domingo, 21 de setembro de 2014

"O Pecado da Gula" - Poema de Rosa Alice Branco





O Pecado da Gula


Ontem à tarde saí.
Queria passear as lembranças
que um dia de chuva faz crescer em nós.
Há dias que o vento rondava a casa
cheio de segredos incompletos
a roçar-me a orelha. E eu não resisto
ao sabor do vento
e a uma boa história para enganar o frio.

É fácil perdermo-nos nas ruas.
Nunca se regressa pelos mesmos caminhos
mas todos parecem iguais
com o cheiro da chuva a deixar o alcatrão
e a subir na memória
de outras ruas.
Mas há só um caminho que trilhamos. O corpo
é uma bússola fiel que segue pela estrada
enquanto o pó se levanta
muito para além dos nossos passos.


Rosa Alice Branco, in "Animal Volátil"
Edições Afrontamento, 2005

Rosa Alice Branco, mestre em Filosofia do Conhecimento pela Universidade Nova de Lisboa, com uma tese sobre a perceção visual em Berkeley, nasceu em 1950. Ensina psicologia da perceção na Escola Superior de Artes e Design. Participou no Grupo de Estudos de Semiótica e Poética do Porto, tendo sido um dos responsáveis pela revista Figuras e pertence à direção da revista Limiar. A sua poesia, refletindo sobre paradoxos filosóficos e linguísticos, ocupa um lugar único na poesia portuguesa contemporânea mais recente.
 
Rosa Alice Branco. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014.

Bibliografia: 

  • Animais da Terra, Limiar (1988)
  • O Desenvolvimento da Filosofia do Sugerir: a Perceção como Operação Interpretativa, tese de -mestrado (1990)
  • Monadologia Breve, Limiar (1991)
  • O Que falta ao Mundo para ser Quadro, Limiar (1993)
  • A Mão Feliz. Poemas D(e)ícticos, Limiar (1994)
  • O Único Traço de Pincel, Limiar (1997)
  • Da Alma e dos Espíritos Animais, Campo das Letras (2001)
  • Soletrar o Dia, Quasi Edições (2002)
  • Animal Volátil, Edições Afrontamento (2005) - juntamente com Casimiro de Brito
  • O Mundo Não Acaba no Frio dos Teus Ossos, Quasi Edições (2009)
  • Gado do Senhor, & Etc. (2011)

Leonard Cohen - Almost Like the Blues


O músico e escritor canadiano Leonard Cohen (Montreal, 21 de setembro de 1934) cumpre hoje 80 anos, nas vésperas de editar o álbum «Popular Problems», que aborda preocupações e dilemas do mundo atual. 

Considerado um dos maiores escritores de canções da segunda metade do século XX, Leonard Cohen celebra os 80 anos de vida, e mais de quarenta de música, com um álbum que fala de guerras, religião, amor e morte. 

«Popular Problems», 13º disco de carreira, «reflete o mundo em que vivemos», afirmou Leonard Cohen esta semana em Londres, num encontro com jornalistas, explicando que o álbum reúne «uma ampla paleta de géneros», como gospel, country e blues. 

Apesar da idade, o músico tem estado mais ativo desde 2008, ano em que encetou uma nova digressão internacional, depois de uma ausência de 15 anos, e editou o álbum «Old Ideas» (2012). 

Sobre o novo álbum, marcado por uma característica voz cavernosa e grave, Leonard Cohen afirmou que é atravessado por um sentimento que é identificável por todos: «Toda a gente sofre e toda a gente luta por ser alguém, por ser reconhecido. É preciso perceber que a luta de um é igual à luta de qualquer outro; e o sofrimento também. Creio que nunca se chegará a uma solução política se não se perceber esta ideia». 

«Popular Problems» inclui temas como «Almost like the blues», «Born in chains», que admitiu ter demorado décadas a concluir, e «A Street», escrito logo após os atentados de 11 de setembro de 2011 em Nova Iorque, mas só agora revelado. 

Há ainda o tema «Nevermind», que conta com uma voz feminina a cantar em árabe, representando «os oprimidos» e as vítimas anónimas dos conflitos armados. 

Questionado se uma canção pode oferecer soluções para problemas políticos, Leonard Cohen respondeu: «Eu penso que a canção é, ela mesma, uma espécie de solução». 

Leonard Cohen publicou o primeiro álbum, «Songs of Leonard Cohen», em 1967, já depois de ter feito trinta anos e de ter revelado a faceta literária, em particular com o livro de poesia «Let us compare mythologies» (1956) e o romance «O Jogo preferido» (1963). (daqui) 

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