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quinta-feira, 2 de julho de 2026

"Irmão menor" - Poema de Pedro Bandeira

 


Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970), 'Three boys'
('Tres niños'), 1933, Museu Nacional d'Art de Catalunya.

[Josep de Togores i Llach was son of Josep de Togores y Muntades (Spanish sportsman, film director, art collector, and amateur painter, 1868–1926), the second president of the Catalan Football Federation (1904–05) and co-founder of Mundo Deportivo (1906).]



Irmão menor


Irmão menor
é pior
que catapora.
Irmãozinho
é pior do que carniça,
é pior que injeção.

Mexe no que é meu,
rabisca meu caderno,
perde meu carrinho,
e eu fico de castigo
se lhe dou um safanão.

É praga, é prega,
é sarampo, é varicela!

E não venha
achar estranho,
só porque dei uma surra
no danado do moleque
que xingou o meu irmão.

Eu posso xingar.
Os outros não.


Pedro Bandeira,
em "Cavalgando o arco-íris",
São Paulo, Moderna, 3ª edição, 2002.




Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970),
"Portrait of the Mestre Family", 1927. Meadows Museum

[Togores’ Portrait of the Mestre Family (1927), is a masterful example of modern Spanish portraiture depicting wealthy Catalan industrialist Josep Mestre Mitjans; his wife, Berta Lantz Beinquet; and their three children, José, Jorge, and Blanca.]
 
A minha família


Eu gosto da
minha mãe,
do meu pai,
do meu irmão.
Nem sei como
tanta gente
cabe no
meu coração!


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna

♥♥♥

terça-feira, 9 de junho de 2026

"Dorme, criança, dorme" - Poema de Fernando Pessoa



Josep de Togores i Llach (Pintor espanhol, 1893–1970), 'Niños durmiendo', 1927.



Dorme, criança, dorme


Dorme, criança, dorme,
Dorme que eu velarei;
A vida é vaga e informe,
O que não há é rei.
Dorme, criança, dorme,
Que também dormirei.

Bem sei que há grandes sombras
Sobre áleas de esquecer,
Que há passos sobre alfombras
De quem não quer viver;
Mas deixa tudo às sombras,
Vive de não querer.

16-3-1934

Fernando Pessoa 
Poesias Inéditas (1930-1935),
Nota prévia de Jorge Nemésio.
Lisboa: Ática, 1955.


segunda-feira, 25 de maio de 2026

"Sempre acontece sempre" - Poema de Helga Moreira


 
Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970),
'Renée et le chat', 1920.


Sempre acontece sempre


Sempre acontece sempre
em repetição nada serena
faço e desfaço um pouco
em lixo e roteiro o poema
que te envio. A ti primeiro.
Depois aquele parte
que não digo por pudor.
Isto é arte, apenas arte
apenas ódio, ou amor?
Já não distingo – ao que se chega!
um verso maior de um menor
alguns perfeitos. Que pena!
diz-me a voz interior
rasgo-os, levo-os à cena?


Helga Moreira



 
Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970),
'Reading in bed' ('Lectura en la cama'), 1935.
 

"A leitura sem amor, o saber sem reverência e a cultura sem coração estão entre os piores pecados
que se podem cometer contra o espírito."

Hermann Hesse (1877–1962),
 in 'Uma Biblioteca da Literatura Universal'

segunda-feira, 11 de maio de 2026

"Fala a preguiça" - Poema de Álvaro Magalhães


 
Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970), 'Montse', 1959.



Fala a preguiça

Eu gosto tanto, tanto, tanto
de estar quieta, muito parada,
de fazer nada, coisa nenhuma,
e de fazer isso, que é não fazer
e de não estar, não ir, também.
Eu cá faço nada e todos
me dizem que faço isso muito bem.

Faço arroz de nada, pudim de nada
(que não é nada, está-se mesmo a ver)
e é tudo muito bom, delicioso,
só por não ser preciso fazer.
Eu faço nada, sou um nadador,
mas não daqueles que nadam mesmo,
O que é cansativo, tão maçador;
é que nadar, cá para mim,
tem um defeito insuportável:
aquele erre que está no fim.

E não digam que não faço nada
porque eu faço isso o mais que posso
e se não faço mais é porque mesmo nada
fazê-lo muito é uma maçada.
Não quero ir. Ainda é cedo.
Que pressa é essa? Não pode ser!
Deixem-me estar porque eu hoje tenho
bastante nada para fazer.


Álvaro Magalhães
(Escritor português de livros e contos para crianças, n. 1951)



Josep de Togores i Llach, 'Torso de mujer', 1922.


"A preguiça morreu de sede à beira do rio, com preguiça de beber."

(Ditado popular)