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quarta-feira, 27 de novembro de 2024

"Estrada" - Poema de Rui Knopfli


Harald Sohlberg (Norwegian Neo-romantic painter, 1869- 1935),
Country Road, c. 1912.
 
 

Estrada

Súbito apercebo-me:
Segue a viagem dos anos.
Passou o tempo das amoras
e das laranjas furtadas,
a flor da chuva de ouro
para sugar o gostinho a açúcar.

Sonho com uma comprida paisagem de cedros
que nunca vi.
Apetece-me deixar o corpo adormecido
junto ao rádio
e ir passear pelos galhos das árvores
e sobre os fios telefónicos.

Nada feito,
pesada de agruras e desertos
segue a viagem dos anos.


Rui Knopfli, Obra Poética, 2003

 

 
Harald Sohlberg (Norwegian Neo-romantic painter, 1869 - 1935), 
 Self-portrait (Paris, 1896).


"Toda a obra de arte é uma personalidade. O artista vive nela, depois dela ter vivido um longo tempo dentro dele."

(José María Vargas Vila)
 

quarta-feira, 1 de março de 2023

"Iceberg" e "Profissão de febre" - Poemas de Paulo Leminski

 

Harald Sohlberg
(Norwegian Neo-romantic painter, 1869-1935), Vinternatt i Fellene III 
(Winter's Night in the Mountains III), between 1918 and 1924. 

 
 
Iceberg


Uma poesia ártica,
claro, é isso que desejo.
Uma prática pálida,
três versos de gelo.
Uma frase-superfície
onde vida-frase alguma
não seja mais possível.
Frase, não. Nenhuma,
Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito,
a única coisa única.
Mas falo. E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?).
Sim, inverno, estamos vivos. 
 

Paulo Leminski, in Toda poesia, 
São Paulo: Companhia das Letras, 2013
 
 
 
 Harald Sohlberg, The Old Captain’s House, Winter Afternoon, 1909
 
 
Profissão de febre

 
Quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento. 


Paulo Leminski
, La vie en close,
in Toda poesia, São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 279.
 
 
Harald Sohlberg, Storgaten Røros (Røros main street), 1904
 
 
A Voz do Silêncio 

 
A pessoa que sou é única, limitada a um nascer e a um morrer, presente a si mesma e que só à sua face é verdadeira, é autêntica, decide em verdade a autenticidade de tudo quanto realizar. Assim a sua solidão, que persiste sempre talvez como pano de fundo em toda a comunicação, em toda a comunhão, não é 'isolamento'. Porque o isolamento implica um corte com os outros; a solidão implica apenas que toda a voz que a exprima não é puramente uma voz da rua, mas uma voz que ressoa no silêncio final, uma voz que fala do mais fundo de si, que está certa entre os homens como em face do homem só. O isolamento corta com os homens: a solidão não corta com o homem. A voz da solidão difere da voz fácil da fraternidade fácil em ser mais profunda e em estar prevenida.

Vergílio Ferreira
, in 'Espaço do Invisivel I'


Harald Sohlberg, Street in Røros in Winter, 1903


"O indeciso e flexível da imaginação é sempre mais fascinante do que a nitidez do real."

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 4 
 


Paulo Leminski - Toda poesia, Páginas: 424
Capa: Elisa von Randow
Companhia das Letras
 
 
Entre haikais e canções, poemas concretos e líricos, "Toda poesia" percorre, pela primeira vez, a trajetória poética completa do autor curitibano e revela por que Paulo Leminski é um dos poetas brasileiros mais lidos das últimas décadas. 
 
Apresentação

Paulo Leminski foi corajoso o bastante para se equilibrar entre duas enormes construções que rivalizavam na década de 1970, quando publicava seus primeiros versos: a poesia concreta, de feição mais erudita e superinformada, e a lírica que florescia entre os jovens de vinte e poucos anos da chamada "geração mimeógrafo".
Ao conciliar a rigidez da construção formal e o mais genuíno coloquialismo, o autor praticou ao longo de sua vida um jogo de gato e rato com leitores e críticos. Se por um lado tinha pleno conhecimento do que se produzira de melhor na poesia - do Ocidente e do Oriente -, por outro parecia comprazer-se em mostrar um "à vontade" que não raro beirava o improviso, dando um nó na cabeça dos mais conservadores. Pura artimanha de um poeta consciente e dotado das melhores ferramentas para escrever versos.
Entre sua estreia na poesia, em 1976, e sua morte, em 1989, a poucos meses de completar 45 anos, Leminski iria ocupar uma zona fronteiriça única na poesia contemporânea brasileira, pela qual transitariam, de forma legítima ou como contrabando, o erudito e o pop, o ultraconcentrado e a matéria mais prosaica. Não à toa, um dos títulos mais felizes de sua bibliografia é Caprichos & relaxos: uma fórmula e um programa poético encapsulados com maestria.
Este volume percorre, pela primeira vez, a trajetória poética completa do autor curitibano, mestre do verso lapidar e da astúcia. Livros hoje clássicos como Distraídos venceremos e La vie en close, além de raridades como Quarenta clics em Curitiba e versos já fora de catálogo estão agora novamente à disposição dos leitores, com inédito apuro editorial.
O haikai, a poesia concreta, o poema-piada oswaldiano, o slogan e a canção - nada parece ter escapado ao "samurai malandro", que demonstra, com beleza e vigor, por que tem sido um dos poetas brasileiros mais lidos e celebrados das últimas décadas. Com apresentação da poeta (e sua companheira por duas décadas) Alice Ruiz S, posfácio do crítico e compositor José Miguel Wisnik, e um apêndice que reúne textos de, entre outros, Caetano Veloso, Haroldo de Campos e Leyla Perrone-Moisés, Toda poesia é uma verdadeira aventura - para a inteligência e a sensibilidade. (Daqui)

quarta-feira, 7 de abril de 2021

"Anúncio no Ar" e "Creio termos sido feitos para amar" - Poemas de Egito Gonçalves

 


Harald Sohlberg
, Fisherman's cottage, 1907


Anúncio no Ar

 
Céus, nuvens, ondas, ventos,
dai-me notícias do meu amor norueguês.

Elementos da natureza gastos por tantos versos,
ferralha romântica, brilhai de novo
e trazei-me notícias do meu amor norueguês.

Aquela que eu amei um verão na praia
– pérola cuja ostra era um barco de carvão,
matrícula de Bergen, essa mesma, elementos!,
notícias, notícias do meu amor norueguês.

A que veio dos fiordes e vivia num barco
encostado ao cais, junto de um guindaste;
a que me acendeu a manhã do amor,
a que abriu a porta às tempestades,
a que me deu a chave da invenção…
Existe? Fugiu à ocupação? Morreu prisioneira?

Notícias, notícias do seu rosto que mal lembro,
do seu corpo de caule adolescente…
Notícias do seixo branco que trocámos
com palavras de amor em inglês mal decorado.

Notícias da que foi espiga mal madura,
notícias do meu amor norueguês. 
 
in ‘Viagem com o Teu Rosto’ 
 
 
   Ano: 1980    1ª Edição  
 
 
Poemas Políticos 
(1952-1979)
 
Poemas Políticos reúne grande parte dos poemas de Egito Gonçalves incluídos nos volumes A Viagem com o teu rosto (1958), Os Arquivos do Silêncio (1963), O Fósforo na Palha (1970) ou publicados dispersamente em jornais, revistas e volumes coletivos. 
 
A antologia obedece ao critério de coligir composições consideradas como representativas de uma poesia militante, reflexo de uma situação política de censura e ditadura, ou sugerida por acontecimentos históricos concretos explicitados pelo autor numa "Nota" final à edição. 
 
A descodificação plena dos Poemas Políticos depende, pois, dessa contextualização revelada na "Nota do Autor", sem a qual apenas acederíamos a um sentido parcial ou difuso do texto poético, tanto mais quanto a produção poética sob a censura obrigou a estratégias de ocultação do referente histórico ou político a que as composições aludiam (sobre a distinção entre poema emocional e poema político, cf. Fernando J. B. Martinho - Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa na década de 50, 1996, pp. 380-381). Em algumas composições, a relação entre o enunciado poético e os acontecimentos evocados é concebida de forma intencionalmente enigmática e atravessada por uma imagística surrealizante que tornam, ao leitor que não possua os mesmos denominadores históricos, inacessível o seu contexto concreto como, por exemplo, em "Eleição". 
 
A antologia, que abre com um dos poemas mais conhecidos pela intelectualidade portuguesa da oposição ao regime, e que deu título à publicação Notícias do Bloqueio, faz reviver um contexto de catástrofe bélica e opressão humana, a que o sujeito poético imprime frequentemente uma nota discreta de amarga ironia ("É necessário inventar uma gigantesca correia-sem-fim / que produza diariamente milhares de soldados, / que taylorize o exército e bata os recordes de produção." (in "Edital"). 
 
A certeza de que um dia todas as atrocidades serão passado, que a libertação virá mais tarde ou mais cedo condenam o sujeito poético a uma vida adiada ("Escreverei mais tarde / saudades da infância / e de pedras e rosas / sem dúbios sentidos. // Escreverei mais tarde / de um anel muito simples / e das tardes plenas / em que o amor se inscreve. // Mas agora deixai-me/ chorar sobre estas lágrimas.", in «Mais tarde sim») e a suportar indefinidamente o «Rolar do tempo», as "longas horas" em que vela o estertor dos homens, numa espera cansada e que parece já inconcebível ("Creio termos sido feitos para amar / tranquilos. Creio sermos velhos / e termos já sofrido o necessário/ para comer em paz e ver o sol / cada manhã subir um novo dia / sem angústia alicerçada no nascente", in "Creio termos sido feitos para amar"). 
 
A parte final da coletânea é reservada essencialmente a composições que homenageiam personagens ou poetas contemporâneos que tiveram um destino trágico. (Daqui)
 
 
Harald Sohlberg, Street in Røros
 

Creio termos sido feitos para amar


 
Creio termos sido feitos para amar
tranquilos. Creio sermos velhos
e termos já sofrido o necessário
para comer em paz e ver o sol
cada manhã subir um novo dia
sem angústia alicerçada no nascente.
Creio termos gritado já bastante
em todos estes séculos — estes duros
anos que passaram — Navegamos
em círculo, morremos, renascemos...
Fugazes as tangentes que traçamos 
e falharam a alegria. Tanto tempo
e nova morte espreita. A mão
habitual nos comprime as artérias.
Sempre os beijos longos nos escapam.
Não é então para nós? Não é ainda
o tempo de sorrir?

Egito Gonçalves
,
Os Arquivos do Silêncio