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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

"Presídio" - Poema David Mourão-Ferreira


Samuel Luke Fildes (British painter and illustrator, 1843-1927), 
Mrs Mary Venetia James, 1895



Presídio


Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo 
Que dizer do pescoço, às vezes mármore, 
às vezes linho, lago, tronco de árvore, 
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...? 

E o ventre, inconsistente como o lodo?... 
E o morno gradeamento dos teus braços? 
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne: 
é também água, terra, vento, fogo... 

É sobretudo sombra à despedida; 
onda de pedra em cada reencontro; 
no parque da memória o fugidio 

vulto da Primavera em pleno Outono... 
Nem só de carne é feito este presídio, 
pois no teu corpo existe o mundo todo! 


in “Obra Poética”


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

"De longe te hei de amar" - Poema de Cecília Meireles


Samuel Luke Fildes (British painter and illustrator, 1843-1927), The Love Letter



De longe te hei de amar


De longe te hei de amar 
- da tranquila distância 
em que o amor é saudade 
e o desejo, constância. 

Do divino lugar 
onde o bem da existência 
é ser eternidade 
e parecer ausência. 

Quem precisa explicar 
o momento e a fragrância 
da Rosa, que persuade 
sem nenhuma arrogância? 

E, no fundo do mar, 
a Estrela, sem violência, 
cumpre a sua verdade, 
alheia à transparência. 


Cecília Meireles, in 'Canções'