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segunda-feira, 4 de maio de 2026

"Lagoa" - Poema de Carlito Azevedo



Berthe Morisot (French painter, 1841–1895), 'Young Girl with a Cat', 1892,
oil on canvas 55 x 46 cm, Private Collection.
 

Lagoa


Tendo às costas 
(como asas pensas que a tarde 
abre e fecha) o dorso cobreado da 
montanha e os reflexos de cobre da lagoa, 
a menina com o gato traduz, à mais que perfeição, 
os veios profundos, invisíveis e subterrâneos, 
a nos unir a quem amamos, e quando ele lhe 
estira sobre o colo as patas ponteadas, 
ela, para não acordá-lo, até seu 
olhar põe na ponta dos pés.
 

Carlito Azevedo
 (n. 1961),
 in 'Sob a noite física: poemas'.
Rio de Janeiro, Sette Letras, 1997. 
 

terça-feira, 24 de setembro de 2024

"É ela! É ela!" - Poema de Álvares de Azevedo

 

Berthe Morisot (French painter, 1841–1895), Peasant Hanging out the Washing, 1881.
 


É ela! É ela! 

 
 É ela! é ela! — murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura —
a minha lavadeira na janela.

Dessas águas furtadas onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido,
nas telhas que estalavam nos meus passos,
ir espiar seu venturoso sono,
vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
um bilhete que estava ali metido...

Oh! decerto... (pensei) é doce página
onde a alma derramou gentis amores;
são versos dela... que amanhã decerto
ela me enviará cheios de flores...

Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
eu beijei-a a tremer de devaneio...

É ela! é ela! — repeti tremendo;
mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!

Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas,
Se achou-a assim tão bela... eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!

É ela! é ela, meu amor, minh'alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou — é ela!
(Antologia poética, 1853), 2ª Parte.
 

sábado, 10 de abril de 2021

"Do seu longínquo reino cor-de-rosa" - Poema de Fernando Pessoa



Berthe Morisot (French painter, 1841–1895), The Cradle, 1872, Musée d'Orsay.


Do seu longínquo reino cor-de-rosa
 

Do seu longínquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e, cobrindo
Seu corpo todo, a tornam misteriosa.

À criança que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia —
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia.

E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam,
E palhaços que tocam em rabecas...

E há figuras pequenas e engraçadas
Que brincam e dão saltos e passadas...
Mas vem o dia, e, leve e graciosa,
Pé ante pé, volta a melhor das fadas
Ao seu longínquo reino cor-de-rosa. 

1932

Fernando Pessoa
, 
Poesias Inéditas, 1930-1935.
 

 
Mary Cassatt (American painter, 1844
1926), 
Susan Comforting the Baby No. 1, c. 1881.


Criança, era outro...
 
Criança, era outro...
Naquele em que me tornei
Cresci e esqueci.
Tenho de meu, agora, um silêncio, uma lei.
Ganhei ou perdi? 

s.d.

Fernando Pessoa,
Poesias Inéditas, 1930-1935.


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

"Passa uma borboleta por diante de mim" - Poema de Alberto Caeiro



Berthe Morisot (French painter, 1841–1895), 'La Chasse aux Papillons', 1874,
Musée d'Orsay.



Passa uma borboleta por diante de mim


Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XL" 
Heterónimo de Fernando Pessoa
 



Berthe Morisot, 'Eugène Manet on the Isle of Wight', 1875,
Musée Marmottan Monet


"É erro vulgar confundir o desejar com o querer. O desejo mede os obstáculos; a vontade vence-os."

Alexandre Herculano,
'História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal', 1854–1859
 
[Em 1846 Alexandre Herculano publica o primeiro livro da sua História de Portugal e até 1853 seguem-se-lhe mais três volumes. Em 1850 interrompe este trabalho e a sua atenção dirige-se então para um dos mais importantes particularismos da história de Portugal - a nossa política de intolerância religiosa – e, em 1854, publica o primeiro volume da Historia da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal. Uma importante análise que trata do aparecimento do sistema inquisitorial, na Europa e entre nós, acompanha a situação dos judeus em Portugal e observa as relações que se estabelecem entre a Inquisição e o poder político, especialmente durante os séculos XV e XVI, nomeadamente até ao reinado de  D. João III.] (daqui)
 

terça-feira, 9 de maio de 2017

"Mendel" - Poema de Jorge de Sousa Braga



Berthe Morisot (French painter, 1841–1895), The Lesson in the Garden, 1886


Mendel


Ao contrário dos monges beneditinos,
Que ficaram a meditar nas suas celas,
Ele gostava de meditar entre os pepinos,
Os bróculos, as favas e as beringelas.

E foi num momento de meditação
Entre ervilhas de casca lisa e rugosa,
Que descobriu por que é que os teus olhos
São castanhos e não azuis ou cor-de-rosa.


Jorge de Sousa Braga


Jorge de Sousa Braga (daqui)


Poetatradutor e médico português, Jorge de Sousa Braga  nasceu a 23 de dezembro de 1957, em Cervães, no concelho de Vila Verde. Após ter completado os estudos básicos e liceais em Viana do Castelo e em Braga, ingressou na faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Concluiu o curso em 1981, tendo-se especializado em Obstetrícia/Ginecologia, e iniciou a sua carreira profissional no Hospital de Santo António, no Porto. Já casado e pai de dois filhos, dedicou-se posteriormente ao estudo e à consulta de casos de esterilidade/infertilidade. 
Desde muito cedo sentiu-se impelido para a poesia - tinha apenas oito anos quando escreveu o seu primeiro poema, uma espécie de homenagem ao então futebolista Eusébio, um dos seus ídolos de infância e representante, na altura, do Sport Lisboa e Benfica, clube de que sempre foi adepto. Seria, no entanto, a partir dos 14 anos que o autor começaria a escrever consciente de que a poesia começara já a fazer parte, de forma intrínseca, da sua vida. 

Jorge de Sousa Braga pertence à geração dos poetas da pós-revolução, revelando uma habilidade inata na construção poética, que, embora fecunda em cadências vivas, não se submete à rigidez de um esquema métrico. Na sua escrita destacam-se expressões simples e quotidianas, revestidas de um profundo sentimento de ternura - por vezes também de desalento - combinadas com notas de acentuada ironia ou de intensa sensualidade/intimidade. É notória, em toda a sua produção literária, uma instintiva aproximação aos elementos da Natureza.

Leitor impulsivo de poesia, o seu trabalho como autor manifesta-se também nas várias traduções que tem feito, assim como nas antologias de que é responsável, considerando-as como o resultado de um apaixonante exercício de transmutação. 

Frequentemente convidado para participar em eventos de índole cultural e/ou literária, apresenta, na sua bibliografia de originais, os seguintes títulos: De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu , Fenda, 1981; Plano para salvar Veneza , Fenda, 1981; A greve dos controladores do voo , Fenda, 1984;  Boca do Inferno, Gota de Água, 1987; Os pés luminosos, Centelha, 1987; Fogosobre fogo, Fenda, 1998; O poeta nu (poemas reunidos), Fenda, 1991 e 1999; Herbário, Assírio e Alvim, 1999, distinguido com o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura Infantil; Balas de pólen (antologia), Quasi Edições, 2001; A ferida aberta, Assírio e Alvim, 2001; Pó de estrelas, Assírio e Alvim, 2004; Porto de abrigo, Assírio e Alvim, 2005. 

Relativamente a versões e antologias, destacam-se: Museu e outros poemas, Fenda, 1982; Filhos da neve (em colab.), de Leonard Cohen, Assírio e Alvim, 1985; O bosque sagrado (em colab.), Gota de Água, 1986; O gosto solitário do orvalho, de Matsuo Bashô, Assírio e Alvim, 1986; Sono de Primavera (poemas chineses), Litoral, 1987; O caminho estreito…, de Matsuo Bashô, Fenda, 1987 e 1995; O século das nuvens, de Guillaume Apollinaire, Hiena Editora, 1987; Ovinho e as rosas, Assírio e Alvim, 1995; A religião do girassol, Assírio e Alvim, 2000; Poemas com asas, Assírio e Alvim, 2001; Primeira neve, Assírio e Alvim, 2002; Qual é a minha ou a tua língua, Assírio e Alvim, 2003; Os cinquenta poemas do amor furtivo e outros poemas eróticos da Índia antiga, Assírio e Alvim, 2004; Animal Animal - um bestiário poético, Assírio e Alvim, 2005.  (daqui)

quinta-feira, 18 de junho de 2015

"Meditação" - Poema de Fernanda de Castro


Berthe MorisotPortrait de Mme Morisot et de sa fille Mme Pontillon ou La lecture
 (The Mother and Sister of the Artist - Marie-Joséphine & Edma) 1869/70


Meditação


Esta noite foi longa. Longa e vária
de segredo e mistério. Noite densa.
Invisível, tirânica presença
povoou a minha noite solitária.

Ah, a insónia com longas mãos de opala
e fundos olhos cegos!
E o pensamento à solta como o vento
- montes e vales, oceanos, pegos!...
e a cabeça que estala,
a cabeça que estala!

Pensar! Como se o humano entendimento
para tanto chegasse! Meditar
em sofás de ridículas saletas
no sábio movimento dos planetas.
Filosofar, oh irrisão,
enquanto mal ou bem
se faz a digestão,
sobre a morte, o devir,
o mistério do ser e do não ser,
e tudo isto a sério, sem sorrir,
como se enfim tudo estivesse dito:
o Caos, a Criação, Deus e o Infinito.
E nem sequer escondes por decoro,
triste mortal com asas de besouro,
ó depenado arcanjo,
que te crês Deus ou pelo menos anjo. 

Esta noite foi longa. Longa em mim,
auroral e lunar, sem princípio nem fim.
Meditação
inútil sobre as grades da prisão.
Meditação sobre a existência,
(Existirá ou não?,
ou será tudo simples aparência,
coletiva ilusão?)

Esta noite foi longa. Longa e bela,
calma e branca vigília.
Um fio de luar entrou pela janela
e um doce cheiro a tília.
Abstrações metafísicas, problemas?
O firmamento era um brocado azul bordado a ouro,
fabuloso tesouro
de incomparáveis gemas.
Tudo era silêncio, quietação.
Compreendi então
que o essencial não era compreender
mas sentir e aceitar
a vida e a morte, o bem e o mal,
a flor, o luar
e a ignorância total.
Não mais filosofias de vaidoso esteta
e não mais este orgulho: sou poeta.
Razão
tem-na, talvez, o louco sem razão,
tem-na o monge na cela,
o cego de nascença, a pedra, o sapo,
a boneca de trapo.
O mais é tudo igual: poetas, corifeus...

Esta noite foi longa. Longa e bela.
Encontrei Deus.


Fernanda de Castro, in "Exílio", 1952.
 

terça-feira, 9 de junho de 2015

"A alegria dos pés na terra molhada" - Poema de Casimiro de Brito



Berthe Morisot (French painter and printmaker, 1841–1895),
Eugene Manet and His Daughter in the Garden, 1883.
 

A alegria dos pés na terra molhada

 
Quando as palavras se deixam possuir
como se fossem raízes e ossos leves que trepam
à montanha
ouço a infância, o som do berlinde, a flauta
do anjo anunciador da chuva
e a formiga da mãe a enxotar-me
para a escola onde aprendi
a ler no quadro da janela
as metamorfoses do céu. A poesia escreve-se
copiando os mestres, imitando mal
as fontes naturais: as patas
da água
descendo pela serra; a melopeia silenciosa
do azeite; a boca do vento 
nas telhas da velha casa 
do monte; a chama interior
dos cavalos
e dos cães da família: de manhã
pela mão do avô
eu partia de visita às árvores
e aos pássaros — esta é uma cerejeira, aquela,
a dona nogueira, olha
um picanço! a que parece muito cansada
é a figueira, Vamos comer um? O avô
pegava nele como se fosse um animalzinho
acabado de nascer, um pássaro com pétalas e já morto
na boca sedenta e logo
saciada. Um figo é uma
dádiva do sol e da terra e da nossa
humilde fome, e tudo são figos, ah não comas,
não comas nunca nada
sem fome. Ouço — 
aprendi nesses dias a ouvir
o melhor da infância: água
na língua
quando a morte é gémea e se
aproxima.





O que o vento não levou


"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: um estribilho antigo, um carinho no momento preciso, o folhear de um livro, o cheiro que tinha um dia o próprio vento..."

in "A cor do Invisível", 1989, p. 153.

domingo, 7 de junho de 2015

"Tecendo a Manhã" - Poema de João Cabral de Melo Neto



Berthe Morisot (French painter and printmaker, 1841–1895),
'The Cherry Tree', 1891, Musée Marmottan Monet.


Tecendo a Manhã


Um galo sozinho não tece uma manhã: 
ele precisará sempre de outros galos. 
De um que apanhe esse grito que ele 
e o lance a outro; de um outro galo 
que apanhe o grito de um galo antes 
e o lance a outro; e de outros galos 
que com muitos outros galos se cruzem 
os fios de sol de seus gritos de galo, 
para que a manhã, desde uma teia ténue, 
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos, 
se erguendo tenda, onde entrem todos, 
se entretendendo para todos, no toldo 
(a manhã) que plana livre de armação. 
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo 
que, tecido, se eleva por si: luz balão. 


in "A educação pela pedra", 1966.


Berthe Morisot'The Cherry Tree' (study), 1891, watercolor.
 

Berthe Morisot, 'The Cherry Tree', 1891Private collection.


"Eis a natureza que te convida e te ama; mergulha no seu seio que ela constantemente te oferece."

(Alphonse de Lamartine)
 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

"Sejamos Alegres" - Texto de Clarice Lispector



Berthe Morisot (French painter and printmaker, 1841–1895), Summer Day, 1879,
 

Sejamos Alegres


Denuncio nossa fraqueza, denuncio o horror alucinante de morrer — e respondo a toda essa infâmia com — exatamente isto que vai agora ficar escrito — e respondo a toda essa infâmia com a alegria. Puríssima e levíssima alegria. A minha única salvação é a alegria. Uma alegria atonal dentro do it essencial. Não faz sentido? Pois tem que fazer. Porque é cruel demais saber que a vida é única e que não temos como garantia senão a fé em trevas — porque é cruel demais, então respondo com a pureza de uma alegria indomável. Recuso-me a ficar triste. Sejamos alegres. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade. Eu estou — apesar de tudo oh apesar de tudo — estou sendo alegre neste instante já, que passa se eu não fixá-lo com palavras. Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como resposta. Amor impessoal, amor it, é alegria: mesmo o amor que não dá certo, mesmo o amor que termina. E a minha própria morte e a dos que amamos tem que ser alegre, não sei ainda como, mas tem que ser. Viver é isto: a alegria do it. E conformar-me não como vencida mas num allegro com brio.

Clarice Lispector, in 'Água Viva'


Berthe Morisot, Winter aka Woman with a Muff, 1880, 
 Dallas Museum of Arts


“As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.”



Berthe Morisot, The Bath (Girl Arranging Her Hair), c. 1885-1886,
 Williamstown, Massachusetts


“Ignore, supere, esqueça. Mas jamais pense em desistir de você por causa de alguém.” 


Berthe Morisot, Child among the Hollyhocks, 1881, 
Wallraf-Richartz Museum, Cologne.


“A virtude da vida não está em fazer aquilo que se gosta, e sim gostar daquilo que se faz. Por isso seja forte, não como as ondas que tudo destrói, mas como as pedras que tudo suporta!” 

(Clarice Lispector)

"Prince Charmant" - Poema de Florbela Espanca



Berthe Morisot (French painter and printmaker, 1841–1895),
 
Julie Manet et son Lévrier Laerte, 1893, Musée Marmottan Monet.


Prince Charmant


No lânguido esmaecer das amorosas 
Tardes que morrem voluptuosamente 
Procurei-o no meio de toda a gente. 
Procurei-o em horas silenciosas 

Das noites da minh′alma tenebrosas! 
Boca sangrando beijos, flor que sente... 
Olhos postos num sonho, humildemente... 
Mãos cheias de violetas e de rosas... 

E nunca o encontrei!... Prince Charmant 
Como audaz cavaleiro em velhas lendas 
Virá, talvez, nas névoas da manhã! 

Ah! Toda a nossa vida anda a quimera 
Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas... 
- Nunca se encontra aquele que se espera!... 


in Livro de Sóror Saudade, 1923. 


Keen'V " Prince Charmant " - Clip Officiel



"Não costumo acreditar muito nos sonhos... porque de todos se acorda."

Florbela Espanca, Correspondência, 1930


 

Berthe Morisot (Bourges, Cher, 14 de janeiro de 1841 — Paris, 2 de março de 1895) foi uma pintora impressionista francesa. 
Iniciou a sua formação com os mestres Chocarne-Moreau e Guichard e prosseguiu sob a tutela do pintor Corot. Também teve aulas de escultura com Millet
No ano de 1863 começou a pintar ao ar livre em Pontoise, onde conheceu os pintores Daubigny e Daumier. A esse período de intensa aprendizagem seguiram-se viagens pela Espanha e Inglaterra. 
Depois de conhecer Manet, posou para ele como modelo e apaixonou-se por Eugênio, irmão do pintor, com quem se casou. 
Depois de participar da primeira exposição dos impressionistas, em 1874, a pintora iniciou uma série de viagens de estudo pela Itália, Países Baixos e Bélgica. 
Suas obras foram apresentadas em 1886 em Nova Iorque, e um ano mais tarde na Exposição Internacional de Paris. 
A obra de Berthe Morisot representa uma reflexão afirmativa da obra de Manet, embora com pinceladas mais longas e suaves, com tendência para a verticalização, numa tentativa de organizar a composição.
 

Berthe Morisot, Grain field, Musée d'Orsay.


Berthe Morisot, The Harbor at Lorient, 1869,  


Berthe Morisot, On the Balcony, New York, 1872.


Berthe Morisot, Reading, 1873, Cleveland Museum of Art.
 

Berthe Morisot, Hanging the Laundry out to Dry, 1875, 
 

Berthe Morisot, Lady at her Toilette, 1875, The Art Institute of Chicago.
 

Berthe Morisot, The Dining Room, c.1875, National Gallery of Art, Washington, DC.