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domingo, 30 de julho de 2017

"S/ Título" - Poema de Alberto Pimenta


 

Poema

 
ao que parece
parece que
os poetas
dizem o que dizem
diz um poeta

segue-se
ao que parece
segundo o mesmo poeta
que os poetas
dizem o que dizem
mas o que dizem
não quer dizer
o que dizem

os especialistas
uns dizem
que alguns poetas
querem dizer o que dizem
e outros
não

ora
quem sou eu
para discordar
de facto
também me parece
que muitos poetas
não querem dizer
o que dizem
quando dizem
o que querem 

outros sim
quer dizer
pelo contrário
não dizem
o que querem
mas querem dizer
o que dizem

por exemplo
quando
le nouveau bec
d'assurancetourix

diz
que mais vale
uma ordem injusta
que a desordem
eu sei tu sabes ele sabe
que é isso
que le mec quer dizer 


Alberto Pimenta,
in "Resumo: a poesia em 2012", 
Documenta/Fnac, pp. 23-24.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

"O Ator" - Poema de Herberto Helder



George Grosz (German artist, 1893–1959), "The Eclipse of the Sun", 1926,
 Oil on canvas, 207.3 x 182.6 cm


O Ator


O ator acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O ator põe e tira a cabeça 
de búfalo, 
de veado, 
de rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o ator.
O ator acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela. 
Bocado janela para fora. 
Outro bocado gruta para dentro.
O ator toma as coisas para deitar fogo 
ao pequeno talento humano.
O ator estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente 
na noite, é o ator, com
uma voz pura, monotonamente batida 
pela solidão universal.
O espantoso ator que tira e coloca
e retira 
o adjetivo da coisa, a subtileza 
da forma 
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã na sua 
divagação de maçã. 
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o ator está como a maçã.
O ator é um peixe.

Sorri assim o ator contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O ator que subtrai Deus de Deus
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o ator é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O ator diz uma palavra inaudível.
Reduz a humanidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O ator acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O ator é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamentecomo o ator.
Como a unidade do ator.

O ator é um advérbio que ramificou
de um substantivo. E o substantivo retorna e gira,
e o ator é um adjetivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O ator é o grande nome cheio de holofotes. 
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o ator levanta o corpo, 
enche o corpo com melodia,
corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o ator.
Como o corpo do ator.

Porque o talento é a transformação.
O ator transforma a própria ação
da transformação.
Solidifica-se. Gasifica-se. Complica-se.
O ator cresce no seu ato.
Faz crescer o ato.
O ator atifica-se.
É enorme o ator com sua ossada de base,
com suas tantas janelas, 
as ruas.
O ator com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o ator,
como o secreto ator.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O ator ama em ação de estrela. 
Ação de mímica.
O ator é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomima.
O ator vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O ator vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o ator.
Como a essência do amor do ator.
O teatro geral

O ator em estado geral de graça.




George Grosz, "The Pillars of Society", 1926



"De uma maneira geral, os seres humanos podem ser divididos em três classes: aqueles que se matam com trabalho, os que se matam com preocupações e aqueles que se matam de tédio."
 
 

domingo, 7 de agosto de 2016

"Século XXI" - Poema de Fernando Pinto do Amaral



George Grosz (German artist, 1893–1959), Café, c. 1918–1919.


Século XXI


Falam de tudo como se a razão 
lhes ensinasse desesperadamente 
a mentir, a lançar 
sem remorso nem asco um novo isco 
à espera que alguém morda 
e acredite nessa liturgia 
cujos deuses são fáceis de adorar 
e obedecem às leis do mercado. 

Falam desse ludíbrio a que chamam 
o futuro 
como se ele existisse 
e as suas palavras ecoam 
em flatulentas frases 
sempre a favor do vento que as agita 
ao ritmo dos sorrisos ou das entrevistas 
em que tudo se vende 
por um preço acessível: emoções 
& sexo & fama & outros prometidos 
paraísos terrestres em horário nobre 
- matéria reciclável 
alimentando o altar do esquecimento. 

O poder não existe, como sabes 
demasiado bem - apenas uma 
inútil recidiva biológica 
de hormonas apressadas que procuram 
ser fiéis aos comércio 
dos sonhos sempre iguais, reproduzindo 
sedutoras metástases do nada 
nos códigos de barras ou nos cromossomas 
de quem já pouco espera dos seus genes. 


in 'A Luz da Madrugada'
 

 
George Grosz, Café, 1915, Hirshhorn Museum