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domingo, 19 de abril de 2026

"Amor Perfeito" - Poema de Cecília Meireles

 

 
Frieda Blell (German landscape painter, 1874–1951), 
"Stillleben mit Stiefmütterchen", c. 1913. 
Gouache auf Papier 


Amor Perfeito

 
Suas cores são as de outrora,
com muito pouca diferença:
o roxo foi-se quase embora,
o amarelo é vaga presença.
E em cada cor que se evapora
vê-se a luz do jardim suspensa.

Tão fina foi a vida sua,
tão fina é a morte em que descansa!
Mais transparente do que a lua,
mais do que as borboletas mansa!
Tanto o seu perfil atenua
que, em peso, é menos que a lembrança.

Veludo de divinos teares,
hoje seda seca e abolida,
preserva os vestígios solares
de que era feita a sua vida:
frágil coração, capilares
de circulação colorida.

Se o levantar entre meus dedos,
pólen de tardes e sorrisos
cairá com tímidos segredos
de tempos certos e imprecisos.
Ó cinco pétalas, ó enredos
de sentimentais paraísos!

Mas de leve gota pousada
no veludo, - mole diamante
que foi a resposta da amada,
que foi a pergunta do amante –
dela não se verá mais nada:
perdeu-se no vento inconstante.


Cecília Meireles,
in "Mar absoluto e outros poemas", 1945.
 
 
 
Viola tricolor
(amor-perfeito) 


Viola tricolor, popularmente conhecida como amor-perfeito e erva-trindade, é uma flor bienal selvagem eurasiática. É uma pequena planta rasteira que atinge no máximo 15 cm de altura, com flores de cerca de 1,5 cm de diâmetro. Cresce nos prados e nas fazendas abandonadas, principalmente em solos ácidos ou neutros. É geralmente encontrada onde há sombra parcial. Floresce de Abril a Setembro. As flores da viola tricolor ou amores perfeitos podem ser roxas, azuis, amarelas ou brancas. É hermafrodita e autofértil, polinizada pelas abelhas(daqui)
 
 

Leo Putz (Tyrolean painter, 1869–1940), Frieda Blell, 1908.

(Portrait by her future husband, Leo Putz)



"Elegância é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado subtil de se deixar distinguir." 
 

domingo, 7 de setembro de 2025

"O Jardim" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen



Leo Putz
(Tyrolean painter, 1869-1940), Breakfast in the Garden, 1907. 



O Jardim


O jardim está brilhante e florido.
Sobre as ervas, entre as folhagens,
O vento passa, sonhador e distraído,
Peregrino de mil romagens.

É Maio ácido e multicolor,
Devorado pelo próprio ardor,
Que nesta clara tarde de cristal
Avança pelos caminhos
Até os fantásticos desalinhos
Do meu bem e do meu mal.

E no seu bailado levada
Pelo jardim deliro e divago,
Ora espreitando debruçada
Os jardins do fundo do lago,
Ora perdendo o meu olhar
Na indizível verdura
Das folhas novas e tenras
Onde eu queria saciar
A minha longa sede de frescura.


Sophia de Mello Breyner Andresen
,
in "Dia do Mar", 1947.



 
"Dia do Mar" de Sophia de Mello Breyner Andresen.
Edição/reimpressão: 03-2014,
 Editor: Assírio & Alvim. 
 

SINOPSE 

"Dia do Mar" é o segundo livro de Sophia de Mello Breyner Andresen, publicado em 1947 após o volume «Poesia», já publicado pela Assírio & Alvim. Aqui, como de resto em muita da sua obra, a poeta busca a perfeição, a pureza e a harmonia, utilizando alguns lugares recorrentes como o mar, a praia, a casa e o jardim. 
Visitando a infância, onde aprendeu a ouvir as vozes das coisas, o mar é aqui uma fonte de purificação e um lugar onde tudo adquire sentido. Como escreve Gastão Cruz, no prefácio a esta edição, «Uma tensão dialética percorre "Dia do Mar": o poeta divide-se entre a sensação de viver intensamente o milagre do mundo […] e a consciência da impossibilidade duma vivência plena dessa maravilha, realmente apenas reservada aos deuses.»

As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim. 



Leo Putz, Frieda Blell (German landscape painter, 1874–1951), c. 1903.


"Queria de ti um país de bondade e de bruma
Queria de ti o mar de uma rosa de espuma."

 
Mário Cesariny
(Poeta, pintor, tradutor e considerado um dos grandes Mestres do Surrealismo Português, 1923–2006)