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quarta-feira, 16 de agosto de 2023

"Eu poeta me confesso" - Poema de João Braz



Inês Dourado
(Pintora portuguesa, n. 1958), Lagos (Algarve, sul de Portugal), 2016.
Acrílico s/tela, 50 x 40 cm.
 

Eu poeta me confesso

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Porque vim no Algarve à luz do dia,
Menino me criei perto do mar
E, com ele, aprendi a rebeldia
Das ondas altaneiras a lutar...

Não sei se nas artérias eu teria
Sangue de avós heroicos a pulsar,
Ou se era de Poetas que trazia
Uma herança de sonho em meu olhar...

O certo é que intentei, louco e audaz,
A conquista da vida ( era rapaz,
Tinha por mim a esperança...), e na memória

Vejo-me ainda, coração ao alto
Como um pendão real, ir ao assalto
Com a plena certeza da vitória!

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E, porque com o mar tinha aprendido
O modo de lutar, rude e constante,
Ante a vida me achei ora caído,
Ora dominador e arrogante.

Agora, em agonias de vencido;
Logo a erguer-me, altivo e triunfante,
À minha luta dei maior sentido:
Fui mais alto, e mais fundo, a cada instante!

Lição eterna que do mar nos vem,
Entendia-a depois, como ninguém,
Ao ver que me era inútil a batalha...

Onda que sobe e desce, a vida corre.
Um sonho, mal que nasce logo morre,
E nada muda o que o destino talha!

III

Mordi o pó, quebrada a minha lança,
E meu pendão real feito em pedaços!
Herói falhado, abandonou-me a esperança
Que em tempos idos me estendera os braços...

Meus olhos tão alegres em criança,
Tinham só amarguras e cansaços
Em vez do sonho que me fora herança
De avós remotos – Césares ou Tassos...

Qual mísero mendigo de longada
Batendo às portas, sem que deem nada
À mão que leva em súplica, estendida,

Olhei as minhas pobres mãos morenas,
E vi que nelas me ficara, apenas,
Um jeito de pedir esmola à vida...

IV

Com muros de renúncia edifiquei
Um castelo de sombra e soledade...
E nele emparedado, me tornei
Castelão do desgosto e da saudade...

Dos restos de mim próprio me fiz rei,
– Rei triste sem orgulho e sem vaidade;
E foi o esquecimento a minha lei,
E foi a solidão minha vontade.

Castelo sem janelas e sem portas,
Por ele entrava o vento a horas mortas,
Para me consolar, piedosamente;

Depois, com dó de mim, ia-se embora
Correr o mundo pela noite fora,
Gritando versos meus a toda a gente!...

V

Mas, certo dia, as tuas mãos, nas minhas,
Num milagre sem par, vieram pôr
A ternura suavíssima que tinhas
Guardada pra me dar, ó meu Amor!

Não quis saber quem eras, se provinhas
De algum reino d'aquém ou d'além dor,
Pois mal te vi adivinhei que vinhas
Na graça e com a bênção do Senhor.

Desde que tu vieste, e que te tenho
Junto de mim, o meu castelo estranho
Até deixou de ser triste e sombrio...

E o meu amigo vento, assobiando
Por esse mundo, agora anda cantando
Que eu já vivo outra vez, que já me rio!

VI

Da minha alma varri o desalento,
E já o seu poder é mais que humano!
– Asa que torna ao céu, em movimento,
Nau que afronta de novo o oceano!

A vida, agora, um redobrado alento
Me anima e leva a conquistá-la, ufano,
Elmo a brilhar ao sol, bandeira ao vento,
Como um antigo imperador romano!

Já no meu peito o orgulho se faz chama!
Sou algarvio, descendo da moirama,
Tenho o perfil trigueiro, a fronte nobre...

E tenho ainda um grande Amor! – o teu,
Esta riqueza que o Senhor me deu
Para que nunca mais eu fosse pobre!

VII

Eis-me tentando a íngreme escalada
Que o meu anseio de mais além procura!
Meus sonhos, pelo azul em revoada
São dispersões de mim buscando altura!

Sinto a alma liberta, arrebatada,
E flui da minha boca a voz mais pura
Num canto que desperta a madrugada,
E que rasga o pavor da noite escura!

Para além do real, sinto-me o verso
Que faltava ao poema do universo,
O acento final, o último grito...

Espírito sem forma e sem idade,
Sopro divino – sou Eternidade!
Clarão de Estrela – atinjo o Infinito!


João Braz,
"Esta riqueza que o Senhor me deu", 1953

 


Inês Dourado, Branco e Sol, Alvor (Algarve, sul de Portugal).
Aguarela sobre papel Fabriano de 300g/140lb, 34,7 x 55 cm.
 
[Inês Dourado é uma premiada pintora portuguesa contemporânea. Dourado usa acrílico, óleo, aguarela, caneta gel, têmpera para criar paisagens urbanas figurativas, em papel e tela.
Inês Dourado nasceu em 1958, em Portugal. É licenciada em História da Arte e mestre em História da Arte Contemporânea pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Dourado expôs suas obras em Portugal, Espanha e Argentina, e suas obras estão em coleções particulares na Alemanha, Espanha, Suíça, França, Brasil, China, Austrália e EUA.
(daqui)]
 

domingo, 30 de julho de 2023

"O mundo, pião de Deus" - Poema de João Braz


 
Elizabeth Forbes (Canadian painter, 1859–1912), The half holiday, 
Alec home from school, 1909


 
O mundo, pião de Deus


Outro dia, na escola,
O professor deu à gente
Uma bizarra lição:
Disse que o mundo é uma bola
E anda à roda, eternamente,
A girar como um pião…

- Nunca em tal tinha pensado!
E fiquei muito admirado
Com a lição que aprendi...
Roda o mundo, e o caso é
Que eu ando a rodar em pé
E ainda não entonteci!

Ora um dia, em pequenino,
disseram-me que o destino
e mares, terras, e céus
eram fruto de labor
insano do Criador
e o Criador era Deus...

Mas ponho o caso em estudo,
Reparo que nisto tudo
Reina grande confusão,
Pois, no céu, seria asneira
Deus andar, por brincadeira,
Sempre a jogar ao pião…

E nem o meu professor
Decifra sem aranzel
Este segredo profundo:
- Onde é que Nosso Senhor
Foi arranjar um cordel
Pra fazer rodar o mundo?
 em "Esta riqueza que o Senhor me deu", 1953
 


Elizabeth Forbes (Canadian painter, 1859–1912), School is Out, 1889
Oil on canvas, 106 x 145 cm. Penlee House Gallery & Museum
 

"Educar a mente sem educar o coração não é educação." 
 
Aristóteles (Filósofo grego, 384 a.C - 322 a.C.)

 

sexta-feira, 21 de julho de 2023

"Princesa do Sul" - Poema de João Braz

 
Rui Pinheiro (Pintor português, n. 1944), Ferragudo (Lagoa - Algarve),
Aguarela 53 x 32 cms.


Princesa do Sul


Tarde plena. A cidade, nesta hora,
Enche-se de luz. O sol aquece-a
E dá-lhe uns tons doirados, como outrora
Teixeira Gomes só achou na Grécia.

Daqui até à Rocha, ir de viagem,
A bem dizer, é como dar um salto
E embebedar os olhos de paisagem
Onde ela atinge o esplendor mais alto!

Ali, obra de Deus, que não de humano
Poder, é tanta a mágica beleza,
Que, diante dela, até o velho oceano
Humildemente se ajoelha e reza!...

E quando a noite vem, cobrindo tudo
Do negrume estrelado do seu manto,
Acende-se um presépio em Ferragudo,
Refletindo no rio um raro encanto...

Mas, dia ou noite, é sempre uma visão
Estranha e bela de país de sonho
A que se tem, aqui, em Portimão,
Donde, às vezes, me vem a inspiração
Para os humildes versos que componho!

Ó Princesa do Sul! Inutilmente
Me consumo no intuito de cantar-te!
- Senhor! Tanta beleza em minha frente,
E eu com tão pouca, ou sem nenhuma arte!...


João Braz
, em "Esta riqueza que o Senhor me deu", 1953


 
 
 
Rui Pinheiro nasceu em Sintra, a 8 de Agosto de 1944 e prefere a aguarela como forma de expressão. A paisagem, os recantos e o movimento da figura humana e as suas sombras e detalhes são elementos principais das suas composições realistas com ritmos e cores fiéis ao que existe e testemunha com uma suavidade e estilos muito próprios.
Do seu currículo constam vários prémios e Rui Pinheiro está representado em coleções em Portugal e no estrangeiro. Vem mencionado em livros como “Aspetos das Artes Plásticas em Portugal”, “Anuário das Artes Plásticas” e outras publicações, tendo editado a sua própria quando comemorou 35 anos de exposições.
Expõe regularmente desde 1987, tendo realizado 80 exposições individuais e mais de uma centena de coletivas. Em 2003 foi distinguido pela Câmara Municipal de Sintra com a Medalha de Prata de “Mérito Municipal” e em 2013 recebeu, pelo Rotary Club de Mafra, o diploma de Reconhecimento Profissional na Área das Artes Plásticas. (daqui) 


Rui Pinheiro, Ericeira (Mafra, Portugal)

Rui Pinheiro, Ericeira (Mafra, Portugal)


"A principal tarefa da educação moderna não é somente alfabetizar, mas humanizar criaturas."

Cecília Meireles
, em Entrevista