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sábado, 15 de agosto de 2020

"Cantar de Ceifa" - Poema de Félix Lope de Vega


Anna Ancher (Danish artist associated with the Skagen Painters, 1859–1935), 'Harvesters', 1905
 


Cantar de Ceifa


Tão branca tanto que eu era,
quando entrei para ceifar;
deu-me o sol, fiquei morena.

Tão branca soía eu ser
antes de vir a ceifar,
mas não quis o sol deixar
branco o fogo em meu poder.
No tempo do amanhecer
era eu brilhante açucena:
deu-me o sol, fiquei morena.


Félix Lope de Vega
(1562-1635)
Tradução de Jorge de Sena 



Achille Beltrame (Italian painter, illustrator and commercial artist, 1871-1945), Untitled


Indiscrição


 O vento contou:
uma rosa floresceu
no jardim vizinho.

Helena Kolody
(Haicai)

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

"A Alma do Vinho" - Poema de Charles Baudelaire


Ivar Kamke (Swedish painter, 1882–1936), Drinking men, 1920


A Alma do Vinho


Nas garrafas cantou, uma noite, a alma do vinho:
“Homem, pra ti exalo, ó caro deserdado,
Nesta prisão de lacre vermelho e de vidro,
Um canto cheio de luz e de fraternidade!

“Sobre a colina em fogo, sei quanto é preciso
De esforço, de suor e de sol bem ardente
Pra me engendrar a vida e me criar o espírito;
Porém, não quero ser ingrato ou malevolente,

“Porque imensa alegria sinto ao ir caindo
Na goela de um homem gasto plo trabalho
E o seu peito quente é um sepulcro suave
Que me agrada bem mais do que as adegas frias.

“Não ouves ressoar os refrãos domingueiros
E no meu peito ansioso a esperança a gorjear?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Irás glorificar-me e estarás satisfeito;

“Da tua esposa encantada acenderei os olhos;
Devolverei a força e as cores ao teu filho
E serei pra tão frágil atleta da vida
O óleo que enrijece aos lutadores os músculos.

“Em ti hei de cair, vegetal ambrosia,
Precioso grão que sempre o eterno Semeador
Lança, pra que do nosso amor nasça a poesia
Que brotará pra Deus como uma rara flor!” 


Charles Baudelaire
,
in As Flores do Mal, Assírio & Alvim, Lisboa, 1992.
Tradução de Fernando Pinto do Amaral



Ivar Kamke (Swedish painter, 1882–1936), Italian Farmers, 1910 


O Vinho
(Citações)


“Embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia e com virtude.”
Charles Baudelaire (1821–1867)

“Deus apenas fez a água, mas o homem fez o vinho.”
Victor Hugo (1802–1885)

“A vida é como o vinho: se a quisermos apreciar bem, não devemos bebê-la até à última gota.”
Lord Byron (1788–1824)

“O vinho, quanto mais envelhece mais calor ganha; pelo contrário, a nossa natureza quanto mais vive, mais vai esfriando.”
Félix Lope de Vega (1562–1635)


Photo by: Stefan Krause, Germany, Vinho (daqui)


“Os vinhos são como os homens: com o tempo os maus azedam e os bons apuram.”

Cícero (106 a.C – 43 a.C)

terça-feira, 14 de julho de 2020

"Letra para cantar" - Poema de Félix Lope de Vega


Philip Richard Morris (1836-1902), Audrey, 1888



Letra para cantar


Não serem, Lucinda, estrelas
as tuas pupilas belas,
bem pode ser;
mas que em sua claridade
não haja alguma deidade,
não pode ser.

Que a boca celestial
não seja o próprio coral,
bem pode ser;
mas que não exceda a rosa
em ser vermelha e cheirosa,
não pode ser.

Que não seja o branco peito
de cristais ou neve feito,
bem pode ser;
mas que não vença em brancura
os cristais e a neve pura,
não pode ser.

Que não seja um anjo, o colo
da Fênix, o próprio Apolo,
bem pode ser;
porém que de anjo não tenha
o que com anjo convenha,
não pode ser.

Não teres flores nas veias
nem de lírios as mãos cheias,
bem pode ser;
mas que nelas não se vejam
quantas graças se desejam,
não pode ser. 


Félix Lope de Vega (1562-1635)
Tradução de Anderson Braga Horta