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sábado, 3 de agosto de 2024

"Port Wine" - Poema de Joaquim Namorado



Aguarela de Real Bordalo (Artista plástico português, 1925–2017), 'Vista do Douro' (Rio Douro).


Port Wine


O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova Iorque e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bares.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos do cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlinos
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres, os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!
Liberta-te, meu povo! — ou morre.


Joaquim Namorado,
in "A Poesia Necessária", 1966. 


Artur Real Chaves Bordalo da Silva

Artur Real Chaves Bordalo da Silva, pintor e aguarelista, nasceu em Lisboa em 1925 e faleceu na mesma cidade em 28 de Junho de 2017. 
Estudou desenho na Sociedade Nacional de Belas-Artes e o trabalho artístico destaca-se em aguarela e óleo, sobretudo paisagens urbanas, em particular edifícios e locais históricos da capital. 
Ainda adolescente trabalhou com João Rosa Rodrigues, Francisco Branco e, mais tarde, com Leitão de Barros em cenografia, na Tobis e na Lisboa Filme. Foi pintor na Fábrica da Cerâmica Constância Faiança Bastitini, desenhador técnico, retocador de rotogravura e desenhador maquetista no Diário de Notícias.
Entre 1948 e 1950 recebeu três prémios, entre eles a menção honrosa em aguarela na Sociedade Nacional de Belas-Artes. Em 1952, com 27 anos, inaugurou a primeira exposição individual com trabalhos em aguarela e pastel no Casino da Figueira da Foz.
A obra de Real Bordalo encontra-se representada no Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, em museus municipais de cidades como Lisboa, Lagos, Porto e Santarém, e em coleções particulares de França, Japão, Itália, Estados Unidos e Alemanha.
 Ref. Biog. Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses. [pág. 22]
 

segunda-feira, 11 de março de 2024

"A Bucólica Margem" - Poema de Egipto Gonçalves

 
 
Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Rio Douro, Porto e Vila Nova de Gaia, s.d.


A Bucólica Margem


Sento-me então a olhar o rio,
os pensamentos formam cardumes
que contra a corrente se insurgem
mas as águas são inexoráveis;
olhando-as, a superfície cintila,
propaga-se como se fossem notas
de um piano na garupa de um cavalo
que se dirige para o mar.

O Douro bebe as cores da cidade,
sobre elas eu abro o coração
em que te encontras, as colinas
emolduram as raízes que à terra
nos ligam. Para os meus olhos
é momento de pausa: as coisas
que interrogo não resistem à maré,
não dão respostas; perdem-se no mar
como tudo o que a memória não reteve.

Mas este rio
já foi longamente folheado, nele
escrevemos
o romance que nos deu uma casa,
nos cortou o cabelo, nos afastou
das rugas, nos entregou o azul
(tecido, nuvem, divã, janela...)
o voo das artérias, lugar do corpo,
portas que amanhecem, espelho
onde fazemos fluir a vida.
Acordes
da guitarra que forja o horizonte,
que guia o sinuoso voo das gaivotas
e acaricia a pele que rasga atalhos
no interior dos sonhos. Estarei
vivo enquanto assim me guardar
teu coração. E no seu lucilar,
esta água imita o fogo
que devora sombras e escombros,
libertando a asa que no sangue
respira. A foz está próxima,
mas o horizonte é o teu olhar.
No leitor do carro, a guitarra flexível
sublinha o que divago; os acordes
disparam,
encontram-me na trajetória do seu alvo.


Egito Gonçalves, A Ferida Amável,
Campo das Letras, 2000.

 

 
Armando Aguiar, Rio Douro, Porto e Vila Nova de Gaia, s.d.

«Uma ida ao Porto é sempre uma lição de portuguesismo, tanto mais rica quanto mais raramente lá se vai. É indispensável – claro! – um mínimo de contacto reiterado com esse lar da nação para nele vermos algumas das significações latentes que enriquecem a nossa consciência de práticas.» — Vitorino Nemésio
 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

"Balada do Rio Douro" - Poema de Pedro Homem de Mello



Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Ribeira do Porto, s.d.
 
 
 
Balada do Rio Douro

 
Que diz além, além entre montanhas,
O rio Douro à tarde, quando passa?
Não há canções mais fundas, mais estranhas,
Que as desse rio estreito de água baça!...
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade?
Ó ruas torturadas e compridas,
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade
Onde as veias são ruas com mil vidas?...
Em seus olhos de pedra tão escuros
Que diz ao vê-lo a Sé, quase sombria?
E a tão negra muralha à luz do dia?
E as ameias partidas sobre os muros?
Vergam-se os arcos gastos da Ribeira...
Que triste e rouca a voz dos mercadores!...
Chegam barcos exaustos da fronteira
De velas velhas, já multicolores...
Sinos, caixões, mendigos, regimentos,
Mancham de luto o vulto da cidade...
Que diz o rio além? Por que não há de
Trazer ao burgo novos pensamentos?
Que diz o rio além? Ávido, um grito
Surge, por trás das aparências calmas...
E o rio passa torturado, aflito,
Sulcando sempre o seu perfil nas almas!...
 

Pedro Homem de Melo
, Poesias Escolhidas 
 
 

Manuel Cardoso Lima (n. 1949), Porto - Ribeira, s.d., óleo sobre tela, 80x130 cm.
 


A cidade e a Poesia

As cidades são como as pessoas, têm os seus se­gredos, e às vezes guardam-nos bem guardados. Há quem goste muito do Porto e há quem o deteste. Queria falar desta cidade "tão masculina" sem nenhum peso de erudição, que é coisa tão inimiga da poesia, que só Borges, que eu saiba, lhe conseguiu arrancar alguns versos dignos da sua prosa. Também não me parece leal contrapor-lhe outras cidades, e menos ainda Ve­neza. Toda a gente sabe que se Veneza não cheirasse a água podre seria incomparável, mas cheiro por cheiro antes o de Marraquexe; Marraquexe cheira a cavalos, que é cheiro de homem. Há quem goste do Porto, dizia eu; Marguerite Yourcenar — ninguém sabe, porque foi a mim que o disse — andou por aqui dois dias fascinada com a Ribeira e as encostas da Sé. Isto de gostar não tem explicação fácil. O mais simples é, se nos pedem razões, dizê-lo com as palavras de Montaigne: Parce que c'était lui, parce que c'était moi. Mas não só o amor tem estranhos mecanismos, os do ódio não lhe ficam atrás.

Há anos li muita coisa sobre o Porto, não tive outro remédio, fiz sobre ele uma antologia que circula por aí. Nessa altura deparei com coisas tão acintosas que fui levado a pensar em ressentimentos. Algumas daquelas coisas eram escritas com dor de corno. Camilo, Eça, Antero, Nobre, Pascoaes detestavam-no. "A sentina é aqui", dizia Camilo num vómito. "Pançudo e pesado", é o Eça a falar, enquanto entala o monóculo. "O Porco", afirma Antero que lhe chamava Oliveira Martins. "Tão carregado de província que nem os arredores de Braga", diz, já mais perto de nós, Pascoaes em 'O Peni­tente'. E sigo, que o meu destino é outro. Mas o burgo também tem quem lhe faça a corte: Jaime Cortezão, Rodrigues Miguéis, Miguel Torga, Jorge de Sena, Agustina Bessa-Luís gostam dele, como testemunharam de muitos modos. Agustina é no nosso tempo o seu cro­nista, e cronista admirável, nunca é demais repeti-lo, pois há sempre quem o não saiba; quanto ao seu poeta, ainda não lhe disse o nome, e vai sendo tempo: Pedro Homem de Mello. Caiu sobre ele, desde que morreu, um estranhíssimo silêncio. Eu estou pouco a par dessa coisas, há muitos anos que não leio jornais, mas creio que não há um beco ou uma viela com o seu nome. Nem sequer uma escola ou um jardim de infância. Qual foi o agravo que fez à cidade onde nas­ceu? Não era um grande poeta? Pois não, mas os grandes poetas são tão raros! Na geração que foi a dele — a do Segundo Modernismo, como se lhe vem cha­mando — quem, além de Vitorino Nemésio, é grande poeta? A sua poesia era muito irregular? Sem dúvida, mas irregular, que poeta o não foi neste país? Veja-se o Gomes Leal, com quem o Pedro tem afinidades, ou até poetas de outras dimensões, o Nobre, o Pascoaes, o Sena. Estamos pois de acordo: nem grande poeta nem espírito crítico capaz de corrigir as emoções – mas era um poeta, e também não há tantos como isso, ao contrário do que se diz. O que há muito entre nós é literatos, gente em que sobra espírito e falta alma. Ocorre-me Flaubert: Ah! Ah! les gens d'esprit, quels pauvres gens cela fait! Como principiei por afirmar — e ele tinha consciência e orgulho disso — Pedro Homem de Mello é, como nenhum outro, o poeta do Porto, das suas ruas escuras, dos seus jardins "de má fama", dos seus palácios em ruína, das suas torres de face encardida, das grades frias dos seus aljubes, do luto entranhado dos seus habitantes, e também da sua estreiteza conservadora, do seu grosseiro espírito de ganância; de tudo isto ele era o poeta, como era também aquele de quem os juízes e tabeliães e bem pensantes faziam troça, os políticos malevolamente se aproveitavam, e a gente anónima respeitava, porque, apesar do brasão ostensivo no dedo e algum snobismo, tinha sempre um sorriso ou uma palavra afável para o cobrador do elétrico ou para o engraxador; pois apesar de ser um senhorito da televisão, visitava os amigos com moços sem eira nem beira, que levava para os seus versos, e que, à semelhança de Kavafís, são os melhores que escreveu.

Apesar de Pedro Homem de Mello ter feito tanto frete ao SNI, e escrever versos que eram uma merda pedindo o voto em Salazar, e outros igualmente excrementícios para o Menino Jesus dos Correios todos os anos pelo Natal, ele nunca tinha cheta, nem sabia de usura, nem atraiçoava os amigos — amava a poesia de Verlaine e António Nobre, o nosso Romanceiro e o de Lorca, de que herdou ritmos e segredos; dançava o vira, ou lá o que era, como ninguém; gostava daquela gente da Serra d'Arga e da Nazaré, que lhe pagava na mesma moeda; e os versos que escreveu, às vezes, também têm a ver com o movimento soberbo daque­les braços erguidos e daquelas cinturas queimando os dedos de quem as tocava, ou então com os olhos turvos que se cruzavam com os seus na Cordoaria, e lhe arrepiavam a pele ou paralisavam os passos — porque a sua poesia, não vale a pena ocultá-lo, partia dali, de todos os sentidos despertos, que nele deviam ser mais de cinco. E quando os seus versos não têm essa origem o melhor é ignorá-los, porque então raramente ultra­passam a mais convencional e rasteira prosa metrifi­cada. 
 
— "Quando penso que tenho que pensar fico com dores de cabeça", disse-me ele um dia — e devia dizer a verdade. 
O Pedro, apesar dos universos divergentes, e não apenas mentais, a que eu e ele pertencíamos, foi meu amigo. Imaginem: amigo de quem é tão distraído e distante para as coisas literárias e, ainda por cima, sem paciência nenhuma para aquele exibicionismo pueril de poemas lidos na rua ou à mesa do café, e por ele, que os lia tão mal, tão mal... Mas era gentil e generoso e bem educado, coisas em que minha mãe reparou logo quando o conheceu, numa das suas vindas ao Porto. Ocorre-me agora que, um ou dois dias depois, o Pedro passou pelos Serviços onde eu trabalhava só para me dizer:
— A tua mãe é linda! 
Era a primeira vez que estava inteiramente de acordo com ele.
 
 
Eugénio de Andrade (1923 —2005)"À Sombra da Memória", 1993
 

Eugénio de Andrade, "À Sombra da Memória",
Editor: Assírio & Alvim

Edição/reimpressão: 06-2018
 

«Este livro, 'À Sombra da Memória' (1993), continua 'Os Afluentes do Silêncio' (1950) — são coisas ocasionais: falas em raras ocasiões públicas, prefácios a dois ou três livros em colaboração com amigos, palavras de amizade ou admiração em catálogos de exposições ou plaquetes de homenagem. Coisas assim, esparsas, uma vez mais, no correr dos dias. Terei de reconhecer que falo de mim mais do que devia mas, em prosa, ninguém me voltará a encontrar noutro sítio — prometo.» — Eugénio de Andrade (daqui)
 
 
 
Eugénio de Andrade, "Os Afluentes do Silêncio",
Editor: Assírio & Alvim
Edição/reimpressão: 12-2013

 
«As crónicas de 'Os Afluentes do Silêncio' (1950) constituem uma prova plena dessa capacidade de assimilar e transformar, com imaginação, pessoas, ideias e espaços. São também águas vivas onde se reflete o rosto de um poeta maior, ao longo de décadas. Sempre fiel às amizades fraternas, mas sensível a beliscaduras; desapegado do poder político, porém interventivo; indiferente a bens materiais, contudo grato pela partilha de poemas, pinturas e canções; cidadão do mundo, sem deixar de ser de Póvoa de Atalaia ou do Porto - Eugénio é tão singular e autêntico quanto a sua obra. O tempo saberá recordar este homem com coração de pássaro.» (daqui)

sexta-feira, 26 de maio de 2023

"Porto" - Poema de Vítor Cintra


Charles Van Zeller (des.); Robert Havell (grav.), View of the city of Oporto, 1833 (Ponte das Barcas),
Arquivo Municipal do Porto

[Reprodução de gravura publicada em 1833, dedicada a D. Pedro, duque de Bragança, representando a encosta da Serra do Pilar (incluindo militares e populares), Vila Nova de Gaia, o Rio Douro e a cidade do Porto, durante o Cerco do Porto. (daqui)]
 

Porto


Aonde havia um castro amuralhado,
Olhando, lá do alto, o rio Douro,
Ergueu-se, bem mais tarde, o povoado
Guardado, p’los romanos, qual tesouro.

As cercas de muralhas, que cresceram,
- Defesa do domínio conquistado,
Que pela margem toda se estenderam -
Tornaram-te num porto cobiçado.

Chegaram os suevos e venceram
A frágil resistência dos romanos,
Até terem chegado os muçulmanos.

Depois, na reconquista, aconteceram
Recuos e avanços. No final
Havias de dar nome a Portugal.


Vítor Cintra
, in  Ruínas da história: poesia,
Editor: Lua de Marfim, 2015 
 

 Henri L'Evêque (̈Pintor, autor de gravuras, 1769-1832), Vue de la ville et du port de Porto.
(Gravura de 1817, vendo-se a Ponte das Barcas) 
 
 
 Ponte das Barcas
 
Ponte sobre o Rio Douro, no Porto, construída em 1806. Era constituída por vinte barcaças ligadas entre si por cabos de aço. Sobre essas barcaças estava disposta uma plataforma de pranchas que permitia a travessia.
Aqui se verificou um famoso acidente, a 29 de março de 1809, durante a Guerra Peninsular. A população, em pânico perante as tropas francesas, procurava refúgio atravessando o rio. No entanto, a ponte não aguentou o peso da multidão e ruiu, provocando a morte de cerca de cinco mil pessoas. (daqui)
 

Henry Smith (1774-1840), Oporto with the Bridge of Boats, 1813, British Museum

[Reprodução de gravura de 1813, dedicada ao Marquês de Wellesley por Robert Daubeny King, representando a entrada no Porto das tropas anglo-portuguesas comandas por Wellington, atravessando o Rio Douro pela ponte das barcas, em 12 de Maio de 1809. (daqui)]

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

"Pôr-do-sol em Portugal" - Poema de Álvaro Alves de Faria




Pôr-do-sol em Portugal


Quando o sol se põe, 
as ruas de Portugal ficam 
quietas como um pássaro. 
Talvez hajam barcos saindo do porto 
levando o corpo de Álvaro de Campos. 
Os oceanos sempre serão menores 
para tantas embarcações 
que partem, velas invisíveis 
no longínquo silêncio 
de ondas que morrerão. 
Quando o sol se põe, 
as mulheres talvez cantem uma canção 
e talvez amem homens tristes 
em alamedas distantes, 
onde a memória se perdeu 
e onde a música não existe mais. 
Quando o sol se põe, 
as casas de Portugal ficam amarelas 
e todas as janelas se fecham 
em adeus a todas as coisas. 
Quando o sol se põe, 
os passos se perdem nas calçadas, 
talvez os dias não amanheçam mais, 
talvez as igrejas fechem 
e talvez um lábio faça ainda uma súplica 
de amor. 
Quando o sol se põe, 
as sombras de Portugal ficam mais 
nítidas, 
os casais talvez chorem, 
talvez sorriam, 
mas isso ninguém sabe, 
mas isso ninguém saberá.





sexta-feira, 13 de maio de 2016

"Em Galafura" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


Galafura, Peso da Régua, Portugal - Panorâmica geral da paisagem do monte de S. Leonardo,
  foto de A. Pimenta


Em Galafura


Os povoadores da beira Douro
conhecem o pó e as pedras.
E sabem que o Universo
concebe cerejais e parras.
Vivem como vermes magníficos,
iluminados por dias soalheiros,
obscurecidos pelas invernias. 


As Fábulas, Famalicão, Quasi Edições, 2002 


Douro visto de São Leonardo de Galafura - Peso da Régua, Portugal, foto de João Paulo Coutinho.


"O Douro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passados de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor pintou ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis de visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a refletir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta".

Miguel Torga in “Diário XII”

quinta-feira, 12 de maio de 2016

"São Leonardo da Galafura" - Poema de Miguel Torga


São Leonardo da Galafura, Galafura, Peso da Régua, Portugal, foto de José Gama



São Leonardo da Galafura


À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!




terça-feira, 4 de agosto de 2015

"Sei de um rio" - Poema de Pedro Homem de Mello


Fotografia de Rui Videira, Rio Douro, Porto, Portugal 


Sei de um rio


Sei de um rio…
Sei de um rio
Em que as únicas estrelas
Nele, sempre debruçadas
São as luzes da cidade

Sei de um rio…
Sei de um rio
Rio onde a própria mentira
Tem o sabor da verdade
Sei de um rio

Meu amor, dá-me os teus lábios!
Dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede!
Mas o sonho continua…

E a minha boca (até quando?)
Ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
“– Sei de um rio…
Sei de um rio…”

Sei de um rio…
Ai!
Até quando?


Pedro Homem de Mello


CAMANÉ - "Sei de um Rio"
(Composição: Pedro Homem de Mello e Alain Oulman)


"Tudo aquilo que, até hoje, escrevi ou mostrei, resultou, apenas, do que sentiram, durante meio século, os meus olhos, os meus ouvidos, os meus pés (e o mesmo será dizermos o meu corpo e a minha alma!) de bailador." Pedro Homem de Mello

[Pedro da Cunha Pimentel Homem de Melo (Porto, 5 de Setembro de 1904 — Porto, 5 de Março de 1984) foi um poeta, professor e folclorista português.]

quinta-feira, 16 de julho de 2015

"A Língua Portuguesa" - Poema de Alberto de Lacerda


 Fotografia de Rui Videira - Rio Douro, Porto, Portugal 



A Língua Portuguesa 


Esta língua que eu amo
Com seu bárbaro lanho
Seu mel
Seu helénico sal
E azeitona
Esta limpidez
Que se nimba
De surda
Quanta vez
Esta maravilha
Assassinadíssima
Por quase todos os que a falam
Este requebro
Esta ânfora
Cantante
Esta máscula espada
Graciosíssima
Capaz de brandir os caminhos todos
De todos os ares
De todas as danças
Esta voz
Esta língua
Soberba
Capaz de todas as cores
Todos os riscos
De expressão
(E ganha sempre a partida)
Esta língua portuguesa
Capaz de tudo
Como uma mulher realmente
Apaixonada
Esta língua
É minha Índia constante
Minha núpcia ininterrupta
Meu amor para sempre
Minha libertinagem
Minha eterna
Virgindade.


«A Língua Portuguesa» in Exílio in Oferenda I,
 Lisboa, IN-­CM, 1984, pp. 316-317)


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

"Nós Estamos num Estado Comparável à Grécia" - Texto de Eça de Queirós, in 'Farpas (1872)'


(“A casa de Tormes”  foi o lugar de inspiração de Eça de Queirós para o livroA cidade e as serras.)



Nós Estamos num Estado Comparável à Grécia


"Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte."
 
Eça de Queirós, in 'Farpas (1872)'


A Casa de Tormes  em Stª Cruz do Douro onde  Eça de Queirós escreveu o livro a A cidade e as serras.” (Daqui)


'Vales lindíssimos, carvalheiras e soutos de castanheiros seculares, quedas de água, pomares, flores, tudo há naquele bendito monte. A quinta está situada num alto, num sítio soberbo - que abrange léguas de horizonte, e sempre interessante. (..) Logo adiante da casa, o monte desce até ao Douro, logo por trás da casa, o monte sobe até aos cimos onde há uma ermida.'

Eça de Queirós, Correspondência

Assim descreveu o mais famoso romancista português do séc. XIX a sua Quinta de Vila Nova (Tormes em "A Cidade e as Serras") hoje sede da Fundação Eça de Queirós. (Daqui) 




“Os vales fofos de verdura, os bosques quase sacros, os pomares cheirosos em flor, a frescura das águas cantantes, as ermidinhas branqueando nos altos, as rochas musgosas, o ar de uma doçura de paraíso, toda a majestade e toda a lindeza. Deixando resvalar o olhar observe os vales poderosamente cavados (...) os bandos de arvoredos, tão copados e redondos de um verde tão moço e sinta, por todo o lado, o esvoaçar leve dos pássaros.”

sábado, 1 de fevereiro de 2014

"Lamento para a língua portuguesa" - Poema de Vasco Graça Moura


Rio Douro, Porto, Portugal - Foto de Carlos Fonseca



 Lamento para a língua portuguesa


não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.


Vasco Graça Moura
,
in "Antologia dos Sessenta Anos"



Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, Vasco Graça Moura, exerceu a advocacia, foi Secretário de Estado em dois governos provisórios, desempenhou funções administrativas na RTP, na Imprensa Nacional - Casa da Moeda e na Comissão Para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Tradutor de poesia de mérito reconhecido (Shakespeare, Enzensberger, Gottfried Benn, Dante), tem-se notabilizado pela qualidade de ensaísta e de crítico literário. A sua obra poética, beneficiando do intercâmbio com a atividade de tradução e crítica poética, distingue-se pelo hermetismo que decorre da confluência de diversas poéticas, como as clássicas, atualizadas pela inovação sintática e pela diversificação temática (que não rejeita a referência social modalizada pela ironia), parecendo compor esse discurso engenhoso um "elemento distanciador do fervor do sentimento. (...) Ou o filtro pelo qual o sentimento é decantado das suas razões exacerbadas, deixando à pureza do ato estético a escolha fria e cerebral do pathos estritamente necessário à realização equilibrada do poema" (cf. MARTINS, Manuel Frias - Sombras e Transparências da Literatura, 1983, p. 86). Como ficcionista, estreou-se com Quatro Últimas Canções, num suporte narrativo que, por detrás da utilização de "ingredientes, vozes e técnicas da composição tradicional" ("Nota do Autor", 1987), coloca as quatro personagens principais sobre um eixo musical composto por "uma polifonia discreta, manipulada por várias surdinas", e impõe a cada uma um registo dramático próprio, recriando o conjunto dos seus encontros e desencontros, a atmosfera das "Quatro Últimas Canções" de Richard Strauss.

Vasco Graça Moura. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-02-01].


Rio Douro, Porto / Vila Nova de Gaia, Portugal 


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

"A mais bela noite do mundo" - Poema de Fernando Namora

Rio Douro, Zona Ribeirinha das cidades de Vila Nova de GaiaPortoPortugal.



A mais bela noite do mundo


 Hoje,
será o fim!

Hoje
nem este falso silêncio
dos meus gestos malogrados
debruçando-se
sobre os meus ombros nus
e esmagados!

Nem o luar, pano baço de cenário velho,
escutando
a minha prisão de viver
a lição que me ditavam:
- Menino! acende uma vela na tua vida,
que o sol, a luz e o ar
são perfumes de pecado.
Tem braços longos e tentadores – o dia!

- Menino! recolhe-te na sombra do meu regaço
que teus pés
são feitos de barro e cansaço!

(Era esta a voz do papão
pintado de belo
na máscara de papelão).

Eram inúteis e magoadas as noites da minha rua...
Noites de lua
que lembravam as grilhetas
da minha vida parada.

- Amanhã,
terás os mestres, as aulas, os amigos e os livros
e o espetáculo da morgue
morando durante dias
nos teus sentidos gorados.

Amanhã,
será o ultrapassar outra curva
no teu caminho destinado.

(Era esta a voz do papão
que acendia a vela, tinha regaço de sombra
e velava
as noites da minha rua e a minha vida
e pintava-se de belo
na máscara de papelão).

Hoje,
será o fim!

Hoje,
nem a sombra do que há de vir,
nem os mestres, nem os amigos, nem os livros,
nem a fragilidade dos meus pés
feitos de barro e cansaço!
Todas as minhas revoltas domadas,
todos os meus gestos em meio
e as minhas palavras sufocadas
terão a sua hora de viver e amar!

Hoje,
nem o cadáver a sorrir na morgue,
nem as mãos que ficaram angustiosas,
arrepiadas
no seu medo de findar!

Hoje,
será a mais bela noite do mundo!


Fernando Namora, in 'Mar de Sargaços'


 Ribeira do Porto, Porto - Portugal





Silent Night -  André Rieu


domingo, 1 de dezembro de 2013

"A felicidade está no realizar e não no usufruir" - Texto de Antoine de Saint-Exupéry


 (Entre vinhas do aclamado e delicioso vinho do Porto, banhada pelo Rio Douro. Imagem a aérea)


A felicidade está no realizar e não no usufruir


Atolavam-se na ilusão da felicidade que extraíam dos bens possuídos. Ora a felicidade o que é senão o calor dos atos e o contentamento da criação? Aqueles que deixam de trocar seja o que for deles próprios e recebem de outrem o alimento, nem que fosse o mais bem escolhido e o mais delicado, aqueles que ouvem subtilmente os poemas alheios sem escreverem os poemas próprios, aproveitam-se do oásis sem o vivificarem, consomem cânticos que lhes fornecem, e fazem lembrar os que se apegam às mangedouras no estábulo e, reduzidos ao papel de gado, mostram-se prontos para a escravatura. 


Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"


Rio Douro, Vila Nova de Gaia / Porto, Portugal 


“Existe um artista aprisionado em cada um de nós. 
Deixe-o solto para espalhar alegria por toda parte.”

(Bertrand Russell)



Ponte Luís I, Porto, Portugal
 

“É a ambição de possuir, mais do que qualquer outra coisa,
que impede os homens de viverem de uma maneira livre e nobre.”

(Bertrand Russell)


Centro histórico da cidade do Porto