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sábado, 9 de maio de 2026

"Complicação" - Poema de Mário Dionísio



André Derain (French artist, painter, sculptor and co-founder, with
Henri Matisse of Fauvism, 1880–1954), 'Le phare de Collioure', 1905,
Musée d'Art moderne de Paris.


Complicação


As ondas indo, as ondas vindo — as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.

Ah mas antes isso!

Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.

Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície. 
 

Mário Dionísio, in "Poemas", 1941.

 
 
André Derain, 'Bateaux au port de Collioure', 1905.
 


André Derain, 'Bateaux dans le port de Collioure' 
('Boats in the Harbor of Collioure'), 1905.

domingo, 19 de abril de 2026

"Rios sem discurso" - Poema de João Cabral de Melo Neto



André Derain (French artist, painter, sculptor and co-founder, with Henri Matisse,
of Fauvism, 1880–1954), The River – Georges Pompidou Center, Paris.


Rios sem discurso  
 
                                                              A Gabino-Alejandro Carriedo

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma;
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria. 

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.
in "A Educação pela Pedra", 1966.

 

André Derain, Le Port de Collioure, 1905. Musée d'Art moderne de Troyes.



"O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê."

(Frase atribuída ao filósofo e matemático Platão)
 
 
 
 André Derain, Fishing Boats, Collioure, 1905.
 

"A sabedoria consiste em ordenar bem a nossa própria alma." 

Platão, in "A República"
 
 
 
Walter Crane (English artist and book illustrator, 1845–1915), 
 "Plato meditating  on immortality before the grave of his teacher,
 Socrates, the butterfly, skull and poppy", 1884.

["Platão Meditando sobre a Imortalidade da Alma", ante uma caveira, borboleta e papoila na tumba de Sócrates (c. 470 a.C. – Atenas, 399 a.C.). Gravura do século XIX, alegadamente baseada em um intaglio em gema mais antigo.]

Platão

Um dos pensadores mais influentes de toda a história da filosofia, nasceu em Atenas cerca de 427 a. C.

Dando continuidade às preocupações de Sócrates, seu mestre, tentou ultrapassar o relativismo que resultava das doutrinas dos sofistas, incapazes de superar a antinomia entre ser e devir, tal como haviam sido enunciados por Parménides de Élea e Heraclito.

É o primeiro filósofo de cujas obras foi preservada uma parte significativa, o que permite reconstituir com grande fidedignidade as traves mestras do seu pensamento.

No núcleo do sistema platónico encontra-se a distinção radical entre o mundo sensível e o mundo inteligível, cada um deles com existência autónoma.

O primeiro corresponde ao mundo da corporeidade, contingente e corruptível, domínio da mudança, da diversidade e das aparências; o segundo é o mundo das essências ideais, imutáveis, necessárias e eternas, em suma, da permanência, da unidade e da Verdade universal.

Dotadas de uma existência objetiva independentemente de qualquer sujeito cognoscente, as essências ideais, ou Ideias, são para Platão os arquétipos (modelos) a partir dos quais foram formados - por «imitação», ou mimésis - todos os entes do mundo sensível. O agente dessa intervenção teria sido uma divindade (o demiurgo) que, dessa forma, fez transitar a physis (o mundo físico, a natureza) de um estado primordial de desordem (o caos) à ordem.

No âmbito gnosiológico, o dualismo idealista de Platão tem como consequência, do ponto de vista formal, a inoperância de todo o conhecimento empírico.
Este, de ordem indutiva e tomando por base as representações sensíveis, reporta-se apenas a uma realidade contingente e mutável, não podendo elevar o sujeito além da mera doxa (opinião).
 
Do ponto de vista material, por maioria de razão, o conhecimento que tem por objeto a physis é relegado para um plano subalterno em favor de todo o saber baseado na contemplação inteletiva dos puros conceitos, com especial incidência na matemática e na ética. Associando a unidade, a harmonia, a virtude e a sabedoria, tal como Sócrates, Platão coloca no topo da hierarquia das Ideias do mundo inteligível, enquanto elementos unificadores, as ideias de Uno, de Bem e de Belo.

Subsidiária da mesma arquitetónica dualista, a antropologia platónica considera a alma como essência do homem, vendo o corpo apenas como uma prisão que lhe limita todas as potencialidades. Participando dos atributos do inteligível, a alma é considerada imortal e originária do mundo das Ideias, pelo que a sua existência no mundo físico deve ser orientada para libertação de todas as solicitações materiais e sensuais através do uso da razão e da prática da virtude, visando atingir o saber da Verdade, num processo de ascese que lhe permita regressar ao mundo de plenitude a que genuinamente pertence.

Esse processo de ascese baseia-se no método que Platão designa como dialéctica e caracteriza-se pelo recurso ao diálogo e à discussão dos conceitos tendo em vista a respetiva consciencialização e esclarecimento, com a finalidade de facilitar a reminiscência (ou anamnese) - isto é, o relembrar - das Ideias que a alma havia contemplado aquando da sua permanência no mundo inteligível.

No que respeita ao pensamento político, Platão foi em grande parte influenciado pela sua ascendência e formação aristocráticas, atribuindo ao regime democrático, geralmente defendido pelos sofistas, a responsabilidade pela decadência de Atenas. Assim, a organização da cidade modelo que sugeriu deixa transparecer uma visão elitista ao gravitar em torno de uma triagem apertada dos cidadãos em que o lugar do indivíduo se esvai, cedendo perante a força do interesse comum ditado pelos «mais aptos».

O objetivo da seleção dos cidadãos seria a distribuição destes em três ordens, de acordo com o carácter que demonstrassem: à ordem dos governantes pertenceriam os sábios, que se deixam conduzir pela justiça, cabendo ao melhor dos quais, após um longo período de formação, o cargo de Filósofo-Rei, autoridade última da cidade; aqueles que se distinguissem pela coragem deveriam integrar a ordem dos guardiões, com a tarefa de zelar pela segurança interna e externa da cidade; os restantes, que se deixam dominar pelas coisas dos sentidos, fariam parte da ordem dos produtores, com a função de prover às necessidades materiais da cidade, cuidando da agricultura, da indústria e do comércio.

Para evitar qualquer elemento de conflitualidade e discórdia na cidade, Platão defende também quer a comunidade dos bens, quer a comunidade das mulheres e dos filhos. Além disso, propõe que todas as crianças deveriam ter uma educação comum para que o processo de seleção dos melhores pudesse decorrer com eficácia e sem desvios.

Platão morreu em 347 a. C. já com idade avançada, deixando, no entanto, um grande número de discípulos que reconheciam a fecundidade das suas teses.
A Academia que fundara em 385 a. C. para proporcionar formação a todos quantos o quisessem seguir sobreviveu quase mil anos até ter sido mandada encerrar por Justiniano I em 529 d. C. Porém, a perenidade do seu pensamento foi muito além dessa data, sendo ainda hoje reconhecido o seu legado como um dos mais marcantes para a génese da atual cultura ocidental.

Obras de Platão:
 
Classificação clássica em tetralogias, segundo Trasílio, da Corte de Tibério.

1.a tetralogia: Êutifron, Apologia de Sócrates, Críton, Fédon.
2.a tetralogia: Crátilo, Teeteto, Sofista, Político.
3.a tetralogia: Parménides, Filebo, Banquete (ou Simpósio), Fedro.
4.a tetralogia: I* e II* Alcibíades, Hiparco*, Rivais* (ou Anterastai).
5.a tetralogia: [Teágenes], Cármides, Laques, Lísias.
6.a tetralogia: Eutidemo, Protágoras, Górgias, Ménon.
7.a tetralogia: Hípias Menor, Hípias Maior*, Íon*, Menexeno.
8.a tetralogia: [Clitofonte], República, Timeu, Crítias.
9.a tetralogia: [Minos], Leis, [Definições], [Cartas ].

Todas as obras, com exceção da Apologia de Sócrates e das Cartas, foram redigidas em forma de diálogo.*
- Diálogos cuja autenticidade merece algumas dúvidas.
 
Entre [] - Obras quase unanimemente consideradas apócrifas (com exceção da Carta VII). (daqui)
 


André Derain, Le séchage des voiles (The Drying Sails), 1905, oil on canvas, 82×101 cm,
Pushkin Museum, Moscow. Exhibited at the 1905 Salon d'Automne.
 

quarta-feira, 25 de março de 2026

"As Fontes" - Poema de Sebastião da Gama

 


André Derain (Peintre, graveur, illustrateur, sculpteur et écrivain français, 1880–1954),
Mountains at Collioure,
1905, National Gallery of Art.


As Fontes


Havia fontes na montanha.
Mas estavam fechadas.
Ignoradas,...
beijavam só as veias da montanha.

Ora um dia
não sei que vento passou
que me ensinou
aquelas fontes que havia.

Eu tinha mãos e mocidade;
só não sabia pra quê.
Fez-se nesse momento claridade.

Rasguei o ventre dos montes
e fiz correr as fontes
à vontade.

Então
veio quem tinha sede e quem não tinha.
De todas as aldeias
vieram, cantando as moças
encher as bilhas.
E eu fui também cantando ao som das águas...

Cantavam as minhas mãos, cantavam as fontes.
Era um canto jucundo,
cheio de Sol.
Mas a meio da nota mais alegre
muita vez uma lágrima nascia.

(Ai quantos, quantos,
minha canção tornava mais conscientes
da sua melancolia
sem remédio!
Ai os que já perderam a coragem
de reclamar a sua conta de água!
Ai a mágoa
que lhes era meu hino!
Ai o insulto desumano
à sua melancolia!)

Era a meio do canto que surgia
seu travo amargo...

Mas a meu lado, as águas
iam matando a sede de quem vinha...


Sebastião da Gama (1924–1952) 



André Derain, View of Collioure, 1905.


"Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior com planícies invioláveis,
vales de silêncio e paraísos secretos."


Antoine de Saint-Exupéry
[Escritor, ilustrador e piloto francês (1900–1944), internacionalmente reconhecido pelo seu livro "O Principezinho"]
 
 
 
Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior com planícies invioláveis, vales de silêncio e paraísos secretos.” — Antoine de Saint-Exupéry

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/580719-antoine-de-saint-exupery-em-cada-um-de-nos-ha-um-segredo-uma-paisagem-inte/

terça-feira, 10 de março de 2026

"Ideia fortíssima" e "Os dois lados" - Poemas de Murilo Mendes


 
André Derain (Peintre, graveur, illustrateur, sculpteur et écrivain français, 1880-1954),
La Seine au Pecq, 1904, Centre national d'art et de culture Georges-Pompidou.



Ideia fortíssima


Uma ideia fortíssima entre todas menos uma
Habita meu cérebro noite e dia,
A ideia de uma mulher, mais densa que uma forma.
Ideia que me acompanha
De uma a outra lua,
De uma a outra caminhada, de uma a outra angústia,
Que me arranca do tempo e sobrevoa a história,
Que me separa de mim mesmo,
Que me corta em dois como o gládio divino.
Uma ideia que anula as paisagens exteriores,
Que me provoca terror e febre,
Que se antepõe à pirâmide de órfãos e miseráveis,
Uma ideia que verruma todos os poros do meu corpo
E só não se torna o grande cáustico
Porque é um alívio diante da ideia muito mais forte e violenta de Deus.


Murilo Mendes
, in "As metamorfoses", 1944;
"Melhores Poemas". Editora GLOBAL, 4ª ed., 2020.
 
 


Os dois lados

Deste lado tem meu corpo
tem o sonho
tem a minha namorada na janela
tem as ruas gritando de luzes e movimentos
tem meu amor tão lento
tem o mundo batendo na minha memória
tem o caminho pro trabalho.

Do outro lado tem outras vidas vivendo da minha vida
tem pensamentos sérios me esperando na sala de visitas
tem minha noiva definitiva me esperando com flores na mão,
tem a morte, as colunas da ordem e da desordem.


Murilo Mendes, "Melhores Poemas". Editora GLOBAL, 4ª ed., 2020.
 
 

Murilo Mendes –  Coleção: Melhores Poemas.
Direção: Edla van Steen. Seleção e Prefácio: Luciana Stegagno Picchio.
Editora GLOBAL, 4ª edição, 2020
 
 
 SINOPSE
 
Surrealista, barroco, visionário, Murilo Mendes foi uma das vozes poéticas mais pessoais e inovadoras do modernismo brasileiro. Desde a sua estreia, revelou-se um poeta original, qualidade que o seu longo processo de evolução iria acentuar, até a última fase de sua poesia, marcada pelo sentido de fraternidade e comunhão humana. (daqui)



Retrato de Murilo Mendes por Ismael Nery, 1922.
(Coleção particular)

Poeta e ensaísta brasileiro, Murilo Monteiro Mendes nasceu em 1901, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Fez os estudos primários e secundários na sua terra natal e em Niterói. Não chegou, no entanto, a concluir curso superior.
Em 1920 mudou-se para o Rio de Janeiro. No ano seguinte conheceu Ismael Nery, que veio a ter grande influência na sua formação estética e religiosa, pois revelou-lhe as novidades estéticas europeias e converteu-o ao Catolicismo.

Em 1947 casou-se com a poetisa Maria da Saudade Cortesão, filha do historiador e político português Jaime Cortesão, então exilado no Brasil.
Exerceu profissões diversas, como funcionário público, bancário e notário, sendo, a partir de 1957, professor de Estudos Brasileiros em Roma e Bolonha. Em 1971 recebeu o Prémio Internacional de Poesia Tena-Taormina. Faleceu a 14 de agosto de 1975, em Lisboa.

A sua obra poética é rica e variada. Ao aderir ao "essencialismo" de Ismael Nery, aceitou muitas ideias do Surrealismo, por isso na sua poesia confundem-se tempos, formas, planos e perspetivas. História do Brasil (1932), nomeadamente, é um livro que satiriza, através de poemas, factos ridículos da História do Brasil.

Em Tempo e Eternidade (1935) surge-nos uma poesia confessional de expressão solene e eloquente. Em Metarmofoses (1944) e Poesia e Liberdade (1947) há um tom de amargura suscitado pela guerra, pelos ditadores e pelas injustiças que assolavam o mundo e que, como se deixa perceber, só a poesia poderá salvar. Em Contemplação de Ouro Preto (1954), Murilo Mendes regressa a uma ordem poética aproximada da clássica, praticando o verso decassilábico, o alexandrino e outros metros. Em 1959 dá-se a publicação de Poesias, que reúne os livros anteriores, à exceção de História do Brasil e inclui ainda os inéditos Bumba-meu poeta (1930), Sonetos Brancos (1946 - 1948) Parábola (1946 - 1952). Siciliana (1954-1955) e Tempo Espanhol (1959) resultam de impressões poéticas de viagens realizadas pela Europa. 
Na prosa, merecem referência os títulos O Discípulo de Emaús (1944), A Idade do Serrote (1968), Poliedro (1972), Retratos Relâmpago (1973) e Transístor (1980). (daqui)

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

"Escrito na Ponte de Westminster, a 3 de Setembro de 1802" - Poema de William Wordsworth

 

 
André Derain (French artist, painter, sculptor and co-founder, with Henri Matisse,
of Fauvism, 1880–1954), Big Ben, 1906 – Musée d'Art moderne de Troyes.


Escrito na Ponte de Westminster,
a 3 de Setembro de 1802


Não tem a terra nada mais belo para mostrar
Pobre de espírito seria aquele que pudesse ignorar
esta visão tão comovente na sua majestade
Como um traje veste agora esta cidade

a beleza da manhã. Silenciosas e nuas
torres cúpulas navios teatros catedrais a prumo
erguem-se no céu e estendem-se pelas ruas
brilhantes e reluzentes no ar sem fumo

Nunca o sol se ergueu com tanta alma
por sobre vales rochedos e colinas
nunca vi nunca senti uma tão profunda calma

O rio desliza consoante o seu desejo
Meu Deus o casario parece que dorme
Dorme também aquele coração enorme 


William Wordsworth
 
Tradução de Jorge de Sousa Braga 

*** 

Composed upon Westminster Bridge,
 September 3, 1802

 
Earth hath not anything to show more fair:
Dull would he be of soul who could pass by
A sight so touching in its majesty:
This City now doth, like a garment, wear
The beauty of the morning; silent, bare,
Ships, towers, domes, theatres and temples lie
Open unto the fields, and to the sky;
All bright and glittering in the smokeless air.
Never did sun more beautifully steep
In his first splendor, valley, rock, or hill;
Ne'er saw I, never felt, a calm so deep!
The river glideth at his own sweet will:
Dear God! The very houses seem asleep;
And all that mighty heart is lying still!
 
 

André Derain, The Palace of Westminster, 1906–1907,
The Metropolitan Museum of Art.


André Derain, Charing Cross Bridge, London, 1906,
National Gallery of Art, Washington, D.C.



André Derain, Londres, Westminster, 1906, Musée de l'Annonciade à Saint-Tropez.


"Você não encontra nenhum homem, de forma alguma intelectual, que esteja disposto a deixar Londres.
Não, senhor, quando um homem está cansado de Londres, ele está cansado da vida;
porque há em Londres tudo que a vida pode oferecer."


Samuel Johnson (1709–1784), citado em "The Life of Samuel Johnson"
de James Boswell (1740–1795), 1791 (página 160) - 516 páginas.

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

"O Rio" - Poema de Olavo Bilac

 

 
André Derain (French artist, painter, sculptor and co-founder, with Henri Matisse,
of Fauvism, 1880–1954), The River, 1912.


O Rio 



Da mata no seio umbroso,
No verde seio da serra,
Nasce o rio generoso,
Que é a providência da terra.

Nasce humilde; e, pequenino,
Foge ao sol abrasador;
É um fio d'água, tão fino,
Que desliza sem rumor.

Entre as pedras se insinua,
Ganha corpo, abre caminho,
Já canta, já tumultua,
Num alegre borburinho.

Agora ao sol, que o prateia,
Todo se entrega, a sorrir;
Avança, as rochas ladeia,
Some-se, torna a surgir.

Recebe outras águas, desce
As encostas de uma em uma,
Engrossa as vagas, e cresce,
Galga os penedos, e espuma.

Agora, indómito e ousado,
Transpõe furnas e grotões,
Vence abismos, despenhado
Em saltos e cachoeirões.

E corre, galopa, cheio
De força; de vaga em vaga,
Chega ao vale, alarga o seio,
Cava a terra, o campo alaga...

Expande-se, abre-se, ingente,
Por cem léguas, a cantar,
Até que cai finalmente,
No seio vasto do mar...

Mas na triunfal majestade
Dessa marcha vitoriosa,
Quanto amor, quanta bondade
Na sua alma generosa!

A cada passo que dava
O nobre rio, feliz
Mais uma árvore criava,
Dando vida a uma raiz.

Quantas dádivas e quantas
Esmolas pelos caminhos!
Matava a sede das plantas
E a sede dos passarinhos...

Fonte de força e fartura,
Foi bem, foi saúde e pão:
Dava às cidades frescura,
Fecundidade ao sertão...

E um nobre exemplo sadio
Nas suas águas se encerra;
Devemos ser como o rio,
Que é a providência da terra:

Bendito aquele que é forte,
E desconhece o rancor,
E, em vez de servir a morte,
Ama a vida, e serve o Amor!


Olavo Bilac
, em Poesias Infantis
 

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

"Quietude" - Poema de Miguel Torga



Kees van Dongen (Dutch-French painter, 1877–1968), Quiétude, c. 1918 (Fauvism)
 

Quietude


Que poema de paz agora me apetece!
Sereno,
Transparente,
A sugerir somente
Um rio já cansado de correr,
Um doce entardecer,
Um fim de sementeira.
Versos como cordeiros a pastar,
Sem o meu nome, em baixo, a recordar
Os outros que cantei a vida inteira.

S. Martinho de Anta, 27 de Setembro de 1980. 
 
Miguel Torga
(1907–1995), Diário XIII




André Derain
 (French artist, painter, sculptor and co-founder of Fauvism with Henri Matisse, 
1880–1954), Music, 1904 (Fauvism)
 

Fauvismo

 
O Fauvismo é considerado como o movimento fundador da arte moderna em França. Apesar de não estar constituído como grupo organizado, o Fauvismo reunia artistas que partilhavam aspirações paralelas no campo da pintura. Os pintores Matisse, Derain, Braque, Vlaminck e Dufy pretendiam transformar a pintura sem, no entanto, proceder à rutura total com o formulário artístico do final do século. Todos adotaram uma paleta impressionista na qual associavam a cor à luz.

Fundado em 1904, este grupo experimental foi apresentado pela primeira vez ao público no Salão de outono de 1905, em Paris. A agressividade na aplicação da cor comum a todas as obras expostas por este grupo valeu aos seus autores a denominação pejorativa de fauves (feras) pelo crítico Louis Vauxcelles.

A modernidade do grupo dos fauves parece residir no poder da expressão que por eles é reivindicada. A pintura afasta-se da mera representação mimética para se afirmar como veículo de expressão das emoções do artista.

O Fauvismo é um movimento heterogéneo. Apesar de revelarem certas coincidências formais, os artistas desta corrente desenvolveram uma interpretação pessoal das qualidades expressivas da pintura. Em comum, encontramos a mesma vontade de representação livre da natureza através da utilização de cores puras, da acentuação linear do desenho e da diluição do efeito de perspetiva. Para Matisse, a perspetiva seria a "perspetiva do sentimento", nas quais os planos se aproximavam.

O Fauvismo terminou em 1908, dando origem a novas vias artísticas como o Expressionismo e o Cubismo. (daqui)
 
 
 
 Henri Matisse (French visual artist, 1869–1954), Portrait of Madame Matisse (The green line), 
 
 
Henri Matisse, Le bonheur de vivre, 1905–06, oil on canvas, 176.5 cm × 240.7 cm,  
Barnes Foundation, Philadelphia, Pennsylvania (Fauvism)
 
 

Raoul Dufy
(
French Fauvist painter, 1877–1953), Bathers, 1908 (Fauvism)
 

Maurice de Vlaminck (French painter, 1876–1958), The gardener, 1904 (Fauvism)


Georges Braque (French painter, collagist, draughtsman, printmaker and sculptor, 
1882–1963), The Port of La Ciotat, 1907 (Fauvism)
 
 
Presença
 
Hora sem ninguém.
No manso ondear do balanço
de lona está alguém.
 
(Haicai / Haikai / Haiku)
 

domingo, 16 de julho de 2017

"Forma de inocência" - Poema de António Gedeão



André Derain, 'Portrait of a Man with a Newspaper', 1911–1914,
Hermitage Museum 


Forma de inocência


Hei de morrer inocente
exatamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.

Entre mim e a evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.

Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ver igual.



domingo, 26 de fevereiro de 2017

"As Máscaras" - Poema de Menotti Del Picchia


André Derain (França, 1880-1954), Arlequim e Pierrot, 1924


As Máscaras 


— O teu beijo é tão quente, Arlequim
— O teu sonho é tão manso, Pierrot 

Pudesse eu repartir-me
encontrar minha calma
dando a Arlequim meu corpo…
e a Pierrot a minha alma! 

Quando tenho Arlequim,
quero Pierrot tristonho,
pois um dá-me o prazer,
o outro dá-me o sonho! 

Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
um me fala do céu… outro fala da terra! 

Eu amo, porque amar é variar,
e em verdade, toda a razão do amor
está na variedade… 

Penso que morreria o desejo da gente
se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente. 

Porque a história do amor
só pode escrever-se assim:
um sonho de Pierrot…
e um beijo de Arlequim! 


(O poema é baseado na fala final de Colombina em 'Máscaras', 1920)


André Derain, 'Danse bachique', 1906


“O carnaval. A festa onde os tabus perdem força e as permissões tornam-se hiperbólicas.”