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domingo, 17 de agosto de 2014

"O Poeta em Lisboa" - Poema de António José Forte



Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, Grupo escultórico "Milagre da Bilha",
peça moldada e modelada em barro branco e vermelho, 1912.
Fábrica Bordalo Pinheiro - Museu da Cerâmica



O Poeta em Lisboa


Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.

Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha - numa música secreta, inaudível.

Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos,
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.


António José Forte, in Uma Faca nos Dentes
Prefácio de Herberto Helder


A pintura pertence ao Museu do Chiado de Lisboa


Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (Lisboa, 20 de Julho de 1867 - Caldas da Rainha, 8 de Setembro de 1920) foi um ilustrador, ceramista, caricaturista, bem como criador de banda desenhada e de cartazes.

Era filho de Rafael Bordalo Pinheiro e sua esposa, Elvira Ferreira de Almeida, e sobrinho de Columbano Bordalo Pinheiro.


Caricatura de Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro


Iniciou a sua atividade de ilustrador numa publicação de seu pai, Pontos nos ii (1885-1891). Para além desta, também trabalhou nas revistas O António Maria (1879-1885;1891-1898), A Paródia (1900-1907), que dirigiu após a morte do pai, Ilustração Portugueza (1903-1923), Atlântida: mensário artístico, literário e social para Portugal e Brasil (1915-1920), Miau! (1916) e O Gafanhoto


Caricatura de Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro


Foi presidente do Grupo de Humoristas Portugueses e professor na Escola Industrial Rodrigues Sampaio e na Escola Industrial Fonseca Benevides.



Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920), ilustração para a capa da revista A Parodia,
 número 5, 1.º ano, de 11 de Fevereiro de 1903.


Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920), ilustração para a contracapa da revista A Parodia,
 número 5, 1.º ano, de 11 de Fevereiro de 1903.


Colaborou com o pai na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. Após a morte dele (em 1905) sucedeu-lhe na gestão da fábrica, abandonando a atividade de ilustrador e dedicando-se em exclusivo à cerâmica. Em 1908 fundou uma nova fábrica, inicialmente denominada de "São Rafael" e mais tarde denominada Fábrica Rafael Bordalo Pinheiro. É característica da sua produção a aliança entre os modelos tradicionais e as tendências da corrente Arte Nova.

Foi retratado em 1884 num óleo sobre madeira da autoria de seu tio, Columbano Bordalo Pinheiro

Tem no Museu Militar de Lisboa alguns painéis de azulejos representando cenas do golpe de estado do 1º de Dezembro de 1640 e o mesmo período da Restauração.


Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro

sábado, 16 de agosto de 2014

Rafael Bordalo Pinheiro (Vida e Obra)



Rafael Bordalo Pinheiro, Jarra, A dança das rãs, rodada e modelada em barro vermelho, 1893. 
Peça de inspiração Arte NovaFábrica de Faianças das Caldas da Rainha - Museu da Cerâmica



Citação


"... Cá pelo país está tudo diferente e tudo na mesma. As lutas pelo poder continuam. Os partidos sucedem-se. É que a política é como uma “grande porca”. É na política que todos mamam. E como não chega para todos, parecem bacorinhos que se empurram para ver o que consegue apanhar uma teta."



Rafael Bordalo Pinheiro, 1879 
(Ao regressar a Lisboa após uma estadia de quatro anos no Brasil)



Rafael Augusto Prostes Bordalo Pinheiro


Caricaturista, ilustrador, ceramista, autor de banda desenhada, editor, decorador e figurinista, considerado o maior artista plástico português do século XIX, Rafael Bordalo Pinheiro nasceu a 21 de março de 1846, em Lisboa, e faleceu a 23 de janeiro de 1905, na mesma cidade.



Autorretrato de Columbano Bordalo Pinheiro (1857 — 1929), 


Oriundo de uma família de artistas, Rafael Bordalo Pinheiro teve uma formação escolar que passou pelo Liceu das Merceiras, onde se matriculou em 1857, no mesmo ano em que nasceu o irmão, Columbano Bordalo Pinheiro, que se viria a revelar um notável pintor.


filho de Rafael Bordalo Pinheiro,pintado por seu tio 


Rafael Bordalo Pinheiro experimentou representação no Teatro Garrett, inscreveu-se no Conservatório em 1860 e, no ano seguinte, matriculou-se em Desenho de Arquitetura Civil na Academia de Belas Artes, onde também se inscreveu em Desenho Histórico.
Perante um percurso escolar perfeitamente irregular e marcado pela pouca assiduidade, em 1863 foi trabalhar como escriturário na Câmara dos Pares. Em paralelo, desenvolveu o gosto pela arte, como se verificou no Salão da Sociedade Promotora de Belas Artes, onde expôs regularmente aguarelas com motivos populares a partir de 1868.

Em 1869 realizou diversas capas de livros e cabeçalhos de jornais e preparou o álbum O Calcanhar d'Achilles [Aquiles], editado no ano seguinte.

Durante a Exposição Internacional de Madrid, de 1871, apresentou os seus trabalhos e, nesse mesmo ano, participou no Almanaque das Gargalhadas.

Em 1872 colaborou com Artes e Letras e foi editado o álbum Apontamentos de Raphael Bordallo Pinheiro sobre a Picaresca Viagem do Imperador do Rasilb pela Europa, que é a primeira banda desenhada portuguesa, que relata em 16 páginas a viagem do Imperador do Brasil D. Pedro II à Europa. Dado o grande sucesso deste álbum, foram feitas mais duas edições no mesmo ano e, deste modo, Bordalo foi um dos pioneiros da BD a nível mundial. Estes três álbuns foram reeditados em 1996 pela Bedeteca de Lisboa por ocasião dos 150 anos do nascimento do autor, realizando-se na ocasião uma exposição sobre as suas Histórias aos Quadradinhos, entre outras iniciativas.

A sua colaboração como ilustrador com a imprensa estrangeira fez-se notar particularmente em 1873, com El Mundo Comico e Ilustración Española y Americana (ambos de Madrid) e o The Illustrated London News (de Londres).


Primeira caricatura do "Zé Povinho" in "A Lanterna Mágica" (1875).


Ano também marcante na sua carreira foi o de 1875: criou o célebre Zé Povinho, que apareceu pela primeira vez nas páginas d'A Lanterna Mágica, periódico que se começou a publicar a 1 de maio, sob direção literária de Guerra Junqueiro e de Guilherme de Azevedo. Também em 1875, a convite do prestigiado jornal O Mosquito, partiu para o Brasil. Colaborou com esse periódico carioca entre 1875 e 1877 e, com o seu encerramento, fundou o Psit!!!, em 1877, que durou escassos meses, tendo criado de seguida O Besouro, publicado entre 1878 e 1879, o ano do seu regresso a Lisboa.

Em 1879 fundou um dos títulos mais representativos em que participou, o célebre O António Maria, com Guilherme de Azevedo, cuja I série se publicou entre 1879 e 1885.
Com o encerramento de O António Maria criou de seguida o Pontos nos II, que se publicou entre 1885 e 1991, reaparecendo uma II série de O António Maria, entre 1891 e 1898. O último jornal que dinamizou foi A Paródia, que contou com a colaboração literária de João Chagas, publicado de 1900 até 1906.

Retomando um hábito tido no Brasil, fez caricatura a partir de quadros célebres, como Zé Povinho  na [Última] Ceia e Zé Povinho - Marquês de Pombal, ambos de 1882.

Com a colaboração de Ramalho Ortigão lançou o Álbum das Glórias em 1880 e, no ano seguinte, O António Maria estreou-se como revista teatral.


Rafael Bordalo PinheiroAs duas soberanias, in A Paródia, 1902


Para além dos periódicos que fundou e dinamizou com caricaturas e ilustrações, colaborou simultaneamente em muitos outros com BD, como aconteceu com as edições de O Comércio do Porto Ilustrado, no qual participou entre 1892 e 1904 com 10 histórias de BD que tiveram a particularidade de ser a cores, reeditadas em 1996 por Carlos Bandeiras Pinheiro. Uma outra BD importante, O Lazareto de Lisboa, surgida em 1881, também foi reeditada, em 2003, pela Frenesi.


Rafael Bordalo Pinheiro, Jarra com tampa, moldada e modelada em barro vermelho, 1888. 

(Esta peça foi executada por Rafael Bordalo Pinheiro (sentado numa asa a autocaricatura do artista), para oferecer ao Dr. Feijão, que o tratou de um antraz em 1888. Fabrica de Faianças das Caldas da Rainha- Museu da Cerâmica.)


Rafael Bordalo Pinheiro, Candelabro renascentista em faiança, 1894


Em 1884 começou a laborar a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. De entre as peças fabricadas, destaque para as pequenas figuras de carácter popular e caricatural, como o célebre Zé Povinho, a Ana das Caldas, o Arola ou as versões do John Bull (como penico e escarrador), personagem que surgiu como resposta ao Ultimato Britânico de 1890, sem esquecer as peças de grandes dimensões, como a Talha Manuelina e a Jarra Beethoven.


Rafael Bordalo Pinheiro, Jarra Beethoven, 1895


Prova do seu empenho na fábrica, viajou com o irmão Feliciano em 1888, visitando fábricas em França, Bélgica e Inglaterra, para conhecer técnicas de produção de cerâmica.

Em 1889 decorou o Pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Paris, onde as suas cerâmicas foram acolhidas com êxito, tendo sido agraciado com o grau de cavaleiro da Legião de Honra da República Francesa.


Rafael Bordalo Pinheiro, Bule de tipo caricatural, peça moldada e modelada, 1897-1906. 
Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha - Museu da Cerâmica


Outras atividades em que se destacou foram a realização de figurinos para peças teatrais, como as que fez para Eduardo Schwalbach a partir de 1897, como O Reino da Bolha, ou a baixela manuelina que desenhou para o visconde de São João da Pesqueira, em 1904.

Implacável com a classe política do país, ninguém foi poupado à pena cáustica de Bordalo, como Hintze Ribeiro, José Luciano de Castro, Mouzinho de Albuquerque, o duque d'Ávila, o conde de Burnay, D. Luís, D. Carlos ou, em particular, António Maria Fontes Pereira de Melo.


Rafael Bordalo Pinheiro, Jarra decorada com folhas de plátano
Esta peça moldada e modelada em barro vermelho em 1901, está inserida 
na fase bordalina de onde saiu a Talha Manuelina.
Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha - Museu da Cerâmica


A cidade de Lisboa tem-lhe prestado diversas homenagens, como a atribuição do seu nome ao largo onde morou, próximo do Chiado, a criação em 1989 do Prémio Municipal "Rafael Bordalo Pinheiro" de Banda Desenhada, Caricatura e Cartoon e, desde 1915, o Museu Rafael Bordalo Pinheiro, no Campo Grande, tutelado pela edilidade desde 1924, que resultou da doação (do edifício e do recheio) por um grande admirador do autor, Cruz Magalhães, que embora nunca o tenha conhecido organizou metodicamente um espólio sem igual sobre o autor. A Casa da Imprensa atribui desde 1990 os Prémios "Bordalo", criados em 1962 com outro nome, que distingue personalidades em várias áreas.


Rafael Bordalo Pinheiro, Floreira, peça rodada e modelada em barro vermelho, 1898
Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha - Museu da Cerâmica


Em 2005, por ocasião do Centenário da sua morte, realizaram-se diversas iniciativas, com exposições (nomeadamente em Lisboa e no Porto), as edições da Fotobiografia organizada por João Paulo Cotrim (Assírio & Alvim), do Álbum das Glórias (Expresso) e o catálogo A Rolha - Bordalo (Hemeroteca Municipal de Lisboa).
Nas Caldas da Rainha existe uma Casa Museu Rafael Bordalo Pinheiro e uma Escola Secundária tem Rafael Bordalo Pinheiro como patrono.

Rafael Bordalo Pinheiro. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-24].



Figura em cerâmica retratando o Zé Povinho


O Zé Povinho é uma personagem satírica de crítica social, criada por Rafael Bordalo Pinheiro e adoptada como personificação nacional portuguesa. 

O Zé Povinho corresponde a uma imagem simbólica do povo, da massa anónima e submissa, plena de atualidade, que aparece nas mais variadas situações, desde os aumentos de impostos e das tarifas dos transportes, aos negócios mal explicados. De origem rural, sorriso afável, cabelo despenteado e usando chapéu braguês, o Zé vai manifestando o seu espanto umas vezes ou em outras mostra que percebe mais do que seria suposto.


Rafael Bordalo Pinheiro, Caixa "Toma", faiança 1904. 
Museu Bordalo Pinheiro, Lisboa.


Bordalo Pinheiro definiu assim, o personagem Zé Povinho

"O Zé Povinho olha para um lado e para o outro e... fica como sempre... na mesma".

"Mas se ele é paciente, crédulo, submisso, humilde, manso, apático, indiferente, abúlico, céptico, desconfiado, descrente e solitário, também não deixa por isso de nos aparecer, em constante contradição consigo mesmo, simultaneamente capaz de se mostrar incrédulo, revoltado, resmungão, insolente, furioso, sensível, compassivo, arisco, activo, solidário, convivente..."


Rafael Bordalo Pinheiro


Os Azulejos 
de
 Rafael Bordalo Pinheiro

Rafael Bordalo Pinheiro, Painel de azulejos, barro vermelho moldado, 1893-1905. 
Inspiração na produção hispano mourisca do século XVI. Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha - Museu da Cerâmica


Rafael Bordalo Pinheiro principia a sua produção em Setembro de 1884,  aplicando-o com grande sucesso em grandes superfícies como fachadas e interiores de residências. A durabilidade e impermeabilização das superfícies, características particulares do azulejo, aliadas a efeitos visuais resultantes da imitação de materiais através do azulejo de relevo, deram origem a composições livres de rara beleza.


Rafael Bordalo Pinheiro, Painel de azulejos com borboletas e espiga de trigo, barro vermelho moldado, 1905. 
Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha - Museu da Cerâmica


Numa primeira fase mostrou preferência pelos azulejos de padrão, inspirados em motivos da azulejaria hispano-árabe, modalidade que nunca abandonou apesar das novas experiências com nenúfares, borboletas, gafanhotos e gatos, claramente influenciadas pela Arte Nova. A renovação do saber artesanal introduzida por Bordalo abriu as portas do mercado internacional ao azulejo português.


Rafael Bordalo Pinheiro, Painel de azulejos, barro vermelho moldado, 1893-1905. 
Gafanhotos sobre espigas de trigo. Cercadura com óvulos de inspiração renascentista. 
Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha - Museu da Cerâmica


Além do azulejo artístico, a Fábrica de Faianças fabricou o azulejo comum e produziu tijolos (moldes em madeira reforçados a ferro) e telhas vidradas, revestidas de esmaltes verdes e cor de mel. Começou por fabricar tijolos e telhas para a edificação da própria fábrica e em Abril de 1885 concebe uma telha de menor peso e maior impermeabilidade com determinados apêndices para melhor segurança, em concorrência directa com a telha de Marselha. Foram construídos sete fornos para o cozimento deste material, na sua maior parte em barro vermelho. [ CITI ]


Rafael Bordalo Pinheiro, Azulejos de padrão, nenúfar e rã (Rã no Charco)
Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha . Museu Rafael Bordalo Pinheiro - Divisão de Museus - CML


Rafael Bordalo Pinheiro, Painel com rãs, Finais do século XIX



Rafael Bordalo Pinheiro, Painel Arte Nova Com Rãs, Início sec. XX


Rafael Bordalo Pinheiro, Azulejos,  Fábrica Bordalo Pinheiro, s.d.


Rafael Bordalo Pinheiro, Painel de azulejos de inspiração mourisca com escudete de cinco quinas.


Rafael Bordalo Pinheiro, "Gato", Azulejo no pátio do Museu


Fontes:
Rafael Bordalo Pinheiro – Wikipédia
Rafael Bordalo Pinheiro - Infopédia
Rafael Bordalo Pinheiro - Centro Virtual Camões
Rafael Bordalo Pinheiro (Vidas Lusófonas)
R. Bordalo Pinheiro: biografia - CITI
Museu Bordalo Pinheiro - Museu de Arte
Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha
Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro
Museu da Cerâmica
ComJeitoeArte
MatrizNet
Caldas da Rainha



Rafael Bordalo Pinheiro, Painel de azulejos

domingo, 1 de junho de 2014

"A Luz do teu Amor" - Poema de Guilherme de Azevedo


Sir Walter  Westley Russell (British painter and art teacher, 1867‑1949), Cordelia, 1930.


A Luz do teu Amor


 Oh! Sim que és linda! a inocência 
Em tua fronte serena 
Com tal doçura reluz!... 
Tanta e tanta... que a açucena 
Tão esplêndida a existência 
Não lha doura assim à luz! 
Oh! que és linda, e mais... e mais 
Quando um traço melancólico 
Te diviso no semblante 
Nos teus olhos virginais! 
Que doçura não existe 
Ai! ó virgem, nesse instante 
Na poética beleza 
Desse traço de tristeza 
Que te vem tornar mais bela 
Mal em teu rosto pousou! 
E eu te quero assim, ó estrela, 
Que se inspira em mim a crença 
Triste... triste, que és mais linda, 
Mas dessa beleza infinda 
Das ficções da renascença 
Que a poesia perfumou! 

Fita agora os olhos lânguidos 
Na estrela que te ilumina, 
Eu não sei que luz divina 
De amor nos fala em teu rosto! 
Eu não sei, nem tu... ninguém!... 
Que a vaga luz do sol posto, 
Que a palidez da cecém, 
Que a meiguice dos amores, 
E que o perfume das flores 
Não respiram a harmonia 
Desse toque leve... leve 
Do mais puro sentimento, 
Da mais suave ilusão! 
As flores leva-as o vento; 
Mas a divinal poesia 
Que em teu peito se alimenta 
Não a desfaz a tormenta, 
Nem a consome o vulcão! 

E assim! - Lembra-me ainda 
Aquele instante suave! 
Havia paixão infinda 
No terno gorjeio da ave 
Que ao longe... ao longe se ouvia 
Ressoar na laranjeira! 
Assim foi... assim tão pálida 
Que eu te vi a vez primeira 
Naquele instante sem par! 
Sim! Oh! se a alma do poeta 
É como a ardência do mar, 
Que se calma e se aquieta 
À luz que baixa dos céus; 
Eu por ti surgi, ó bela, 
O cantor daquela estrela 
Que fulge lá no horizonte, 
Que me voa a vida em êxtase 
Quando sobre a minha fronte 
Cai a luz dos olhos teus! 

E se o passado foi triste 
Sepultei-o num abismo, 
E esqueci ao magnetismo 
Da tua doce expressão 
O gemer da tempestade, 
Mais o ralar da ansiedade 
Daqueles dias de então! 
Se já viste mesmo em sonhos 
Ressurgir graciosa e bela 
De entre os negrumes da noite 
A doce imagem da estrela 
Que sorri ao turvo mar; 
Faz ideia de minha alma 
Que em deserto triste e infindo 
Vivia sem uma palma, 
E que, um dia... um dia lindo, 
Surge à luz do teu olhar! 

E depois a melancolia, 
Aquela doce cadência 
Que tinhas então na fala, 
Tão suave como a essência 
Que somente a flor exala, 
Tudo... tudo me prendeu! 
E hoje elevo as mãos ao céu, 
E bendigo aquele instante 
em que vi a tua imagem 
de vaga luz radiante, 
Embora seja a miragem 
Que na aridez do deserto 
Um instante nos fulgura, 
E que, ora longe, ora perto, 
Bem pouco... bem pouco dura! 
Não negues um dia alento 
Aos débeis sopros de vida 
Que em mim pululam agora 
Com mais força e mais calor! 
Se vives da luz da aurora 
Que à vida te diz bonança, 
Eu só vivo da esperança 
E da luz do teu amor! 


Guilherme de Azevedo, 
in 'Antologia Poética'


Guilherme de Azevedo retratado 


Guilherme Avelino Chaves de Azevedo (Santarém, 30 de Novembro de 1839 - Paris, 6 de Abril de 1882) foi um jornalista e poeta português. 
 
Ligado à "Geração de 70", foi um dos representantes da poesia revolucionária introduzida no país por Antero de Quental ("Odes Modernas", 1865), tendo ainda recebido influências dos franceses Vitor Hugo e Charles Baudelaire.
 
Filho de um escrivão das Finanças, desde a infância mostrou-se fisicamente débil, como resultado de uma queda que o fez coxo e lhe provocou uma lesão de que viria a morrer prematuramente aos quarenta e dois anos de idade. Viveu, por essa razão, obcecado por esconder os seus males físicos. 
 
Em 1871 fundou em Santarém o periódico "O Alfageme", primeiro momento da sua carreira jornalística e onde defendeu, com escândalo no país à época, as ideias revolucionárias da Comuna de Paris
 
Após o falecimento do pai, instalou-se em Lisboa, onde abraçou definitivamente o jornalismo, profissão na qual atingiu posição relevante. Trabalhou nos periódicos "Diário da Manhã", "O Pimpão" e em "A Lanterna Mágica". Colaborou no "Primeiro de Janeiro" com um folhetim semanal, bem como no jornal O Panorama (1837-1868) e nas revistas A Mulher (1879), Ribaltas e gambiarras (1881) e Jornal de Domingo (1881-1883), e ainda na imprensa brasileira. 
 
Como poeta, foi um autor representativo, abordando temas modernos numa escrita de índole épico-social. Publicou os primeiros versos no "Almanaque de Lembranças" de 1864, sob o pseudónimo de "G. Chaves", vindo a colaborar posteriormente em vários periódicos, como o "Comércio de Lisboa", a "Revolução de Setembro" e a "Gazeta do Dia", onde, em parceria com Guerra Junqueiro, manteve as crónicas humorísticas da rubrica "Ziguezagues"
 
Fundou o O António Maria em 1879 com Rafael Bordalo Pinheiro, e, ainda ao lado deste, dirigiu e colaborou no "Álbum das Glórias". No mesmo ano, novamente com Guerra Junqueiro, redigiu a sátira teatral "Viagem à roda da Parvónia", que seria pateada e proibida, mas que Ramalho Ortigão considerou uma "fiel pintura dos costumes constitucionais" do país à época. 
 
Em 1880, em consequência da fama conquistada como cronista mundano e político, o periódico carioca "Gazeta de Notícias" nomeou-o seu correspondente em Paris, função que desempenhou nos dois últimos anos da sua vida. 
 
As suas poesias, reunidas nas três coletâneas "Aparições" (1867), "Radiações da Noite" (1871) e "Alma Nova" (1874), encarnam o novo realismo satírico de inspiração baudelairiana no país. 
Com o pseudónimo "João Rialto" deixou vários escritos com elevado humorismo. (Daqui)
 
 

Galeria de Walter Westley Russell
Walter Westley Russell, Camilla


"Do primeiro amor gosta-se mais, dos outros gosta-se melhor." 

(Antoine de Saint-Exupéry)


Sir Walter Russell, Tying her shoe


"A medida do amor é amar sem medida."

(Victor Hugo)


Sir Walter Russell, Portrait of a Lady


"Quando somos amados, não duvidamos de nada. Quando amamos, duvidamos de tudo." 

(Sidonie Colette)


Sir Walter Russell, The Morning Room


"Gosto desta ideia: que o amor é uma forma de conversação em que as palavras agem em vez de serem faladas."

(David Lawrence, O Amante de Lady Cnatterly)


Sir Walter Russell, Alice, 1926


"Muito pouco ama, quem com palavras pode expressar quanto muito ama." 

  (Dante Alighieri)


Sir Walter Russell, Alderman Robert Styring, Lord Mayor of Sheffield, 1906


"Um homem tem sempre medo de uma mulher que o ame muito." 

(Bertolt Brecht, A Ópera dos Três Vinténs)