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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

"Serenata à Chuva" - Poema de Rosa Alice Branco


Jeff RowlandA Kiss Goodnight
 


Serenata à Chuva


Chuva, manhã cinza, guarda-chuva. 
Entrar no contexto, dois pontos. Ele e ela 
abraçados caminham sob o teto 
do guarda-chuva que os guarda. 
Pelas ruas vão com a vontade de voltar 
ao branco dos lençóis. Esse objeto prosaico 
que às vezes se vira com o vento 
torna-se objeto de poema. Dizer também 
como a chuva é doce neste dia de verão. 
Como o amor altera o sentido da chuva, 
sim, como ela se eleva no ar e as frases se colam 
ao vestido. No interior da pele o poema mudou 
desde que entraste no guarda-chuva esquecido 
a um canto do armário. Talvez o amor seja tudo amar 
sem exceção. Eu que nunca uso guarda-chuva 
assino incondicionalmente este poema. 


Rosa Alice Branco, in 'Soletrar o Dia' 


Leonard Cohen - Closing Time


"Admirar é amar pelo espírito; Amar é admirar com o coração."

(Théophile Gautier)

(Admirer, c'est aimer par l'esprit; aimer, c'est admirer par le cœur!)
 
- Histoire de l'art dramatique en France depuis vingt-cinq ans: (ler - 6me série)‎ 
- página 309, de Théophile Gautier
 - Publicado por Librairie Universelle de J Rozez, 1859


Théophile Gautier fotografado por Nadar.


Pierre Jules Théophile  Gautier (Tarbes, 31 de agosto de 1811 — Paris, 23 de outubro de 1872) foi um escritor, poeta, jornalista e crítico literário francês.
Enquanto Gautier foi um ardente defensor do Romantismo, sua obra é difícil de classificar e continua a ser um ponto de referência para muitas tradições literárias posteriores, como Parnasianismo, Simbolismo, Modernismo e Decadentismo. Ele foi amplamente valorizado por escritores tão diversos como BalzacBaudelaire, os irmãos Goncourt, Flaubert, Proust e Oscar Wilde.
Em 1830 publicou suas primeiras Poesias, nas quais demonstra habilidade na descrição precisa e colorida de objetos e paisagens.
No prefácio de Mademoiselle de Maupin, de 1835, Gautier afirma sua posição estética, seu culto da arte pela arte, seu desdém pela moral, sustentando a tese de que a arte e a moral nada têm em comum.
Aos poucos, afasta-se de seus amigos românticos. Nessa época, por necessidades económicas, teve de sujeitar-se ao trabalho de crítico dramático, literário e artístico do La Presse e depois do Monitor.
Ao contrário de outros românticos, Gautier não se manifestou ativamente em política. Sua obra compreende coletâneas de poesias, entre as quais: Émaux et Camées, de 1852, obra que teve grande influência sobre Baudelaire, Banville e outros poetas parnasianos; romances como O romance da múmia, de 1858 e Capitão Fracasso, de 1863; diários de viagem e o poema L´Art, uma das obras mais importantes e características de Gautier, onde ele proclama o valor absoluto da profissão de artista, a necessidade - para o poeta - de aceitar as dificuldades da técnica, sugerindo a ideia do jogo subtil das imagens e a utilização delicada dos recursos de linguagem. (daqui)

domingo, 21 de setembro de 2014

"Arte Poética" - Poema de Rosa Alice Branco


Portrait of Rosamund Hussey by James Jebusa Shannon
painted shortly after 1900.



Arte Poética


Gostaria de começar com uma pergunta
ou então com o simples facto
das rosas que daqui se vêem
entrarem no poema.
O que é então o poema?
um tecido de orifícios por onde entra o corpo
sentado à mesa e o modo
como as rosas me espreitam da janela?

Lá fora um jardineiro trabalha,
uma criança corre, uma gota de orvalho
acaba de evaporar-se e a humidade do ar
não entra no poema.

Amanhã estará murcha aquela rosa:
poderá escolher o epitáfio, a mão que a sepulte
e depois entrar num canteiro do poema,
enquanto um botão abre em verso livre
lá fora onde pulsa o rumor do dia.

O que são as rosas dentro e fora
do poema? Onde estou eu no verso em que 
a criança se atirou ao chão cansada de correr?
E são horas do almoço do jardineiro!
Como se fosse indiferente a gota de orvalho
ter ou não entrado no poema!


Rosa Alice Branco
Soletrar o Dia. Obra Poética
Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2002


Leonard Cohen - First We Take Manhattan

"O Pecado da Gula" - Poema de Rosa Alice Branco





O Pecado da Gula


Ontem à tarde saí. 
Queria passear as lembranças 
que um dia de chuva faz crescer em nós. 
Há dias que o vento rondava a casa 
cheio de segredos incompletos 
a roçar-me a orelha. E eu não resisto 
ao sabor do vento 
e a uma boa história para enganar o frio. 


É fácil perdermo-nos nas ruas. 
Nunca se regressa pelos mesmos caminhos 
mas todos parecem iguais 
com o cheiro da chuva a deixar o alcatrão 
e a subir na memória 
de outras ruas. 
Mas há só um caminho que trilhamos. O corpo 
é uma bússola fiel que segue pela estrada 
enquanto o pó se levanta 
muito para além dos nossos passos. 


Rosa Alice Branco, in 'Animal Volátil'



Rosa Alice Branco, mestre em Filosofia do Conhecimento pela Universidade Nova de Lisboa, com uma tese sobre a perceção visual em Berkeley, nasceu em 1950. Ensina psicologia da perceção na Escola Superior de Artes e Design. Participou no Grupo de Estudos de Semiótica e Poética do Porto, tendo sido um dos responsáveis pela revista Figuras e pertence à direção da revista Limiar. A sua poesia, refletindo sobre paradoxos filosóficos e linguísticos, ocupa um lugar único na poesia portuguesa contemporânea mais recente.

Rosa Alice Branco. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014.

Bibliografia: 

  • Animais da Terra, Limiar (1988)
  • O Desenvolvimento da Filosofia do Sugerir: a Percepção como Operação Interpretativa, tese de -mestrado (1990)
  • Monadologia Breve, Limiar (1991)
  • O Que falta ao Mundo para ser Quadro, Limiar (1993)
  • A Mão Feliz. Poemas D(e)ícticos, Limiar (1994)
  • O Único Traço de Pincel, Limiar (1997)
  • Da Alma e dos Espíritos Animais, Campo das Letras (2001)
  • Soletrar o Dia, Quasi Edições (2002)
  • Animal Volátil, Edições Afrontamento (2005) - juntamente com Casimiro de Brito
  • O Mundo Não Acaba no Frio dos Teus Ossos, Quasi Edições (2009)
  • Gado do Senhor, & Etc. (2011)


Leonard Cohen - Almost Like the Blues


O músico e escritor canadiano Leonard Cohen (Montreal, 21 de setembro de 1934) cumpre hoje 80 anos, nas vésperas de editar o álbum «Popular Problems», que aborda preocupações e dilemas do mundo atual. 

Considerado um dos maiores escritores de canções da segunda metade do século XX, Leonard Cohen celebra os 80 anos de vida, e mais de quarenta de música, com um álbum que fala de guerras, religião, amor e morte. 

«Popular Problems», 13º disco de carreira, «reflete o mundo em que vivemos», afirmou Leonard Cohen esta semana em Londres, num encontro com jornalistas, explicando que o álbum reúne «uma ampla paleta de géneros», como gospel, country e blues. 

Apesar da idade, o músico tem estado mais ativo desde 2008, ano em que encetou uma nova digressão internacional, depois de uma ausência de 15 anos, e editou o álbum «Old Ideas» (2012). 

Sobre o novo álbum, marcado por uma característica voz cavernosa e grave, Leonard Cohen afirmou que é atravessado por um sentimento que é identificável por todos: «Toda a gente sofre e toda a gente luta por ser alguém, por ser reconhecido. É preciso perceber que a luta de um é igual à luta de qualquer outro; e o sofrimento também. Creio que nunca se chegará a uma solução política se não se perceber esta ideia». 

«Popular Problems» inclui temas como «Almost like the blues», «Born in chains», que admitiu ter demorado décadas a concluir, e «A Street», escrito logo após os atentados de 11 de setembro de 2011 em Nova Iorque, mas só agora revelado. 

Há ainda o tema «Nevermind», que conta com uma voz feminina a cantar em árabe, representando «os oprimidos» e as vítimas anónimas dos conflitos armados. 

Questionado se uma canção pode oferecer soluções para problemas políticos, Leonard Cohen respondeu: «Eu penso que a canção é, ela mesma, uma espécie de solução». 

Leonard Cohen publicou o primeiro álbum, «Songs of Leonard Cohen», em 1967, já depois de ter feito trinta anos e de ter revelado a faceta literária, em particular com o livro de poesia «Let us compare mythologies» (1956) e o romance «O Jogo preferido» (1963). (Daqui) 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

"A Vaidade e a Inveja desaparecem com a Idade" - Crónica de António Lobo Antunes


Christen Købke, View of a Street in Østerbro outside Copenhagen. Morning Light, 1836



A Vaidade e a Inveja desaparecem com a Idade


Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos. 


António Lobo Antunes, in "Diário de Notícias (2004)"

 
Christen Købke (1810–1848), Self-Portrait, ca. 1833


"Não me diga que não posso fazer; não me diga que não dá para ser feito." 
 
(Howard Hughes)


Howard Hughes


Produtor, realizador de cinema e homem de negócios de sucesso norte-americano, Howard Robard Hughes Jr. nasceu a 24 de dezembro de 1905, em Humble, no Texas, e morreu a 5 de abril de 1976, em Houston.
Estudou na Universidade de Rice e no Instituto de Tecnologia da Califórnia e, em 1923, com apenas 18 anos, herdou a companhia Hughes Tool e a fortuna do pai - adquirida por ter inventado uma máquina de perfuração para poços de petróleo, que ainda hoje é utilizada - que lhe permitiu criar um império financeiro.
De início, Howard manteve-se afastado dos negócios, levando uma vida sem responsabilidades. Entretanto, aos 20 anos, casou-se com a também milionária Ella Rice, de quem acabaria por se divorciar quatro anos depois. 
Em 1925, mudou-se para a Califórnia onde, um ano depois, investiu parte do seu dinheiro e se aventurou no mundo cinematográfico como produtor do filme Swell Hogan, seguido pela comédia de sucesso Two Arabian Knights (1927), que recebeu o Óscar para Melhor Argumento de Comédia. 
Em 1930, realizou e produziu Hell's Angels, um épico de guerra que demorou cerca de três anos a ser concluído devido à sua busca pela perfeição, e que contou com as interpretações de Ben Lyon, Jean Jarlow e James Hall. O argumento era muito apelativo a Howard por incluir aviões, a sua outra grande paixão. Foi graças ao sucesso obtido com este filme que se tornou uma celebridade em Hollywood.
Ficou também conhecido por se envolver romanticamente com algumas das mulheres mais bonitas da sétima arte, como Carole Lombard, Jean Harlow e Katherine Hepburn, entre muitas outras.
Em 1948, adquiriu o controlo da produtora RKO Pictures e produziu filmes até vender a companhia em 1955.
Como produtor, foi responsável por 26 filmes, entre eles Scarface (Scarface, o Homem da Cicatriz, 1932), realizado por Howard Hawks; o western The Outlaw (A Terra dos Homens Perdidos, 1943), que também realizou e que foi protagonizado por Jane Russell e Jack Buetel, e Jet Pilot (As Estradas do Inferno, 1957), realizado por Josef von Sternberg, com John Wayne
Casou-se pela segunda vez, em 1957, com Jean Peters, de quem se divorciaria em 1971. 
Hughes ficou também conhecido pela sua obsessão por aviões, facto que o levou a comprar uma companhia de aviação e a desenhar, construir e pilotar muitos dos aviões que criava. Chegou inclusive a bater alguns recordes de velocidade.
Sofreu durante parte da sua vida de doença desconhecida, relacionada com perturbações mentais que o faziam viver recluso e solitário e lhe conferiram uma aura de excentricidade devido a alguns comportamentos estranhos.
Hughes acabaria por morrer em abril de 1976, devido a uma insuficiência renal.
 
Howard Hughes. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-11-01].


Leonard Cohen - Hallelujah


"O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel."



sexta-feira, 25 de outubro de 2013

"Ali" - Poema de Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)


Alicia Czechowski (American, b. 1953)



Ali


Ali sofreste. Ali amaste. 
Ali é a pedra do teu lar. 
Ali é o teu, bem teu lugar. 
Ali a praça onde jogaste 
o que o destino te quis dar. 

Ali ficou tua pegada 
impressa, firme, sobre o chão. 
Ninguém a vê sob o montão 
de cinza fria e poeirada? 
Distingue-a, sim, teu coração. 

Podem talvez o vento, a neve, 
roubar a flor que tu criaste? 
Ali sofreste. Ali amaste. 
Ali sentiste a vida breve. 
Ali sorriste. Ali choraste. 


Saúl Dias, in "Sangue"

[Júlio Maria dos Reis Pereira (ou Júlio, como artista plástico e Saúl Dias como poeta – Vila do Conde, 1902 — 1983), foi um pintor, ilustrador e poeta português.
Pertence à segunda geração de pintores modernistas portugueses e foi autor de uma obra multifacetada que se divide entre as artes plásticas e a escrita, tendo sido um dos mais importantes colaboradores da revista Presença.]


Alicia Czechowski, Salt Marsh


Alicia Czechowski, Lara as Flora, oil on linen, 28x22 inches


Alicia Czechowski, Insomnia, oil on linen,  36x36


Alicia Czechowski, Lady


Alicia Czechowski, Pink and red ruffled dress


Alicia Czechowski, Bar Interior painting
 

"Quem não gosta de estar sozinho é uma péssima companhia."

Gonçalo M. Tavares
Fonte - Diário de Notícias (2004)

[Gonçalo Manuel Tavares (Luanda, Agosto de 1970), mais conhecido na forma Gonçalo M. Tavares, é um escritor e professor universitário português, cuja primeira obra foi publicada em 2001.]


Leonard Cohen - I'm Your Man 



domingo, 30 de outubro de 2011

"Envelhecer" - Poema de Wilson Frade


Émile Bernard (1868-1941), Avó, 1887, Óleo sobre tela


Envelhecer


Embora todos os pretensos à velhice
se agarrem ao espírito,
o tédio chega e vai ficando.

As nossas mãos já não escrevem com o mesmo brilho
e já não enfrentamos a vida com o mesmo espanto no olhar.

O verde já não é tão verde
e não nos atiramos no mar com a mesma gulodice.

Amamos com maior cautela,
menos febrilmente, mas, bem mais ordenadamente.

Buscamos o sabor do beijo com a febre de que ele possa acabar,
mas sentimos um frio no corpo se pensamos que tudo isso
possa terminar.

Os fios de cabelos brancos já não nos castigam
porque descobrimos mais a lua e as estrelas,
e curtimos aquele chinelo velho
em extremo desuso.

Prestamos mais atenção aos passarinhos
e no riacho que corre,
e tornamo-nos mais íntimos da morte.

Fingimos que ela é nossa amante
para que não nos leve assim tão de repente
e não nos tire os raros momentos em que nos tornamos jovens.


Wilson Frade,
Poemas de um livro só, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1991

[Wilson Frade (1920-2000) foi um jornalista, pintor, poeta, instrumentista e compositor mineiro.]


Leonard Cohen - Dance Me to the End Of Love


"A alegria mantém uma espécie de luz solar brilhando na mente e a invade com uma serenidade perene e firme."

(Josefh Addison)

[Joseph Addison (Inglaterra, 1672 - 1719) foi um poeta e ensaísta inglês.]