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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

"Do Medo I" - Poema de Luiza Neto Jorge



Anna Elizabeth KlumpkeAmong the Lilies, 1909



Do Medo I


É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)

Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de uma flauta eternizou

no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida

é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte

Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde

(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)

desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite

sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins

e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne

Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor

há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem

Quando nos será possível um suicídio exato
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis?

Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte.
in Quarta Dimensão
 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

"Minha tia Alexandrina" - Poema de José Henrique dos Santos Barros


Anna Elizabeth Klumpke (American, 1856-1942), Seated Woman 
with a Red Kerchief, 1886
 
 
 
Minha tia Alexandrina


Minha tia Alexandrina bebia café
meia tigela de manhã e meia de tarde
o que dava mais dum litro.
Com esse rio de fogo correndo no seu corpo
punha ela dez filhos fora de casa
e lavava dez sobrados às senhoras da cidade.

E quando voltava para os Biscoitos na camioneta da carreira
deixava-me nos ouvidos a música das gargalhadas dadas
e nos olhos os demónios dos seus olhos
pretos, estrelas pequeninas fulgurantes.

Não passo pela ilha sem ir aos Biscoitos
não por vê-la, que ela já não está:
(levou-a o Canadá, a carta de chamada)
mas porque tenho consciência que são esplêndidos
os ramos das vinhas que alastram nos calhaus.


José Henrique dos Santos Barros
,
in 'S. Mateus, Outros Lugares e Nomes'
 
 

José Henrique Santos Barros 
 

José Henrique dos Santos Barros nasceu em 1946 em Angra do Heroísmo e faleceu vítima de acidente de viação, em Mérida, Espanha, em maio de 1983, com a sua mulher, a escritora Ivone Chimita.
J. H. Santos Barros viveu a infância e a juventude na ilha Terceira. Após a conclusão de estudos secundários, empregou-se como funcionário público. Anos depois, deu início àquela que viria a ser a «aventura» da sua vida: a poesia, a animação cultural, o suplementarismo e o ensaio literário, o sindicalismo, a literatura. 
A mobilização para a guerra colonial, como furriel miliciano, levou-o a Angola (entre 1969 e 1971, ano em que regressou à sua cidade natal). Foi a partir de então que nele mais se notabilizou uma extraordinária propensão para as coisas da cultura. O seu nome não pode deixar de associar-se a um movimento de renovação inscrito, nos Açores, desde a criação (por Carlos Faria) do suplemento «Glacial», no jornal angrense A União (foi seu coordenador entre 1972 e 1974).

J. H. Santos Barros acreditou na possibilidade de unir numa só frente uma postura de vanguarda ideológica, militante, com a ideia libertária de uma cultura em duplo: popular e de grupo. Com outros intelectuais angrenses, fundou a galeria de artes plásticas «Degrau»; animou cooperativas, sindicatos, rádios e jornais; fundou e dirigiu o suplemento «Cartaz» (nova série, 1972-1974) e a revista A Memória da Água-Viva, de parceria com Urbano Bettencourt (1978-1980). Mas foi no suplemento «Contexto», do jornal Açores (quando, residindo já em Lisboa, de 1979 até a data da sua morte) que mais e melhor sistematizou todo um trabalho de animação e coordenação que se estenderia à crítica, à polémica literária, à ensaística de fundo e até a uma curiosa experiência heteronímica que o levaria a subscrever, com diversos nomes, posições e conceitos propositada e provocatoriamente contraditórios. Foi assim, por exemplo, em relação à controversa questão da existência (ou não) de uma «literatura açoriana», que muito interessou os escritores açorianos da sua geração.

Como poeta, estreou-se aos 18 anos - dando-nos depois folhas, cadernos policopiados, opúsculos e excelentes livros de poemas; como ensaísta literário, interessou-lhe a conjugação da «açorianidade» (expressão sensível do local e do regional insular) com a «universalidade» potencial de toda a Literatura; como contista (autor de alguns dispersos), andou pelos imaginários oníricos e surrealizantes. Deixou inédito um diário (O Aprendiz de Mundos) e raros poemas. No essencial da sua poesia, a fidelidade da radicação aos temas insulares não é de molde a inscrevê-la no tão pouco apreciado apego ao regionalismo da escrita literária; pelo contrário, o regional e o tradicional de J. H. Santos Barros tornam-se matriz e ponto de partida da alternância ilha/Mundo, ora no tom abrasivo de uma «poética do quotidiano», ora na excelência de uma voz erguida à proclamação de versos como estes: «Pregar um prego, lavar pratos, cortar a erva / custa. Mas nunca nada me custou tanto que / carregar um verso das coisas mais difíceis. A fazer / do outro lado da literatura os nós do mundo.»

Obra Poética: (1964), poemas na Novíssima Poesia Açoriana. Angra do Heroísmo, ed. dos autores [com Gil Reis]. (1968), Aventura em Sete Poemas. Lisboa, ed. do autor. (1970), Canto de Abril. Lisboa, Ed. Panorama. (1971), Imagem Fulminante. Angra do Heroísmo, Galeria Gávea. (1913), Testes e Versos Para Andar na Rua. Angra do Heroísmo, Galeria Degrau (ed. a stencil). (1974), Topiária. Angra do Heroísmo, Galeria Degrau (ed. mimeografada). (1976), As Crónicas. Lisboa, ed. do autor (policopiado). (1979), A Humidade. Lisboa, Cooperativa Semente. (1979), Os Alicates do Tempo. Porto, Ed. Afrontamento. (1981), São Mateus, Outros Lugares e Nomes. Lisboa, Ed. Vega.
Obra Ensaística: (1977), 20 Anos de Literatura e Arte nos Açores. Lisboa, ed. do autor. (1981), O Lavrador de Ilhas. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura. (Daqui)


Anna Elizabeth Klumpke, In the Wash-house, 1888, oil on canvas.
Pennsylvania Academy of the Fine Arts


"Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no oceano. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota."
 
 
Anna Elizabeth Klumpke, A Moment's Rest, Barbizon, 1891


"Temos de ir à procura das pessoas, porque podem ter fome de pão ou de amizade."