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domingo, 12 de julho de 2026

"Gata Angorá" - Poema de J. G. de Araújo Jorge



Arthur Heyer
(German-Hungarian painter, 1872
1931),
 "Angora Cat on Chair",  n.d.
 
 
Gata Angorá


Sobre a almofada rica e em veludo estofada
caprichosa e indolente como uma odalisca
ela estira o seu corpo de pelúcia, – e risca
um estranho bordado ao centro da almofada...

Mal eu chego, ela vem... (nunca a encontrei arisca)
– sempre esse ar de amorosa; a cauda abandonada
como uma pluma solta, pelo chão deixada,
e o olhar, feito uma brasa acesa que faísca!

Mal eu chego, e ela vem... lânguida, preguiçosa,
roçar pelos meus pés a pelúcia, de prata,
como a implorar carícias, tímida e medrosa...

E tem tal expressão, e um tal jeito qualquer,
– que às vezes, chego mesmo a pensar que essa gata
traz no corpo escondida uma alma de mulher! 


J. G. de Araújo Jorge
(1914
1987),
in "Amo!", 1938.
 
 
Arthur Heyer, "In Joyful Anticipation", n.d.
 
 

Arthur Heyer, "Angora cat and kitten with a beetle", n.d.
 


Arthur Heyer"Young Angora Cat",
n.d., oil on canvas, 40 × 50 cm.


Elegia

Não é exclusivo do escritor o entendimento e o amor pelos gatos. Recordo, por exemplo, quanto Chopin amava o gato que acorria à sua companhia, mal o pressentia a dedilhar o piano. Adoçando-lhe as horas convulsivas com a companheira George Sand, o gato não era apenas para o compositor o lenitivo mas também uma compensação e alguma vez, quem sabe, o colaborador de algum som que o gato oferecia ao compositor, ao passar ao longo do piano.

Por mim, que até então não conhecera o convívio com qualquer gato, posso dizer que o meu amor e respeito mantidos pelo Jeremias não me inspiraram apenas o livrinho “Memórias do Senhor Jeremias o Gato das Botas Brancas” mas um amor e uma saudade que as lágrimas não extinguem. Dizem-me que os gatos têm uma alma e eu acredito, tão grande e sensível era o meu diálogo com o Jeremias que aspiro a encontrá-lo um dia, junto de quantos mais amei e já partiram, enlutando a minha solidão de desespero e dor. Sonho com ele e acordo com a sensação de que está a meu lado e me abraça, tocando-me o rosto com o focinhito frio e húmido, como que a querer minorar a minha dor e a minha solidão, em vão varridas pelas muitas lágrimas solitárias de saudade que me ficou quando a sua ausência levou o pouco que me restara da longa vida vivida.

Manuela Azevedo (Jornalista e escritora portuguesa, 1911–2017) (daqui)
 
 

domingo, 31 de maio de 2026

"Os Gatos da Tinturaria" - Poema de Cecília Meireles


 

Arthur Heyer (German-Hungarian painter, 18721931),
'Cats Playing', c. 1931, Private collection.


Os Gatos da Tinturaria


Os gatos brancos, descoloridos,
passeiam pela tinturaria,
miram polícromos vestidos.

Com soberana melancolia,
brota nos seus olhos erguidos
o arco-íris, resumo do dia,

ressuscitando dos seus olvidos,
onde apagado cada um jazia,
abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria,
xadrez sem fim, por onde os ruídos
atropelam a geometria,

os grandes gatos abrem compridos
bocejos, na dispersão vazia
da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia
da renúncia, e, tranquilos vencidos,
dormem seu tempo de agonia.

Olham ainda para os vestidos,
mas baixam a pálpebra fria.


Cecília Meireles
 (19011964), 'Melhores Poemas',
S.Paulo, Brasil; Global Editora, 1984.



Arthur Heyer, 'Conversation amongst Cats', c. 1931, Private collection.


Por que gostam os escritores de gatos? 

 
Creio que os escritores tendem a gostar dos gatos pela sua independência observadora e pela imprevisível meiguice. Pessoalmente, prefiro estas mesmas qualidades nas pessoas. Não gosto da ideia de animais domésticos. 
Ou por que gostam os gatos dos escritores? 
Os gatos gostam dos escritores porque não os incomodam: deixam-nos viver.


Inês Pedrosa (Escritora e tradutora portuguesa, n. 1962) (daqui)