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sexta-feira, 3 de outubro de 2025

"Morte ao meio-dia" - Poema de Ruy Belo



Armando Anjos (Pintor português, 1931
2017), "Ferragudo", Lagoa (Algarve), s.d.
 

Morte ao meio-dia


No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
mas que fazer de toda esta cor azul
que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se
e mais nada

A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga calado cada prestação
Para banhos de sol nem casa se precisa
E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspeção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer


Ruy Belo, in "País Possível", 1973.
Edição/reimpressão: 01-2016 
Editor: Assírio & Alvim 
 
 
 
Armando Anjos (Pintor português, 19312017), "Regresso da faina", s.d.


"Nada há de constante neste mundo, exceto a inconstância."

Jonathan Swift, "Uma Modesta Proposta", 1729.

 

domingo, 14 de setembro de 2025

"Mulher" - Poema de José Carlos Ary dos Santos


 Ezequiel Pereira (Pintor português, 1868 - 1943), "Lavando roupa no rio", 1894.


Mulher


A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama.

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração.

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha.

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são.

A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade.

Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher.


José Carlos Ary dos Santos
(Poeta e declamador português, 1936–1984)



Ezequiel Pereira, Cruz Quebrada, 1891.


"No homem, o desejo gera o amor; na mulher o amor gera o desejo."

"In men, desire begets love, and in women, love begets desire."
 
Jonathan Swift

Citando Fitzharding, em carta de 28 de outubro de 1712 in "The works of Jonathan Swift:
containing additional letters, tracts, and poems not hitherto published;
with notes, and a life of the author"‎ - Volume 3, Página 61.

 
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado.

Ezequiel Pereira, pintor paisagista e professor, nasceu em Lisboa em 1868. Discípulo de Silva Porto, estudou em Paris e destacou-se no ensino artístico durante 40 anos. Foi premiado em várias exposições e condecorado pelo Governo. Viveu entre Lisboa, Ponta Delgada e Faro, deixando um legado de dedicação à arte e à educação. Faleceu em 1943, tendo a sua obra sido homenageada postumamente.


 
Duarte Faria e Maia (Pintor açoriano, 1867 - 1922), 
Autorretrato, c. 1897, Museu Carlos Machado.
 
Duarte Faria e Maia estudou em Paris, em 1887, onde foi discípulo de Blanc, Dupain e Olivier Merson, destacando-se como pintor de costumes populares, da vida rural e de paisagens. Participou nas exposições do Grémio Artístico, em 1882, na Sociedade Promotora de Belas-Artes, em 1887, e na 1ª Exposição da Sociedade Nacional de Belas-Artes, em 1901. 
A principal coleção das suas pinturas encontra-se no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, instituição que possui cerca de três dezenas de obras deste pintor. Está representado no Museu do Chiado, em Lisboa, com o Retrato do Pintor Ezequiel Pereira (1903).