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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

"A quarta porta" - Poema de Manuel António Pina


 
Jimmy Ernst (American painter born in Germany, 1920–1984), Oracle, 1971.

 

A quarta porta


É a solidão
o que o coração procura,
como poderei não
saber o que não sei?

Estou cada vez mais longe de qualquer coisa,
regressarei alguma vez
a tudo o que há de vir?
O que está atrás de ti

é a tua imagem
que o Futuro persegue.
Este é um lado de tudo
e o outro é o mesmo e o outro.


Manuel António Pina,
in 'Aquele que quer morrer', 1978.


terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

"Recado" - Poema de Al Berto

 

 
Jimmy Ernst (American painter born in Germany, 1920–1984), Surreal V, 1940.

 

Recado


ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer — vai por esse campo
de crateras extintas — vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo — deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração — ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna — o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira — não esqueças o ouro
o marfim — os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço


Al Berto
, Horto de Incêndio, 1997.

 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

"Não sei ser triste a valer" - Poema de Fernando Pessoa


 
Jimmy Ernst (American painter born in Germany, 1920–1984), Surreal, 1942.


Não sei ser triste a valer


Não sei ser triste a valer
Nem ser alegre deveras.
Acreditem: não sei ser.
Serão as almas sinceras
Assim também, sem saber?

Ah, ante a ficção da alma
E a mentira da emoção,
Com que prazer me dá calma
Ver uma flor sem razão
Florir sem ter coração!

Mas enfim não há diferença.
Se a flor flore sem querer,
Sem querer a gente pensa.
O que nela é florescer
Em nós é ter consciência.

Depois, a nós como a ela,
Quando o Fado a faz passar,
Surgem as patas dos deuses
E a ambos nos vêm calcar.

Está bem, enquanto não vêm
Vamos florir ou pensar. 

3-4-1931

Fernando Pessoa
, Poesias Inéditas, 1930-1935.
 (Nota prévia de Jorge Nemésio.) 
Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 41.
 

terça-feira, 2 de julho de 2024

"Labirinto" - Poema de Jorge Luis Borges



Jimmy Ernst
(American painter born in Germany, 1920–1984), Lookscape, 1952.

 

Labirinto 


Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro.
E o alcácer abarca o universo
E não tem anverso nem reverso
Não tem extremo muro nem secreto centro.

Não esperes que o rigor do teu caminho
Que fatalmente se bifurca em outro,
Que fatalmente se bifurca em outro,
Terá fim. É de ferro teu destino

Como o juiz. Não creias na investida
Do touro que é um homem cuja estranha
Forma plural dá horror a essa maranha

De interminável pedra entretecida.
Não virá. Nada esperes. Nem te espera
No negro crepúsculo uma fera.


Jorge Luis Borges,
em “Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista”.
São Paulo: Terracota, 2013.
Traduções de Augusto de Campos.


segunda-feira, 3 de julho de 2023

"Cântico do pássaro azul em Sharpeville" - Poema de José Craveirinha



Jimmy Ernst (American painter born in Germany, 1920-1984), Chronicle, 1964



Cântico do pássaro azul em Sharpeville

 
Os homens negros como eu
não pedem para nascer
nem para cantar.
Mas nascem e cantam
que a nossa voz é a voz incorruptível
dos momentos de angústia sem voz
e dos passos arrastados nas velhas machambas.

E se cantam e nascem
os homens magros de olheiras fundas como eu
não pediram a blasfémia
de um sol que não fosse o mesmo
para uma criança banto
e o menino africânder.

Mas homens somos
e com o mesmíssimo encanto magnífico
dos filhos que geramos
aqui estamos
na vontade viril de viver o canto que sabemos
e tornar também uma vida
a vida de voluntário que não pedimos
nem queremos
e odiamos na ganga africana que vestimos
e na ração de farinha que comemos.

E com as sementes rongas
as flores silvestres das montanhas zulos
e a dose de pólen das metralhadoras no ar de Sharpeville
um xitotonguana azul canta num braço de imbondeiro
e levanta no feitiço destes céus
a volúpia terrível do nosso voo.
 
 
José Craveirinha (daqui)
 
 
 Escritor moçambicano, José Craveirinha nasceu a 28 de maio de 1922, em Lourenço Marques (atual Maputo), e faleceu a 6 de fevereiro de 2003 em Joanesburgo, África do Sul.
Filho de pai algarvio cuja família partira para Moçambique em 1908 em busca de fortuna, estudou na escola «Primeiro de janeiro», pertencente à Maçonaria. Ainda adolescente, começou a frequentar a Associação Africana. Colaborou n'O Brado Africano, que tratava de assuntos de carácter local e que dissessem principalmente respeito à faixa da população mais desprotegida. Fez campanha contra o racismo no Notícias, onde trabalhava, tendo sido o primeiro jornalista oficialmente sindicalizado.
Em 1958, começou a trabalhar também na Imprensa Nacional. Continuou no Notícias até à fundação do jornal A Tribuna, em 1962. Entre 1964 e 1968 esteve preso, em virtude da sua ligação à FRELIMO, mas teve a oportunidade de conhecer na prisão o pintor Malangatana.
Começou a escrever cedo, mas a sua poesia demorou a ser publicada. Em Lisboa, a primeira obra a surgir foi Xigubo, em 1964, através da Casa dos Estudantes do Império. A partir de determinada altura, a consciência política do autor passou a refletir-se em obras como O Grito e O Tambor.
Apesar de a sua obra refletir a influência dos surrealistas, é fortemente marcada por todo um carácter popular e tipicamente moçambicano. A sua poesia possui um carácter social que radica nas camadas mais profundas do povo moçambicano.
Escritor de ligações afetivas com Portugal, foi-lhe atribuído o Prémio Camões em 1991 e recebeu condecorações dos presidentes de Portugal e de Moçambique, Jorge Sampaio e Joaquim Chissano respetivamente.
Vice-presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, escritor galardoado com o prémio "Vida Literária" da Associação de Escritores Moçambicanos, foi homenageado no dia 28 de maio de 2002, na sequência da iniciativa do governo moçambicano em consagrar o ano de 2002 a José Craveirinha. (daqui)
 

Jimmy Ernst, Silence at Sharpeville, 1962
 

Matanças de Sharpeville e Langa

Também conhecido como o "Massacre de Sharpeville", este acontecimento teve como origem os problemas raciais na África do Sul entre as várias comunidades étnicas, mesmo entre brancos ingleses e afrikaners.
Em 1958, o Dr. Hendrik Verwoerd ocupou o cargo de chefe de Estado da República da África do Sul, mantendo a política extremista e segregacionista dos seus antecessores (Malan, Strijdom). Aliás, enquanto ministro dos Assuntos Nativos, em 1956, fora mesmo autor de um Plano de Segregação Racial que dividia o país em territórios para brancos e para negros, que a ONU e a comunidade internacional viria a criticar.
Do mesmo modo, já em 1957 houvera contestação e desobediência civil na população.
A 21 e 22 de março de 1960 sucederam-se manifestações da população negra nos subúrbios da Cidade do Cabo, como protesto a uma ordem do Governo que exigia documentos especiais de identidade aos negros para viverem e trabalharem em áreas urbanas. A Polícia disparou contra os manifestantes em Langa e Sharpeville, ação que se traduziu num saldo trágico de 72 mortos.
A 30 de março de 1960, os negros declararam greve e organizaram uma manifestação na Cidade do Cabo. O Governo tomou medidas de exceção e declarou o estado de emergência. Muitos dos manifestantes, entre os quais se contaram também brancos, foram presos. Até 31 de agosto a situação manter-se-ia, com o estado de emergência. O descontentamento e as críticas no estrangeiro, nomeadamente por parte da ONU, foram uma constante. Na África do Sul, contudo, o ANC (Congresso Nacional Africano) de Nelson Mandela foi proibido, acusado de instigar os manifestantes. A política segregacionista de apartheid persistiu apesar das condenações internacionais e do isolamento da África do Sul até finais da década de 80. (daqui)
 

sábado, 15 de abril de 2023

"Uma chama não chama a mesma chama" - Poema de E. M. de Melo e Castro


Jimmy Ernst (American painter born in Germany, 1920-1984), 
The Elements, 1942

 

Uma chama não chama a mesma chama

uma chama não chama a mesma chama
há uma outra chama que se chama
em cada chama que chama pela chama
que a chama no chamar se incendeia

um nome não nome o mesmo nome
um outro nome nome que nomeia
em cada nome o meio pelo nome
que o nome no nome se incendeia

uma chama um nome a mesma chama
há um outro nome que se chama
em cada nome o chama pelo nome
que a chama no nome se incendeia

um nome uma chama o mesmo nome
há uma outra chama que nomeia
em cada chama o nome que se chama
o nome que na chama se incendeia


E. M. de Melo e Castro
, in 'Versus-in-Versus', 1968

 


E. M. de Melo e Castro (daqui)
 
 
Ernesto Manuel de Melo e Castro (Covilhã, 1932 - São Paulo, 29 de agosto de 2020) foi um engenheiro, poeta, ensaísta, escritor e artista plástico português.  
Formou-se em Engenharia Têxtil pelo Instituto Tecnológico de Bradford, em Inglaterra, tendo, também aí, desempenhado a profissão de técnico têxtil. Doutorou-se em Letras pela Universidade de São Paulo e, para além da colaboração regular em periódicos como, no início da sua carreira poética, Cadernos do Meio-Dia, animou também, com sessões de intervenção teórica, o Grupo de Poesia Experimental e organizou, em colaboração com Maria Alberta Menéres, uma Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa. Em 1966, organizou o segundo caderno antológico de Poesia Experimental, que acolheu textos teóricos e criação literária que visavam a valoração das potencialidades visuais e fónicas do significante linguístico. Autor de um "manifesto" da poesia experimental, a Proposição 2.01 - Poesia Experimental, a sua criação literária desenvolve-se na linha das poéticas de vanguarda. É também autor de várias obras no domínio do Design e da Engenharia Têxtil. (Daqui)
 
 
E. M. de Melo e Castro, Tontura, 1962
Publicado em Ideogramas, Lisboa: Guimarães Editores


Poesia Experimental

Designação de dois cadernos antológicos, o primeiro organizado em 1964, por António Aragão e Herberto Helder, e o segundo saído em 1966, sob a direção dos mesmos e de E. M. de Melo e Castro.
Representativos do experimentalismo na moderna poesia portuguesa, compostos de fascículos soltos, acolhem textos teóricos e criação literária de António Aragão, António Barahona da Fonseca, Salette Tavares, E. M. de Melo e Castro , Alexandre O'Neill e Ângelo de Lima.
A designação da antologia aponta para a valoração das potencialidades do significante linguístico, resultando os textos aí reunidos de experiências operadas sobre o material verbal, sob a forma, por exemplo, de poesia visual ou de poesia fonética.
Na esteira da poesia concreta e apelando para um tipo de leitura relacional, Poesia Experimental declara a "morte do leitor passivo" (Marques, Alberto, Ex. n.° 1, p. 80), e define-se como "Forma específica da atividade criadora do Homem com o objetivo de fazer experiências sobre esse fenómeno ou ato estudando o resultado dessas experiências (MELO E CASTRO, E. M. - A proposição 2.01 - Poesia Experimental, pp. 43-4)." (Daqui)
 
 
 
 E. M. de Melo e Castro, Pêndulo, 1962
Publicado em Ideogramas, Lisboa: Guimarães Editores
 
A definição de poesia experimental remete-nos para a A Proposição 2.01. Poesia Experimental de E. M. de Melo e Castro, publicada em Lisboa, em 1965, enquanto verdadeiro manifesto da poesia experimental enunciando as proposições básicas da poesia experimental, além de textos teóricos complementares e de uma pequena compilação de poemas experimentais. Entre essas proposições, saliente-se algumas especificamente definidoras da poética experimental: a Proposição 2.01, que define a poesia experimental como uma "forma específica da atividade do Homem com o objetivo de fazer experiências sobre esse fenómeno ou ato estudando o resultado dessas experiências." (id. ibi., p. 44); ou a Proposição 13, que explica o "Poema Experimental" como um "Objeto criado para através dele se estudarem e se surpreenderem as fases do processo criador e a sua evolução e projeção no futuro tanto da poesia como do Homem" (id. ibi., p. 51); ou ainda a Proposição 14, que especifica o estatuto do poeta relativamente à criação: "Um poema-experiência é um ato criador porque com ele não se pretende reproduzir nem exemplificar nada. O criador tem apenas como premunição uma atitude de investigação e pesquisa do seu próprio ato livre de criar. A criação é feita livremente estando o seu processo desde o início sob a autovigilância do poeta que assim tem de proceder a um desdobramento criador crítico." (id. ibi., p. 50). A atitude experimental em poesia consiste num "aprofundamento do estudo da possibilidade ou impossibilidade de comunicação entre os homens através dos vários sistemas de sinalização dirigidos especificamente às portas da perceção. A obra de arte necessita de ter existência estruturada nesses sistemas de sinalização. A relação dá-se, portanto, entre quem dela se apercebe e a obra como objeto. O autor, entidade psicológica, fica necessariamente fora do circuito. A obra de arte experimental requer, pois, uma mudança de atitude do seu fruidor, de passiva para ativa. Assim, estabelece-se uma troca de energia entre obra e fruidor, sendo o tipo dessa energia dependente do princípio estrutural em que a obra assenta e da porta da perceção que ela é capaz de impressionar" (id. ibi., p. 51). 
De acordo com o sentido ou sentidos que a poesia quer excitar, distingue vários tipos de poesia: a poesia visual, que tem como antecedentes os caligramas de Appolinaire ou as experiências gráficas do Futurismo e do Concretismo; a poesia auditiva, baseada em experiências com a voz humana e entroncando na tradição de uma poesia rítmica ou melódica, com palavras, sílabas ou sons puros; a poesia táctil, que parte, evidentemente, da colaboração com as artes plásticas e materialidade do poema-objeto; a poesia respiratória, esboçada sobre experiências com o sopro humano; a poesia linguística, cujos pioneiros foram E. E. Cummings, James Joyce ou Ezra Pound, e que inclui não só o poliglotismo como a criação de palavras e línguas novas; a poesia conceptual e matemática, que introduz na obra de arte estruturas numéricas ou métodos permutacionais e combinatórios; a poesia sinestésica, que resulta da fusão de vários tipos de poesia; e a poesia espacial comum a todas as formas de experimentalismo. 
Para E. M. de Melo e Castro, todas as tendências que se vinham verificando na poesia moderna, tal como a procura do rigor na linguagem, o ideal de retorno às origens, as técnicas de despojamento sintático e linguístico, de sobrecarregamento potencial das imagens, entre outras, constituíam fases do estudo sobre o material verbal, integrando uma evolução global do processo poético a caminho dos métodos experimentais. A poesia atual encontraria um denominador comum na "dissociação entre os significados e significação" (id. ibi., p. 87) e na valoração, quase lúdica, do significante: "A rarefação e depuração dos vocábulos, a valorização da página, dos espaços, as dimensões visuais e tácteis, a problemática fonética, as sílabas, as letras, as imagens, as metáforas, as novas equações sintáticas, as construções ambíguas, o encadeamento rítmico dissociado da métrica convencional, etc., tudo fatores da técnica poética que, embora não sejam novos e façam parte do processo poético de todos os tempos, são agora usados sinergicamente criando um campo de ação expansivo e aberto em que os signos funcionam como significantes em si próprios e não como significados" (id. ibi., p. 88).
Entre os nomes mais representativos ou influenciados pela poesia experimental contam-se os de E. M. de Melo e Castro, Ana Hatherly, António Aragão, António Barahona da Fonseca ou Salette Tavares. (Daqui)
 
 
 
E. M. de Melo e Castro, Geografia humana, 1962.
Publicado em Ideogramas, Lisboa: Guimarães Editores
 
 
E. M. de Melo e Castro, Casa sem sol é triste, 1962
 
Publicado em Ideogramas, Lisboa: Guimarães Editores
 
 
E. M. de Melo e Castro, Espinha dorsal, 1962
Publicado em Ideogramas, Lisboa: Guimarães Editores
 
 
  
 E. M. de Melo e Castro, Hipnotismo, 1962
 Publicado em Ideogramas, Lisboa: Guimarães Editores
 
 
E. M. de Melo e Castro, Soneto soma 14x,
do livro Poligonia do Soneto, 1963
 

O soneto "Soma 14X" é composto de números e, nesse sentido, conhecendo algumas da regras compositivas do soneto, e observando, que no caso deste poema, a soma dos números de um verso devam totalizar 14, é possível subtrair-se alguns versos e pedir a alguém que complete os versos faltantes, num raro exercício de análise matemática da forma.
O soneto em questão, apresenta rimas numéricas, assim, no caso da reconstituição é possível, sabendo-se com qual determinado verso rima, já saber de antemão qual o último dos cinco números que compõem o verso. Os outros quatro números do verso, resultaram de uma soma baseada no facto do total do verso dar 14, e de que não há um só verso repetido neste soneto. Observe-se ainda, que o último verso deste soneto, o verso "chave de ouro" dá soma 28 (duas vezes 14), como que a querer dizer que é um verso que vale mais do que os outros.
Numericamente, portanto, é possível neste nosso exercício de reconstrução produzir variantes do soneto, mas que funcionalmente, exerceram o mesmo papel desempenhado pelo original de Meio e Castro, que crítica justamente a forma padrão para o fazer poético.
Cabe observar ainda, que se retirássemos não um verso, mas somente um número de cada verso, a possibilidade de reconstrução integral do soneto em relação ao original, seria de 100% .

Extraído de LUNA, Jayro. Caderno de Anotações. Belo Horizonte/São Paulo: Signos/Editora Oportuno, 2005. p. 74-75
 

 E. M. de Melo e Castro


domingo, 5 de março de 2023

"Távola" - Poema de Luís Adriano Carlos


Jimmy Ernst (American painter born in Germany, 1920-1984), Abstraction in green and black, 1946



Távola


Teu carro parado
nada tem a ver com as pirâmides
nem com o percurso das aves. Não
conhece o monumento
dos séculos, a ilustração
das capas dos filósofos ou
dos cavaleiros prediletos
de um rei transparente. A sombra
da tua voz não fala dos poetas
crucificados nos próprios versos
nem da arquitetura
de uma humanidade exilada.
A mala do teu carro
leva palavras vazias. Não tem
lugar para os pássaros.


Luís Adriano Carlos
,
Poesia digital - 7 poetas dos anos 80,
Campo das Letras,  2002
 
 
Jimmy Ernst, Paysage, 1942
 


Artes

"Somos pessoas racionais, animais racionais, se bem que a nossa animalidade seja discutível. Porém, os artistas não criam em função da razão ou do bom senso. Criam em função de um estímulo de qualquer coisa, que os ofusca e interroga. E, se tem uma tradução imagética, essa tradução é a primeira manifestação de arte propriamente dita. A essência da arte é a mimesis. Estamos cercados de objetos e tentamos perceber de que é que eles nos falam. Com exceção da música, as artes são imitativas e nasceram de uma cópia da própria natureza." 

Eduardo Lourenço, in Expresso, 2017 (daqui)
 
 
Jimmy Ernst, Biological Discovery, 1944


"Nunca sabemos o que verdadeiramente nos move. Gostava de acabar os dias reconciliado com o mundo, e sobretudo saber que mundo foi este em que vivi e o que é a vida. Sei disso tanto agora que tenho quase cem anos como quando tinha dois anos."

Eduardo Lourenço (Professor e filósofo português, 1923–2020), in Público, 2017 (daqui)
 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

"Tanto silêncio" - Poema de Manuel António Pina

 
Jimmy Ernst (American painter born in Germany, 1920-1984), Interior and Silence, 1967
 

 
Tanto silêncio 


Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz "eu";
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras "o teu coração")?


Manuel António Pina
, in "Os livros", 
Assirio & Alvim, 2003
 
 
Jimmy Ernst, Recollections and Silence, 1962


Em grandes silêncios
tomava mais meu afeto
sorrateiramente
 

Capa do livro
'Ouvir o silêncio'
 
 
Súbito um suspiro
da moça silenciosa
estrela cadente 
 
 
[Carlos Viegas nasceu em Pitangui (MG), em 25 de abril de 1951. Poeta de haicai, médico, mestre e doutor em Pneumologia e Medicina do Sono, professor da UnB. 
Livros: O caminho do olhar (Coletânea de 100 haicais), 2014; Ouvir o silêncio (Coletânea de 84 haicais), 2016; Catadores de paina (Coletânea de 112 haicais), 2018; Flor do cerrado (Coletânea de 100 haicais), 2019; Hai-kais Transrosianos (Coletânea de 51 haicais), 2021; Haicais para Diadorim (Coletânea de 128 haicais), 2022.]