
Arthur Heyer (German-Hungarian painter, 1872–1931),
'Cats Playing', c. 1931, Private collection.
Os Gatos da Tinturaria
Os gatos brancos, descoloridos,
passeiam pela tinturaria,
miram polícromos vestidos.
Com soberana melancolia,
brota nos seus olhos erguidos
o arco-íris, resumo do dia,
ressuscitando dos seus olvidos,
onde apagado cada um jazia,
abstratos lumes sucumbidos.
No vasto chão da tinturaria,
xadrez sem fim, por onde os ruídos
atropelam a geometria,
os grandes gatos abrem compridos
bocejos, na dispersão vazia
da voz feita para gemidos.
E assim proclamam a monarquia
da renúncia, e, tranquilos vencidos,
dormem seu tempo de agonia.
Olham ainda para os vestidos,
mas baixam a pálpebra fria.
Cecília Meireles (1901–1964), 'Melhores Poemas',
S.Paulo, Brasil; Global Editora, 1984.

Arthur Heyer, 'Conversation amongst Cats', c. 1931, Private collection.
Por que gostam os escritores de gatos?
Creio que os escritores tendem a gostar dos gatos pela sua independência observadora e pela imprevisível meiguice. Pessoalmente, prefiro estas mesmas qualidades nas pessoas. Não gosto da ideia de animais domésticos.
Ou por que gostam os gatos dos escritores?
Os gatos gostam dos escritores porque não os incomodam: deixam-nos viver.
Inês Pedrosa (Escritora e tradutora portuguesa, n. 1962) (daqui)
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