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sexta-feira, 31 de março de 2017

"A Música" - Poema de Charles Baudelaire





A Música


A música p'ra mim tem seduções de oceano! 
Quantas vezes procuro navegar, 
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano, 
Minha pálida estrela a demandar! 

O peito saliente, os pulmões distendidos 
Como o rijo velame d'um navio, 
Intento desvendar os reinos escondidos 
Sob o manto da noite escuro e frio; 

Sinto vibrar em mim todas as comoções 
D'um navio que sulca o vasto mar; 
Chuvas temporais, ciclones, convulsões 

Conseguem a minh'alma acalentar. 
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera, 
Que desespero horrível me exaspera! 


Tradução de Delfim Guimarães




Caravaggio, The Lute Player1595-1596,  Hermitage MuseumSaint Petersburg (Hermitage version)



"A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos. A melodia é a vida sensível da poesia." 



Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Adagio
(Τhis version is made by Elise Robineau)


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

"O sentimento religioso é o mais inconfessável de todos" - Jorge de Sena


Philippe de Champaigne (Pintor francês, 1602-1674), "Santo Agostinho", 1645-1650



O sentimento religioso é o mais inconfessável de todos 


"A religião, ou o sentimento religioso, é o mais inconfessável de todos: não por irracional, mas porque é da sua mais íntima natureza o silêncio da vida física do universo, que só faz barulho por acaso e não para a gente ouvir. Que mais não fosse, acharia ridícula, e acho, a atitude dos «libertos», nascidas da cabeça de Júpiter, desirmanados de tudo quanto encarnou as dores e as esperanças de uma humanidade dolorosamente em busca do seu próprio corpo. Mais que ridícula, criminosa, estulta, digna dos raios divinos, se os houvesse. Neste sentido, me é respeitável a religião considerada na sua ação interior e na sua simbólica aparente; e, como poeta, não posso deixar de ser sensível ao paganismo que a Igreja Católica não sonha - ou sonha até - a que ponto herdou. Quando a religião pretende fixar-se, lutar ligada a interesses materiais que geraram muitas das formas que ela tomou, evidentemente que sou contrário a ela, a aquela, porque sei que não há eternidade das formas e das convenções, mas sim da orgânica simbólica que assume uma ou outra forma, segundo o estado social em que se desenvolve."


(In Carta a sua noiva Mécia de Sena, 15 Dezembro 1947)

terça-feira, 30 de junho de 2015

"Cena Familiar " - Poema de Affonso Romano de Sant’Anna


Judith Leyster (1609-1660), O Casal Feliz, 1630 
(Museu do Louvre)




Cena Familiar


Densa e doce paz na semiluz da sala. 
Na poltrona, enroscada e absorta, uma filha 
desenha patos e flores. 
Sobre o couro, no chão, a outra viaja silenciosa 
nas artimanhas do espião. 
Ao pé da lareira a mulher se ilumina numa gravura 
flamenga, desenhando, bordando pontos de paz. 
Da mesa as contemplo e anoto a felicidade 
que transborda da moldura do poema. 
A sopa fumegante sobre a mesa, vinhos e queijos, 
relembranças de viagens e a lareira acesa. 
Esta casa na neblina, ancorada entre pinheiros, 
é uma nave iluminada. 
Um oboé de Mozart torna densa a eternidade. 






Serenade por Judith Leyster, 1629 



"Paz e harmonia: eis a verdadeira riqueza de uma família." 





Woman playing a Virginal, de Jan Miense Molenaer
marido da pintora Judith Leyster



"A alegria é a pedra filosofal que tudo converte em ouro."





Jan Miense MolenaerHis Family portrait, 1635.



"Um bom exemplo é o melhor sermão."


(Benjamin Franklin)

"Liberdade" - Poema de Miguel Torga



Peter Paul Rubens, Venus at the Mirror, 1615




Liberdade


— Liberdade, que estais no céu... 
Rezava o padre-nosso que sabia, 
A pedir-te, humildemente, 
O pio de cada dia. 
Mas a tua bondade omnipotente 
Nem me ouvia. 

— Liberdade, que estais na terra... 
E a minha voz crescia 
De emoção. 
Mas um silêncio triste sepultava 
A fé que ressumava 
Da oração. 

Até que um dia, corajosamente, 
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado, 
Saborear, enfim, 
O pão da minha fome. 

— Liberdade, que estais em mim, 
Santificado seja o vosso nome. 


Miguel Torga, in 'Diário XII'




Peter Paul Rubens, The Three Graces, 1635, Prado

segunda-feira, 13 de abril de 2015

"Não Choreis os Mortos"... Poema de Pedro Homem de Melo






Não Choreis os Mortos


Não choreis nunca os mortos esquecidos 
Na funda escuridão das sepulturas. 
Deixai crescer, à solta, as ervas duras 
Sobre os seus corpos vãos adormecidos. 

E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos, 
Agonizar... guardai, longe, as doçuras 
Das vossas orações, calmas e puras, 
Para os que vivem, nudos e vencidos. 

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos, 
Da multidão sem fim dos que são vivos, 
Dos tristes que não podem esquecer. 

E, ao meditar, então, na paz da Morte, 
Vereis, talvez, como é suave a sorte 
Daqueles que deixaram de sofrer. 


Pedro Homem de Melo, in "Caravela ao Mar"




Tintoretto, como era conhecido Jacopo Robusti, (Veneza, ca. 1518 — 31 de Maio de 1594) foi um dos pintores mais radicais do "maneirismo".


Maneirismo


O termo "Maneirismo", que originalmente foi empregue para definir a pintura amaneirada e formalista de um grupo de pintores italianos de meados do século XVI, como Rosso Fiorentino e Pontormo, foi mais tarde utilizado para indicar um período artístico que, desenvolvido na centúria de quinhentos, encerrou o Alto Renascimento  em Itália e antecedeu o Barroco.

(Alto Renascimento Renascimento Plenoou até Renascimento Clássico, consiste num curto período de tempo (c. 1495-1520) em que um grupo de quatro génios – BramanteLeonardo da VinciRafael Miguel Ângelo, aprofundou as conquistas artísticas dos seus predecessores e elevou o Renascimento à sua máxima expressão.)

Durante o século XVI, a rígida estrutura espacial e gramatical do Renascimento, baseada no cumprimento de regras e de proporções harmónicas simples sofre um processo de decomposição e de enriquecimento, aceitando novas qualidades como a tensão, a instabilidade e a complexidade.

Na terceira década do século XV, as bases políticas, sociais e culturais sobre as quais se desenvolvera o Renascimento, tinham-se transformado enormemente. A Itália, invadida pela França e pela Espanha, perdeu nessa altura a sua independência, gerando-se um clima de instabilidade política ao qual se associou a crise interna da Igreja Católica, minada por uma rebelião que conduziu quase metade da Europa ao protestantismo. Foi precisamente esta Igreja que, empenhada numa profunda revisão dos seus fundamentos filosóficos organizou em 1547 o Concílio de Trento, apresentando-se então como um dos principais agentes desta reorientação cultural e artística.


  • Arquitetura
A diluição dos cânones clássicos estava já presente nos projetos finais de Donato Bramante  e de Miguel Ângelo, dois dos mais marcantes arquitetos humanistas. Um dos primeiros edifícios maneiristas, a Galleria degli Uffizi foi construída em Florença por Giorgio Vasari. O mais interessante e influente arquiteto do século XVI foi Andrea Palladio. Centrando a sua atividade em Vicenza, para onde desenha inúmeras Villas (residências nobres rurais) e palácios urbanos, realizou também alguns projetos de igrejas para Veneza. O seu trabalho mais divulgado é a Villa Capra (também conhecida como Villa Rotonda),  um edifício inteiramente simétrico, de planta quadrada (pontuada por uma cúpula central), em cujas fachadas este arquiteto aplicou pórticos de templos romanos. Neste projeto as proporções geométricas, tanto no desenho da planta como na composição dos alçados ganharam especial significado simbólico. 

Giacomo Vignola, um arquiteto mais conhecido pelo seu Tratado de Arquitetura que pelos trabalhos de arquitetura, realizou, na segunda metade do século o projeto para a Igreja de Jesus de Roma. Este templo, sede da ordem dos Jesuítas, procurava encarnar e sintetizar o espírito da Igreja contrareformista, saída do Concílio de Trento, assumindo-se como um dos edifícios mais influentes deste período. Acompanhando a expansão desta ordem jesuítica por todos os continentes, esta igreja tornar-se-á um dos modelos fundamentais do Barroco

Uma das mais notáveis construções maneiristas portuguesas, diretamente influenciada pela obra de Palladio e pelo tratado de Serlio, é o claustro de D. João III do Convento de Cristo em Tomar, projetado por Filipe Terzio. Outro projeto deste arquiteto, a Igreja de São Vicente de Fora (Lisboa), construída nos finais de quinhentos, representa a plena assimilação do modelo de templo contra-reformista, anunciado pela Igreja de Jesus de Roma.

  • Artes plásticas e Decorativas
Tal como na arquitetura, ao nível das artes plásticas o maneirismo constituiu um período de intensa liberdade crativa, determinando uma rutura com os modelos clássicos pela eleição de qualidades formais e simbólicas como o artifício, a inquietude, o oblíquo e o assimétrico.

"Juízo Final", fresco executado por Michelangelo para a parede da Capela Sistina (1534-41), representou uma das primeiras pinturas realizadas dentro do espírito da Contrarreforma. Mas já na década anterior se começaram a desenhar os contornos formais daquilo que constituiria a gramática maneirista. Protagonizado por pintores italianos como Rosso Fiorentino, Pontormo, Parmigianino, e Agnolo Bronzino, rapidamente este movimento alcançou uma dimensão internacional.

Tintoretto, expoente máximo do maneirismo veneziano, desenvolveu uma pintura de carácter anticlássico mas elegante, influenciada pela obra de Ticiano e de Michelangelo, que se destacava pelas pinceladas livres e rápidas, pelo acentuado claro-escuro e pelo abandono dos valores compositivos clássicos, como a simetria a e proporção. 

El Greco, um pintor de origem grega mas igualmente formado em Veneza e posteriormente radicado em Espanha, desenvolveu uma linguagem bastante original, cruzando a tradição da Escola Veneziana com influências bizantinas. Os seus quadros, invarialvelmente de tema religioso, transmitiam uma exaltada espiritualidade, pela intensidade do cromatismo e da textura, pelo sentido de movimento e violência das formas e pela deformação das figuras representadas. 

Sem alcançar o nível de densenvolvimento da pintura, a escultura do século XVI foi dominada pelos últimos trabalhos de Michelangelo, como as estátuas tumulares da Sacristia Nova de S. Lourenço em Florença, ou as esculturas inacabadas do túmulo do Papa Júlio II, que o próprio artista designou de "Escravos"



 uma das mais conhecidas obras do Maneirismo.


Giambologna ou Giovanni Bologna, escultor florentino, realizou (cerca de 1580) uma das esculturas mais significativas deste estilo, "O Rapto das Sabinas", uma complexa composição de escala monumental, com três figuras que se movem em espiral ascendente. 
Desenvolvendo um estilo mais sereno e elegante, Benvenuto Cellini tornou-se conhecido pelas elegantes e requintadas peças de ourivesaria.


  • Literatura
Aspeto literário que aponta para um certo culto formal, para conceitos subtis, para um sentido negativo da vida. Depois do estudo da produção do século XVII, poderemos ver que Camões, na sua época, é já um poeta amaneirado a fazer a transição da sobriedade clássica para os exageros do Barroco, quer pela subtileza conceitual que afirma no soneto «Amor é fogo que arde sem se ver», quer por uma forma de expressão onde é evidente o preciosismo da linguagem, quer, ainda, pelo conteúdo da sua mensagem poética. Nesta, a nota de desalento constitui uma inspiração importante; isto pode observar-se na epopeia, no episódio do Adamastor e na elegia aos mortos pelo escorbuto. Como aqueles, o poeta é um vencido face ao destino. (Daqui)

domingo, 1 de fevereiro de 2015

"Contra a Ansiedade" - Séneca, in 'Cartas a Lucílio'


Job Adriaensz Berckheyde (1630-1693), The Baker, circa 1681



Contra a Ansiedade


Sempre que te aconteça alguma coisa contrária à tua expectativa diz a ti mesmo que os deuses tomaram uma decisão superior! Com semelhante disposição de espírito, nada terás a temer. Esta disposição de espírito consegue-se pensando na instabilidade da vida humana antes de a experimentarmos em nós, olhando para os filhos, a mulher, os bens como algo que não possuiremos para sempre, e evitando imaginarmo-nos mais infelizes um dia que deixemos de os possuir. Será a ruína do espírito andarmos ansiosos pelo futuro, desgraçados antes da desgraça, sempre na angústia de não saber se tudo o que nos dá satisfação nos acompanhará até ao último dia; assim, nunca conseguiremos repouso e, na expectativa do que há de vir, deixaremos de aproveitar o presente. Situam-se, de facto, ao mesmo nível a dor por algo perdido e o receio de o perder. Isto não quer dizer que te esteja incitando à apatia! Pelo contrário, procura evitar as situações perigosas; procura prever tudo quanto seja previsível; procura conjecturar tudo o que pode ser-te nocivo muito antes de que te suceda, para assim o evitares. Para tanto, ser-te-á da maior utilidade a autoconfiança, a firmeza de ânimo apta a tudo enfrentar. Quem tem ânimo para suportar a fortuna é capaz de precaver-se contra ela; mas nada de angústias quando tudo estiver tranquilo! 

O cúmulo da desgraça e da estupidez está no medo antecipado: que loucura é esta, ser infeliz antecipadamente? Em suma, para numa palavra te resumir o que eu penso e te descrever como são estes homens que, à força de se preocuparem, só conseguem fazer mal a si próprios: tanta falta de moderação eles mostram em plena desgraça como antes dela! Quem sofre antes de tempo sofre mais do que o devido; uma mesma incapacidade leva-o a não prever a presença da dor onde não a espera; uma mesma imoderação fá-lo imaginar permanente a sua felicidade, imaginar que os bens que o acaso lhe deu não só hão de perdurar como também de multiplicar-se; esquecido do trampolim que é a vida humana, convence-se de que no seu caso, por exceção, o acaso deixará de se fazer sentir. 


Séneca, in 'Cartas a Lucílio'


Busto de Sêneca (4 a.C. - 65) em Córdoba, na Espanha


Lúcio Aneu Séneca, Corduba, 4 a.C.Roma, 65) foi um dos mais célebres advogados, escritores e intelectuais do Império Romano. Conhecido também como Séneca (ou Sêneca), o Moço, o Filósofo, ou ainda, o Jovem, sua obra literária e filosófica, tida como modelo do pensador estoico durante o Renascimento, inspirou o desenvolvimento da tragédia na dramaturgia europeia renascentista.


Job Adriaensz Berckheyde, Lace Maker, 1666-75


 "Uma vida feliz deve ser em grande parte uma vida tranquila, pois só numa atmosfera calma pode existir o verdadeiro prazer."


domingo, 6 de julho de 2014

"Falando com Deus" - Poema de Jerónimo Baía


Peter Paul RubensSanta Teresa de Ávila



Falando com Deus


Só vos conhece, amor, quem se conhece;
Só vos entende bem quem bem se entende;
Só quem se ofende a si, não vos ofende,
E só vos pode amar quem se aborrece.

Só quem se mortifica em vós floresce;
Só é senhor de si quem se vos rende;
Só sabe pretender quem vos pretende,
E só sobe por vós quem por vós desce.

Quem tudo por vós perde, tudo ganha,
Pois tudo quanto há, tudo em vós cabe.
Ditoso quem no vosso amor se inflama,

Pois faz troca tão alta e tão estranha.
Mas só vos pode amar o que vos sabe,
Só vos pode saber o que vos ama.


(1620/30-1688)



Peter Paul RubensAs consequências da guerra, 1637-38. Óleo s/tela 206 cm × 345 cm
Palácio Pitti, Florença




  • Introdução

O nome "barroco" (provavelmente derivado de barueco, a palavra espanhola que designava uma pérola de forma irregular) foi atribuído nos finais do XVIII e possuía alguma intenção pejorativa, uma vez que nessa altura este período era ainda considerado como a fase de decadência do renascimento. Só nos inícios do século XX este estilo é reconhecido como um dos mais importantes da história moderna.

Desenvolvida durante o século XVII, num ambiente dominado pelos progressos científicos, pela consolidação das grandes monarquias absolutistas, pelo movimento da contrarreforma da igreja católica e pela expansão protestante nos países nórdicos, a arte barroca prolongou-se pelo século XVIII em muitos países. 

O estilo barroco nasceu em Itália, a partir das experiências maneiristas de finais do século XVI e expandiu-se rapidamente para outros países europeus, atingindo mais tarde as colónias espanholas e portuguesas da América Latina e da Ásia. 
Apesar das diferentes interpretações que se verificaram nos diferentes países e regiões, determinadas por diferentes contextos políticos, religiosos e culturais, este estilo apresentou algumas características comuns, como a tendência para a representação realista, a procura do movimento e do infinito, a importância cenográfica dos contrastes luminosos, o gosto pelo teatral, a tentativa de integração das diferentes disciplinas artísticas. 


  • Arquitetura


Colunata da Praça de São Pedro, em Roma vista do alto da Basílica, no Vaticano


Durante o período barroco, duas tipologias protagonizaram as pesquisas formais e construtivas: o palácio e a igreja
Os arquitetos barrocos entendiam o edifício de forma integrada, como se fosse uma grande escultura, única e indivisível. A sua forma era ditada por complexos traçados geométricos (muitas vezes baseados em formas curvas e em ovais) que imprimiam qualidades dinâmicas aos espaços e às fachadas. Paralelamente abandonaram-se os rígidos esquemas compositivos baseados nas ordens clássicas.

O Barroco nasceu em Itália, mais especificamente na Roma Papal seiscentista. Três arquitetos protagonizaram o desenvolvimento deste estilo: Gian Lorenzo Bernini, o mais monumental, Francesco Borromini, mais original e Pietro de Cortona






A pequena igreja de San Carlo alle Quatro Fontane, projeta em 1665 por Borromini, constituiu um dos mais notáveis edifícios construídos neste período pela extrema complexidade e dinâmica da planta, pela total subversão das regras tradicionais e pela forma ondulante das paredes. 
Fora de Roma, destaque para a igreja de Santa Maria della Salute, de Veneza, projetada por Baldassarre Longhena e para os trabalhos de Guarino Guarini, de inspiração borrominiana, como a Capella della Santa Sindone, em Turim.





O Barroco francês assumiu características simultaneamente mais monumentais e clássicas. O seu afastamento relativamente à estética italiana foi afirmado com recusa do projeto de Bernini para a ampliação do Louvre. Este estilo encontrou a sua máxima expressão no Palácio de Versalhes uma residência real construída nos arredores de Paris por Luís XIV, projetada pelo arquiteto Louis Le Vau e pelo arquiteto paisagista e jardineiro André Le Nôtre, que integra um vasto palácio e um enorme jardim estruturado por longos eixos e pontuado por estátuas, fontes e um enorme canal. 

As guerras na Alemanha e a invasão Turca da Áustria condicionaram grandemente a introdução do estilo barroco nestes países. Por esta razão, o Barroco alemão e austríaco foi desenvolvido mais tardiamente e, embora se fundamente em modelos italianos, a sua exuberância decorativa denuncia conceitos já próximos do estilo rococó.

 Em Inglaterra este estilo foi protagonizado por Sir Christopher Wren, autor de muitos projetos para reconstrução das igrejas de Londres, dos quais se destaca o da Catedral de São Paulo (Londres), iniciada em 1675.


  • Artes plásticas e decorativas


Rembrandt,  The Abduction of Europa, 1632. Oil on panel.
 The work has been described as "...a shining example of the 'golden age' of Baroque painting."



No campo pictórico assistiu-se, neste período, para além da transformação estilística, ao alargamento dos géneros e das próprias dimensões da pintura, de forma a integrar organicamente os espaços arquitetónicos. Esta pintura em trompe l'oeil, aplicada em paredes e tetos constituiu uma das mais originais contribuições do Barroco. 

O mais influente pintor deste período foi o italiano Caravaggio, famoso pelas pinturas religiosas nas quais os contrastes entre a luz e sombra na modelação dos corpos e dos espaços introduz uma atmosfera dramática de intensa espiritualidade. 

A pintura barroca flamenga afirmou-se através do trabalhos de dois artistas, bastante diferentes entre si: Peter Paul Rubens, autor de uma pintura vigorosa, sensual e teatral, e Rembrandt, pintor mais introvertido, executou inúmeros autorretratos inspirados na linguagem intensa e dramática de Caravaggio.






Em Espanha a pintura atingiu um elevado nível artístico, protagonizada por Diego Velázquez, por Bartolomé Esteban Murillo e por Francisco de Zurbarán. Velázquez, pintor oficial da corte e um dos mais originais artistas barrocos, realizou a sua obra prima, "As Meninas", em 1629. 

Em França, ao caravagismo de sentido intimista da pintura de Georges de La Tour opõem-se a vertente mais classicista dos trabalhos de Nicolas Poussin e o caráter cenográfico das pinturas de Charles Le Brun para o Palácio de Versalhes.





Escultura do Barroco encontrou o seu paroxismo nas obras do italiano Gian Lorenzo Bernini, caracterizadas pelo virtuosismo técnico e pela tentativa de captar o movimento em momentos fugidios, caso das peças "Apolo e Dafné", realizada entre 1622 e 1624 ou no "O Êxtase de Santa Teresa", de 1645.

  • Literatura


Vários países aderiram ao movimento na Europa. Referimos as designações que o classificaram a partir de obras literárias: 

- na Inglaterra foi designado eufuísmo (da obra Euphues de John Lyly, incluindo-se Milton na literatura e Haendel - compositor alemão que se radicou nas Ilhas Britânicas - na música); 

- na Itália surgiu a designação de marinismo (de Giambattista Marino, a que se juntaram Alessandro Tassoni e Palavicini);

Hoffmann e  Lohenstein da segunda escola da Silésia e, principalmente, Angelus Silesius divulgam o movimento da escola com o nome de silesianismo

- na França, Molière desvia-se dos grandes clássicos, como CorneilleRacineBoileau Bossuet, e ridiculariza a vida de salão, as "preciosas ridículas", em Sabichonas, e o movimento surge com o nome de preciosismo

- na Espanha, apesar da excelência dramática de Tirso de Molina Lope de Vega Calderón de la Barca, o movimento desponta com Luis de Góngora em Saudades, a Fábula de Polifemo y Galateia, surgindo a designação de Gongorismo

- Portugal adere, também, como podemos ver em Lampadário de Cristal de Jerónimo Baía, superlativando o real quotidiano, e aceita o nome que a Espanha dera ao movimento. Acentua-se o emprego dos recursos estilísticos, nomeadamente metáforas, paronímias, hipérbatos, comparações, anáforas, hipérboles, antíteses, assíndetos, catacreses, pleonasmos, perífrases, trocadilhos, a assimetria, o geometrismo, o predomínio da ordem imaginativa sobre a lógica, os conceitos com o seu engenho e agudeza com vista à novidade e ao inusitado. Entre outros, refira-se o soneto de Jerónimo Baía no qual cada verso é composto de duas metades que formam um todo, afirmando o geometrismo formal.

Barroca, também, a forma como é transmitida a doutrina espiritual, cultivando o medo do inferno, como se pode ver na prosa de Manuel Bernardes e Frei António das Chagas.

De cariz barroco é a obra moralista como a vemos representada por D. Francisco Manuel de Melo (Feira de Anexins, Apólogos Dialogais, Carta de Guia de Casados), em  Manuel Bernardes na Nova Floresta, nos Sermões de António Vieira, na Corte na Aldeia de Rodrigues Lobo.

Este movimento que, no século XVII, entre nós, floresceu em pleno nas várias artes, na poesia em vários poetas, com especial relevo em Rodrigues Lobo  e  D. Francisco Manuel de Melo, entra em declínio no século XVIII, dando origem ao estilo rococó, o mesmo acontecendo na literatura brasileira, que desperta no século XVII com marcas do Barroco de escritores portugueses e espanhóis.

Entre nós, A Arte Poética de Francisco José Freire, em 1739, é o primeiro grande golpe dado no seiscentismo; depois, é a publicação do Verdadeiro Método de Estudar de Luís António Verney em 1746 e, por último, a fundação da Arcádia Ulissiponense em 1756. 

Barroco. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-04].

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