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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

"Eu queria ser Pai Natal" - Poema de Luísa Ducla Soares


Antonio García Mencía
(Spanish painter and illustrator, c. 1849/53 - 1915/20),
 "Memories of Christmas", Unknown date.
 

Eu queria ser Pai Natal


Eu queria ser Pai Natal
E ter carro com renas
Para pousar nos telhados
Mesmo ao pé das antenas.

Descia com o meu saco
Ao longo da chaminé,
Carregado de brinquedos
E roupas, pé ante pé.

Em cada casa trocava
Um sonho por um presente
Que profissão mais bonita
Fazer a gente contente!


Luísa Ducla Soares
in "Poemas da Mentira e da Verdade".

Livros Horizonte
 
 

"Poemas da Mentira e da Verdade" de Luísa Ducla Soares
Ilustração: Ana Cristina Inácio
Editor: Livros Horizonte



SINOPSE

"Os Poemas da Mentira e da Verdade" são dois olhares simultâneos sobre a realidade. O da imaginação, da fantasia, do “nonsense” e o da seriedade, da objetividade, do espírito crítico. Num e noutro perpassa um humor muito característico da autora. Dedicados a crianças avessas à leitura e particularmente à poesia, este livro cativá-las-á pela irreverência, pelo jogo de palavras, pela cumplicidade com o mundo das crianças. Revela-se, na opinião de muitos professores, como um excelente recurso para os miúdos que não lêem. (Livro recomendado pelo plano nacional de leitura para o 1.º ciclo do ensino básico.)



Jenny Nyström (Swedish painter and illustrator, 1854–1946),
 Self-portrait with her son, 1895, Gothenburg Museum of Art.
 
Jenny Nyström (Kalmar, 1854 - Estocolmo, 1946) foi uma pintora e ilustradora sueca de livros para crianças. 
Dedicou-se sobretudo à pintura de retrato e paisagem, sendo principalmente conhecida por ter sido a criadora da figura do pai natal sueco (jultomte), ligando a figura do pai natal tradicional ao Tomte tradicional do folclore escandinavo.
 
 
 Christmas cards by Jenny Nyström

Jenny Nyström (Swedish painter and illustrator, 1854–1946),
God Jul ("Happy Christmas!"). 



Jenny Nyström, Girl posting a letter.
 

Jenny Nyström, Children dancing around the Christmas Tree, ca. 1895-1897.


 
 

Jenny NyströmSanta Claus with child. 


"Natal não é natal sem um presente."

("Christmas won’t be Christmas without any presents" )

Louisa May Alcott, in "Little Women", 1868.
 

"Natal Divino" - Poema de Miguel Torga

 


Di Cavalcanti
(Pintor modernista, desenhista, ilustrador, muralista e caricaturista
brasileiro, 1897–1976), Natal, 1969. Óleo sobre tela.

 Natal Divino


Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1970

Miguel Torga
Diário XI 
(2-8-1968 / 6-4-1973)

 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

"Natal… Natais" - Poema de João Cabral do Nascimento

 


Hans Burgkmair the Elder (German painter and woodcut printmaker, 1473–1531),
 Die Geburt Christi (Nativity of Jesus), 1511.


Natal… Natais…

 
Tu, grande Ser,
Voltas pequeno ao mundo.
Não deixas nunca de nascer!
Com braços, pernas, mãos, olhos, semblante,
Voz de menino.
Humano o corpo e o coração divino.

Natal… Natais…
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Em cada estrela sempre pomos a esperança
De que ela seja a mensageira,
E a sua chama azul encha de luz a terra inteira.
Em cada vela acesa, em cada casa, pressentimos
Como um anúncio de alvorada;
E em cada árvore da estrada
Um ramo de oliveira;
E em cada gruta o abrigo da criança omnipotente;

E no fragor do vento falas de anjos, e no vácuo
De silêncio da noite
Estriada de súbitos clarões,
A presença de Alguém cuja forma é precária
E a sua essência, eterna.

Natal… Natais…
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?


João Cabral do Nascimento
,
in "Cancioneiro", 1943.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

"Natal" - Poema de José Régio

 

 
Jules Bastien-Lepage (French painter, 1848–1884), 'The Annunciation to the Shepherds', 1875.
National Gallery of Victoria, Melbourne



Natal 


Mais uma vez, cá vimos
Festejar o teu novo nascimento,
Nós, que, parece, nos desiludimos
Do teu advento!

Cada vez o teu Reino é menos deste mundo!
Mas vimos, com as mãos cheias dos nossos pomos,
Festejar-te, — do fundo
Da miséria que somos.

Os que à chegada
Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos,
Somos — não uma vez, mas cada —
Teus assassinos.

À tua mesa nos sentamos:
Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome;
Mas por trinta moedas te entregamos;
E por temor, negamos o teu nome.

Sob escárnios e ultrajes,
Ao vulgo te exibimos, que te aclame;
Te rojamos nas lajes;
Te cravejamos numa cruz infame.

Depois, a mesma cruz, a erguemos,
Como um farol de salvação,
Sobre as cidades em que ferve extremos
A nossa corrupção.

Os que em leilão a arrematamos
Como sagrada peça única,
Somos os que jogamos,
Para comércio, a tua túnica.

Tais somos, os que, por costume,
Vimos, mais uma vez,
Aquecer-nos ao lume
Que do teu frio e solidão nos dês.

Como é que ainda tens a infinita paciência
De voltar, — e te esqueces
De que a nossa indigência
Recusa tudo que lhe ofereces?

Mas, se um ano tu deixas de nascer,
Se de vez se nos cala a tua voz,
Se enfim por nós desistes de morrer,
Jesus recém-nascido!, o que será de nós?!


José Régio, in 'Obra Completa';
in Diário de Notícias, edição nº 33 345,
25 de Dezembro de 1958.
 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

"Rosas de Inverno" - Poema de Camilo Pessanha



Aldo Parmigiani (Italian painter, 1935–2024), Rosas, s.d.



Rosas de Inverno


Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.

Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonizar do ano,
Tão fora da estação!

Sorrindo-vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
Às almas das mendigas!

Desse Natal de inválidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.


Camilo Pessanha,
in "Clepsidra e outros poemas", 1962.




Aldo Parmigiani, "La rosa bianca", 2012.



"Você pode se queixar porque a rosa tem espinhos ou se alegrar porque os espinhos têm rosas."

Tom Wilson, citado in  Altered You!: Alter Your Style ... Your Stuff ... Your Space! - Página 79,
 Karin Buckingham - Kalmbach Books, 2013 - 96 páginas.
 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

"Fio do frio" - Poema de Irene Lucília Andrade


 
Max Römer (Pintor de origem alemã que viveu na ilha da Madeira, 1878-1960),
Sé Catedral do Funchal, 1927.


Fio do frio


Os dias de dezembro
não são sempre os dias de dezembro
e a certeza do olhar
não está no sol em ausência
ou no fio de frio que se estende
entre rosas e pomares
dum lado a outro dum inverno tardio,
às vezes a chuva vem cedo e o fogo do céu
rasga as árvores, às vezes perde-se
o termo das estradas no nevoeiro
e o fim das tardes arrepia-se escuro
nos pés dos vagabundos.
Não está no hábito com que à boca
chega a vontade duma palavra útil
ou apenas dum bocejo, digo azul essa
não é a cor destas horas,
não está aqui nem se torna visível a sombra
ou o passo que imprime a diferença, o som
ou a janela equivalente à luz que falta
a música que acende uma memória doce
às formas que dão ao coração
o ensejo dos astros e distantes amores.
Nada está aqui que me diga dezembro
porque dezembro é um hálito sagrado
e o prodígio aponta o indizível.

Porque dezembro é também coisa tão simples
como os galos, o sótão
o altar da infância aconchegado
de ensaião e acácias
porque em dezembro se trazia
estrelas na algibeira
e um fruto no céu a dispersar o medo. 
 

Irene Lucília Andrade
,
Fio de dezembro. Margem 2.
Funchal. N.º 10 (Dez. 1998).

[Irene Lucília Mendes de Andrade (Funchal, 6 de fevereiro de 1938) é uma escritora, poetisa e artista plástica portuguesa, natural da ilha da Madeira. É considerada uma das personalidades mais importantes da literatura contemporânea madeirense.]

 

"O único meio de criar homens livres é educá-los, outro modo ainda não se inventou,
 e com certeza nunca se inventará." 

Olavo Bilac, Obra reunida - Página 517
Alexei Bueno
- Editora Nova Aguilar, 1996.
 

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

"Que Natal?" - Poema de Eugénio Lisboa

 

 
Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista e 
tradutora brasileira, 1886-1973), Natal, 1940.


Que Natal?



Natal não tive. Ou tive
só o Natal que tiveram
minhas filhas. Esse vive
como as coisas que viveram
mas já não são. Que Natal
tenho hoje? Que alegria,
que festa, neste final,
nesta descida sombria?
Diz Natal quem diz começo,
ou chegada, ou descoberta...
Onde estou, só há tropeço,
terra fria e deserta.

Se, no fim, recomeçasse!
Se, descendo, eu subisse!
Se, parando, não parasse!
Ressuscitar... quem o disse?


Eugénio Lisboa
 

sábado, 21 de dezembro de 2024

"Natal em família" - Poema de Afonso Duarte

 


Rosina Becker do Valle
(Pintora naïf brasileira, 1914–2000), Natividade, 1964.
 

Natal em família


Turvou-se de penumbra o dia cedo;
Nem o sol apertou no meu beiral!
Que longas horas de Jesus! Natal...
E o cepo a arder nas cinzas do brasedo.

E o lar da casa, os corações aos dobres,
É um painel a fogo em seu costume!
Que lindos versos bíblicos, ao lume,
Pelo doce Príncipe cristão dos pobres!

Fulvas figuras para esculpir em barro:
À luz da lenha, em rubro tom bizarro,
Sou em Presépio com meus pais e irmãos

E junto às brasas, os meus olhos postos
Nesta evangélica expressão de rostos,
Ergo em graças a Deus as minhas mãos.


Afonso Duarte, in "Natal... Natais"
 
 

Natal… Natais: Oito séculos de Poesia sobre o Natal 
Antologia de Vasco Graça Moura, 378 págs.
 
 
RESUMO

Esta antologia reúne oito séculos de poesia em língua portuguesa sobre o Natal. 
Inicia-se com Afonso X, o Sábio, cujas Cantigas de Santa Maria foram escritas em galego-português no século XIII e termina com autores do século XXI. 
Inclui 202 textos de 130 poetas, tendo o organizador dado preferência aos autores do século XIX e do XX.
 “(…) A extrema variedade de formas e registos dentro da unidade temática considerada justifica se tenha lançado mão do título de um poema de Cabral Nascimento, «Natal... Natais», para designar o conjunto das peças aqui recolhidas”. 
São textos dos poetas como Gil Vicente, Ribeiro Chiado, Diogo Bernardes, António Ferreira, Frei Agostinho da Cruz, Abade de Jazente, Correia Garção, Bingre, Almeida Garrett, Herculano, João de Lemos, João de Deus, Guerra Junqueiro, António Feijó, Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Fernando Pessoa, Vitorino Nemésio, José régio, Miguel Torga, Álvaro Feijó, Sophia de Mello Breyner, José Saramago, Mário Cesariny de Vasconcelos, Sebastião da Gama, Manuel alegre, Nuno Júdice, etc. 
 

domingo, 15 de dezembro de 2024

"Cartinha Natalina" - Texto de Eugénio Lisboa



Lovis Corinth (German painter, sculptor, university teacher, graphic artist, drawer 
and lithographer, 1858–1925), Christmas Eve, 1913, Lentos Art Museum


 
Cartinha Natalina 

 
Nesta época, escreve-se muito. O Natal permeia e incentiva a escrita. Aparecem lindos textos apelando ao que pode haver de melhor no coração dos homens. Desde poemas simples, frases soltas, elaboradas reflexões a longas epístolas de bem-aventurança. Todos eles trazem mensagens que acabam por nos tocar. Estamos abertos à celebração, embora nem sempre seja o nascimento de uma criança que esteja a ser festejado. Nascida há dois mil anos é ela o motor desta celebração. O Natal é assim a festa de toda a criança que se fez e fará Homem. Repetir, em cada ano, esse acontecimento é a necessidade que todos nós encontrámos para dar forma à solidariedade que se perde ou negligencia durante o ano. Tomamos a família e fazemos dela o encontro que foi, por vezes, adiado. Que Natal pode ser todos os dias é uma frase que se perde nas pregas das intenções. Basta olhar as imagens que, dia a dia, enchem os écrans televisivos para encontrar a legenda exata para esta verdade. Ferem e agridem, mas não deixam de se repetir. E são tantas as imagens de crianças de todas as idades. Perdidas em campos de refugiados ou em marcha por esse mundo fora. Sujas, desgrenhadas, famintas, perdidas, abandonadas rasgam o coração, sem que a piedade do Natal as alcance.

Não. Não pretendo aumentar a resma das lindas mensagens. Quero apenas dar fôlego ao sonho: Que este nosso mundo, que se muralha entre pandémicos vírus, acorde e renasça jubiloso em verdadeiro Natal. (daqui)


segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

"Natal" - Poema de Mauro Mota

 

 
Mark Grantham (Canadian artist, b. 1966), Christmas Eve, 2021
 
 
Natal
 

Natal, antes e agora
imutável. Feliz
noite branca sem hora
no pátio da Matriz.

Natal: os mesmos sinos
de repiques iguais.
Brinquedos e meninos,
Natal de outros natais.

A Banda, vozes, passos
da multidão fiel.
Tudo nos seus espaços,
o mundo e o carrossel.

Tudo, menos o andejo
homem que se conclui.
Olho-me, e não me vejo,
não sei para onde fui.


Mauro Mota, in 'Itinerário'
 

domingo, 25 de dezembro de 2022

"Nasceu um Menino" - Poema de José Régio



Charles Le Brun (Peintre et décorateur français, 1619–1690), 'L'Adoration des bergers', 1689, 
Paris, Musée du Louvre


Nasceu um Menino


Nasceu, nasceu um Menino,
Nasceu um Menino mais,
No bercinho pouco fino
Das palhas duns animais!

Que num vil curral por quarto
E entre uns pedregulhos nus,
Teve a santa dor do parto
A Mulher que o deu à luz.

Mas de cada vez, no mundo,
Que mais um ser aparece,
Quem pode descer ao fundo
Do que o Destino nos tece?

À hora em que Este chegava,
Lá para um cerro distante,
Por cada fibra chorava
Um velho cedro gigante.

Chorava porque sabia
Que em seu peito condenado
Aquele Menino, um dia,
Seria crucificado.

Ora cada vez, no mundo,
Que nasce mais um Menino,
Quem pode descer ao fundo
Do que nos tece o Destino?

Já, pelos céus fora, um astro
Descendo sobre o curral,
Abre para sempre um rastro
De alvor sobrenatural.

E o velho cedro, que chora
Porque se julga precito,
Pelos séculos fora
Será sagrado e bendito.

Que abertos pelos espaços,
No azul sereno e profundo,
Do sangue duns outros braços
Seus braços dão Vida ao mundo.


José Régio, em ‘Obra Completa’


Charles Le Brun, 'Le Sommeil de l'Enfant Jésus' ou 'Le Silence', 1655, Musée du Louvre.


“Uma boa consciência é um Natal contínuo.”

(Benjamin Franklin)




'Charles Le Brun', portrait by Nicolas de Largillière (French portrait painter, 16561746)

 
Charles Le Brun 

Charles Le Brun foi um pintor, decorador e teórico francês nascido a 24 de fevereiro de 1619, em Paris, França.
Filho de um escultor que lhe ensinou a profissão, Charles Le Brun cedo revelou vocação para a pintura, começando aos treze anos a trabalhar no atelier do pintor François Perrier. Nessa altura, o talento do jovem chamou a atenção do Chanceler Pierre Séguier que o tomou para sua guarda.

Em 1633, graças ao seu protetor, o artista foi trabalhar para o atelier de Simon Vouet, que teve também entre os seus discípulos futuras grandes personalidades das artes, André Le Nôtre, Pierre Mignard e Eustache Le Sueur. Completou a sua formação numa estadia no Palácio de Fontainebleau onde estudou as coleções de arte reais.

Reconhecido pelo seu grande talento e com o apoio financeiro do seu protetor, Le Brun partiu para Roma, em 1642, a fim de estudar os grandes escultores e pintores italianos e de conhecer os grandes artistas europeus da época, como foi o caso de Nicolas Poussin que veio a ser seu mestre.

De regresso a Paris, em 1646, recebeu várias encomendas, como a do superintendente Fouquet para quem realizou as esculturas dos jardins e as tapeçarias do seu soberbo palácio em Vaux-le-Vicomte ou a da Corporação dos Ourives que lhe encomendou o quadro O Martírio de S. André (1647) para a Catedral Notre-Dame, em Paris. A pedido do Cardeal Mazarino, Le Brun e André Le Nôtre ficaram responsáveis pela transformação do Pavilhão de Caça de Luís III no Palácio de Versalhes.

Em 1660, foi nomeado Primeiro Pintor Real, tornou-se diretor, em 1663, da Manufatura Real dos Gobelins (famosas tapeçarias francesas) e da Mobília Real e chanceler vitalício da Academia Real de Pintura e Escultura, que tinha fundado, em 1648, juntamente com outros onze pintores. Fundou ainda, em 1666, a Academia de França, em Roma, com o objetivo de formar e estimular o talento de jovens pintores e escultores. Depois, ocupou-se exclusivamente da decoração da nova residência real, o Palácio de Versalhes.

Realizou trabalhos de decoração e pintura na Escada dos Embaixadores, na Galeria dos Espelhos, nas salas da Paz e da Guerra e nos grandes apartamentos reais, constantemente inspirado na mitologia e na arte italiana e honrando sempre o Rei Sol - Luís XIV. Le Brun foi ainda o criador da Art Officiel, uma arte colocada ao serviço do poder e das grandes instituições.

Em 1683, com a morte de Jean-Baptiste Colbert, um dos protetores do artista, Le Brun foi substituído, nas suas funções de superintendente dos edifícios, das artes e das manufaturas, por Pierre Mignard, protegido do Marquês de Louvois. Em resultado desta substituição, o artista passou a produzir apenas quadros de temáticas religiosas e a ocupar-se do Palácio de Montmorency.

Como teórico, escreveu o tratado A Expressão das Paixões (1663), no qual analisou os diferentes estilos e géneros de pinturas, e Método para Aprender a Desenhar as Paixões (1698, edição póstuma), no qual descodificou, apoiando-se nas teorias de Nicolas Poussin, a expressão visual das paixões na pintura.

Quanto aos seus trabalhos, destacam-se ainda, para além dos acima mencionados, a decoração pictural da Galeria de Apolo (1663), no Louvre, e os quadros O Retrato Equestre do Chanceler Séguier (1655-1657), Alexandre e Porus (1673) e Adoração dos Pastores (1690), entre muitos outros. Charles Le Brun faleceu a 12 de fevereiro de 1690, em Paris. (daqui)
 

sábado, 24 de dezembro de 2022

"Natal de ontem e de hoje" - Poema de Bastos Tigre


Charles Green (British watercolourist and illustrator, 1840–1898), 'Christmas comes but once a year!', from the 
 Pears' Annual, Christmas, 1896. (Christmas celebration, with servant carrying pudding to dining table.)


Natal de ontem e de hoje


Natal! Vocábulo sonoro,
Com ressonâncias de cristal!
Amo o Natal; amo e adoro
O doce nome de “Natal”.

Ouvi-lo é ter no ouvido, ecoando
A voz dos sinos, no arraial,
Alegremente repicando
A excelsitude do Natal!

Missa do galo. Espouca e brilha
O foguetório, a salva real…
Fulge o painel. Que maravilha!
Jesus nasceu: — Natal! Natal!

Ding-din! Ding-don! — repicam os sinos!
Vozes elevam-se em coral,
Desafinando ingénuos hinos
Em honra a Cristo e ao seu Natal.

Dança, presépios, pastorinhas
No pastoril de João de tal —
E, entre vizinhos e vizinhas,
Os namoricos de Natal.

Castanhas, nozes, rabanadas,
Do velho tom tradicional,
De fino açúcar polvilhadas
Tendo a doçura do Natal.

E da família o quadro lindo
Da vasta mesa patriarcal
E a avó velhinha, repartindo
O imenso bolo de Natal.

Mudou o Natal. Que há que não mude
Neste vaivém universal?
Foi-se a simpleza ingénua e rude
Das idas festas de Natal.

Hoje, entre as luzes da cidade
Cosmopolita e colossal
A luz da Light a noite invade
E nem se vê vir o Natal.

Há o reveillon, francês em nome,
Yankee no fundo comercial;
Faga-se quanto se consome
A preços próprios do Natal.

Em vez da viola e da sanfona,
Em tom menor, sentimental,
Uma “ortofónica” ortofona
Um feroz fox infernal.

Há nos hotéis e clubs chics
Festas de um tom convencional
Sem foguetório e sem repiques —
Que nem são festas de Natal!

Corre champagne, em vez do verde,
Do carrascão de Portugal.
(Sem o verdasco o que há de ser de
Ti, ó consoada de Natal).

E até há gaitas, serpentinas,
Como se fora um carnaval!
Vocês, rapazes e meninas,
Não têm ideia do Natal!

Chego a pensar que o próprio Cristo,
O de Belém, o do curral,
Lá do alto, olhando para isto,
Não reconhece o seu Natal.

E, então, fechando a azul esfera,
Se esconde além do último “astral”
E, por castigo, delibera
Não nascer mais pelo Natal.


Bastos Tigre (18821957),
em Antologia poética, vol 2,
Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1982.



Priscilla Pointer
 (American artist and illustrator, 1924), 'Christmas Wish
'


Deus na Terra... Eis o Natal!
Repicam sinos... Festanças...
Feriado nacional
no coração das crianças!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

"Loa" e "Natal" - Poemas de Miguel Torga


 
Ambrogio Bergognone (Italian painter of the Renaissance, c. 1470-1523),
The Virgin and Child with Saints, c.1490, London, National Gallery
 


LOA


É nesta mesma lareira,
E aquecido ao mesmo lume,
Que confesso a minha inveja
De mortal
Sem remissão
Por esse dom natural,
Ou divina condição,
De renascer cada ano,
Nu, inocente e humano
Como a fé te imaginou,
Menino Jesus igual
Ao do Natal
Que passou.

Miguel Torga, in 'Diário XI', 1969

 


Ambrogio Bergognone, The Virgin and Child, 1940,
London,
National Gallery
 

Natal



Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.

Natal da fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina.

Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.


Miguel Torga, in 'Diário XII', 1974
 

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

"Natal" - 3 Poemas de Miguel Torga

 


Hans Zatzka (Austrian painter, 18591945), 'Mary and Child with Angels' 


Natal

(1982)

Solstício de inverno.
Aqui estou novamente a festejá-lo
À fogueira dos meus antepassados
Das cavernas.
Neva-me na lembrança,
E sonho a primavera
Florida nos sentidos.
Consciente da fera
Que nesses tempos idos
Também era,
Imagino um segundo nascimento
Sobrenatural
Da minha humanidade.
Na humildade
Dum presépio ideal,
Emblematizo essa virtualidade.
E chamo-lhe Natal.

Miguel Torga
(Poema extraído de "Diário VII", 1982)

 


Pompeo Batoni (Italian painter, 1708
1787), 'The Holy Family with St Elizabeth 
and the Infant St John the Baptist', 1777, Hermitage Museum, St Petersburg
 

 Natal

(1987)

Nasce mais uma vez,
Menino Deus!
Não faltes, que me faltas
Neste inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens um presépio
Mais agasalhado.

Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar,
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te sonhar.


Miguel Torga
(Poema extraído de "Diário XIV", 1987)

Natal

(1988)

Menino Jesus feliz
Que não cresceste
Nestes oitenta anos!
Que não tiveste
Os desenganos
Que eu tive
De ser homem,
E continuas criança
Nos meus versos
De saudade
Do presépio
Em que também nasci,
E onde me vejo sempre igual a ti.


Miguel Torga
(Poema extraído de "Diário XV", 1988) 
 
 
'The Virgin and Child, known as the Durán Madonna', 143538, 
Museo del Prado, Madrid
 
 


Rogier Van Der Weyden, pintor flamengo, nasceu por volta do ano de 1400, em Tournai, tendo falecido em Bruxelas sessenta e quatro anos depois. 
A sua obra foi conhecida nos grandes centros e mesmo célebre enquanto ainda vivia, e representou um avanço significativo para a História da Arte. De facto foi considerado, a par de Robert Campin e Jan van Eyck, um dos artistas fundamentais do Quattrocento na Flandres. 
Não existem dados que permitam a reconstituição de uma biografia incontestável, e mesmo as obras que se dizem da sua autoria foram-lhe atribuídas com base num estilo muito característico que todas elas possuem em comum. 
Crê-se que terá estudado na oficina de Rogelet de la Pâture (apesar de alguns estudiosos o identificarem com este mesmo pintor), entre 1427 e 1432, e que a partir de 1436 se estabeleceu em Bruxelas como pintor oficial da cidade. Ao serviço de Bruxelas terá pintado duas cenas de grande dimensão alusivas à Justiça, por volta do ano de 1439. 
No ano seguinte poderá ter ido a Roma, na sequência do Jubileu que se celebrava, visitando Milão e Florença e tendo-se estabelecido em Ferrara, onde trabalhou para Leonel d'Este
Pensa-se igualmente que terá dirigido uma oficina de grandes dimensões e importância. As inovações artísticas de que foi portador foram sobretudo no tratamento iconográfico e da imagem com grande espiritualidade, tendente para o dramatismo. 
Os temas das suas pinturas são em grande parte religiosos, como a Deposição (c. 1435) e São Lucas a retratar a Virgem, obras que a par do Tríptico Miraflores pertencem ao início da sua carreira e, como tal, mostrando clara influência de Robert Campin (provavelmente seu mestre) na característica escultórica das figuras. 
Pensa-se que o Juízo Universal ainda não patenteia os conhecimentos que poderia ter adquirido em Itália e que mais tarde se mostrariam em obras suas, vendo-se nesta obra, pelo contrário, a tendência ainda medieval preconizada por Jan van Eyck
Para a família Médicis pintou um Enterro e Madona com o Menino e Quatro Santos e na década de 1450 pintou obras como o Tríptico Bladelin, o Políptico dos Sete Sacramentos, um tríptico com a Crucifixão e a Anunciação, e já no final da sua vida, além de retratos com tratamento de luz bastante elaborado, o Tríptico de São João e o de Santa Colomba. (daqui)
 

domingo, 12 de dezembro de 2021

"Retábulo" e "Natal" - Poemas de Miguel Torga


 
 

Retábulo
 
(1954)

Estranho Menino Deus é o dum poeta!
O que nasce e renasce há muitos anos
Na minha noite de Natal, fingida,
Mal corresponde à imagem conhecida
Das sucursais do berço de Belém.
É uma criança tímida que vem
Visitar os meus sonhos, e, ao de leve,
Com mãos discretas, tece
Um poema de neve
Onde depois se deita e adormece.


Miguel Torga
(Poema extraído de "Diário VII", 1954)

 
Lorenzo Lotto, Adoration of the Shepherds, c. 1534.
  

Natal


(1948)

Devia ser neve humana
A que caía no mundo
Nessa noite de amargura
Que se foi fazendo doce…
Um frio que nos pedia
Calor irmão, nem que fosse
De bichos de estrebaria.

 
(Poema extraído de "Diário IV", 1948)