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domingo, 20 de julho de 2025

"O Sono" - Poema de Orlando Neves


 
Alphonse Eugène Félix Lecadre (Peintre français, 1842-1875), Le Sommeil, 1872.
Musée d'Arts de Nantes


O Sono 
 

É um braço magro de mulher, uns olhos espectrais
e brilhantes, uma cabeça de esfinge, uma lâmpada
que fumega. Talvez por os não vermos, vejamos rios
que flamejam, jardins sepultos, um antepassado

desconhecido e cinzento que se derrama no quarto,
um portão esvoaçante, uma pequena fenda por onde
se vai até às nuvens noturnas. Tudo o que
lá possa estar é tudo: a vassoura esquecida,

o rosto primordial da mãe, uma torre de cadáveres
ou um modesto banco de madeira onde deixaram
um vaso verídico de gerânios. Talvez um deus

vítreo, rútilo ou, pintada de azul, uma virgem ocre
no cume de colina grega. Uma estranha música soa
nas paredes, antes do exílio para onde nos leva o sono.


Orlando Neves,
in "Decomposição - A Casa", 1992


sexta-feira, 3 de março de 2023

"A Área" e "Todas as noites me sinto" - Poemas de Orlando Neves


 Felice Casorati (Italian painter, sculptor, and printmaker, 1883–1963), Persone, 1910,
Olio su tela, 150 x 177 cm, Collezione privata.
 


A Área 
 
 
Tudo o que houve, permanece, proeza do corpo
como um sulco bárbaro da memória dos dias,
ritos, remorsos, sementes futuras, a mudez.
Tudo aconteceu nas lágrimas e nas veias,

na precisão das luzes, no lugar móvel da ordem,
no gelo e no lume que entre as coisas navegam,
na palavra deflagrada, na paz das páginas.
Para onde vai o que não se move, o que é

dogma de cal, madeira, pedra ou ferro?
Como chamar à alma, à linguagem, às cores
que de amor pela morte morrem caladas,

na área eterna da casa, a que permanece
na velhice dos anos e dos ossos consumada,
como uma gota do tempo para além dos séculos? 
in "Decomposição - A Casa", 1992

 
Felice Casorati, The Family, 1916
 

Todas as noites me sinto
 
 
Todas as noites me sinto
igual aos desconhecidos.
Sou a criança que sou,
só quando o tempo pára.

Fico em mim,
fora dos músculos.

Por que se movem os deuses
quando o sol cresta as formigas?
Lendas da luz da noite
secam todo o movimento.

Seguro a vida
por desespero. 
in "Trovas da Infância na Aldeia", 1987

domingo, 16 de agosto de 2020

"O Coração" - Poema de Orlando Neves


Elin Danielson-Gambogi, Aunt Balda's Pastime, 1886


O Coração



Que jogo jogas, comédia ou lágrima? Cor
suspensa. Prodígio doendo. Enganador
relâmpago. Donde se enreda esta coragem
que chora ao riso e ri à dor? Quatro são

as pedras mestras do teu jogo. Dois cavalos
e os reis. Melancólicos atores. Vazia, a
plateia. O tempo ferido. O peão fugitivo.
A emoção real do presságio. O aceno

cordial do outro lado do jogo. Inscrição
única do pólen, jogada que se arrasta.
Gota de tédio na lonjura das casas.

O fecho do jogo se conclui. Muda o rosto a
visão possível. Cordato, o lance destrói
a memória do que já não vejo ou sei.


Orlando Neves,
 in "Decomposição - o Corpo" 


Elin Danielson-Gambogi, The Piano Player, 1907


O Coração - II



A solidão é perfeita como um rasgo entre
as nuvens, ao último sonho. A solidão
que se cala em teu fundo e vai envelhecendo
na terra perdida do som descompassado.

Te guardas na intimidade dos armários,
onde a paz é negra e se desagrega a luz.
Nunca foste mais do que uma ficção, matriz
de riso e sombra, um poço verde, teorema

de ilusões, engrenagem de poentes roxos.
E, agora, frouxo, já nada designas ou
desenhas. És, apenas, testemunha efémera

e longínqua, trovão engolido de Deus,
fingidor ferido de doces cantos, mentira
precária nas cordas de uma harpa febril.


Orlando Neves,
in "Decomposição - o Corpo"


Elin Danielson-Gambogi, Self-Portrait, c. 1900


"Um bom retrato é uma biografia pintada."

(Anatole France)


Anatole France early in his career,
portrayed by Wilhelm Benque



Anatole France, escritor francês, pseudónimo de Jacques Anatole François Thibault, nascido em 1844, em Paris, e falecido a 12 de outubro de 1924, em Tours, foi laureado com o Prémio Nobel em 1921.

Foi durante catorze anos bibliotecário assistente no Senado Francês. Em 1896 foi eleito membro da Academia Francesa. Publicou a sua primeira coletânea de poemas, Les Poémes Dorés, em 1873.

Le Crime de Silvestre Bonnard foi a sua primeira novela publicada. É autor dos romances históricos Thaïs (1891) e Les dieux ont soif (Os Deuses têm Sede, 1912).

Em Histoire contemporaine (História Contemporânea, 1897-1901) satiriza a mediocridade e a intolerância de uma certa sociedade francesa. (Daqui)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

"As Mãos" - Poema de Orlando Neves




As Mãos 


Brandamente escrevem dos espasmos do sol.
Envelhecem do pulso ao cérebro, ao calor baço
de um revérbero no eixo dos ventos, usura
das máscaras que, sucessivamente, as transformam

de consciência em cal ou metal obscuro.
E já não é por si que a presença existe ou
subsiste o que separa. Destroem as sementes,
apodrecem como um sopro e não são remanso

na areia ou domadoras de chamas. Igualam-se
à água, para serem raiz do que se cala
e insinuam-se, para sempre, no pó da noite.

Um castelo de pele tomba. Deixam de ser
nomeadas ou nome. Escrevem, brandamente,
do termo da música o luto do silêncio. 


Orlando Neves, in "Decomposição - o Corpo"

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

"Criei, não possuí" - Poema de Orlando Neves


Albert Gleizes, 1915, Composition pour Jazz, oil on cardboard, 73 x 73 cm



Criei, não possuí


Criei, não possuí. 
Instante de infinitude, o que moldei na voz 
respira. A firme casa do meu corpo se fez 
pelo contraste, que só o contrário cria. 
Não possuí, 
denso ou raro, 
pequeno até ao nada, 
nenhum símbolo, 
nenhum olhar de brasa, 
nenhum odor colado à pele. 
Pretendi a verdade, mas tudo se muda 
pelos meus olhos e a fosca luz do que foi viver 
só no amor se moveu. Morto o amor, 
transforma-se a água. 
Onde a noite não há e o dia não é, 
esqueço as mudanças do tempo 
e com meus ardis me defendo 
do terror de mim. 


in "Noema - Regresso de Orfeu"