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terça-feira, 21 de julho de 2026

"Harmonia" - Poema de Miguel Torga

  

Tove Jansson (Finland-Swedish author, novelist and comic strip author, painter
and illustrator, 1914–2001), 'Family', 1942, Private Collection.

 
Harmonia 


Feliz canto das aves,
Sem possível
Compreensão;
Feliz rumo dos astros,
Sem possível
Desvio;
Feliz fúria do vento,
Sem possível
Arrependimento.

E feliz o poeta
Que ninguém lê.
Que sozinho contempla
O nascimento e a morte
Dos seus versos.
Pai acabado que no próprio corpo
Gera os filhos
E lhes dá ternura
Do berço à sepultura.


Miguel Torga,
in 'Orfeu Rebelde', 1958

***


Tove Jansson, 'Self-portrait with Wicker Chair', 1937.
 Private Collection
 

Tove Marika Jansson (1914–2001) nasceu em Helsínquia, numa família de artistas, que fazia parte da minoria sueca na Finlândia. Estudou Artes no seu país, em Estocolmo e finalmente na Escola de Belas-Artes de Paris, tendo realizado a sua primeira exposição a solo em 1943. Tornou-se conhecida também como escritora e ilustradora. Publicou o primeiro livro dos Mumins durante a Segunda Guerra Mundial, em 1945, pois o conflito deprimia-a e por isso “quis escrever sobre qualquer coisa inocente”. No ano seguinte, editou O Cometa na Terra dos Mumins e, em 1948, A Família dos Mumins, que a tornaram famosa e a escritora finlandesa mais lida. Em 1966, recebeu o Prémio Hans Christian Andersen de literatura infantil pelo conjunto da sua obra.

 
Tove Jansson, 'The Moomins'


A Família Mumin - em sueco: Mumintrollen - ou a família Moomin, é uma família de ficção literária, criada pela escritora sueco-finlandesa Tove Jansson. 
A família vive numa casa no Vale dos Mumin (Mumindalen), e é composta pelo Mumin (Mumintrollet), pela Mãe Mumin (Muminmamma) e pelo Pai Mumin (Muminpappa). Como vizinhos, eles têm o tímido Sniff, a traquinas Lilla My, o vagabundo Snusmumriken, a namorada de Mumin, Snorkfröken, o vagaroso Hemulen e a nervosa Filifjonkan. Nas montanhas assustadoras a leste do vale, mora a monstruosa Mårran, e um pouco por toda a parte os incompreensíveis Hattifnattarna.  (daqui)

 
Tove Jansson
, 'A Famílias dos Mumins'
Tradução: Mafalda Eliseu
Relógio D'Água, 2015
 

Descrição 
 
 [A Família Mumin (edição brasileira) ou A Família dos Mumins (edição portuguesa)]
 
A primavera chegou ao vale dos Mumins, assim como uma cartola mágica que o Mumintroll e os seus amigos Farisco e Sniff descobrem, e que pode transformar qualquer coisa ou alguém em seja o que for. 

«Um tesouro perdido, agora redescoberto… Uma obra–prima.»
– Neil Gaiman

«Jansson era um génio de um modo subtil. Estas histórias simples estão repletas de emoções únicas, profundas e complexas, como jamais se viram em literatura para crianças ou adultos.»
– Philip Pullman 

«Tove Jansson é, sem dúvida, uma das maiores escritoras de livros para crianças.» 
– Sir Terry Pratchett (daqui)
 

'The Moomins', comic book cover by Tove Jansson. From left to right:
Sniff, Snufkin, Moominpappa, Moominmamma, Moomintroll (Moomin), 
the Mymble's daughter, Groke, Snork Maiden and Hattifatteners.



Tove Jansson, 'Moominmama, Moominpapa and Little My'



"Arte e vida se misturam.
 Fantasia e realidade se acrescentam."


Affonso Romano de Sant'Anna

[Escritor e poeta brasileiro, 1937–2025]


sábado, 11 de julho de 2026

"A Fantasia da Natureza" - Poema de Antero Coelho Neto


 
Reynaldo Manzke (Pintor brasileiro, 1906–1980), 'Vilarejo', 1943.
Aguarela sobre papel, 19 x 28 cm.


A Fantasia da Natureza


Natureza alegre
do despertar repetido
que se eterniza plena
no horizonte colorido.

Ora a chuva cai
molhando terra e corpos.

Ora o pássaro azul
voa em canto e vai
dizendo que existe Deus.

Ora o céu é seco
e os animais sedentos
vagam loucos pelos campos
rachados, ardentes e mortos
parecendo não existir Deus.


Antero Coelho Neto
(Médico, escritor, professor e reitor brasileiro, 1931–2016)
 
 

Reynaldo Manzke, 'Uma carroça na estrada', s.d. Aguarela sobre papel.
 

"Acho que o mundo vai acabar em preto e branco, igual a um filme antigo.
Talvez, enquanto haja cores, consigamos sobreviver."
 

Neil Gaiman

(Autor britânico de contos, romances, banda desenhada e roteiros, n. 1960)
 

sábado, 21 de dezembro de 2024

"Cinco palavras cinco pedras" - Poema de Ruy Belo


Charles Frederic Ulrich (American Realist painter who spent most of his career in Germany, 
1858–1908), 'In the Land of Promise, Castle Garden', 1884, National Gallery of Art.


Cinco palavras cinco pedras 


Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando os deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas 
 

Ruy Belo, em "Homem de Palavras", 1969.
"Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, 1984.
"Todos os Poemas", 2001.

Charles Frederic Ulrich, 'Waifs in an Orphanage', 1884.


"Não tenho saudade da infância, mas sinto falta da forma como eu encontrava prazer em coisas pequenas, mesmo quando coisas maiores desmoronavam. Eu não podia controlar o mundo no qual vivia, não podia fugir de coisas nem de pessoas nem de momentos que me faziam mal, mas tinha prazer nas coisas que me deixavam feliz."


Neil Gaiman, em "O Oceano no Fim do Caminho" (The Ocean at the End of the Lane), 2013.
 

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

"O que nós vemos das coisas são as coisas" - Poema de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa



Auguste Roquemont (Pintor luso-suíço da época romântica, 1804-1852),
"Colegiada de Guimarães", s.d., Localização indeterminada.


O que nós vemos das coisas são as coisas


XXIV

O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores. 

13-3-1914 

Alberto Caeiro
, “O Guardador de Rebanhos”. 
In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. 
Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 50.

“O Guardador de Rebanhos”. 1ª publ. in Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925. 
 
 

Auguste Roquemont, Cena de aldeia ou Chafariz de Guimarães (Tanque do Carmo), 1842.
Óleo sobre tela, 22 x 27,5 cm. Museu Nacional Soares dos Reis, Porto.



"Adultos seguem caminhos. Crianças exploram. Os adultos ficam satisfeitos por seguir o mesmo trajeto, centenas de vezes, ou milhares; talvez nunca lhes ocorra pisar fora desses caminhos, rastejar por baixo dos rododendros, encontrar os vãos entre as cercas."
 

Neil Gaiman, em "O Oceano no Fim do Caminho" (The Ocean at the End of the Lane), 2013.