualidade e identidade do país.

O dogma da Imaculada Conceição de Maria foi proclamado a 8 de dezembro de 1854, através da bula ‘Ineffabilis Deus’, a qual declara a santidade da Virgem Santa Maria desde o primeiro momento da sua existência, sendo preservada do pecado original.

A primeira celebração do culto da Imaculada Conceição aconteceu na Sé Velha de Coimbra, no dia 8 de dezembro de 1320, há 700 anos, que este ano são assinalados pela Diocese, após D. Raimundo Evrard, bispo diocesano da altura, ter assinado, no dia 17 de outubro de 1320, a constituição diocesana que instituiu a festividade da Conceição de Maria.

A ligação entre Portugal e a Imaculada Conceição ganhara destaque em 1385, quando as tropas comandadas por D. Nuno Alvares Pereira derrotaram o exército castelhano e os seus aliados, na batalha de Aljubarrota.

Em honra a esta vitória, o Santo Condestável fundou a igreja de Nossa Senhora do Castelo, em Vila Viçosa, e fez consagrar aquele templo a Nossa Senhora da Conceição.

A antiga igreja de Nossa Senhora do Castelo, espaço onde se ergue atualmente o santuário nacional, afirmou-se nos finais do século XIV como um sinal desta devoção, em toda a Península Ibérica.

Depois, deu-se durante o movimento de restauração da independência que acabou com o domínio castelhano em Portugal e que culminou com a coroação de D. João IV como rei de Portugal, a 15 de dezembro de 1640, no Terreiro do Paço, em Lisboa.

O mesmo D. João IV, atento a uma religiosidade que também já envolvera a construção de monumentos como o Mosteiro da Batalha, o Convento do Carmo e o Mosteiro da Conceição, coroou a Imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa como Rainha e Padroeira de Portugal durante as cortes de 1646.

A Universidade de Coimbra tem um papel importante em todo este processo, já que todos os seus intelectuais defenderam o dogma sob forma de juramento solene.

Após a proclamação dogmática, surgiu em Portugal um movimento no sentido de erguer um monumento nacional que assinalasse a definição de Pio IX.

Em 1869 concluiu-se esse primeiro monumento, no Sameiro, em Braga, seguindo-se-lhe a construção dum santuário dedicado à Imaculada Conceição de Maria, cuja imagem foi coroada solenemente em 1904. (Daqui) 

Importa referir que durante séculos, o Dia da Mãe era comemorado no dia 8 de dezembro, tendo sido mudado para maio, por ser considerado o mês de Nossa Senhora.

 

domingo, 27 de dezembro de 2020

"Hino de Amor" - Poema de João de Deus



Guido Reni (Italian Baroque painter, 1575–1642), St. Joseph with Infant Jesus, c. 1620,
 Hermitage Museum


Hino de Amor


Andava um dia
Em pequenino
Nos arredores
De Nazaré,
Em companhia
De São José,
O bom Jesus,
O Deus Menino.

Eis senão quando
Vê num silvado
Andar piando
Arrepiado
E esvoaçando
Um rouxinol,
Que uma serpente
De olhar de luz
Resplandecente
Como a do Sol,
E penetrante
Como diamante,
Tinha atraído,
Tinha encantado.

Jesus, doído
Do desgraçado
Do passarinho,
Sai do caminho,
Corre apressado,
Quebra o encanto,
Foge a serpente,
E de repente
O pobrezinho,
Salvo e contente,
Rompe num canto
Tão requebrado,
Ou antes pranto
Tão soluçado,
Tão repassado
De gratidão,
De uma alegria,
Uma expansão,
Uma veemência,
Uma expressão,
Uma cadência,
Que comovia
O coração!

Jesus caminha
No seu passeio,
E a avezinha
Continuando
No seu gorjeio
Enquanto o via;
De vez em quando
Lá lhe passava
A dianteira
E mal poisava,
Não afrouxava
Nem repetia,
Que redobrava
De melodia!

Assim foi indo
E foi seguindo.
De tal maneira,
Que noite e dia
Numa palmeira,
Que havia perto
Donde morava
Nosso Senhor
Em pequenino
(Era já certo)
Ela lá estava
A pobre ave
Cantando o hino
Terno e suave
Do seu amor
Ao Salvador!


João de Deus,
in 'Antologia Poética'
 
 

Guido Reni, St. Joseph and the Christ Child, c.1640, Museum of Fine Arts, Houston
 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

"Prece do Natal" - Poema de Carlos Queirós Ribeiro

 
 The Virgin and Child (Madonna of the Book), 1480,

 
Prece do Natal
 
 
Menino Jesus 
De novo nascido, 
Baixai o sentido 
Para a nossa cruz! 
 
Vede que os humanos 
Erros e cuidados 
Nos são tão pesados 
Como há dois mil anos.

A nossa ignorância
É um fardo que arde.
Como se faz tarde
Para a nossa ânsia!

Nós somos da Terra,
Coisa fria e dura.
Olhai a amargura
Que esse olhar encerra.

Colai o ouvido
À alma que sofre;
Abri esse cofre
Do sonho escondido.

Pegai nessa mão
Que treme de medo;
Sondai o segredo
Da minha oração.

Esta pobre gente
Que mal é que fez?
Nós somos, talvez,
Um povo «inocente»…

Menino Jesus
Que andais distraído
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!

A mais insofrida
De tantas misérias
– Não termos mais férias
Ao longo da vida –

Trocai por amenas
Manhãs sem cuidados,
Silêncios banhados
De ideias serenas;

Por cantos e flores
Risonhas imagens
Macias paisagens
Felizes amores! 
 in 'Antologia Poética'



Leonardo da Vinci (Italian polymath of the High Renaissance who was active
as a painter, draughtsman, engineer, scientist, theorist, sculptor, and architect,
1452–1519), Madonna Litta, c. 1490 (Renaissance art, 1350–1620)
 
 
Natal

 
Um Deus à nossa medida…
A fé sempre apetecida
De ver nascer um menino
Divino
E habitual.
A transcendência à lareira
A receber da fogueira
Calor sobrenatural. 
 

Aregos, 24 de dezembro de 1953
 
Miguel Torga, in 'Diários'
 
 

domingo, 20 de dezembro de 2020

"Natal" (1972) e "Último Natal" (1990) - 2 Poemas de Miguel Torga



Cimabue (Italian painter and designer of mosaics from Florence, 1240–1302),
Virgin Enthroned with Angels, c. 1280, Louvre, Paris
 

Natal


Fiel das horas mortas
Desta noite comprida,
Pergunto a cada sombra recolhida
Que sol figura o lume
Que da lareira negra me sorri:
O do calor cristão?
O do calor pagão?
Ou a fogueira é só a combustão
Da lenha que acendi?

Presépios, solstícios, divindades...
A versátil natureza
Do homem, senhor de tudo!
Cria mitos,
Destrói mitos,
Nega os milagres que fez
E depois, desesperado,
Procura o mundo sagrado
Nas cinzas da lucidez.

São Martinho da Anta, 24 de Dezembro de 1972


Miguel Torga, in 'Diário XI'
 

 

Último Natal


Menino Jesus, que nasces
Quando eu morro,
E trazes a paz
Que não levo,
O poema que te devo
Desde que te aninhei
No entendimento,
E nunca te paguei
A contento
Da devoção,
Mal entoado,
Aqui te fica mais uma vez
Aos pés,
Como um tição
Apagado,
Sem calor que os aqueça.
Como ele me desobrigo e desengano:
És divino, e eu sou humano,
Não há poesia em mim que te mereça.

Gaia, 24 de Dezembro de 1990


Miguel Torga, in 'Diário XVI'


* * *
 
O seu 'Diário' (1941–1994), em 16 volumes, mistura poesia, contos, memórias, crítica social e reflexões.
 No último volume, Miguel Torga (1907–1995) diz: 
 
"Chego ao fim perplexo, diante do meu próprio enigma. Despeço-me do mundo a contemplar atónito o triste espetáculo de um pobre Adão paradoxal, expulso da inocência sem culpa, sem explicação."
 
 

domingo, 13 de dezembro de 2020

"Nascença Eterna" - Poema de José Régio



Anton Raphael Mengs (Czech-Born German Neoclassical painter of Danish descent,
 1728–1779), 'The Adoration of the Shepherds', 1770. Museo del Prado, Madrid.


Nascença Eterna


Nascença Eterna,
Nasce mais uma vez!
Refaz a humílima Caverna
Que nunca se desfez.

Distância Transcendente,
Chega-te, uma vez mais,
Tão perto que te aqueças, como a gente,
No bafo dos obscuros animais.

Os que te dizem não,
Os épicos do absurdo,
Que afirmarão, na sua negação,
Senão seu olho cego, ouvido surdo?

Infelizes supremos,
Com seu fracasso alcançam nomeada,
E contentes se atiram aos extremos
Do seu nada.

Na nossa ambiguidade,
Somos piores, nós, talvez,
E uns e outros só vemos a verdade
Que, Verdade de Sempre!, tu nos dês.

Se nada tem sentido sem a fé
No seu sentido, Sol que não te apagas,
Rompe mais uma vez na noite, que não é
Senão o dia de outras plagas.

Perpétua Luz, Contínua Oferta
A nossa escuridade interna,
Abre-te, Porta sempre aberta,
Mais uma vez, na humílima Caverna.


José Régio, em ‘Obra Completa’

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

"No Calvário" - Poema de António Gomes Leal


Domenico Tintoretto (Domenico Robusti, c.1560–1635), Maria Madalena
(Penitent Magdalene), 1598
–1602, Museu Capitolino, Roma

Domenico Robusti
, também conhecido como Domenico de Tintoretto, foi um pintor italiano de Veneza. Ele cresceu sob a tutela de seu pai, o renomado pintor Jacopo Tintoretto (ca. 1518—1594).


No Calvário


Maria, com seus olhos magoados,
céus espirituais, lavava em pranto
as largas chagas de Jesus, enquanto
ria ao pé um dos três Crucificados

Semblantes de mulher mortificados
escondiam a dor no casto manto.
Uma mulher de Henon chorava a um canto.
Jogavam sobre a túnica os soldados.

Marta, os pingos de sangue, alva açucena,
dir-se-ia no bom seio recolhê-los.
alguns riam, brutais, daquela pena.

Salomé tinha um mar nos olhos belos.
João fitava a Cruz – Mas Madalena
limpava a Cristo os pés com seus cabelos.


António Gomes Leal


"Madalena" - Poema de Camilo Pessanha


Caravaggio, Maria Madalena em êxtase, 1606



Madalena
"...e lhe regou de lágrimas os pés e os
enxugou com os cabelos da sua cabeça
."
Evangelho de S. Lucas
Ó Madalena, ó cabelos de rastos,
Lírio poluído, branca flor inútil,
Meu coração, velha moeda fútil,
E sem relevo, os caracteres gastos,

De resignar-se torpemente dúctil,
Desespero, nudez de seios castos,
Quem também fosse, ó cabelos de rastos,
Ensanguentado, enxovalhado, inútil,

Dentro do peito, abominável cómico!
Morrer tranquilo, - o fastídio da cama.
Ó redenção do mármore anatómico,

Amargura, nudez de seios castos!...
Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama,
Ó Madalena, ó cabelos de rastos! 
(1867-1926),
Clepsidra


terça-feira, 25 de agosto de 2020

"Madalena" - Poema de António Gomes Leal


George Romney, A Madalena (Lady Hamilton as The Magdalene), c. 1790



Madalena


Descai o sol nos olivais do monte.
Colhe o gado o pastor. - Das largas eiras
vêm vindo as filhas de Jacob à fonte
com seu rítmico andar, entre palmeiras.

Um rouxinol suspira num loureiro.
- É nessa hora do ocaso, meiga e terna,
Em que o sol busca o mar como um boieiro
que vem beber à boca da cisterna.

Passam Jesus e os seus. - Sião, Ramá
as nostálgicas filhas de David
dizem, na sombra, baixo: «Quem será
este suave e místico Rabi?»

Mas o sol cai nos olivais do monte
Colhe o gado o pastor. - Das largas eiras
vêm vindo as filhas de Jacob à fonte
com seu rítmico andar, entre palmeiras.

Da Galileia ao Monte de Carmelo,
as judias, da sombra no mistério,
dizem, baixo: «Que príncipe tão belo
parece ser este Rabi tão sério!»

- Ele é mais louro do que um Sol levante,
mais meigo e casto que a mansa ave!
Ele é mais belo que um rei distante!
- «Quem será pois este Rabi suave?»

Mas o sol cai nos olivais do monte
Colhe o gado o pastor. - Das largas eiras
vêm vindo as filhas de Jacob à fonte
com seu rítmico andar, entre palmeiras.

Madalena em Betânia, desatando
seu cabelo, qual fúlgido lençol,
limpa os pés do Rabi, humilde, olhando
seus olhos cheios de domínio e Sol.

Lança-lhe aos pés um bálsamo correndo,
que Judas diz: do desperdício o cúmulo.
- Mas o Rabi suave vai dizendo:
«Triste mulher! Ungiu-me para o túmulo!»

Mas o sol cai nos olivais do monte
Colhe o gado o pastor. - Das largas eiras
vêm vindo as filhas de Jacob à fonte
com seu rítmico andar, entre palmeiras.

O lavrador, na tarde sossegada,
dos mistérios cismando sobre a origem,
vai andando e dizendo, sob a enxada:
- «Quem será o Rabi pálido e virgem?»

O pescador trigueiro das baías,
deitando a rede diz olhando o rio:
- «Quando virá o lúcido Messias?
- Quem é este Rabi louro e sombrio?»

O discípulo e apóstolo, cavado
dos jejuns, a cismar sobre a doutrina,
vai andando e dizendo: - «o Céu calado
pode criar a encarnação divina?...»

Pode o verbo ser carne? O Todo e o tudo
tornar-se a Parte? um ramo de David!
Ó Céu largo, ó Céu triste, belo e mudo!
Quem é pois, quem é pois, nosso Rabi?»

- Mas Madalena, num amargo choro,
limpa os pés do Rabi, cheia d'amor,
com seus longos cabelos feitos de ouro,
e, baixinho, soluça: - «É meu senhor!»

O Sol morreu nos olivais do Monte.
Rompe o virgem luar. - Às largas eiras
vão-se indo as filhas de Jacob, da fonte,
com seu rítmico andar entre as palmeiras.

1913 

António Gomes Leal (1848-1921)
In Gomes Leal - História de Jesus, José Carlos Seabra Pereira
(ed,), Assírio & Alvim, Lisboa: 1998 (2ª.), pp.96-98