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segunda-feira, 16 de março de 2026

"Vaidade, tudo vaidade!" - Poema de António Nobre

 


Martin Ferdinand Quadal (Czech-Austrian painter and engraver, 1736–1809),
Self-Portrait at the easel with his pet dog, 1788, Cincinnati Art Museum.


 
Vaidade, tudo vaidade!


Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguém,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a glória, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe…

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguém me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, vê lá! Eu volto-lhes o rosto…
E isto em mim não será uma vaidade?


Júlio Dinis (1839–1871), in "Só"



Martin Ferdinand Quadal, Self-Portrait with his dog, sitting at his easle, 1787.


"Por que desejar outro universo se este tem cachorros?"
 
  Matt Haig, in "A Biblioteca da Meia-Noite",
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2021.
(Tradução de Adriana Fidalgo)



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

"A França!" - Poema de António Nobre

 

Fitz Henry Lane
(American painter and printmaker of a style that would later be called Luminism,
for its use of pervasive light, 1804–1865), "Lumber Schooners at Evening on Penobscot Bay", 1863,
National Gallery of Art.

 

A França!


Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
Por este mar de Glória, em plena paz.
Terras da Pátria somem-se na treva,
Águas de Portugal ficam, atrás…

Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
Lembra o meu coração, na ânsia em que jaz…

Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ela…)
Na minha Nau Catarineta, adeus!

Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
Sobe depressa à gávea, marinheiro,
E grita, França! pelo amor de Deus!… 

Oceano Atlântico, 1890.



António Nobre (1867–1900), in "Só", 1892.




Fitz Henry Lane, "The Ships 'Winged Arrow' and 'Southern Cross' in Boston Harbor", 1853,
Cincinnati Art Museum.



"O querer e o poder, se divididos são nada, juntos e unidos são tudo."

 António Vieira, in "Sermões"

 

Fitz Henry Lane, "Salem Harbor", 1853. Oil on canvas, Museum of Fine Arts, Boston.

"No homem o poder é pouco e limitado, e o querer, sempre insaciável e sem limite."


António Vieira, in "Sermões"


"Citações e Pensamentos de Padre António Vieira"
de Paulo Neves da Silva e Padre António Vieira
Editor: Casa das Letras, 2010
 

SINOPSE

 "Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa."

António Vieira (1608-1697) foi um grande pensador e visionário, atual na forma como nos mostra o mundo e nos ensina, numa escrita sedutora de grandes efeitos, a reconhecermos a nossa parcialidade e cegueira na relação que mantemos com a realidade e os vícios pelos quais nos deixamos enredar e conduzir por ela.
A partir de uma vasta obra de mais duzentos sermões, setecentas e cinquenta cartas e muitos outros escritos, este livro apresenta os textos chave de Pe. António Vieira e que permitem ao leitor usufruir do melhor de uma sabedoria acessível a todos, pertinente como nunca, num caminho de maior desprendimento do acessório da vida e a concentração no seu essencial - viver.
 (daqui)

 

sábado, 22 de julho de 2023

"Na Praia lá da Boa Nova" - Poema de António Nobre


Praia da Boa Nova em Leça da Palmeira, Matosinhos, 1892



Na Praia lá da Boa Nova

 
Na praia lá da Boa Nova, um dia,
Edifiquei (foi esse o grande mal)
Alto Castelo, o que é a fantasia,
Todo de lápis-lazúli e coral!

Naquelas redondezas não havia
Quem se gabasse dum domínio igual:
Oh Castelo tão alto! parecia
O território dum Senhor feudal!

Um dia (não sei quando, nem sei donde)
Um vento seco de deserto e spleen
Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,

O meu condado, o meu condado, sim!
Porque eu já fui um poderoso Conde.
Naquela idade em que se é conde assim…


António Nobre, in "Só", 1892
(Ouvir)

terça-feira, 7 de março de 2023

"Desobriga" - Poema de António Nobre


Felice Casorati (Italian painter, sculptor, and printmaker, 1883–1963),  
Ritratto di Renato Gualino [Retrato de Renato Gualino], 1923-1924,
 Istituto Matteucci, Viareggio.
 

 
Desobriga

 
Os meus pecados, Anjo! Os meus pecados!
Contar-tos para quê, se não têm fim?
Sou santo ao pé dos outros desgraçados,
Mas tu és mais que santa ao pé de mim!
 
A ti acendo sírios perfumados,
Faço novenas, queimo-te alecrim,
Quando sofro, me vejo com cuidados…
Nas tuas rezas, lembra-te de mim!

Que eu seja puro d'alma e pensamento!
E que, em dia do grande Julgamento,
Minhas culpas não sejam de maior:

Pois tenho (que o Céu aponta e marca)
Um processo a correr nessa comarca,
Cujo delegado é Nosso Senhor…
 
 Hamburgo, 1891.

António Nobre (1867-1900), in "Só", 1892
 
 

Felice Casorati (Italian painter, sculptor, and printmaker, 1883–1963), Ritratto 
del Maestro Alfredo Casella (Italian composer, pianist and conductor, 1883–1947).
  
 

Para a memória de António Nobre

Quando a hora do ultimatum abriu em Portugal, para não mais se fecharem, as portas do templo de Jano, o deus bifronte revelou-se na literatura nas duas maneiras correspondentes à dupla direção do seu olhar. Junqueiro — o de «Pátria» e «Finis Patriae» — foi a face que olha para o Futuro, e se exalta. António Nobre foi a face que olha para o Passado, e se entristece.

De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas. Têm subido a um sentido mais alto e divino do que ele balbuciou. Mas ele foi o primeiro a pôr em europeu este sentimento português das almas e das coisas, que tem pena de que umas não sejam corpos, para lhes poder fazer festas, e de que outras não sejam gente, para poder falar com elas. O ingénuo panteísmo da Raça, que tem carinhos de espontânea frase para com as árvores e as pedras, desabrochou nele melancolicamente. Ele vem no Outono e pelo crepúsculo. Pobre de quem o compreende e ama!

O sublime nele é humilde, o orgulho ingénuo, e há um sabor de infância triste no mais adulto horror do seu tédio e das suas desesperanças. Não o encontramos senão entre o desfolhar das rosas e nos jardins desertos. Os seus braços esqueceram a alegria do gesto, e o seu sorriso é o rumor de uma festa longínqua, em que nada de nós toma parte, salvo a imaginação.

Dos seus versos não se tira, felizmente, ensinamento nenhum. Roça rente a muros noturnos a desgraça das suas emoções. Esconde-se de alheios olhos o próprio esplendor do seu desespero. Às vezes, entre o princípio e o fim de um seu verso, intercala-se um cansaço, um encolher de ombros, uma angústia ao mundo. O exército dos seus sentimentos perdeu as bandeiras numa batalha que nunca ousou travar.

As suas ternuras amuadas por si próprio; as suas pequenas corridas de criança, mal-ousada, até aos portões da quinta, para retroceder, esperando que ninguém houvesse visto; as suas meditações no limiar; ...e as águas correntes no nosso ouvido; a longa convalescença febril ainda por todos os sentidos; e as tardes, os tanques da quinta, os caminhos onde o vento já não ergue a poeira, o regresso de romarias, as férias que se desmancham, tábua a tábua, e o guardar nas gavetas secretas das cartas que nunca se mandaram... A que sonhos de que Musa exilada pertenceu aquela vida de Poeta?

Quando ele nasceu, nascemos todos nós. A tristeza que cada um de nós traz consigo, mesmo no sentido da sua alegria é ele ainda, e a vida dele, nunca perfeitamente real nem com certeza vivida, é, afinal, a súmula da vida que vivemos — órfãos de pai e de mãe, perdidos de Deus, no meio da floresta, e chorando, chorando inutilmente, sem outra consolação do que essa, infantil, de sabermos que é inutilmente que choramos.


Fernando Pessoa, 1915
Textos de Crítica e de Intervenção. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 115.
1ª publ. in “A Galera”, nº 5-6. Coimbra: Fev. 1915.
 

sábado, 7 de janeiro de 2023

"À Toa" - Poema de António Nobre 


Edouard John Mentha (Switzerland, 1858-1915), Young shepherdess in a landscape



À Toa


O Primeiro Homem
 
Que grande é o Mundo! E eu só! Que tortura tamanha!
Ninguém! Meu pai é o Céu. Minha mãe é a Montanha.

A Montanha
 
Os meus cabelos são os pinheirais sombrios
E veias do meu corpo os azulados Rios.

Os Rios
 
Nós somos o suor que o Estio asperge e sua,
Nós somos, em Janeiro, água-benta da Lua!

A Lua
 
Eu sou a bala, no Ar detida, dessa guerra
Que teve contra Deus, em seu princípio, a Terra...

A Terra
 
E eu uma das maçãs, entre outras a primeira,
Que certa Virgem viu cair duma macieira!

A Macieira
 
Tantas ainda por cair! Vinde colhê-las!
Abanai a macieira e cairão estrelas! 

A Estrelas
 
No Mar, à noite, refletimo-nos, a olhar,
E formamos, assim, as Estrelas-do-Mar...

O Mar
 
Sou padre. São de água meus Santos Evangelhos:
Acendei meu altar, relâmpagos vermelhos!

Os Relâmpagos
 
Nós somos (o contrário, embora, seja escrito)
Os fogos-fátuos desta cova do Infinito...

O Infinito
 
Sou o mar sem borrasca, onde enfim se descansa.
Aqui, vem desaguar o rio da Esperança...

A Esperança
 
Morri, irmãos! mas lá ficaram minhas vestes,
No vosso mundo: dei-as dadas aos ciprestes.

Os Ciprestes
 
Para apontar os Céus, como dedos funéreos,
Plantaram-nos no pó dos mudos Cemitérios...

Os Cemitérios
 
Porão, beliches, tudo cheio!... Os céus absortos!
Não cabe em Josafat esta leva de mortos!

Os Mortos

 
Séculos tombam uns sobre outros, como blocos,
E nós dormindo sempre, eternos dorminhocos!

Porto, 1885

António Nobre (1867-1900), in 'Só'
 
 

António Nobre, "" - Edição/reimpressão: 04-2015
Editor: Porto Editora
 (daqui)
 
 

Obra que consagrou o seu autor, António Nobre, como um marco da literatura portuguesa na transição da poesia parnasiana, decadentista e neorromântica para a poesia moderna. Este livro de poesia melancólica, em que o autor exprime o seu sofrimento e a sua dor, e no qual se destacam o fatalismo, o egotismo, o pessimismo, a exploração do macabro e as saudades da infância e da pátria, foi editado em Paris por Léon Vanier (o editor de simbolistas como Verlaine, Rimbaud, Mallarmé), em 1892, aquando da conclusão dos estudos universitários do autor, na Sorbonne. Acolhendo reações opostas em Portugal, seria objeto de uma segunda edição, corrigida pelo autor, em 1898.

O volume gerou, desde o momento da sua publicação, pelo seu tom confessional, uma precipitada identificação entre autor e sujeito poético, numa correlação adensada pela omnipresença de um eu que reitera a sua perdição, a sua imagem de poeta amaldiçoado, a sua visceral melancolia. Ungida, aquando desta reedição, como modelo de uma estética romântica reinventada no fim-de-século, tornar-se-ia, como o póstumo Primeiros Versos, um "breviário de almas desfalecidas, da legião melancólica e neurasténica dos que perderam a fé" (cf. BRANDÃO, Júlio - prefácio a Primeiros Versos, 2.ª ed., Porto, 1937). 
 
Com efeito, dava voz a um pessimismo de fim-de-século que, adensado, no caso português, por um vencidismo adensado por uma humilhação histórica, eivava uma atmosfera decadentista vagamente melancólica de um Portugal perdido, saudosamente entrevisto nas páginas de Garrett ("Garrett da minha paixão") ou num Portugal da infância, duplamente amado na distância do exílio e do tempo. Ao lado desta aparência de lirismo ingénuo, passava a profunda inovação poética de que, conciliando singularmente rigor métrico e coloquialismo, pulverizando um sujeito poético que narcisicamente se ficciona nas imagens fragmentárias da memória, faria dele um precursor do modernismo, com visíveis nexos de continuidade, por exemplo, em Mário de Sá-Carneiro. (Daqui)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

"Paz!" - Poema de António Nobre


Wright Barker (British painter, 1864 - 1941), Awaiting the Guns, 1897,  Private collection.



Paz!


E a Vida foi, e é assim, e não melhora. 
Esforço inútil, crê! Tudo é ilusão... 
Quantos não cismam nisso mesmo a esta hora 
Com uma taça, ou um punhal na mão! 

Mas a Arte, o Lar, um filho, António? Embora! 
Quimeras, sonhos, bolas de sabão. 
E a tortura do além e quem lá mora! 
Isso é, talvez, minha única aflição... 

Toda a dor pode suportar-se, toda! 
Mesmo a da noiva morta em plena boda, 
Que por mortalha leva... essa que traz... 

Mas uma não: é a dor do pensamento! 
Ai quem me dera entrar nesse convento 
Que há além da Morte e que se chama a Paz! 


António Nobre, in 'Só' (1892)


terça-feira, 21 de março de 2017

"Que Aborrecido!" - Poema de António Nobre


Albert Anker (1831-1910), Schoolboy, 1881


Que Aborrecido!


Meus dias de rapaz, de adolescente, 
Abrem a boca a bocejar sombrios: 
Deslizam vagarosos, como os rios, 
Sucedem-se uns aos outros, igualmente. 

Nunca desperto de manhã, contente. 
Pálido sempre com os lábios frios, 
Oro, desfiando os meus rosários pios... 
Fora melhor dormir, eternamente! 

Mas não ter eu aspirações vivazes, 
E não ter, como têm os mais rapazes, 
Olhos boiando em sol, lábio vermelho! 

Quero viver, eu sinto-o, mas não posso: 
E não sei, sendo assim, enquanto moço, 
O que serei, então, depois de velho... 


António Nobre, in 'Só' 




"A escola foi para mim como um barco: me dava acesso a outros mundos. Contudo, aquele ensinamento não me totalizava. Ao contrário: mais eu aprendia, mais eu sufocava."

domingo, 27 de março de 2016

"O Sono do João" - Poema de António Nobre


Jozef Israëls (Dutch painter, 1824 –1911 ), Peasant's meal in Delden, 1885



O Sono do João


O João dorme... (Ó Maria,
Diz àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...)

Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O João seria... um morango!
Podia engoli-lo um leão
Quando nasce! As pombas são
Um poucochinho maiores...
Mas os astros são menores!

O João dorme... Que regalo!
Deixá-lo dormir, deixá-lo!
Calai-vos, águas do moinho!
Ó Mar! fala mais baixinho...
E tu, Mãe! e tu, Maria!
Pede àquele cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...

O João dorme, o Inocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo sono profundo!
Não acordes para o Mundo,
Pode levar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto é...

Ó Mãe! canta-lhe a canção,
Os versos do teu Irmão:
"Na vida que a Dor povoa,
Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir...
Tudo vai sem se sentir."

Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho... até morrer!

E tu vê-lo-ás crescendo
A teu lado (estou-o vendo
João! que rapaz tão lindo!)
Mas sempre sempre dormindo...

Depois, um dia virá
Que (dormindo) passará
do berço, onde agora dorme,
Para outro, grande, enorme:
E as pombas que eram maiores
Que João... ficarão menores!

Mas para isso, ó Maria!
Diz àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...

E os anos irão passando.

Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha também)
Perder a cor que, hoje, tem,
Perder as cores vermelhas
E for cheiinho de engelhas,
Morrerá sem o sentir,
Isto é, deixa de dormir:
Acorda e regressa ao seio
De Deus, que é d'onde ele veio...

Mas para isso, ó Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:

Não vá o João acordar...


António Nobre (1867-1900), in "Só"

segunda-feira, 27 de julho de 2015

"O Primeiro Filho" - Poema de António Nobre





O Primeiro Filho


A virgem de ontem é já hoje Mãe: 
O leito azul e branco do noivado 
Ei-lo, em bem pouco tempo, transformado 
Num berço onde existe mais alguém. 

Na rósea alcova atapetada, além, 
Uma velhota, ex-noiva do passado, 
Beijando o pequenito com cuidado, 
Diz: — Bom tempo em que eu fui assim, também. 

No entanto a boa Mãe cheia de Graça, 
Estende-se no leito, exausta e lassa, 
Cercada duma auréola de luz. 

E beijando o filhito que adormece, 
Olhada assim, de súbito, parece 
A Virgem Mãe a acalentar Jesus... 


António Nobre, in 'Antologia Poética'


domingo, 12 de janeiro de 2014

"Menino e Moço" - Poema de António Nobre


 
Fritz Zuber-Buhler (Suíça, 1822 – França, 1896), Distant Thoughts



Menino e Moço


Tombou da haste a flor da minha infância alada,
Murchou na jarra de oiro o púdico jasmim:
Voou aos altos Céus a pomba enamorada 
Que dantes estendia as asas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada 
E que era sempre dia, e nunca tinha fim 
Essa visão de luar que vivia encantada, 
Num castelo de prata embutido a marfim!

Mas, hoje, as pombas de oiro, aves da minha infância, 
Que me enchiam de Lua o coração, outrora 
Partiram e no Céu evolam-se, a distância! 

Debalde clamo e choro, erguendo aos Céus meus ais: 
Voltam na asa do Vento os ais que a alma chora, 
Elas, porém, Senhor! elas não voltam mais... 


António Nobre, in 'Só'


Fritz Zuber-Buhler, Daydreaming


Fritz Zuber-Buhler, Poesie


Fritz Zuber-Buhler, Young Girl By The Lake


Fritz Zuber-Buhler, Portrait of a Young Girl 


Fritz Zuber-Buhler, The Flower Gatherer


Fritz Zuber-Buhler, Jeune fille au bouquet de fleurs des champs


Fritz Zuber-Buhler, A Young Beauty Holding a Bouquet of Flowers


Fritz Zuber-Buhler, Innocence


Fritz Zuber-Buhler, Admiration


Fritz Zuber-Buhler, The Lesson


Fritz Zuber-Buhler, The Granary Loft – Kittens


Fritz Zuber-Buhler, The First Cherries


Fritz Zuber-Buhler, Dressing Up


Fritz Zuber-Buhler, A Young Girl With A Bichon Frise 



Fritz Zuber-Buhler, A Little Rouge 


Fritz Zuber-Buhler, Girl With Wreath 


Fritz Zuber-Buhler, Penitence


Fritz Zuber-Buhler, Young Girl Holding A Doll


Fritz Zuber-Buhler, Girl Feeding Her Doll


Fritz Zuber-Buhler, Birth of Venus


Fritz Zuber-Buhler, nasceu em 1822, em Le Locle, Suiça, mas mudou-se para Paris, à busca de projeção artística, com a idade de dezasseis anos. Morreu em 23 de novembro de 1896, em Paris. 

Zuber-Buhler começou sua aprendizagem com Louis-Aimé Grosclaude antes de entrar oficialmente na “École des Beaux-Arts” e no ateliê de François-Édouard Picot, que seguiu a mesma linhagem de artistas contemporâneos, treinados no estilo e na tradição académica como Léon Perrault, Bouguereau, e Alexandre Cabane.

Aos dezanove anos Zuber-Buhler deixou Paris para viajar e estudar na Itália. Esteve ausente por um período de cinco anos. Entretanto, consta que ele estudou também na Berlin Academy entre 1843 e 1844. Zuber-Buhler deve ter despendido algum tempo em Itália antes de assumir esses estudos na Alemanha, enriquecendo sua Arte com experiências dentro e fora do ambiente do estúdio. Depois de trabalhar e estudar em Paris, Itália, e talvez Berlim, ele voltou a Paris para consolidar sua carreira como artista. 

Zuber-Buhler começou exibindo seus quadros no "Salon" anual, estreando em 1850 com The Childhood of Bacchus, The Madonna and the Child Jesus, Portrait of Madame Marquise e com Dust Returns to Dust and the Spirit Rises up to the God who Gave it. Dentro da sua obra começou a exibir desenhos, composições a pastel e aquarelas, que eram também apresentadas nos "Salons". Em 1867 ele expôs nos Estados Unidos, na  Pennsylvania Academy of the Fine Arts, exibindo The Pet Kitten, participando também da exposição de 1877, na qual recebeu um prémio. 

Seu interesse era realizar encomendas de retratos e trabalhos com temas mitológicos e religiosos. As pinturas inspiradas nesses temas foram da maior expressão nos "Salons" anuais e dignas da maior admiração. Zuber-Buhler continuou a apresentar-se no "Salon" até 1891. Seus trabalhos encontram-se hoje em museus em Bern, Le Locle e Neuchatel, na Suiça, e em Montpellier, na França.


Fritz Zuber-Buhler, The Cherry Thieves


"Não há uma felicidade tal, que te sintas sempre satisfeito."
 
Públio Siro  
Roma Antiga
-85 // -43
Poeta


segunda-feira, 16 de julho de 2012

"Viagens na minha terra" - Poema de António Nobre


Rio Douro, Ponte Luís I - PortoPortugal


Viagens na minha terra

 
Às vezes, passo horas inteiras
Olhos fitos nestas braseiras,
Sonhando o tempo que lá vai;
E jornadeio em fantasia
Essas jornadas que eu fazia
Ao velho Douro, mais meu Pai.

Que pitoresca era a jornada!
Logo, ao subir da madrugada,
Prontos os dois para partir:
-Adeus! adeus! é curta a ausência,
Adeus! - rodava a diligência
Com campainhas a tinir!

E, dia e noite, aurora a aurora,
Por essa doida terra fora,
Cheia de Cor, de Luz, de Som,
Habituado à minha alcova
Em tudo eu via coisa nova,
Que bom era, meu Deus! Que bom!

Moinhos ao vento! Eiras! Solares!
Antepassados! Rios! Luares!
Tudo isso eu guardo, aqui ficou:
Ó paisagem etérea e doce,
Depois do Ventre que me trouxe,
A ti devo eu tudo que sou!

No arame oscilante do Fio,
Amavam (era o mês do cio)
Lavandiscas e tentilhões...
Águas do rio vão passando
Muito mansinhas, mas, chegando
Ao Mar, transformam-se em leões!

Ao sol, fulgura o Oiro dos milhos!
Os lavradores mais os filhos
A terra estrumam, e depois
Os bois atrelam ao arado
E ouve-se além no descampado
Num ímpeto aos berros: - Eh! bois!

E, enquanto a velha mala-posta,
A custo vai subindo a encosta
Em mira ao lar dos meus Avós,
Os aldeões, de longe, alerta,
Olham pasmados, boca aberta...
A gente segue e deixa-os sós.

Que pena faz ver os que ficam!
Pobres, humildes, não implicam,
Tiram com respeito o chapéu:
Outros, passando ao nosso lado
Diziam: "Deus seja louvado!"
"Louvado seja!"
dizia eu.

E, meiga, tombava a tardinha...
No chão, jogando a vermelhinha,
Outros vejo a discutir.
Carpiam, místicas, as fontes...
Água fria de Trás-os-Montes
Que faz sede só de se ouvir!

E, na subida de Novelas,
O rubro e gordo Cabanelas
Dava-me as guias para a mão:
Isso... queriam os cavalos!
Que eu não podia chicoteá-los...
Era uma dor de coração.
Depois cansados da viagem,
Repoisávamos na estalagem
(Que era em Casais, mesmo ao dobrar...)
Vinha a Sr.ª Ana das Dores
"Que hão de querer os meus Senhores?
Há pão e carne para assar..."

Oh, ingénuas mesas, honradas!
Toalhas brancas, marmeladas,
Vinho virgem no copo a rir...
O cuco da sala, cantando...
(Mas o Cabanelas entrando,
Vendo a hora: "É preciso partir".)

Caía a noite. Eu ia fora,
Vendo uma estrela que lá mora,
No Firmamento Português:
E ela traça-me o meu fado
"Serás Poeta e desgraçado!"
Assim se disse, assim se fez.



"Viagens na Minha Terra", in


Rio Douro, ponte D. Luís - Porto


Rio Douro, Vila Nova de Gaia


Rio Douro, cidade de Vila Nova de Gaia e cidade do Porto


Vila Nova de Gaia é um município português no Distrito do PortoRegião Norte e sub-região do Grande Porto. Pertence ainda à Grande Área Metropolitana do PortoA cidade está localizada na margem sul da foz do rio Douro. As caves do famoso vinho do Porto ficam localizadas neste concelho. Formada originalmente a partir de duas povoações distintas, Gaia e Vila Nova, foi elevada a cidade a 28 de Junho de 1984. 
A ligação à cidade vizinha do Porto é particularmente forte, e não apenas através da partilha do património comum do Vinho do Porto: no passado as famílias burguesas e nobres do Porto tinham em Vila Nova de Gaia quintas e casas de férias. Devido ao forte crescimento económico e melhoria das comunicações com a margem norte nas últimas décadas, Vila Nova de Gaia progressivamente acolheu população que trabalha diariamente no Porto. Diversas opiniões apontam no sentido de fundir estes concelhos.
Com 168,7 km² de área é o maior concelho do Grande Porto. Subdividido em 24 freguesias, está limitado a norte pelo município do Porto, a nordeste por Gondomar, a sul por Santa Maria da Feira e Espinho e a oeste pelo oceano Atlântico. Este contexto permite-lhe ser um concelho de grandes contrastes, entre zonas interiores, rio e mar, bem como entre áreas urbanas, industriais e rurais.
Em termos aquíferos para além das marcantes orla atlântica e a zona fluvial do Douro, atravessam o concelho inúmeras ribeiras. Destaca-se ainda o rio Febros, que atravessa as freguesias de Pedroso e Avintes.
A localização na margem do rio Douro possibilitou a fixação de populações desde remotos períodos, pensando-se que as origens da cidade remontem possivelmente a um Castro celta, tendo sido também ocupada por Romanos (apelidada na altura de “Cale”) e pelos Mouros, embora não por muito tempo. 
O grande desenvolvimento da cidade de Vila Nova de Gaia dá-se no século XVIII, com a instalação dos famosos Armazéns do Vinho do Porto que já na época era uma muito importante indústria no norte do País. Hoje, Vila Nova de Gaia é o principal centro de produção do vinho do Porto, com o centro da cidade dominado pelos armazéns das marcas mais famosas, com mais de 50 companhias, alojados em edifícios de característicos telhados vermelhos. Uma visita a uma das muitas Caves aqui existentes é imprescindível para melhor conhecer e apreciar este prestigiado vinho, único no mundo. 
Igualmente aprazível é a Costa da região, destacando-se diversas praias e bonitos panoramas. 
Uma visita ao Cais de Gaia proporciona agradáveis momentos de lazer, nesta área turística de esplanadas, restaurantes e bares, com vista para a zona histórica da cidade do Porto, no local onde durante muitos séculos se localizou um porto fluvial de onde eram exportadas diversas mercadorias, nomeadamente o referido Vinho do Porto. Daqui partem hoje em dia os famosos Cruzeiros no Rio Douro, com destino à região do Alto Douro, onde toda a produção do vinho do Porto é adestrada.
A não perder é o Mosteiro da Serra do Pilar, com uma localização privilegiada, de onde se tem uma das mais belas vistas sobre a cidade do Porto. De facto, esta localização e vista excelente foi a escolha do Duque de Wellington para planear o seu ataque-surpresa às tropas invasoras Francesas, em 1809. 


Rio Douro, cidade de Vila Nova de Gaia e cidade do Porto


Rio Douro, cidade de Vila Nova de Gaia e cidade do Porto


Rio Douro, cidade de Vila Nova de Gaia e cidade do Porto


Rio Douro  e cidade do Porto


Rio Douro  e cidade do Porto


Rio Douro, Vila Nova de Gaia 


Rio Douro, ponte da Arrábida


Rio Douro, ponte da Arrábida


Rio Douro, barco Rabelo


Rio Douro


Rio Douro, Vila Nova de Gaia


Rio Douro, Vila Nova de Gaia, Mosteiro da Serra do Pilar


Vila Nova de Gaia, Mosteiro da Serra do Pilar


Vila Nova de Gaia, Caves do famoso vinho do Porto


Caves do vinho do Porto


Caves do vinho do Porto


Caves do vinho do Porto


Vila Nova de Gaia vista da cidade do Porto


Edvard Grieg: Peer Gynt Suite No.1