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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

"Hino à Alegria" - Poema de António Feijó


Ludwig Knaus (German painter, 1829 - 1910), Girls from the Schwalm, 1886.



Hino à Alegria


Tenho-a visto passar, cantando, à minha porta, 
E às vezes, bruscamente, invadir o meu lar, 
Sentar-se à minha mesa, e a sorrir, meia morta, 
Deitar-se no meu leito e o meu sono embalar. 

Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos, 
Quase meiga, apesar do seu riso constante, 
De olhos a arder, lábios em flor, cabelos soltos, 
A um tempo é cortesã, deusa ingénua ou bacante... 

Quando ela passa, a luz dos seus olhos deslumbra; 
Tem como o Sol de Inverno um brilho encantador; 
Mas o brilho é fugaz, — cintila na penumbra, 
Sem que dele irradie um facho criador. 

Quando menos se espera, irrompe de improviso; 
Mas foge-nos também com uma presteza igual; 
E dela apenas fica um pálido sorriso 
Traduzindo o desdém duma ilusão banal. 

Onda mansa que só à superfície corre, 
Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda! 
A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre, 
Se em nós crava a raiz exaustiva e profunda! 

No entanto, eu te saúdo e louvo, hora dourada, 
Em que a Alegria vem extinguir, de surpresa, 
Como chuva a cair numa planta abrasada, 
A fornalha em que a Dor se transmuta em Beleza! 

Pensar, é certo, eleva o espírito mais alto; 
Sofrer torna melhor o coração; depura 
Como um crisol: a chispa irrompe do basalto, 
Sai o oiro em fusão da escória mais impura. 

A Alegria é falaz; só quem sofre não erra, 
Se a Dor o eleva a Deus, na palavra que O louve; 
A Alma, na oração, desprende-se da terra; 
Jamais o homem é vão diante de Deus que o ouve! 

E contudo, — ilusão!—basta que ela sorria, 
Basta vê-la de longe, um momento, a acenar, 
Vamos logo em tropel, no capricho do dia, 
Como ébrios, evoé! atrás dela a cantar! 

Mas se ela, de repente, ao nosso olhar se furta, 
Todo o seu brilho é pó que anda no sol disperso; 
A Alegria perfeita é uma aurora tão curta, 
Que mal chega a doirar as cortinas do berço. 

Às vezes, essa luz, de tão frágil encanto, 
Vem ainda banhar certas horas da Vida, 
Como um íris de paz numa névoa de pranto, 
Crepitação, fulgor duma estrela perdida. 

Então, no resplendor dessa aurora bendita, 
Toma corpo a ilusão, e sem ânsias, sem penas, 
O espírito remoça, o coração palpita 
Seja a nossa alma embora uma saudade apenas! 

Mas efémera ou vã, a Alegria... que importa? 
Deusa ingénua ou bacante, o seu riso clemente, 
Quando, mesmo de longe, ecoa à nossa porta, 
Deixa em louco alvoroço o coração da gente! 

Momentânea ou falaz, é sempre um dom divino, 
Sol que um instante vem a nossa alma aquecer... 
Pudesse eu celebrar teu louvor no meu Hino! 
Momentâneo, falaz encanto de viver! 

O teu sorriso enxuga o pranto que choramos, 
E eu não sei traduzir a ventura que exprimes! 
Nesta sentimental língua que nós falamos, 
Só a Dor e a Paixão têm acordes sublimes!


António Feijó, in 'Sol de Inverno'


Ludwig Knaus, Girl in a Field, 1857


"Sem a alegria, a humanidade não compreende a simpatia nem o amor."



sexta-feira, 29 de março de 2013

"Ser Doido-Alegre, que Maior Ventura!" - Poema de António Aleixo


Ilustração de Valentin Rekunenko
 

Ser Doido-Alegre, que Maior Ventura!


Ser doido-alegre, que maior ventura! 
Morrer vivendo p'ra além da verdade. 
É tão feliz quem goza tal loucura 
Que nem na morte crê, que felicidade! 

Encara, rindo, a vida que o tortura, 
Sem ver na esmola, a falsa caridade, 
Que bem no fundo é só vaidade pura, 
Se acaso houver pureza na vaidade. 

Já que não tenho, tal como preciso, 
A felicidade que esse doido tem 
De ver no purgatório um paraíso... 

Direi, ao contemplar o seu sorriso, 
Ai quem me dera ser doido também 
P'ra suportar melhor quem tem juízo. 
in "Este Livro que Vos Deixo" 
 


António Aleixo (1899–1949)



Galeria de Valentin Rekunenko
Ilustração de Valentin Rekunenko


"A alegria é a saúde da alma."

(Provérbio)


Ilustração de Valentin  Rekunenko


"A alegria é a vida vista através de um raio de sol." 

(Provérbio)


Ilustração de Valentin Rekunenko


"Quem planta e cria tem alegria." 

(Provérbio)


Valentin Rekunenko


"As grandes alegrias merecem partilha."

(Provérbio) 


Valentin Rekunenko


"Homem pobre, com pouco se alegra." 

(Provérbio) 


Valentin Rekunenko


"A alegria que se esconde é candeia apagada." 

(Provérbio)


Valentin Rekunenko


"A alegria é, muitas vezes, mãe de inúmeras loucuras." 

(Provérbio)


Valentin Rekunenko


"O segredo da vida alegre e contente é estar em paz com Deus e com a Natureza."

(Provérbio)