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sexta-feira, 8 de maio de 2026

"Amor sem tréguas" - Poema de António Gedeão


 
José Malhoa (Pintor, desenhador e professor português, 1855–1933),
'Igreja de Figueiró' (Figueiró dos Vinhos, Portugal)
, 1921.


Amor sem tréguas


É necessário amar,
qualquer coisa ou alguém;
o que interessa é gostar
não importa de quem.

Não importa de quem,
não importa de quê;
o que interessa é amar
mesmo o que não se vê.

Pode ser uma mulher,
uma pedra, uma flor,
uma coisa qualquer,
seja lá o que for.

Pode até nem ser nada
que em ser se concretize,
coisa apenas pensada,
que a sonhar se precise.

Amar por claridade,
sem dever a cumprir;
uma oportunidade
para olhar e sorrir.

Amar como um homem forte
só ele o sabe e pode-o;
amar até à morte,
amar até ao ódio.

Que o ódio, infelizmente,
quando o clima é de horror,
é forma inteligente
de se morrer de amor.


António Gedeão (1906–1997),
in 'Máquina de Fogo'


 
José Malhoa, 'Pereira em flor' (Figueiró dos Vinhos, Portugal), 1910.



Pereira em flor
 
De grinalda branca,
Toda vestida de luar,
A pereira sonha. 

 
Helena Kolody (1912–2004),
in 'Luz Infinita', 1997.

sábado, 25 de abril de 2026

"Poemas das flores" - António Gedeão

 


Vincent van Gogh (Dutch Post-Impressionist painter, 1853–1890),
'Flowering Garden' (Arles, Bouches-du-Rhône), 1888.


Poemas das flores


Se com flores se fizeram revoluções
que linda revolução daria este canteiro!

Quando o clarim do Sol toca a matinas
ei-las que emergem do noturno sono
e as brandas, tenras hastes se perfilam.
Estão fardadas de verde clorofila,
botões vermelhos, faixas amarelas,
penachos brancos que se balanceiam
em mesuras que a aragem determina
É do regulamento ser viçoso
quando a seiva crepita nas nervuras
e frenética ascende aos altos vértices.

São flores e, como flores, abrem corolas
na memória dos homens.

Recorda o homem que no berço adormecia,
epiderme de flor num sorriso de flor,
e que entre flores correu quando era infante,
ébrio de cheiros,
abrindo os olhos grandes como flores.
Depois, a flor que ela prendeu entre os cabelos,
rede de borboletas, armadilha de unguentos,
o amor à flor dos lábios,
o amor dos lábios desdobrado em flor,
a flor na emboscada, comprometida e ingénua,
colaborante e alheia,
a flor no seu canteiro à espera que a exaltem,
que em respeito a violem
e em sagrado a venerem.

Flores estupefacientes, droga dos olhos, vício dos sentidos.
Ai flores, ai flores das verdes hastes!
A César o que é de César. Às flores o que é das flores.


António Gedeão (1906–1997), Poemas póstumos, 1983

 

Vincent van Gogh, 'Flowering Garden with Path' (Garden at Arles), 1888. 
Kunstmuseum Den Haag



Primavera


A Primavera vigora
com seus poderes de cores,
abrindo as sessões da aurora
numa assembleia de flores.


Augusto Astério de Campos


quinta-feira, 23 de abril de 2026

"Os Nomes" - Poema de Maria Alberta Menéres



Olaf Ulbricht (German artist, born 1951), "Spring", 2022.
Acrylic on Wood, 48 × 54 cm. Private Collection.


Os Nomes 
 
 
Porque é que me chamo coelho
E não me chamo melão?

Porque é que me chamo lagartixa
E não me chamo cão?

Porque é que me chamo uva
E não me chamo chuva?

Porque é que me chamo Maria do Céu
E não me chamo chapéu?

Porque é que me chamo pedra
E não me chamo perna?

Porque é que me chamo cebola
E não me chamo papoila?

Porque é que me chamo casa
E não me chamo asa?

Porque é que me chamo Sol
E não me chamo Lua?

Porque é que me chamo Lua
E não me chamo caracol?

Cada coisa tem o seu nome
Para assim ser conhecida. 


Maria Alberta Menéres
, em 'Conversas com Versos',
Lisboa, Edições Asa, 2005.
 

Pinturas de Olaf Ulbricht
 
Olaf Ulbricht, "Spring", 2017

 
Olaf Ulbricht, "Village in Spring"
 

Olaf Ulbricht, "News under the cherry tree", 2018
 
 

Olaf Ulbricht, Spring on the Edge of the Village, 2021
 
 

Olaf Ulbricht, "Spring on the Edge of the Village", 2021
 
 
Céu de primavera
no jardim dorme a menina.
Qual a flor do sonho?
 

terça-feira, 21 de abril de 2026

"Uma Luz existe na Primavera" - Poema de Emily Dickinson



Auguste-Émile Pinchart (French painter and designer, 1842–1924),
 "Allegory of Spring", n.d.
 

Uma Luz existe na Primavera


Uma Luz existe na Primavera
Não presente no ano
Em qualquer outra estação –
Quando Março já chegando

Uma Cor se firma
Campos Solitários afora
Que a Ciência não alcança
Mas a Natureza Humana elabora.

Ela aguarda sobre a Relva,
A Árvore mais longínqua ela revela
E na mais remota Encosta, tu sabes,
Ela quase contigo fala.

Então quando Horizontes se movem
Ou meios-dias já longe ecoam
Sem a Fórmula do som
Ela se despede e nós ficamos –

Uma qualidade de perda
Que afeta nosso Contentamento
Como se Vendilhões subitamente
Houvessem usurpado um Templo.


Emily Dickinson
, in 'Duzentos Poemas'
 Tradução de Ana Luísa Amaral
 
 
 
'Duzentos Poemas' de Emily Dickinson
Tradução de Ana Luísa Amaral
Editor: Relógio D'Água, 2014 
 
 
Em vida, Emily Dickinson publicou menos de dez poemas. Após a sua morte, a 15 de Maio de 1886, Lavinia, a irmã, encontrou fechados numa caixa quase mil poemas.
 
 

Auguste-Émile Pinchart, Young woman with bouquet of flowers, 1901.



A Light exists in Spring
(Original)

A Light exists in Spring
Not present on the Year
At any other period –
When March is scarcely here

A Color stands abroad
On Solitary Fields
That Science cannot overtake
But Human Nature feels.

It waits upon the Lawn,
It shows the furthest Tree
Upon the furthest Slope you know
It almost speaks to me.

Then as Horizons step
Or Noons report away
Without the Formula of sound
It passes and we stay –

A quality of loss
Affecting our Content
As Trade had suddenly encroached
Upon a Sacrament.
 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

"Primavera" - Poema de Armindo Trevisan



Edgar Maxence
(French Symbolist painter, 1871-1954),
"Vers l'Idéal" (Towards the Ideal), 1904.
 

Primavera


Por que será que penso nos teus lábios
quando avisto, em quintais, limões maduros?

Serão eles, dobrados sobre os muros,
Livreiros que esquadrinham alfarrábios?

Ou hão de perecer polidos cabos
Rumorejando sobre os ares puros?

Eu sempre penso nos limões: dourados,
Guardam-se incorruptíveis, e fechados. 


Armindo Trevisan, in 'A Dança do Fogo'.
Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2001.



sexta-feira, 27 de março de 2026

"A Mocidade" - Poema de Olavo Bilac

 


Viggo Johansen
(Danish painter, 1851-1935), Children Painting Spring Flowers, 1894.
Skagens Museum


A Mocidade 


A mocidade é como a primavera!
A alma, cheia de flores resplandece,
Crê no Bem, ama a vida, sonha e espera,
E a desventura facilmente esquece.

É a idade da força e da beleza:
Olha o futuro, e inda não tem passado:
E, encarando de frente a Natureza,
Não tem receio do trabalho ousado.

Ama a vigília, aborrecendo o sono;
Tem projetos de glória, ama a Quimera;
E ainda não dá frutos como o outono,
Pois só dá flores como a primavera!


Olavo Bilac
, em Poesias Infantis, 1904.
 

domingo, 22 de março de 2026

"Voz e Aroma" - Poema de Almeida Garrett


 
Carl Strathmann (German painter in the Art Nouveau and Symbolist styles,
 1866-1939), "The Farmhouse", 1912.


Voz e Aroma


A brisa voga no prado,
Perfume nem voz não tem;
Quem canta é o ramo agitado,
O aroma é da flor que vem.

A mim, tornem-me essas flores
Que uma a uma eu vi murchar,
Restituam-me os verdores
Aos ramos que eu vi secar...

E em torrentes de harmonia
Minha alma se exalará,
Esta alma que muda e fria
Nem sabe se existe já.


Almeida Garrett,
in "Folhas Caídas", 1853.
 
 
Carl Strathmann, "Frühling" (Primavera), 1906.


"A neve e a tempestade matam as flores, mas nada podem contra as sementes."


Khalil Gibran, Spirits rebellious - página 59,
Anthony Rizcallah Ferris, Martin L. Wolf - Philosophical Library, 1947.

 

sábado, 21 de março de 2026

"As Andorinhas" - Poema de Tomás da Fonseca




As Andorinhas


Chegaram as andorinhas,
foi-se a noite e veio o dia!
Ó aves, saudades minhas,
asas brancas, levezinhas,
há quanto que eu vos não via!

Foi-se do inverno a tristeza,
veio o sol da primavera…
Ter assim tanta leveza,
ver, voando, a natureza,
vida minha, quem te dera!

Viver alto em revoadas,
fazer ninho nos beirais,
e ir convosco, aves amadas,
bem longe d’encruzilhadas
onde não voltasse mais…

Ser pequenino também
e leve como uma asa!...
Não querer mal a ninguém,
viver como filho e mãe,
nesse ninho – a nossa casa…

Velar no céu como vela
a águia que as nuvens fende…
Ver a terra a fugir dela,
porque a vida só é bela
quando do chão se desprende!

Eu voando, elas voando,
entre nuvens nas alturas…
Onde terei, como e quando,
sonho que assim vá sonhando,
bem que assim me dê ventura?

Ó andorinha palreira,
alegria dos casais,
dava a minha vida inteira
para ser asa ligeira
e ir contigo onde tu vais…

Onde tu vais, andorinha,
Que me trouxeste a alegria!
Ó ave, saudade minha,
asa branca, levezinha,
que há tanto tempo não via!


Tomás da Fonseca, in Musa pagã.
Lisboa, Livraria Portugália, 1920.



Tomás da Fonseca na biblioteca da sua casa de Mortágua, década de 50. (daqui)


Tomás da Fonseca  
[Laceiras, Mortágua, 1877 - Lisboa, 1968]  
«É o escritor anticlerical português de maior renome», conclui Lopes de Oliveira – como ele natural de Mortágua e seu companheiro, pelo menos desde a revista Risos e Lisos (Coimbra, 1897) – ao prefaciar-lhe um livro, em 1949.

Poeta, ficcionista, historiógrafo, jornalista, militante e panfletário republicano, deputado e professor, Tomás da Fonseca é conhecido sobretudo pelas suas obras de vincada feição anticlerical, sendo ignorada quase por completo toda a sua intervenção noutros domínios, nomeadamente a infatigável ação que desenvolveu em prol da instrução e da cultura ao longo de várias décadas.

Oriundo de uma família de pequenos proprietários rurais, mais rica em prole do que em fazenda (era o segundo entre sete irmãos), para frequentar a escola primária móvel, implantada havia pouco na sua região, era obrigado todos os dias a fazer uma caminhada de ida e volta de 10 quilómetros. Aos 17 anos, peito largo e musculatura rija adquiridos ao leme do arado e do alvião coube a Tomás da Fonseca ser o escolhido pelos progenitores, de entre os quatro filhos varões, para seguir a vida eclesiástica, assim se restabelecendo a tradição da linhagem de contar com um padre na família. Deste modo, entrou para o Seminário de Coimbra, o qual viria a abandonar em 1903, após um prolongado e doloroso debate no interior de uma consciência seduzida pela grandeza da doutrina mas revoltada com a perversidade e a mesquinhez da sua pátria quotidiana.

Seguindo, resolutamente, a exortação do geógrafo e racionalista Elisée Reclus, a quem se dirigirira para lhe expor o dilema religioso com que se debatia e a pedir-lhe conselho. T. da Fonseca renunciou por fim aos propósitos que então o animavam («ordenar-me e depois insurgir-me contra tudo quanto a Igreja tem de absurdo e revoltante, dando assim realidade ao personagem de Zola, o abade Pierre Frement», conforme logo após confessou no seu livro Evangelho dum Seminarista), assumindo como norma imperativa da sua vida o conselho recebido daquele sábio e libertário francês: «Sois um homem do povo, ficai com os homens do povo, combatei ao seu lado, camarada sem título nem insígnia, um igual e um livre, ao lado dos iguais e dos livres.»

Participante ativo – pela pena e pela palavra, nos jornais, nos comícios e em conferências – na ininterrupta ação política que iria conduzir alguns anos depois ao derrube da Monarquia portuguesa; deputado e mais tarde senador pelo distrito de Viseu, desde as Constituintes até 1917; chefe de gabinete do ministro do Fomento do Governo Provisório, Dr. António Luís Gomes; preso político na Penitenciária de Coimbra durante dois meses, em consequência das posições tomadas por si e por outros republicanos de Santa Comba Dão contra o consulado sidonista; resistente até ao final da vida ao regime do Estado Novo, que, em 1947, o encarcerou na prisão do Aljube, em Lisboa, por ter protestado contra a continuidade do Campo do Tarrafal – nada disto impediu, porém, o seu constante labor de paladino da instrução e da cultura do povo português, durante anos a fio, desde que à instrução e à educação decidiu dedicar a maior parte da sua longa vida.

A par dos seus escritos sobre a educação e o ensino, das visitas de estudo que empreendeu a escolas, museus e bibliotecas francesas, belgas e inglesas e da polémica travada no jornal O Mundo com João de Deus Ramos (1917) acerca do ensino religioso nas escolas, a par disto, Tomás da Fonseca consagrou-se com idêntico ardor à ação pedagógica direta. Na verdade, grande impulsionador do movimento das escolas móveis, percorreu o distrito do Viseu a pregar a boa nova da alfabetização pelo método de João de Deus (Cartilha Maternal); interveio na reforma do ensino primário e normal empreendida pelos governos republicanos (1912); apresentou ao Parlamento em 1916 um projeto de lei sobre a instrução primária (Lei nº. 429); incentivou e dinamizou, no âmbito das suas funções de deputado, a criação das comissões «Amigos da Escola», nomeadamente no seu distrito, cujos concelhos de Mortágua e Tondela percorreu em 1914, deslocando-se a todas as escolas móveis para instalar as referidas comissões; elaborou, em 1922, a instâncias do ministro da Instrução Pública, Dr. Augusto Nobre, o livro História da Civilização Relacionada com a História de Portugal; exerceu o magistério, primeiro como professor e depois como diretor da Escola Normal de Lisboa (dela foi demitido em 1918, pelo sidonismo, por visitar presos políticos na Penitenciária de Lisboa) e, tempos depois, da Escola Normal de Coimbra, da qual viria a ser afastado compulsivamente em 1934.

A sua ação pedagógica não se confinou, no entanto, ao ensino oficial; em 1925 fundou em Coimbra, com outros mestres (Álvaro Viana de Lemos, Aurélio Quintanilha, Joaquim de Carvalho e Manuel dos Reis) e alguns estudantes e trabalhadores manuais, a Universidade Livre.

É vasta e permanece dispersa a sua colaboração em jornais e em revistas. Escreveu, entre outros, nos seguintes periódicos: A Pátria (do Porto), O Mundo, A Vanguarda, Voz Pública, O Norte, República, O Povo, A Batalha, Lanterna (do Brasil), Luz e Vida, Alma Nacional, Arquivo Democrático (de que foi diretor), O Diabo e a República Portuguesa, um periódico por si fundado e de que era proprietário. Colaborou também no Guia de Portugal, Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e ainda na obra dirigida por Lopes de Oliveira As Grandes Figuras da História da Humanidade: História Geral da Civilização. Há vários prefácios seus a livros de outros autores.
Pai do escritor «presencista», 
Branquinho da Fonseca (1905-1974).
 
Biografia de Tomás da Fonseca, in "Dicionário Cronológico de Autores Portugueses", Vol. III, Lisboa, 1994. (daqui)
  

 
Katsushika Hokusai (Japanese ukiyo-e artist of the Edo period, active as a painter
and printmaker, 1760–1849), "Hydrangea and Swallow", n.d.

 
Ukiyo-e

Ukiyo-e, ukiyo-ye ou ukiyo-ê ("retratos do mundo flutuante", em sentido literal), vulgarmente também conhecido como estampa japonesa, é um género de xilogravura e pintura que prosperou no Japão entre os séculos XVII e XIX. Destinava-se inicialmente ao consumo pela classe mercante do período Edo (1603 – 1867). Entre as mais populares temáticas abordadas, estão a beleza feminina; o teatro kabuki; os lutadores de sumo; cenas históricas e lendas populares; cenas de viagem e paisagens; fauna e flora; e erótica. (continua)

Autoproclamado "pintor louco" Katsushika Hokusai (1760–1849) desfrutou de longa e variada carreira. Seu trabalho é marcado pela falta do sentimentalismo usualmente comum ao ukiyo-e e pelo foco no formalismo de influência ocidental. Entre seus feitos, estão ilustrações para trabalhos literários de Takizawa Bakin, séries de sketchbooks — a mais famosa delas chamada Hokusai Manga (北斎漫画, esboços de Hokusai) — e sua popularização da paisagem enquanto vertente, sobretudo com a série "Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji", que inclui seu mais conhecido trabalho, A Grande Onda de Kanagawa, que também é uma das mais famosas peças de arte japonesa de todos os tempos.
Em contraste ao trabalho dos velhos mestres, as cores de Hokusai eram arrojadas, lisas e abstratas, e suas temáticas não tinham relação com as zonas de meretrício, mas dialogavam com vida comum e o ambiente da classe trabalhadora.
Mestres consagrados, como Keisai Eisen, Utagawa Kuniyoshi e Utagawa Kunisada também seguiram os passos de Hokusai rumo às paisagens na década de 1830, produzindo trabalhados de composição ousada e impressionantes efeitos. 
(daqui)

sexta-feira, 20 de março de 2026

"Primavera" - Poema de Maria da Saudade Cortesão



Edwin Blashfield (American painter and muralist, 1848– 1936),
"Spring Scattering Stars", 1927, Private collection.
 

Primavera 


A Musa que passava
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.

Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.

Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.


Maria da Saudade Cortesão, 
em Literatura & Arte (Suplemento),
Jornal de São Paulo Nº 60/1950.




Murilo Mendes e Maria da Saudade Cortesão em Bruxelas, 1954.
 (daqui)
 
 
Maria da Saudade Cortesão Mendes (Porto, 1913 - Lisboa, 2010), poeta e tradutora, filha de Jaime Cortesão viveu grande parte da vida no estrangeiro acompanhando seu pai no exílio, primeiro em Paris (1927), depois em Madrid e, por fim, no Rio de Janeiro, onde conheceu o poeta Murilo Mendes  com quem veio a casar-se em 1947. 
Entre 1952 e 1956 viajou pela Europa acompanhando o marido em missões culturais de difusão da literatura brasileira. 
Em 1957 fixaram-se em Roma, onde, durante 18 anos, a sua casa se tornou lugar de referência para escritores e artistas plásticos. Foi amiga de Albert Camus, René Char, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Luciana Stegagno Picchio, Sophia de Mello Breyner e Maria Helena Vieira da Silva, entre outros.
O seu livro de estreia Dançado Destino, foi Prémio Fábio Prado de Poesia. 
Traduziu Murder in the Cathedral, de T. S. Eliot, A Midsummer Night's Dream, de Shakespeare, e Calígula, de Albert Camus. 
Publicou também traduções do italiano e poemas em revistas e antologias no Brasil e na Itália. (daqui)

quarta-feira, 18 de março de 2026

"Quando tornar a vir a Primavera" - Poema de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa


 
Francisco Miralles y Galup or Francesc Miralles i Galaup (Spanish painter, 1848–1901),
The Spring (La Primavera), 1896.
 

Quando tornar a vir a Primavera


Quando tornar a vir a Primavera 
Talvez já não me encontre no mundo. 
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente 
Para poder supor que ela choraria, 
Vendo que perdera o seu único amigo. 
Mas a Primavera nem sequer é uma coisa: 
É uma maneira de dizer. 
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes. 
Há novas flores, novas folhas verdes. 
Há outros dias suaves. 
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real. 

7-11-1915

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos",
in "Poemas de Alberto Caeiro". Fernando Pessoa.
 
 
 
Francisco Miralles y Galup, Paseo de domingo en carruaje, c. 1901.
 
 
Leve, leve, muito leve, 
Um vento muito leve passa, 
E vai-se, sempre muito leve. 
E eu não sei o que penso 
Nem procuro sabê-lo.

s.d. 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos",
in "Poemas de Alberto Caeiro" - Fernando Pessoa

sábado, 22 de março de 2025

"Renovo" - Poema de Stéphane Mallarmé


Viggo Langer (Danish painter, 1860-1942), A Forest in Springtime, 1925.



Renovo


Doentia, a primavera expulsou tristemente
O inverno, a estação da arte calma, o lúcido
Inverno, e este meu ser que um sangue morno inunda
De impotência se estira em um bocejo lento.

O meu crânio amolece em crepúsculos brancos
Sob o ferro em tenaz, como um túmulo antigo,
E eu, triste, eis-me a errar pelos campos seguindo
Um sonho belo e vago, entre a seiva estuante,

Depois cedo ao odor das árvores, cansado,
Com a face a cavar uma fossa ao meu sonho,
E mordendo os torrões onde nascem lilases,

Aguardo, a abismar-me, o meu tédio a evolar-se...
- Entretanto o Azul, sobre a sebe e o alvor,
Ri das aves em flor ao sol a chilrear. 


Stéphane Mallarmé, em "Poesias". 
Tradução, prefácio e notas de José Augusto Seabra
Lisboa: Assirio & Alvim, 2005. 
 

 
Viggo Langer, Springtime on a Country Lane, 1917.


Mallarmé ou Valéry


Fiz uma charada:
Não sabia que isto é hoje
A poesia pura.


Afrânio Peixoto, Miçangas: poesia e folclore.
São Paulo: Ed. Nacional, 1931.


segunda-feira, 10 de junho de 2024

"Segundo poema da primavera" - Poema de Miguel Torga


   
Gregorio Prieto (Pintor español asociado a la generación del 27, 1897–1992),
Paisaje de Primavera, s.d., Museo Gregorio Prieto.
 

Segundo poema da primavera
 
 
A vida é generosa, quando quer.
Se gosta de quem passa.
Manda que o vento, lírico, estremeça
E lhe peneire pétalas nos ombros.

Cobre-o de amor que voa e que fecunda…

Semeado de rosas desfolhadas,
O coração do homem, fraga dura,
Transforma-se na terra das lavradas
Onde cresce ternura.


Miguel Torga, Diário IV,
Coimbra, 3ª edição, p. 193. 
 
 

Gregorio Prieto, Árbol en jardín inglés, s.d., Museo Gregorio Prieto.


Vento da primavera —
Chegam do bosque em repouso
notícias de flores.


Teruko Oda
(Haicai / Haikai / Haiku)
 

terça-feira, 30 de maio de 2023

"Entre março e abril" - Poema de Eugénio de Andrade


 
 Ferdinand Leeke (German Painter, 1859–1937), Flower Gatherers, 1914
 


Entre março e abril

 
Que cheiro doce e fresco,
por entre a chuva,
me traz o sol,
me traz o rosto,
entre março e abril
o rosto que foi meu,
o único
que foi afago e festa e primavera?

  Oh cheiro puro de só da terra!
não das mimosas,
que já tinham florido
no meio dos pinheiros;
não dos lilases,
pois era cedo ainda
para mostrarem
o coração às rosas;
mas das tímidas, doces flores
de cor difícil,
entre limão e vinho,
entre marfim e mel
abertas no canteiro junto ao tanque.

Frésias,
ó pura memória
de ter cantado —
pálidas, fragrantes,
entre chuva e sol
e chuva
— que mãos vos colhem,
agora que estão mortas
as mãos que foram minhas? 


Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia",  
Lisboa: Iniciativas, 1958.


domingo, 20 de março de 2022

"Agora" e "Glória" - Poemas de Miguel Torga


 Sir Arthur Streeton (1867-1943, Australian landscape painter), Spring, 1890,
 
 
 Agora

 
Abre-te, Primavera!
Tenho um poema à espera
Do teu sorriso.
Um poema indeciso
Entre a coragem e a covardia.
Um poema de lírica alegria
Refreada,
A temer ser tardia
E ser antecipada.

Dantes, nascias
Quando eu te anunciava.
Cantava,
E no meu canto acontecias
Como o tempo depois te confirmava.
Cada verso era a flor que prometias
No futuro sonhado…
Agora, a lei é outra: principias,
E só então eu canto confiado.
 
São Martinho de Anta, 31 de Março de 1968.
in Diário X (5-10-1963 / 30-7-1968)

 
National Gallery of Victoria, Melbourne


Glória


Depois do Inverno, morte figurada,
A primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores.


Miguel Torga,
in Diário XIV (21-5-1982 / 11-1-1987)
 
 
Sir Arthur Streeton, Butterflies and Blossoms, 1980
 

Quando uma abelha
se enamora,
nasce uma flor.
(Haicai / Haikai / Haiku)