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sábado, 8 de junho de 2019

"Mundo interior" - Poema de Machado de Assis


George Clausen (British artist, 1852-1944), Ploughing, 1889



Mundo interior


Ouço que a Natureza é uma lauda eterna
De pompa, de fulgor, de movimento e lida,
Uma escala de luz, uma escala de vida
De sol à ínfima luzerna.

Ouço que a natureza, — a natureza externa, —
Tem o olhar que namora, e o gesto que intimida
Feiticeira que ceva uma hidra de Lerna
Entre as flores da bela Armida.

E contudo, se fecho os olhos, e mergulho
Dentro em mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia — e dorme.


Machado de Assis, em Ocidentais, 1901

segunda-feira, 18 de março de 2019

"Canção sombria" - Poema de Kurt Heynicke


Sir George Clausen (British artist, 1852–1944), Youth Mourning, 1916
 


Canção sombria


Em redor há a dor
E em redor o mundo que cai sombrio.
Eu sou no negro rio um embalar, para ele jogado em solidão.

Em mim há noite.
Estrela sem
Morte
nem túmulos.

(1918)

Kurt Heynicke
em A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas, 
seleção, tradução, introdução e notas de João Barrento,
 Lisboa: Relógio D' Água, 2001 


domingo, 10 de março de 2019

"Antes de virar gigante" - Poema de Marina Colasanti


 
Sir George Clausen (British artist, 1852-1944), A Schoolgirl, 1889
 


Antes de virar gigante

 
No tempo d'eu menina
os corredores eram longos
as mesas altas
as camas enormes.
A colher não cabia
na minha boca
e a tigela de sopa
era sempre mais funda
do que a fome.
No tempo d'eu menina
só gigantes moravam
lá em casa.
Menos meu irmão e eu
que éramos gente grande
vinda de Lilliput.


Marina Colasanti, in Rota de colisão.
Rio de Janeiro: Rocco, 1993