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quinta-feira, 23 de julho de 2026

"Poeta no supermercado" - Poema de Fernando Assis Pacheco


Darío de Regoyos (Spanish painter, 1857–1913),
'Mercado de Villafranca de Ordizia', 1909
 

Poeta no supermercado

1

Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte…
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.

2

Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz — como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.
Palavra, um homem tem que ser

prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.


Fernando Assis Pacheco
, 
in 'Cuidar dos Vivos', 1963



Darío de Regoyos (Spanish painter, 1857–1913), 'View of the Alhambra'
Granada Public Library
 

"O que distingue um grande poeta é o facto dele nos dizer algo que ninguém ainda disse, 
mas que não é novo para nós." 

 
 

'Portrait of José Ortega y Gasset', 1917, by Ignacio Zuloaga
(Spanish painter, 1870–1945)
 

Escritor espanhol, José Ortega y Gasset nasceu em 1883, em Madrid, e morreu em 1955, na mesma cidade. Formou-se em Direito pela Universidade de Madrid.
É considerado um dos escritores espanhóis que alcançou a mais ampla e variada ressonância em todo o mundo, destacando-se as suas produções La Deshumanización del arte (1925) - onde Ortega y Gasset se revela como um perfeito prosador do desengano e do descontentamento com a vida, traduzindo para a obra a sua mais intensa veia de ensaísta filosófico -, Obras Completas (1932) - uma espécie de compilação de grande parte da produção teórica e filosófica do seu entendimento da vida - e Estudios sobre el amor (1939) - inicialmente publicado em Buenos Aires, é constituído por uma série de ensaios sobre o grande tema do Amor. O seu pensamento central baseia-se na consideração da vida humana entendida como realidade radical, ou seja, apenas possível quando entendida pelos suportes básicos da dualidade, virilidade e feminilidade.
O grande objetivo de Ortega y Gasset era o de ocupar-se do tema do Amor, uma vez que o considerava um pouco "esquecido", "mal tratado" e mal entendido pela humanidade. Desde os seus escritos mais jovens até aos de idade mais madura, Ortega y Gasset conseguiu, nesta obra, cumprir plenamente o seu objetivo de ocupar-se extensa e quase exclusivamente deste magnífico tema. (daqui)
 

segunda-feira, 7 de abril de 2025

"Com a tua letra" - Poema de Fernando Assis Pacheco



Fritz Zuber-Buhler (Swiss painter, 1822–1896), 'The Poetess' ('La Poétesse'), 1880. 
 

Com a tua letra


Fala-se de amor para falar de muitas coisas
que entretanto nos sucede.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.
 
 Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
 
 Quer dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não para.

Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
 Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
 
 Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
 Porque tudo se escreve com a tua letra. 


Fernando Assis Pacheco, in "A Musa Irregular"
(Antologia poética), 1991.
 

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

"Soneto contra as pesporrências" - Poema de Fernando Assis Pacheco



Cruzeiro Seixas (Poeta e pintor surrealista português, 1920–2020),
'As palavras só têm um valor real na poesia', 2001. Serigrafia sobre papel.



Soneto contra as pesporrências


É favor não pedirem a esta poesia
que faça o jeito às alegadas tendências
do tempo nem às vãs experiências
que sempre a deixaram de mão fria

o que iria bem mas mesmo bem seria
num jornal a coluna das ocorrências
as coisas da vida mais do que as pesporrências
editoriais do comentador do dia

o que vai mal com ela são as petulâncias
de que se vestem muitas redundâncias
dando-se públicos ares de sabedoria

que o leitor farto das arrogâncias
magistrais troca por outras instâncias
onde pode mandá-las pra casa da tia


Fernando Assis Pacheco
, 'A Musa Irregular', 1991.
(Antologia poética)


"A Musa Irregular" de Fernando Assis Pacheco
Edição/reimpressão: 11-2006
Editor: Assírio & Alvim
 

SINOPSE

A primeira edição de A Musa Irregular apareceu em Lisboa, com a chancela da Hiena Editora, em Fevereiro de 1991. Teria segunda edição em 1996 e terceira em 1997, ambas nas Edições Asa. A presente segue naturalmente a primeira, efetuando as correções que o próprio Fernando Assis Pacheco deixou manuscritas. (daqui)


A Musa Irregular

A Musa Irregular reúne a obra poética completa do autor, coligindo volumes editados, dispersos e inéditos. No trajeto poético coberto pela coletânea, as obras compostas durante e sob o efeito da experiência da guerra colonial têm um papel fundamental na instituição de um sujeito poético que, sobre um fundo de dor e revolta, desenvolverá estratégias de conservação como o distanciamento irónico ou o humor. A situação limite da guerra, limiar da vida, da humanidade e da própria identidade, impõe um esforço de autocontrolo e de resistência contra a desintegração psíquica ("Abençoado o meu domínio / sobre os nervos desfeitos, shazam!", "Rascunhos e Fragmentos") que marcará a sua escrita poética enquanto recusa de cedência ao lirismo angustiado: "não posso deixar que a tristeza / sujeite estes versos. [...] não me vou deixar / transformar num poeta azedo." ("Animais de Fogo"). 

Colada à experiência e ao vivido, a poesia de Fernando Assis Pacheco reclama-se de uma total liberdade e opõe-se a qualquer tipo de experiência literária profissionalizada ou institucionalizada ("É favor não pedirem a esta poesia / que faça jeito às alegadas tendências / do tempo nem às vãs experiências / que sempre a deixaram de mão fria", "Soneto contra as Pesporrências"), não se coibindo de tocar conscientemente os limites do antilirismo, deixando-se embeber pelo prosaico e desenvolvendo um trabalho de subversão gramatical. A singular combinação de traços como a denúncia de alienações coletivas, as pausas líricas para a evocação de afetos e vivências (o pai, a filha, os amores de Coimbra), a declarada "educação maneirista" que acentua o rigor compositivo, a pluralidade de registos, a abertura a uma vanguarda com uma postura subjetiva conferem a A Musa Irregular uma estatuto singular na poesia da segunda metade da época contemporânea. (daqui)

 

domingo, 10 de maio de 2020

"Genérico" - Poema de Fernando Assis Pacheco



Michael Ancher (Danish realist artist, 1849–1927),
'Father and Son in Skagen', 1885 
 
 
Genérico 


E tu, meu pai? Adivinho esses vidrilhos
das lágrimas quebrando
um a um na boca triste mas
por dentro, para que digamos
mais tarde, sem invenção escusada:
o pai não chorou.

Eu soube das tuas fúrias
mordendo-se em silêncio,
ou de como te pões
às vezes tão de cinza.
O barco, o barco. Ficaremos
ainda estes minutos quantos.
Do que quiseres. E como quiseres.
Fala. Mas nada de telegramas
para depois da barra
- posso não os abrir,
juro que posso.
Se eu fosse um amigo, se estivesses
em frente dum copo.
Custava menos. Assim
deslizas a unha
pelo tecido da farda, inútil
dedo terno com os olhos longe.
O pai, que não chorou, tremia
de modo impercetível.

Lembro-me da bebedeira
em Alpedrinha, na estalagem,
com o Luís Melo
subitamente velho.
«Tramados, pá, tramados.»
O carro falha, são as velas
os platinados sujos
«a puta que os pariu» (Luís).

Um último aceno só vinho
para estas adolescentes
ao balcão do bar e depois e depois?

Mas o pai não chora.
Segura-me pelo braço, não chora.
Eis o filho
dos anos meus incorruptíveis.
Nasceria de uma pedra.
Longe do mundo é que ele nasceu.
E não mo tireis nunca
ó cegos capitães!

Meia hora antes o pai
filmou o Tejo, as tropas.
Era um barco, um barco onde ele ia.
Era um barco cheio. 


Fernando Assis Pacheco, in 'Câu Kiên: Um Resumo', 1972 
(republicado em 1976 com o título "Catalabanza, Quilolo e Volta")

terça-feira, 5 de maio de 2020

"Seria o amor português" - Poema de Fernando Assis Pacheco



William McGregor Paxton (American painter and instructor, 1869–1941),
'The Figurine', 1921, Smithsonian American Art Museum.



Seria o amor português


Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
— tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?


Fernando Assis Pacheco
,
 in "A Musa Irregular", 1991.
 
 

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

"Ode ao Livro" - Poema de Pablo Neruda

 

Ekaterina Panikanova (Russian surreal artist, b. 1975)
(daqui)


Ode ao Livro


Livro, quando te fecho
abro a vida.
Ouço
entrecortados gritos
nos portos.
Os lingotes de cobre
atravessam os areais,
descem para Tocopilla.

É de noite.
Entre as ilhas
o nosso mar
palpita com seus peixes.
Toca nos pés, nas coxas,
nas costelas calcárias
da minha pátria.
Toda a noite se atira contra a praia
e com a luz do dia
amanhece cantando
como se despertasse uma viola.

Por mim chama o bater
deste mar. Por mim
o vento chama,
e chama-se Rodríguez,
José António,
recebi um telegrama
do Sindicato «Mina»
e aquela que eu amo
(não lhes direi seu nome)
espera-me em Bucalemu.

Livro, tu não conseguiste
embrulhar-me em papel,
não me encheste,
de tipografia,
de impressões celestes,
não conseguiste
encadernar-me os olhos,
saio de ti para cobrir o arvoredo
com rouca família do meu canto,
trabalhar metais incandescentes
ou comer carne assada
junto à fogueira nos montes.

Amo os livros
exploradores,
livros com bosque ou neve,
profundidade ou céu,
enquanto
odeio
o livro aranha
onde o pensamento
foi dispondo arame venenoso
para que ali se enrede
a juvenil e circundante mosca.

Livro, deixa-me livre.
Eu não quero andar vestido
de volume,
não venho de um tomo,
os meus poemas,
não comeram poemas,
devoram
apaixonados acontecimentos,
nutrem-se de intempéries,
retiram alimento
da terra e dos homens.

Livro, deixa-me andar pelos caminhos
com poeira nos sapatos
e sem mitologia:
volta à tua biblioteca,
eu vou por essas ruas.

Aprendi a vida
da vida,
aprendi o amor com um só beijo,
e não pude ensinar nada a ninguém
senão quando vivi,
o que tive em comum com outros homens,
o que lutei com eles:
o que exprimi de todos no meu canto.


Pablo Neruda (1904–1973)
Tradução de Fernando Assis Pacheco