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terça-feira, 18 de junho de 2024

"O Acre" - Poema de Rachel de Queiroz


Antônio Parreiras (Pintor, desenhista, ilustrador, escritor e professor brasileiro, 1860–1937),
A conquista do Amazonas, 1907. Óleo sobre tela, 400 x 800 cm,
Museu Histórico do Estado do Pará, Brasil.



O Acre 


Na ambição de encontrar mais borracha e mais ganho
de enricar mais depressa,
a gente deixou atrás Manaus e o Rio Negro...

Foi-se trepando pela correnteza
na procura ansiosa do ouro elástico,
ver se cumpria o eterno fado dos êxodos:
a fuga, a luta, o ganho e - coroando tudo -
a volta triunfante e endinheirada.

Lá acima, muito acima
— já longe dos rios das icamiabas guerreiras —,
tinha uma terra salubre,
onde a borracha corria livre nas veias da seringueira
sem saber de tigela e machadinha.

Os cearenses, aí, botaram a mochila no chão
e ficaram trabalhando.

Depois, eles, que chegaram sozinhos, desamparados,
acharam umas índias bonitas
que chamavam todo o mundo de usted...
E elas trataram deles, quando veio o beribéri,
e lhes deram muitos filhos entroncados e viçosos,
que enchiam os barracões de algazarra e de alegria.

E eles foram querendo bem àquela terra,
tão rica, tão sem dono,
que dava tanto dinheiro e tanta felicidade...

Mas lá vem o ditado
"Tudo no mundo se acaba,
tudo no mundo tem fim".. .
E um belo dia
apareceu o dono...

"—Vá-se embora, cearense, vá-se embora!
Você veio desbravar este buraco de mundo
pra meu proveito e meu gozo!...
A borracha, que lhe deve tanta noite mal dormida,
sou eu que quero vender!

Eu nunca abri estrada na seringa
e agora vou andar nas que você abriu...
A barraca que você levantou quando brabo
— ai! A tristeza do brabo que soluça de saudade, olhando o rio correr! -
pois também sua barraca/ filha da sua saudade,
eu quero tomar pra mim...

Eu nunca fazia nada,
porque tinha medo dos bichos que rodeiam os barracões;
você aceirou em redor,
demarcou os seringais,
e agora os bichos se amoitam com receio do seu rifle,
com medo do seu terçado.

Vá! Volte pra sua terra! Volta pior do que veio...
numa proa de navio, tão magro, tão empambado!
Chegando lá, que é que acha?
A ramada do roçado, já queimaram nas coivaras;
sua barraca de taipa, o tempo já derrubou...
E sua criaçãozinha? Mas você não comeu toda,
quando o legume faltou?...

Lá mesmo na sua terra, quem se lembra de você?
" — Aquele foi embarcado... morreu ou ficou por lá.. "
Vá! Só leve a sezão que apanhou por aqui
e a saudade de sua cunhã acreana,
dos seus curumins caboclos,
que eu também tomo pra mim..."

A resposta, qual seria?
Insolente e audacioso,
mostrou-lhe a ponta da língua,
mostrou-lhe a ponta da faca...

E, na luta pela terra,
o cearense fez mais um pouco
que tudo aquilo que os livros contam
na grande lista dos heroísmos...

Ah! O horror das trincheiras parecidas
a sepulturas encarrilhadas num zigue-zague macabro!...
Nos matagais doentios, onde as maleitas têm casa
e devoram mais vidas do que as balas,
nos combates lá no rio, na casca frágil das montarias,
e que sempre acabavam em festim de jacarés...

Pobre dono escorraçado! Chorava de fazer dó!...

E o barão do Rio Branco teve pena
e deu-lhe, pra consolo, um bocado de libras esterlinas...
e ele agarrou no dinheiro
e foi brincar de cara ou coroa...


Rachel de Queiroz, em "Mandacaru"
Org. Elvia Bezerra.
São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2010. 
 
 
Bacia Amazónica com a localização do Rio Acre


Acre

O estado de Acre fica no extremo sudoeste da região Norte do Brasil. Faz fronteira com o estado da Amazónia, a norte, a leste com o estado da Rondónia, a sul com o Peru e a oeste e a sudeste com a Bolívia. A capital é Rio Branco. Tem uma área de 152,581 km2 e uma população de 686 652 habitantes (censo de 2006) com uma densidade de 4,5 hab/km2 e uma esperança média de vida de 70,5 anos.

O estado de Acre fica quase todo ele na floresta amazónica, daí o relevo, dominado pelos planaltos, varia entre os 200 e 300 metros de altitude. A exceção é a serra de Contamara a oeste, com 609 metros de altitude, o ponto mais alto do território. A norte existe uma zona de planície. Os rios que atravessam o Acre nascem no Peru e, ou são afluentes do Amazonas, como o Juruá e o Purus, ou vão desaguar nos seus afluentes como o Tarauacá, o Embirá, e o Acre. Durante a estação seca, os rios ficam sem caudal para a navegação, isolando a área. O clima é equatorial, quente e húmido com temperaturas de 25ºC e precipitação de 2000 a 2500 mm anuais. A vegetação é dominada pela floresta amazónica.

Em 1867, este território foi atribuído à Bolívia, pelo Tratado de Ayacucho, firmado com o Brasil. Na viragem do século XIX para o século XX, foi declarada a 1.ª República do Acre, seguida de uma segunda tentativa de implantação do regime republicano, igualmente mal sucedida. Até 1903, o Acre era território boliviano e nesse ano, José Plácido de Castro, um soldado brasileiro declarou a 3.ª República do Acre. Contudo, tropas governamentais, comandadas pelo Barão do Rio Branco, apressaram-se a tomar uma posição e marcharam para o local. Por fim, em 1903 foi assinado o Tratado de Petrópolis que entregou a região do Acre ao Brasil. A ação diplomática exercida pelo barão do Rio Branco valeu-lhe o nome para a nova capital do território. Em 1962, foi elevado à categoria de estado federal.

O estado do Acre é pouco povoado devido às dificuldades de acesso. A população concentra-se quase toda ela em duas cidades: na capital, Rio Branco e no Cruzeiro do Sul, onde também se encontra um polo de desenvolvimento económico.
A principal atividade é a extração da borracha, que teve um pico de produção no virar do século XIX para o XX e depois durante os anos 40, quando muitos nordestinos emigraram para a região. Para além do látex, tem-se apostado na extração de produtos naturais para a indústria alimentar, farmacêutica e para a cosmética. O desbravamento da floresta para criar pastagens tem sido uma ameaça à biodiversidade da região. Os rios são o principal meio de transporte e quase todos os núcleos urbanos foram construídos à beira dos rios, mas durante a época das chuvas, a comunicação por terra fica cortada e as cidades isoladas. Sem um sistema de esgotos, nem mesmo em Rio Branco, a mortalidade infantil devido à malária e à disenteria é muito elevada. (daqui)
 

quinta-feira, 25 de abril de 2024

"Geometria dos ventos" - Poema de Rachel de Queiroz


Paul Gauguin (French painter, sculptor, printmaker, ceramist, and writer, 1848 –1903),
The Painter of Sunflowers (Portrait of Vincent van Gogh), 1888, Van Gogh Museum



Geometria dos ventos


Eis que temos aqui a Poesia,
a grande Poesia.
Que não oferece signos
nem linguagem específica, não respeita
sequer os limites do idioma.
Ela flui, como um rio.
Como o sangue nas artérias,
tão espontânea que nem se sabe como foi escrita.
E ao mesmo tempo tão elaborada -
Feito uma flor na sua perfeição minuciosa,
um cristal que se arranca da terra
já dentro da geometria impecável
da sua lapidação.
Onde se conta uma história,
onde se vive um delírio; onde a condição humana exacerba,
até à fronteira da loucura,
junto com Vincent e os seus girassóis de fogo,
à sombra de Eva Braun, envolta no mistério ao mesmo tempo
fácil e insolúvel da sua tragédia.
Sim, é o encontro com a Poesia.


Rachel de Queiroz

(Poema em homenagem ao livro "Geometria dos Ventos" de Álvaro Pacheco)

sábado, 9 de dezembro de 2023

"Telha de vidro" - Poema de Rachel de Queiroz

 

Alfredo Vieira
 (Artista plástico brasileiro, n. 1969), "Entre Folhas", óleo sobre tela, 2023.
 
 

Telha de vidro



Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...

A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que - coitados - tão velhos
só hoje é que conhecem a luz doa dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.

Que linda camarinha! Era tão feia!
- Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você na experimenta?
A moça foi tão vem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!


Rachel de Queiroz
 
 
Alfredo Vieira, "Chegada na Roça", óleo sobre tela, 2023.


“O povo bom e simples, suas cores vistosas, pelo campo… Tão Brasil!” 

Carlos Drummond de Andrade, Viola de bolso novamente encordada – p. 67,
 Publicado por J. Olympio, 1955 – 125 páginas