Falando com Deus
Só vos conhece, amor, quem se conhece;
Só vos entende bem quem bem se entende;
Só quem se ofende a si, não vos ofende,
E só vos pode amar quem se aborrece.
Só quem se mortifica em vós floresce;
Só é senhor de si quem se vos rende;
Só sabe pretender quem vos pretende,
E só sobe por vós quem por vós desce.
Quem tudo por vós perde, tudo ganha,
Pois tudo quanto há, tudo em vós cabe.
Ditoso quem no vosso amor se inflama,
Pois faz troca tão alta e tão estranha.
Mas só vos pode amar o que vos sabe,
Só vos pode saber o que vos ama.
(1620/30-1688)
Palácio Pitti, Florença
O nome "barroco" (provavelmente derivado de barueco, a palavra espanhola que designava uma pérola de forma irregular) foi atribuído nos finais do XVIII e possuía alguma intenção pejorativa, uma vez que nessa altura este período era ainda considerado como a fase de decadência do renascimento. Só nos inícios do século XX este estilo é reconhecido como um dos mais importantes da história moderna.
Desenvolvida durante o século XVII, num ambiente dominado pelos progressos científicos, pela consolidação das grandes monarquias absolutistas, pelo movimento da contrarreforma da igreja católica e pela expansão protestante nos países nórdicos, a arte barroca prolongou-se pelo século XVIII em muitos países.
O estilo barroco nasceu em Itália, a partir das experiências maneiristas de finais do século XVI e expandiu-se rapidamente para outros países europeus, atingindo mais tarde as colónias espanholas e portuguesas da América Latina e da Ásia.
Apesar das diferentes interpretações que se verificaram nos diferentes países e regiões, determinadas por diferentes contextos políticos, religiosos e culturais, este estilo apresentou algumas características comuns, como a tendência para a representação realista, a procura do movimento e do infinito, a importância cenográfica dos contrastes luminosos, o gosto pelo teatral, a tentativa de integração das diferentes disciplinas artísticas.
Durante o período barroco, duas tipologias protagonizaram as pesquisas formais e construtivas: o palácio e a igreja.
Os arquitetos barrocos entendiam o edifício de forma integrada, como se fosse uma grande escultura, única e indivisível. A sua forma era ditada por complexos traçados geométricos (muitas vezes baseados em formas curvas e em ovais) que imprimiam qualidades dinâmicas aos espaços e às fachadas. Paralelamente abandonaram-se os rígidos esquemas compositivos baseados nas ordens clássicas.
A pequena igreja de
San Carlo alle Quatro Fontane, projeta em 1665 por
Borromini, constituiu um dos mais notáveis edifícios construídos neste período pela extrema complexidade e dinâmica da planta, pela total subversão das regras tradicionais e pela forma ondulante das paredes.
Fora de Roma, destaque para a
igreja de Santa Maria della Salute, de Veneza, projetada por
Baldassarre Longhena e para os trabalhos de
Guarino Guarini, de inspiração borrominiana, como a
Capella della Santa Sindone, em Turim.
O
Barroco francês assumiu características simultaneamente mais monumentais e clássicas. O seu afastamento relativamente à estética italiana foi afirmado com recusa do projeto de Bernini para a ampliação do Louvre. Este estilo encontrou a sua máxima expressão no
Palácio de Versalhes uma residência real construída nos arredores de Paris por
Luís XIV, projetada pelo arquiteto
Louis Le Vau e pelo arquiteto
paisagista e jardineiro
André Le Nôtre, que integra um vasto palácio e um enorme jardim estruturado por longos eixos e pontuado por estátuas, fontes e um enorme canal.
As guerras na Alemanha e a invasão Turca da Áustria condicionaram grandemente a introdução do estilo barroco nestes países. Por esta razão, o Barroco alemão e austríaco foi desenvolvido mais tardiamente e, embora se fundamente em modelos italianos, a sua exuberância decorativa denuncia conceitos já próximos do
estilo rococó.
- Artes plásticas e decorativas
The work has been described as "...a shining example of the 'golden age' of
Baroque painting."
No campo pictórico assistiu-se, neste período, para além da transformação estilística, ao alargamento dos géneros e das próprias dimensões da pintura, de forma a integrar organicamente os espaços arquitetónicos. Esta pintura em trompe l'oeil, aplicada em paredes e tetos constituiu uma das mais originais contribuições do Barroco.
O mais influente pintor deste período foi o italiano Caravaggio, famoso pelas pinturas religiosas nas quais os contrastes entre a luz e sombra na modelação dos corpos e dos espaços introduz uma atmosfera dramática de intensa espiritualidade.
A pintura barroca flamenga afirmou-se através do trabalhos de dois artistas, bastante diferentes entre si:
Peter Paul Rubens, autor de uma pintura vigorosa, sensual e teatral, e
Rembrandt, pintor mais introvertido, executou inúmeros autorretratos inspirados na linguagem intensa e dramática de
Caravaggio.
Vários países aderiram ao movimento na Europa. Referimos as designações que o classificaram a partir de obras literárias:
- na Inglaterra foi designado
eufuísmo (da obra
Euphues de
John Lyly, incluindo-se
Milton na literatura e
Haendel - compositor alemão que se radicou nas Ilhas Britânicas - na música);
- na França,
Molière desvia-se dos grandes clássicos, como
Corneille,
Racine,
Boileau,
Bossuet, e ridiculariza a vida de salão, as
"preciosas ridículas", em
Sabichonas, e o movimento surge com o nome de
preciosismo;
- Portugal adere, também, como podemos ver em
Lampadário de Cristal de
Jerónimo Baía, superlativando o real quotidiano, e aceita o nome que a Espanha dera ao movimento. Acentua-se o emprego dos recursos estilísticos, nomeadamente metáforas, paronímias, hipérbatos, comparações, anáforas, hipérboles, antíteses, assíndetos, catacreses, pleonasmos, perífrases, trocadilhos, a assimetria, o geometrismo, o predomínio da ordem imaginativa sobre a lógica, os conceitos com o seu engenho e agudeza com vista à novidade e ao inusitado. Entre outros, refira-se o soneto de
Jerónimo Baía no qual cada verso é composto de duas metades que formam um todo, afirmando o geometrismo formal.
Este movimento que, no século XVII, entre nós, floresceu em pleno nas várias artes, na poesia em vários poetas, com especial relevo em
Rodrigues Lobo e
D. Francisco Manuel de Melo, entra em declínio no século XVIII, dando origem ao
estilo rococó, o mesmo acontecendo na literatura brasileira, que desperta no século XVII com marcas do Barroco de escritores portugueses e espanhóis.
Entre nós,
A Arte Poética de
Francisco José Freire, em 1739, é o primeiro grande golpe dado no seiscentismo; depois, é a publicação do
Verdadeiro Método de Estudar de
Luís António Verney em 1746 e, por último, a fundação da
Arcádia Ulissiponense em 1756.
Barroco. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-04].