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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

"Passa uma borboleta por diante de mim" - Poema de Alberto Caeiro


Berthe Morisot (1841–1895), La Chasse aux Papillons, 1874Museu de Orsay



Passa uma borboleta por diante de mim 


Passa uma borboleta por diante de mim 
E pela primeira vez no Universo eu reparo 
Que as borboletas não têm cor nem movimento, 
Assim como as flores não têm perfume nem cor. 
A cor é que tem cor nas asas da borboleta, 
No movimento da borboleta o movimento é que se move, 
O perfume é que tem perfume no perfume da flor. 
A borboleta é apenas borboleta 
E a flor é apenas flor. 


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XL" 
Heterónimo de Fernando Pessoa





"É erro vulgar confundir o desejar com o querer. O desejo mede os obstáculos; a vontade vence-os." 



terça-feira, 9 de maio de 2017

"Mendel" - Poema de Jorge de Sousa Braga

Ao contrário dos monges beneditinos,
Que ficaram a meditar nas suas celas,
Ele gostava de meditar entre os pepinos,
Os bróculos, as favas e as beringelas.

E foi num momento de meditação
Entre ervilhas de casca lisa e rugosa,
Que descobriu por que é que os teus olhos
São castanhos e não azuis ou cor-de-rosa.


Jorge de Sousa Braga



Jorge de Sousa Braga (Daqui)


Poetatradutor e médico portuguêsJorge de Sousa Braga  nasceu a 23 de dezembro de 1957, em Cervães, no concelho de Vila Verde. Após ter completado os estudos básicos e liceais em Viana do Castelo e em Braga, ingressou na faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Concluiu o curso em 1981, tendo-se especializado em Obstetrícia/Ginecologia, e iniciou a sua carreira profissional no Hospital de Santo António, no Porto. Já casado e pai de dois filhos, dedicou-se posteriormente ao estudo e à consulta de casos de esterilidade/infertilidade. 
Desde muito cedo sentiu-se impelido para a poesia - tinha apenas oito anos quando escreveu o seu primeiro poema, uma espécie de homenagem ao então futebolista Eusébio, um dos seus ídolos de infância e representante, na altura, do Sport Lisboa e Benfica, clube de que sempre foi adepto. Seria, no entanto, a partir dos 14 anos que o autor começaria a escrever consciente de que a poesia começara já a fazer parte, de forma intrínseca, da sua vida. 

Jorge de Sousa Braga pertence à geração dos poetas da pós-revolução, revelando uma habilidade inata na construção poética, que, embora fecunda em cadências vivas, não se submete à rigidez de um esquema métrico. Na sua escrita destacam-se expressões simples e quotidianas, revestidas de um profundo sentimento de ternura - por vezes também de desalento - combinadas com notas de acentuada ironia ou de intensa sensualidade/intimidade. É notória, em toda a sua produção literária, uma instintiva aproximação aos elementos da Natureza.

Leitor impulsivo de poesia, o seu trabalho como autor manifesta-se também nas várias traduções que tem feito, assim como nas antologias de que é responsável, considerando-as como o resultado de um apaixonante exercício de transmutação. 

Frequentemente convidado para participar em eventos de índole cultural e/ou literária, apresenta, na sua bibliografia de originais, os seguintes títulos: De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu , Fenda, 1981; Plano para salvar Veneza , Fenda, 1981; A greve dos controladores do voo , Fenda, 1984;  Boca do Inferno, Gota de Água, 1987; Os pés luminosos, Centelha, 1987; Fogosobre fogo, Fenda, 1998; O poeta nu (poemas reunidos), Fenda, 1991 e 1999; Herbário, Assírio e Alvim, 1999, distinguido com o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura Infantil; Balas de pólen (antologia), Quasi Edições, 2001; A ferida aberta, Assírio e Alvim, 2001; Pó de estrelas, Assírio e Alvim, 2004; Porto de abrigo, Assírio e Alvim, 2005. 

Relativamente a versões e antologias, destacam-se: Museu e outros poemas, Fenda, 1982; Filhos da neve (em colab.), de Leonard Cohen, Assírio e Alvim, 1985; O bosque sagrado (em colab.), Gota de Água, 1986; O gosto solitário do orvalho, de Matsuo Bashô, Assírio e Alvim, 1986; Sono de Primavera (poemas chineses), Litoral, 1987; O caminho estreito…, de Matsuo Bashô, Fenda, 1987 e 1995; O século das nuvens, de Guillaume Apollinaire, Hiena Editora, 1987; Ovinho e as rosas, Assírio e Alvim, 1995; A religião do girassol, Assírio e Alvim, 2000; Poemas com asas, Assírio e Alvim, 2001; Primeira neve, Assírio e Alvim, 2002; Qual é a minha ou a tua língua, Assírio e Alvim, 2003; Os cinquenta poemas do amor furtivo e outros poemas eróticos da Índia antiga, Assírio e Alvim, 2004; Animal Animal - um bestiário poético, Assírio e Alvim, 2005.  (Daqui)


quinta-feira, 18 de junho de 2015

"Meditação" - poema de Fernanda de Castro


Berthe MorisotPortrait de Mme Morisot et de sa fille Mme Pontillon ou La lecture
 (The Mother and Sister of the Artist - Marie-Joséphine & Edma) 1869/70




Meditação


Esta noite foi longa. Longa e vária
de segredo e mistério. Noite densa.
Invisível, tirânica presença
povoou a minha noite solitária.

Ah, a insónia com longas mãos de opala
e fundos olhos cegos!
E o pensamento à solta como o vento
- montes e vales, oceanos, pegos!...
e a cabeça que estala,
a cabeça que estala!

Pensar! Como se o humano entendimento
para tanto chegasse! Meditar
em sofás de ridículas saletas
no sábio movimento dos planetas.
Filosofar, oh irrisão,
enquanto mal ou bem
se faz a digestão,
sobre a morte, o devir,
o mistério do ser e do não ser,
e tudo isto a sério, sem sorrir,
como se enfim tudo estivesse dito:
o Caos, a Criação, Deus e o Infinito.
E nem sequer escondes por decoro,
triste mortal com asas de besouro,
ó depenado arcanjo,
que te crês Deus ou pelo menos anjo.

Esta noite foi longa. Longa em mim,
auroral e lunar, sem princípio nem fim.
Meditação
inútil sobre as grades da prisão.
Meditação sobre a existência,
(Existirá ou não?,
ou será tudo simples aparência,
coletiva ilusão?)

Esta noite foi longa. Longa e bela,
calma e branca vigília. 
Um fio de luar entrou pela janela
e um doce cheiro a tília.
Abstrações metafísicas, problemas?
O firmamento era um brocado azul bordado a ouro,
fabuloso tesouro
de incomparáveis gemas.
Tudo era silêncio, quietação.
Compreendi então
que o essencial não era compreender
mas sentir e aceitar
a vida e a morte, o bem e o mal,
a flor, o luar
e a ignorância total.
Não mais filosofias de vaidoso esteta
e não mais este orgulho: sou poeta.
Razão
tem-na, talvez, o louco sem razão,
tem-na o monge na cela,
o cego de nascença, a pedra, o sapo,
a boneca de trapo.
O mais é tudo igual: poetas, corifeus...

Esta noite foi longa. Longa e bela.
Encontrei Deus. 


Exílio (1952)

terça-feira, 9 de junho de 2015

"A Alegria dos Pés na Terra Molhada" - poema de Casimiro de Brito


Berthe Morisot (1841–1895), Eugene Manet and His Daughter in the Garden, 1883 




A Alegria dos Pés na Terra Molhada


Quando as palavras se deixam possuir
como se fossem raízes e ossos leves que trepam
à montanha
ouço a infância, o som do berlinde, a flauta
do anjo anunciador da chuva
e a formiga da mãe a enxotar-me
para a escola onde aprendi
a ler no quadro da janela
as metamorfoses do céu. A poesia escreve-se
copiando os mestres, imitando mal
as fontes naturais: as patas
da água
descendo pela serra; a melopeia silenciosa
do azeite; a boca do vento 
nas telhas da velha casa 
do monte; a chama interior
dos cavalos
e dos cães da família: de manhã
pela mão do avô
eu partia de visita às árvores
e aos pássaros — esta é uma cerejeira, aquela,
a dona nogueira, olha
um picanço! a que parece muito cansada
é a figueira, Vamos comer um? O avô
pegava nele como se fosse um animalzinho
acabado de nascer, um pássaro com pétalas e já morto
na boca sedenta e logo
saciada. Um figo é uma
dádiva do sol e da terra e da nossa
humilde fome, e tudo são figos, ah não comas,
não comas nunca nada
sem fome. Ouço — 
aprendi nesses dias a ouvir
o melhor da infância: água
na língua
quando a morte é gémea e se
aproxima.








O QUE O VENTO NÃO LEVOU


"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: um estribilho antigo, um carinho no momento preciso, o folhear de um livro, o cheiro que tinha um dia o próprio vento..."


In "A cor do Invisível", 1989, p. 153

domingo, 7 de junho de 2015

"Tecendo a Manhã" - poema de João Cabral de Melo Neto


Berthe Morisot, The Cherry Tree, 1891, Musée Marmottan Monet



Tecendo a Manhã


1

Um galo sozinho não tece uma manhã: 
ele precisará sempre de outros galos. 
De um que apanhe esse grito que ele 
e o lance a outro; de um outro galo 
que apanhe o grito de um galo antes 
e o lance a outro; e de outros galos 
que com muitos outros galos se cruzem 
os fios de sol de seus gritos de galo, 
para que a manhã, desde uma teia tênue, 
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos, 
se erguendo tenda, onde entrem todos, 
se entretendendo para todos, no toldo 
(a manhã) que plana livre de armação. 
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo 
que, tecido, se eleva por si: luz balão. 






Berthe MorisotThe Cherry Tree (study), 1891, Technique: watercolor



"Eis a natureza que te convida e te ama; mergulha no seu seio que ela constantemente te oferece." 





Berthe Morisot, The Cherry Tree, 1891, Private collection


"Admiramos o mundo através do que amamos." 




sexta-feira, 25 de abril de 2014

"Sejamos Alegres" - Texto de Clarice Lispector


Berthe MorisotSummer Day, 1879, National Gallery, London  



Sejamos Alegres


Denuncio nossa fraqueza, denuncio o horror alucinante de morrer — e respondo a toda essa infâmia com — exatamente isto que vai agora ficar escrito — e respondo a toda essa infâmia com a alegria. Puríssima e levíssima alegria. A minha única salvação é a alegria. Uma alegria atonal dentro do it essencial. Não faz sentido? Pois tem que fazer. Porque é cruel demais saber que a vida é única e que não temos como garantia senão a fé em trevas — porque é cruel demais, então respondo com a pureza de uma alegria indomável. Recuso-me a ficar triste. Sejamos alegres. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade. Eu estou — apesar de tudo oh apesar de tudo — estou sendo alegre neste instante já, que passa se eu não fixá-lo com palavras. Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como resposta. Amor impessoal, amor it, é alegria: mesmo o amor que não dá certo, mesmo o amor que termina. E a minha própria morte e a dos que amamos tem que ser alegre, não sei ainda como, mas tem que ser. Viver é isto: a alegria do it. E conformar-me não como vencida mas num allegro com brio.

Clarice Lispector, in 'Água Viva'



Berthe Morisot, Winter aka Woman with a Muff, 1880, Dallas Museum of Arts


“As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.”

(Clarice Lispector)


Berthe Morisot, The Bath (Girl Arranging Her Hair),1885-86,
“Ignore, supere, esqueça. Mas jamais pense em desistir de você por causa de alguém.”

(Clarice Lispector)


Berthe Morisot, Child among the Hollyhocks, 1881, 
“A virtude da vida não está em fazer aquilo que se gosta, e sim gostar daquilo que se faz. Por isso seja forte, não como as ondas que tudo destrói, mas como as pedras que tudo suporta!”
 
(Clarice Lispector)


"Prince Charmant" - Poema de Florbela Espanca


Berthe Morisot, Julie Manet et son Lévrier Laerte, 1893



Prince Charmant


No lânguido esmaecer das amorosas 
Tardes que morrem voluptuosamente 
Procurei-o no meio de toda a gente. 
Procurei-o em horas silenciosas 

Das noites da minh′alma tenebrosas! 
Boca sangrando beijos, flor que sente... 
Olhos postos num sonho, humildemente... 
Mãos cheias de violetas e de rosas... 

E nunca o encontrei!... Prince Charmant 
Como audaz cavaleiro em velhas lendas 
Virá, talvez, nas névoas da manhã! 

Ah! Toda a nossa vida anda a quimera 
Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas... 
- Nunca se encontra aquele que se espera!... 


In Livro de Sóror Saudade, 1923 



Keen'V " Prince Charmant " - Clip Officiel



"Não costumo acreditar muito nos sonhos... porque de todos se acorda." 

Florbela Espanca, Correspondência (1930)



Berthe Morisot com um bouquet de violetas, por Edouard Manet, 1872.


Berthe Morisot (Bourges, Cher, 14 de janeiro de 1841 — Paris, 2 de março de 1895) foi uma pintora impressionista francesa.
Iniciou a sua formação com os mestres Chocarne-Moreau e Guichard e prosseguiu sob a tutela do pintor Corot. Também teve aulas de escultura com Millet. No ano de 1863 começou a pintar ao ar livre em Pontoise, onde conheceu os pintores Daubigny e Daumier. A esse período de intensa aprendizagem seguiram-se viagens pela Espanha e Inglaterra. Depois de conhecer Manet, posou para ele como modelo e apaixonou-se por Eugênio, irmão do pintor, com quem se casou. Depois de participar da primeira exposição dos impressionistas, em 1874, a pintora iniciou uma série de viagens de estudo pela Itália, Países Baixos e Bélgica. Suas obras foram apresentadas em 1886 em Nova Iorque, e um ano mais tarde na Exposição Internacional de Paris. A obra de Berthe Morisot representa uma reflexão afirmativa da obra de Manet, embora com pinceladas mais longas e suaves, com tendência para a verticalização, numa tentativa de organizar a composição.



Berthe Morisot, The Cradle, 1872, Musée d'Orsay


Berthe Morisot, Grain field, Musée d'Orsay.


Berthe Morisot, The Harbor at Lorient,1869, National Gallery of Art, Washington, DC 


Berthe Morisot, On the Balcony, New York, 1872


Berthe Morisot, Reading, Cleveland Museum of Art, 1873


Berthe Morisot, Hanging the Laundry out to Dry, National Gallery of Art, Washington, DC, 1875


Berthe Morisot, Lady at her Toilette, The Art Institute of Chicago, 1875


Berthe Morisot, The Dining Room, National Gallery of Art, Washington, DC c. 1875


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