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terça-feira, 6 de maio de 2025

"O Regresso" - Poema de Manuel António Pina


 Walter Langley (Social Realist painter, 1852-1922 ), Waiting for the boats, 1885. Pencil and watercolor.



O Regresso


Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.


 Manuel António Pina, Como se desenha uma casa, 2011.
 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

"Alguém" - Poema de Gonçalves Crespo


 
Walter Langley (English painter and founder of the Newlyn School of plein air artists,
1852 – 1922), Meditation, ca. 1904.

 

Alguém 


Para alguém sou lírio entre os abrolhos,
E tenho as formas ideais do Cristo;
Para alguém sou vida e a luz dos olhos,
E se a Terra existe, é porque existo.

Esse alguém que prefere ao namorado
Cantar das aves minha rude voz,
Não és tu, anjo meu idolatrado!
Nem, meus amigos, é nenhum de vós!

Quando alta noite me reclino e deito,
Melancólico, triste e fatigado,
Esse alguém abre as asas no meu leito,
E o meu sono desliza perfumado.

Chovam bênçãos de Deus sobre a que chora
Por mim além dos mares! esse alguém
É de meus dias a esplendente aurora:
És tu, doce velhinha, ó minha mãe!


Gonçalves Crespo, in "Miniaturas", 1870.



Gonçalves Crespo, "Miniaturas" (7ª ed.)
Editora Domingos Barreira

 Sinopse

"Miniaturas", volume de poesias de Gonçalves Crespo, em que a temática amorosa e o retrato da figura feminina (vejam-se composições como "Modesta", "Sara", "Alguém" e "Mãe"), com ressonâncias do lirismo ultrarromântico, não escondem uma evolução no sentido do parnasianismo, com notações sóbrias e realistas de ambientes e cenários vazadas num estilo cuidado e depurado.
Composições como "A sesta", "Na roça" ou "Ao meio-dia" evocam os ambientes tropicais brasileiros, bem familiares ao autor. (daqui)

 

domingo, 18 de agosto de 2024

"O Homem e o Mar" - Poema de Charles Baudelaire



Walter Langley (English painter and founder of the Newlyn School of plein air artists,
 1852 – 1922), Between the Tides, Newlyn Harbour, 1901.


O Homem e o Mar 


 
Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Que tu sempre hás de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Teu íntimo sentir, teu coração ardente.

Gostas de te banhar na tua própria imagem.
Dás-lhe beijo até, e, às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mística linguagem.

Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos;
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos,
Ó mar, ninguém conhece os teus fundos abismos;
Os segredos guardais, avaros, receosos!

E há séculos mil, séculos inumeráveis,
Que os dois vos combateis numa luta selvagem,
De tal modo gostais da morte e da carnagem,
Eternos lutadores ó irmãos implacáveis! 
 


"As Flores do Mal" de Charles Baudelaire.
Tradução de Delfim Guimarães
Montecristo Editora 


Sinopse


As Flores do Mal (Les Fleurs du mal) do poeta francês Charles Baudelaire é considerado um marco da poesia moderna e simbolista e um dos mais influentes livros de poemas da modernidade.
Seus poemas, que foram em grande parte inspirados em sua paixão pela mulata Jeanne Duval, foram julgados imorais para a época. O livro levantou polémica e despertou hostilidades na imprensa, Baudelaire e seu editor foram processados e, além de pagar multa, tiveram que reimprimir a obra, excluindo poemas da primeira publicação. Nesta edição, disponibiliza-se para o leitor a versão completa de As flores do mal, com os poemas censurados e os incluídos posteriormente. A clássica e primorosa tradução é de Delfim Guimarães. (daqui)

 
Walter Langley, When the Boats are Away, 1903

 
"O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano."

(Isaac Newton)