quarta-feira, 20 de maio de 2026

"Gato ao Crepúsculo" - Poema de Millôr Fernandes



Gertrude Abercrombie (American painter, 1909–1977), 'The Stroll', 1978,
Smithsonian American Art Museum.
 

Gato ao Crepúsculo
 
Poeminha de louvor ao pior inimigo do cão


Gato manso, branco,
Vadia pela casa,
Sensual, silencioso, sem função.

Gato raro, amarelado,
Feroz se o irritam,
Suficiente na caça à alimentação. 

Gato preto, pressago,
Surgindo inesperado
Das esquinas da superstição.

Cai o sol sobre o mar.

E nas sombras de mais uma noite,
Enquanto no céu os aviões
Acendem experimentalmente suas luzes verde-vermelho-verde,
Terminam as diferenças raciais.

Da janela da tarde olho os banhistas tardos
Enquanto, junto ao muro do quintal,
Os gatos todos vão ficando pardos.

14/6/1959

Millôr Fernandes
 (1923
2012)
in "Essa cara não me é estranha e outros poemas".
 1. ed. São Paulo: Boa Companhia, 2014.
 

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