Charles-Amable Lenoir (French painter, 1860-1926), To the Return of Times Lost (A la Recherche du Temps Perdu), Unknown date. Oil on canvas. Private collection.
Neurónios Poéticos
Algum neurónio que fugiu à mãe e se refugiou no canto esquerdo, sob o meu ouvido.
Aí, fez ninho, redondo e tão preciso como centro do alvo mais premente.
O coração desbaratando forças, uma saudade sempre consistente: a mãe nunca deixando de o chorar.
De vez em quando, o seu suspiro ecoa, no canto esquerdo sob o meu ouvido - que o eco mo devolve do avesso.
E uma lágrima cai na folha em frente. Redonda, independente.
Inundando (depende) ora centro, ora canto, ora margem de texto. O ninho devagar: desequilíbrio manso.
George Sand, escritora francesa, de seu verdadeiro nome Amantine Lucile Aurore Dupin de Francueil, baronesa Dudevant, nascida em 1804 e falecida em 1876, inicia a publicação dos romances passionais Indiana e Valentine (1832) sob o pseudónimo masculino George Sand.
Figura controversa da sociedade parisiense, tem uma longa ligação com Chopin e expressa as suas ideias políticas, caracterizadas por um socialismo idealista, em revistas e jornais.
Uma nova fase da sua vida, passada no campo, repercute-se nos temas de François le Champi (1847-48) e La Petite Fadette (1849).
Em Elle et Lui (1859), romance de cariz autobiográfico, aborda a sua ligação com Musset e inaugura uma fase memorialista (que viria a incluir Rêveries e Souvenirs, 1871-72). A sua Correspondência figura como um documento incontornável para o conhecimento do século XIX e de uma mulher de exceção. (daqui)
Ferdinand Victor Eugène Delacroix (Saint-Maurice, 26 de abril de 1798 — Paris, 13 de agosto de 1863) foi um importante pintor francês do Romantismo.
Delacroix é considerado o mais importante representante do romantismo francês. Na sua obra convergem a voluptuosidade de Rubens, o refinamento de Veronese, a expressividade cromática de William Turner e o sentimento patético de seu grande amigo Géricault. O pintor, que como poucos soube sublimar os sentimentos por meio da cor, escreveu: "…nem sempre a pintura precisa de um tema". E isso seria de vital importância para a pintura das primeiras vanguardas.
Delacroix nasceu em Saint-Maurice, numa família de grande prestigio social, e seu pai virou ministro da república. Acreditava-se que seu pai natural teria sido na realidade o príncipe Talleyrand, seu mecenas. O facto é que Delacroix teve uma educação esmerada, que o transformou num erudito precoce: frequentou grandes colégios de Paris, teve aulas de música no Conservatório e de pintura na Escola de Belas-Artes. Também aprendeu aguarela com o professor Soulier e trabalhou no ateliê do pintor Pierre-Narcisse Guérin, onde conheceu Géricault. Visitava quase todos os dias o Louvre, para estudar as obras de Rafael Sanzio e Rubens. (Daqui)
[Amantine (also "Amandine") Lucile Aurore Dupin, later Baroness Dudevant (1 July 1804 – 8 June 1876),
best known by her pseudonym George Sand, was a French novelist and memoirist.]
Os Teus Pés
Quando não te posso contemplar Contemplo os teus pés. Teus pés de osso arqueado, Teus pequenos pés duros, Eu sei que te sustentam E que teu doce peso Sobre eles se ergue. Tua cintura e teus seios, A duplicada púrpura Dos teus mamilos, A caixa dos teus olhos Que há pouco levantaram voo, A larga boca de fruta, Tua rubra cabeleira, Pequena torre minha. Mas se amo os teus pés É só porque andaram Sobre a terra e sobre O vento e sobre a água, Até me encontrarem.
Falareis de nós como de um sonho. Crepúsculo dourado. Frases calmas. Gestos vagarosos. Música suave. Pensamento arguto. Subtis sorrisos. Paisagens deslizando na distância. Éramos livres. Falávamos, sabíamos, e amávamos serena e docemente.
Uma angústia delida, melancólica, sobre ela sonhareis.
E as tempestades, as desordens, gritos, violência, escárnio, confusão odienta, primaveras morrendo ignoradas nas encostas vizinhas, as prisões, as mortes, o amor vendido, as lágrimas e as lutas, o desespero da vida que nos roubam - apenas uma angústia melancólica, sobre a qual sonhareis a idade de oiro.
E, em segredo, saudosos, enlevados, falareis de nós - de nós! - como de um sonho.
Jorge de Sena
Jorge de Sena
Jorge Cândido de Sena (Lisboa, 2 de Novembro de 1919 — Santa Barbara, Califórnia, 4 de Junho de 1978) foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário português.
Foi autor de uma obra marcada sobretudo pela reflexão humanista acerca da liberdade do Homem. "Pensador que sente e sentidor que pensa" (Eugénio Lisboa), os seus poemas partem geralmente de um objeto para fixar uma meditação sobre o "eu" e o seu lugar no mundo. Depois de concluir os estudos liceais, ingressou na Escola Naval, curso que não concluiu por impedimentos vários, vindo a formar-se em Engenharia Civil na Universidade do Porto. Ainda durante os estudos universitários, publicou, sob o pseudónimo Teles de Abreu, as suas primeiras composições poéticas em periódicos como Presença e travou conhecimento com o grupo de poetas que viria a reunir-se em torno de Cadernos de Poesia, convivendo, entre outros, com José Blanc de Portugal, Ruy Cinatti, Alberto Serpa e Casais Monteiro. O seu nome surgiria, com efeito, associado a essa publicação que, em 1940, sob o lema de "Poesia é só uma" pretendia distinguir-se pelo ecletismo e pelo diálogo entre várias tendências e gerações poéticas, vindo a codirigir as suas 2.ª e 3.ª séries e subscrevendo uma conceção de poesia que "com todos os seus ingredientes, recursos, apelos aos sentidos, resulta de um compromisso firmado entre um ser humano e o seu tempo, entre uma personalidade e uma sua consciência sensível do mundo, que mutuamente se definem". É, aliás, no âmbito das edições de Cadernos de Poesia que, em 1942, é publicada a sua primeira obra poética: Peregrinação. Ainda durante os anos 40, colaborou com Aventura (1942-43), Litoral (1944), Portucale (2.ª série, 1946), Seara Nova (nas páginas da qual trava, em 1949, polémica com os surrealistas), mantendo ainda colaboração regular com Diário Popular e encetando uma atividade de não somenos importância na sua atividade literária como tradutor de poesia (entre outras obras, saliente-se, na sua bibliografia, 90 e Mais Quatro Poemas de Constantino Cavafy (Porto, 1970), Poesia de Vinte e Seis Séculos: I - de Arquiloco a Calderón, II - de Bashó a Nietzsche (Porto, 1972), Poesia do Século XX (Porto, 1978). A partir de meados dos anos 40 intensificou, paralelamente à atividade profissional como engenheiro da Junta Autónoma de Estradas, a sua atividade de conferencista, proferindo comunicações que incidem frequentemente sobre dois dos seus temas diletos: Camões e Fernando Pessoa (de quem editará, em 1947, as Páginas de Doutrina Estética). Durante os anos 50, afirmou-se como uma das presenças mais influentes e complexas da cultura e literatura portuguesas; é durante essa década que publica algumas das suas mais conhecidas obras poéticas (Metamorfoses, Evidências, Fidelidade); que publica a sua primeira tentativa dramática, a tragédia O Indesejado; que colabora com publicações como Gazeta Musical e de Todas as Artes, Árvore, Notícias do Bloqueio, Cadernos do Meio-Dia; e que organiza a terceira série da antologia Líricas Portuguesas.
A sua postura humanista e o espírito de inconformismo contra a ditadura fascista levaram-no, em 1959, após o envolvimento numa tentativa falhada de golpe de Estado militar contra o regime salazarista, a optar por um exílio voluntário no Brasil, onde viria a exercer funções de docência nos domínios da Literatura Portuguesa e da Teoria da Literatura, nas Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras de Assis e de Araraquara, em S. Paulo. Publicou, então, uma série de obras ensaísticas como Da Poesia Portuguesa e desenvolveu uma intensa atividade como congressista, não deixando ainda de, como redator no jornal Portugal Democrático, participar em ações de denúncia da ditadura a partir do exterior. Em 1961, publicou o primeiro volume da sua obra poética completa, encerrando a que tem sido encarada como uma primeira fase poética. No ano anterior publicara o seu primeiro livro de ficção, a coletânea de contos Andanças do Demónio. Face aos obstáculos que sistematicamente eram levantados à sua progressão na carreira académica (primeiro, a sua naturalidade, depois a inadequação curricular entre a sua formação e a lecionação), em 1965 transferiu-se para a Universidade do Wisconsin, Madison, nos Estados Unidos da América, em cujo departamento de Espanhol e Português seria nomeado professor catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira; em 1970, transferiu-se para a Universidade de Califórnia, em Santa Bárbara, onde viria a ser nomeado, dois anos depois, chefe do departamento de Literatura Comparada e, em 1975, chefe do Departamento de Espanhol e Português. Entretanto, participou em inúmeros congressos internacionais; tornou-se membro da Modern Languages Association e da Renaissance Society of America; e empreendeu várias deslocações à Europa, nunca interrompendo a edição quer de títulos de teoria e história literária e estudos literários clássicos, modernos e contemporâneos, quer a obra poética pessoal, publicando, antes e depois da primeira visita autorizada a Portugal em nove anos de exílio, entre 1968 e 1969, os livros de poesia Arte de Música e Peregrinatio ad Loca Infeta. Após o 25 de abril, recebeu várias homenagens públicas em Portugal, sendo condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique e, a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago e Espada. No ano da sua morte, 1978, vieram a público, revistos pelo autor, os volumes Poesia II e Poesia III, a que se seguiriam, postumamente, os volumes 40 Anos de Servidão e Post-Scriptum II. A obra de Jorge de Sena ocupa uma posição singular na literatura contemporânea nacional e internacional, dado o facto de, enquanto mediadora de uma história literária e cultural com que o autor estabelece um diálogo existencial e textual, se apresentar, segundo o prisma por que for encarada, simultaneamente como clássica, moderna, socialmente empenhada, confessional e surrealizante. Apreciando o conjunto da poesia de Jorge de Sena, no fim dos anos 50, António Ramos Rosa observa como "surrealismo e classicismo" nela se defrontam, "numa extrema tensão, para se fundirem, apesar de aparentemente irreconciliáveis, numa expressão poética de uma grande elegância prosódica, muitas vezes lapidar e finamente musical, e sempre de um conteúdo intelectual, sensível ou afetivo, extremamente rico e depurado", dando corpo a uma poesia complexa que "é, ao mesmo tempo, um exercício espiritual, e um exercício de linguagem, uma poesia de conhecimento e de interrogação filosófica ou metafísica, mas sempre da mais alta intimidade reflexiva que a alma humana possa ter consigo mesma e, ao mesmo tempo, uma poesia mais direta, que corajosamente afronta alguns problemas cruciais da condição humana presente. (ROSA, António Ramos in Cadernos do Meio-Dia, fevereiro de 1959, cit. in SENA, Jorge de - Obra Poética I, 3.ª ed., Lisboa, Ed. 70, 1988, p. 224). A obra poética de Sena, fundindo classicismo e modernismo, realiza a evolução possível na poesia pós-Pessoa, ao superar o subjetivismo que Pessoa anulou com a invenção heteronímica, através da projeção dos sentimentos do sujeito sobre uma superfície objetiva onde aqueles se cristalizam sem emanarem de uma identidade precisa (cf. MAGALHÃES, Joaquim Manuel - Os Dois Crepúsculos, Lisboa, A Regra do Jogo, Lisboa, 1981, pp. 55-56), ou, por outras palavras, "O homem investido pela história e pelo mundo, o homem mediado pela vida exterior tanto como pelo conhecimento que a cultura significa, [informa] em suma um Sena que é mais importante para Sena que ele mesmo enquanto subjetividade privada". Naquele que é um dos mais exaustivos estudos sobre a poesia de Jorge de Sena, Luís Adriano Carlos defende que a "visão poética seniana [incorpora] de forma singular não só uma visão estética mas também uma visão filosófica, uma visão histórica e uma visão tipológica", estabelecendo nomeadamente ligações intertextuais com um campo textual filosófico que introduz "na "razão poética" uma razão dialética - e uma razão fenomenológica, reintegradas numa razão existencial", apresentando, assim, a sua obra poética como "simultânea e correlativamente "objeto histórico" e "objeto fenomenológico" (CARLOS, Luís Adriano - Poética e Poesia de Jorge de Sena, antinomias, tensões, metamorfoses, 2 vols., Porto, Faculdade de Letras, 1993, p. 11, vol. I, p. 13). Em 1979, foi publicado o seu único e inacabado romance, Sinais de Fogo, que tem como objeto a aprendizagem (sexual, poética, política) de um protagonista, pelo olhar do qual é reconstituída uma sociedade portuguesa, provinciana e burguesa, que tem como pano de fundo histórico a guerra civil espanhola.
Jorge de Sena. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-10-31]
Pinturas de Eugène Delacroix
Eugène Delacroix, Louis d'Orleans devoilant une maitresse
Eugène Delacroix, Mademoiselle Rose
Eugène Delacroix, Head of a woman
Eugène Delacroix, Frightened Horse
Eugène Delacroix, The Natchez, 1835
Eugène Delacroix, Flowers, 1833
Eugène Delacroix, Young tiger playing with its mother
Maria do Carmo de Carvalho Rebelo de Andrade (Lisboa, 20 de Agosto de 1984), conhecida como Carminho, é uma fadista portuguesa. Nasceu numa família de músicos, sendo a sua mãe, Teresa Siqueira, e o seu irmão, Francisco Andrade, também cantores.
Apesar
de ter começado a cantar desde criança, só aos 22 anos decidiu fazer
carreira musical depois de uma longa viagem pelo mundo que demorou 11
meses que a ajudou a tomar essa decisão. Diz que não precisou de coragem
e explica simplesmente que é feliz a cantar o fado.
Tem passado por várias casas de fado como A Taverna do Embuçado, Petisqueira de Alcântara e Mesa de Frades. Esteve na Suíça, numa quinzena temática portuguesa e com esse grupo, Tertúlia de Fado Tradicional gravou quatro canções ("Toca Pr'á Unha", "O Vento Agitou O Trigo", "Fado Pombalinho" e "O Fado da Mouraria") do CD "Saudades do Fado", editado em 2003
O disco de estreia, "Fado", produzido por Diogo Clemente foi editado a 1 de Junho de 2009.
Participa na campanha de 2011 do Pirilampo Mágico gravando o single "Ser Feliz" com Ney Matogrosso. É um dos vários nomes convidados para o disco "Os Fados e as Canções do Alvim" de Fernando Alvim.
Em Março de 2012 lançou o seu segundo disco intitulado "Alma". A edição brasileira irá incluir duetos comChico Buarque ("Carolina"), Milton Nascimento ("Cais") e Nana Caymmi ("Contrato de Separação")
Camilo Almeida Pessanha (Coimbra, 7 de Setembro de 1867 — Macau, 1 de Março de 1926) foi um poeta português.
Camilo Pessanha foi um dos mais importantes poetas portugueses. Expoente máximo do Simbolismo, escreveu poemas e sonetos de grande qualidade rítmica e formal. Estudou direito na Universidade de Coimbra e viveu grande parte da vida em Macau. Apaixonado pela cultura chinesa, fez vários estudos e traduziu poetas chineses. A sua obra influenciou escritores como Fernando Pessoa ou Mário de Sá-Carneiro. Os seus poemas foram reunidos numa coletânea intitulada “Clepsidra”, considerado um dos melhores livros da poesia portuguesa.
Camilo Pessanha exerceu uma influência fundamental na poesia portuguesa - apesar da sua personalidade apagada e de fugir de todo o tipo de protagonismos. Com grande sensibilidade, escrevia sobre ideais inatingíveis e a inutilidade dos esforços humanos.
Camilo Pessanha nasceu em Coimbra, fruto da ligação ilícita entre um aristocrata estudante de direito e uma criada. Começou o liceu em Lamego e acabou-o em Coimbra. Em 1891 formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Partiu, três anos mais tarde, para Macau, onde deu aulas de filosofia.
Os seus poemas foram publicados, pela primeira, em 1899 - não devido aos esforços de Camilo Pessanha, mas dos amigos. Foram eles que os fizeram chegar às revistas literárias. Foi assim que se tornou uma referência para a geração de Orpheu, que tinha como figuras de proa Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.
Camilo Pessanha fazia parte do Simbolismo, movimento proveniente de França e da Alemanha, que procurava expressar a realidade através de símbolos. A sua poesia era melancólica e pessimista, como podemos depreender num excerto de“Castelo de Óbidos”: “O meu coração desce, / Um balão apagado? / Melhor fora que ardesse, / Nas Trevas incendiado.” Em muitas das suas obras, mostrava uma tristeza absoluta e viscosa, de que era impossível fugir, como uma doença. A dor dilacerava.
Em 1900 Pessanha ocupou a função de conservador do Registo Predial de Macau. Ao mesmo tempo, ia estudando a cultura chinesa. Aproveitou o conhecimento da língua para traduzir poemas de autores locais.
Regressou algumas vezes a Portugal. Um dos seus melhores amigos era Alberto Osório de Castro, irmão da escritora e feminista Ana de Castro Osório. Pessanha apaixonou-se perdidamente por ela. Um amor não correspondido que durou a vida inteira. Ana de Castro Osório viria a ser uma das responsáveis pela publicação do primeiro livro de Pessanha: “Clepsidra”.
Regressou a Macau onde acabou por morrer. O consumo diário de ópio provocou-lhe a morte em 1926. Camilo Pessanha revelou-se essencial para a poesia portuguesa. Sem ele, autores como Cesário Verde e Eugénio de Andrade não teriam encontrado um mestre.
Galeria de Yoshiro Tachibana
"Primeiro aprenda a ser um artesão. Isso não o impedirá de ser um génio."