
Cruzeiro Seixas (Poeta e pintor surrealista português, 1920-2020),
'As palavras só têm um valor real na poesia', 2001. Serigrafia sobre papel.
Soneto contra as pesporrências
É favor não pedirem a esta poesia
que faça o jeito às alegadas tendências
do tempo nem às vãs experiências
que sempre a deixaram de mão fria
o que iria bem mas mesmo bem seria
num jornal a coluna das ocorrências
as coisas da vida mais do que as pesporrências
editoriais do comentador do dia
o que vai mal com ela são as petulâncias
de que se vestem muitas redundâncias
dando-se públicos ares de sabedoria
que o leitor farto das arrogâncias
magistrais troca por outras instâncias
onde pode mandá-las pra casa da tia
Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular, 1991.
(Antologia poética)
"A Musa Irregular" de Fernando Assis Pacheco
Edição/reimpressão: 11-2006
Editor: Assírio & Alvim
SINOPSE
A primeira edição de
A Musa Irregular apareceu
em Lisboa, com a chancela da Hiena Editora, em Fevereiro de 1991. Teria
segunda edição em 1996 e terceira em 1997, ambas nas Edições Asa. A
presente segue naturalmente a primeira, efetuando as correções que o
próprio
Fernando Assis Pacheco deixou manuscritas.
(daqui)
A Musa Irregular
A Musa Irregular
reúne a obra poética completa do autor, coligindo volumes editados,
dispersos e inéditos. No trajeto poético coberto pela coletânea, as
obras compostas durante e sob o efeito da experiência da guerra colonial
têm um papel fundamental na instituição de um sujeito poético que,
sobre um fundo de dor e revolta, desenvolverá estratégias de conservação
como o distanciamento irónico ou o humor. A situação limite da guerra,
limiar da vida, da humanidade e da própria identidade, impõe um esforço
de autocontrolo e de resistência contra a desintegração psíquica
("Abençoado o meu domínio / sobre os nervos desfeitos, shazam!",
"Rascunhos e Fragmentos") que marcará a sua escrita poética enquanto
recusa de cedência ao lirismo angustiado: "não posso deixar que a
tristeza / sujeite estes versos. [...] não me vou deixar / transformar
num poeta azedo." ("Animais de Fogo").
Colada à experiência e ao vivido,
a poesia de Fernando Assis Pacheco reclama-se de uma total liberdade e
opõe-se a qualquer tipo de experiência literária profissionalizada ou
institucionalizada ("É favor não pedirem a esta poesia / que faça jeito
às alegadas tendências / do tempo nem às vãs experiências / que sempre a
deixaram de mão fria", "Soneto contra as Pesporrências"), não se
coibindo de tocar conscientemente os limites do antilirismo, deixando-se
embeber pelo prosaico e desenvolvendo um trabalho de subversão
gramatical. A singular combinação de traços como a denúncia de
alienações coletivas, as pausas líricas para a evocação de afetos e
vivências (o pai, a filha, os amores de Coimbra), a declarada "educação
maneirista" que acentua o rigor compositivo, a pluralidade de registos, a
abertura a uma vanguarda com uma postura subjetiva conferem a A Musa Irregular uma estatuto singular na poesia da segunda metade da época contemporânea. (daqui)