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sábado, 5 de maio de 2012

"Rosa Pálida" - Poema de Almeida Garrett



Rob Hefferan (English artist, born in 1968) 


Rosa Pálida

Rosa pálida, em meu seio
Vem, querida, sem receio
Esconder a aflita cor.
Ai!, a minha pobre rosa!
Cuida que é menos formosa
Porque desbotou de amor.

Pois sim... quando livre, ao vento,
Solta de alma e pensamento,
Forte de tua isenção,
Tinhas na folha incendida
O sangue, o calor e a vida
Que ora tens no coração.

Mas não eras, não, mais bela,
Coitada, coitada dela,
A minha rosa gentil!
Coravam-na então desejos,
Desmaiam-na agora os beijos...
Vales mais mil vezes, mil.

Inveja das outras flores!
Inveja de quê, amores?
Tu, que vieste dos Céus,
Comparar tua beleza
Às filhas da natureza!
Rosa, não tentes a Deus.

E vergonha!... de quê, vida?
Vergonha de ser querida,
Vergonha de ser feliz!
Porquê?... porquê em teu semblante
A pálida cor da amante
A minha ventura diz?

Pois, quando eras tão vermelha
Não vinha zângão e abelha
Em torno de ti zumbir?
Não ouvias entre as flores
Histórias dos mil amores
Que não tinhas, repetir?

Que hão-de eles dizer agora?
Que pendente e de quem chora
É o teu lânguido olhar?
Que a tez fina e delicada
Foi, de ser muito beijada,
Que te veio a desbotar?

Deixa-os: pálida ou corada,
Ou isenta ou namorada,
Que brilhe no prado flor,
Que fulja no céu estrela,
Ainda é ditosa e bela
Se lhe dão só um amor.

Ai!, deixa-os, e no meu seio
Vem, querida, sem receio
Vem a frente reclinar.
Que pálida estás, que linda!
Oh!, quanto mais te amo ainda
Dês que te fiz desbotar.


 
 
Pintura de Rob Hefferan


"Por causa da rosa, a erva daninha acaba sendo regada." 

(Provérbio Árabe)


Pintura realista de Rob Hefferan 


"A pintura transforma o espaço em tempo; a música, o tempo em espaço."

(Hugo von Hofmannsthal) 


Pintura realista de Rob Hefferan 


"Só quem cria o que é mais delicado pode criar o que é mais forte."

(Hugo von Hofmannsthal)
 

Pintura realista de Rob Hefferan


"Não se pode pretender que alguém conheça tudo, mas sim que,
conhecendo alguma coisa, tenha conhecimento de tudo".

(Hugo von Hofmannsthal)



Hugo von Hofmannsthal, 1893

Hugo von Hofmannsthal (Viena, 1 de fevereiro de 1874 — Rodaun, perto de Viena, 15 de julho de 1929), foi um escritor austríaco, que alcançou prestígio internacional graças a sua colaboração com o compositor Richard Strauss (1864-1949). 
Filho de um rico banqueiro, ainda adolescente publicou poemas simbolistas (1890) que lhe trouxeram celebridade instantânea. 
Estudou direito e escreveu uma série de pequenas obras teatrais em verso (1891-1899), também consideradas de mais alto nível lírico e de grande sucesso, tais como Gestern (1891), Der Tod des Tizian (1892), Der Tor und der Tod (1893) e Das kleine Welttheater (1897). 
Casou-se e saindo do seu característico lirismo de até então, publicou o ensaio Ein Brief (1902). 
Nos anos seguintes compôs algumas de suas mais notáveis tragédias, como Elektra (1903), Der Rosenkavalier (1911), Ariadne auf Naxos (1912) e Die Frau ohne Schatten (1919), entre outras, convertidas em ópera por Richard Strauss. 
Antes da I Guerra Mundial associou-se com o diretor teatral Max Reinhardt (1873-1943) e criou o Festival de Salzburgo, um dos pontos altos da vida cultural internacional e onde representou Jedermann (1911), sua peça dramática mais conhecida. 
Sua última peça, Der Turm (1925), era uma reflexão sobre o destino da cultura ocidental, inspirada no poeta espanhol Don Pedro Calderón de la Barca (1600-1681). 
Consagrado como um dos principais representantes da brilhante geração de escritores austríacos do fim do século XIX, morreu em Rodaun, perto de Viena, com 55 anos de idade.
 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

"Suspensão Coloidal" - Poema de António Gedeão



Rob Hefferan (English artist, born in 1968) 



Suspensão Coloidal 

 
Penso no ser poeta, e andar disperso
na voz de quem a não tem;
no pouco que há de mim em cada verso,
no muito que há de tudo e de ninguém.

Anda o cego a tocar La Violotera,
e eu a vê-lo, e a cegar;
e a pobre da mulher esfregando e pondo a cera,
e eu a vê-la, e a esfregar

Que riso perto, que aflição distante,
que ínfima débil, breve coisa nada,
iça, ao fundo, esta draga carburante,
rasga, revolve e asfalta a subterrânea estrada?

Postulados e leis e lemas e teoremas,
tudo o que afirma e fura e diz que sim,
teorias, doutrinas e sistemas,
tudo se escapa ao autor dos meus poemas.
A ele, e a mim. 


António Gedeão
, in "Máquina de fogo", 1961



Obras de Rob Hefferan
Rob Hefferan


"Nada torna um rosto mais impenetrável do que a máscara da bondade."
 
 André Gide
 
 

Rob Hefferan


"A arte é uma colaboração entre Deus e o artista, e quanto menos o artista participar, melhor." 
 
 André Gide 
 

 Rob Hefferan


"Só admito que uma coisa não seja natural: a arte." 
 
 André Gide


 Rob Hefferan


"Crê nos que buscam a verdade. Duvida dos que a encontraram." 
 
 André Gide


André Gide

André Paul Guillaume Gide (Paris, 22 de novembro de 1869 — Paris, 19 de fevereiro de 1951) foi um escritor francês. Recebeu o Nobel de Literatura de 1947. 
Oriundo de uma família da alta burguesia, foi o fundador da Editora Gallimard e da revista Nouvelle Revue Française
Gide não somente era homossexual assumido, como também falava abertamente em favor dos direitos dos homossexuais, tendo escrito e publicado, entre 1910 e 1924, um livro destinado a combater os preconceitos homofóbicos da sociedade de seu tempo, Corydon. Liberdade e libertação recusando restrições morais e puritanas, a sua obra articula-se ao redor da busca permanente da honestidade intelectual: como ser igual a si mesmo, ao ponto de assumir a sua pederastia e a sua homossexualidade.
Entre as suas obras mais importantes estão Os Frutos da Terra, a já mencionada Corydon, A Sinfonia Pastoral, O Imoralista e Os Moedeiros Falsos. (daqui)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

"Ver claro" - Poema de Eugénio de Andrade



Rob Hefferan (English artist, born in 1968)


Ver claro


Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


Eugénio de Andrade (1923–2005),
in 'Os Sulcos da Sede', 2001
 

Obras de Rob Hefferan








 

“Creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão...
Ver girar essas pequenas almas leves, loucas, graciosas e que se movem é o que, de mim, arrancam lágrimas e canções.
Eu só poderia acreditar em um Deus que soubesse dançar.
E quando vi meu demónio, pareceu-me sério, grave, profundo, solene. Era o espírito da gravidade. Ele é que faz cair todas as coisas.
Não é com ira, mas com riso que se mata. Coragem!
Vamos matar o espírito da gravidade!
Eu aprendi a andar. Desde então, passei por mim a correr.
Eu aprendi a voar. Desde então, não quero que me empurrem para mudar de lugar.
Agora sou leve, agora voo, agora vejo por baixo de mim mesmo, agora um Deus dança em mim!”


Friedrich Nietzsche (1844–1900), em 'Assim Falou Zaratustra', 1883‒1885
 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

"Cântico de Barro" - Poema de Maria Alberta Menéres


Rob Hefferan (English artist, born in 1968) 


Cântico de Barro 


Inquieta chuva, inquieta me dispersa,
esquecida a tradição e o cansado som.
Dentro e fora de mim tudo é deserto
como se as ervas fossem arrancadas
ou se esgotasse a dor por que se chora. 

Na grande solidão me basta, e a contemplo
para o sonho interior que me resolve!
Tão fácil é esperar, que já nem sinto
o que vem a dormir ou a morrer
na mesma angústia que o silêncio envolve. 



***

Obras de Rob Hefferan
Rob Hefferan
 
 
Rob Hefferan
 

Rob Hefferan
 

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Rob Hefferan
 
 
- Pensamentos -

  • ''A felicidade é igual, quer se encontre numa pessoa rica quer numa de condição humilde '' - Eurípedes
 
[Eurípides (Salamina, ca. 480 a.C. — Pela, Macedônia, 406 a.C. foi um poeta trágico grego, do século V a.C., o mais jovem dos três grandes expoentes da tragédia grega clássica, que ressaltou em suas obras as agitações da alma humana e em especial a feminina. Tratou dos problemas triviais da sociedade ateniense de seu tempo, com o intuito de moderar o homem em suas ações, que se encontravam descontroladas e sem parâmetros, pois o que se firmava naquela sociedade era uma mudança de valores de tradições que atingiam diretamente no modo de pensar e agir dos homens gregos.]


 
Rob Hefferan

  • "Um bom amigo, que nos aponta os erros e as imperfeições e reprova o mal, deve ser respeitado como se nos tivesse revelado o segredo de um oculto tesouro." - Sidarta Gautama

Rob Hefferan
 
  • "A maturidade do homem consiste em haver reencontrado a seriedade que tinha no jogo quando era criança." - Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do século XIX


Rob Hefferan
 
  • "Eu acho que se nós olharmos muito para uma coisa, uma ave, o chão, a história está lá, nós é que não olhamos. Eu tenho milhares de episódios com crianças que me dizem que não sabem o que escrever e eu simplesmente lhes digo para olharem para algo. Todas as coisas têm uma história para contar." - Maria Alberta Menéres


Rob Hefferan
 
  • "Lembro-me que, quando criança, como era muito raro estar doente, de vez em quando dizia para os meus pais: "Amanhã faz de conta que estou doente! Quero canja e que me contem histórias todo o dia!" - Maria Alberta Menéres



  • "Na nossa própria natureza selvagem é onde melhor nos refazemos da nossa não-natureza, da nossa espiritualidade..." - Friedrich Nietzsche

terça-feira, 1 de maio de 2012

"Assim a casa seja" - Poema de Lídia Jorge


Rob Hefferan (English artist, born in 1968) 


Assim a casa seja 


Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada 

Voltaste, já voltaste
Já entras como sempre
Abrandas os teus passos
E páras no tapete 

Então que uma luz arda
E assim o fogo aqueça
Os dedos bem unidos
Movidos pela pressa. 

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Voltaste, já voltei
Também cheia de pressa
De dar-te, na parede
O beijo que me peças 

Então que a sombra agite
E assim a imagem faça
Os rostos de nós dois
Unidos pela graça. 

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada 

Amor, o que será 
Mais certo que o futuro
Se nele é para habitar
a escolha do mais puro 

Já fuma o nosso fumo
Já sobra a nossa manta
Já veio o nosso sono
Fechar-nos a garganta. 

Então que os cílios olhem
E assim a casa seja
A árvore do Outono
Coberta de cereja. 


 inédito in «CEREJAS»,


Galeria de Rob Hefferan

  Rob Hefferan

  • "A verdadeira felicidade está na própria casa, entre as alegrias da família." - Léon Tolstoi


  Rob Hefferan

  • "O amor começa quando uma pessoa se sente só e termina quando uma pessoa deseja estar só." - Léon Tolstoi


  Rob Hefferan

  • “As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.” - Léon Tolstoi


  Rob Hefferan

  • "A palavra pode unir os homens, a palavra pode também separá-los, a palavra pode servir o amor como pode servir a amizade e o rancor. Livra-te da palavra que pode provocar o ódio." - Léon Tolstoi


Rob Hefferan

  • "Quem não souber povoar a sua solidão, também não conseguirá isolar-se entre a gente." - Charles Baudelaire 


  Rob Hefferan

  • "Compreender tudo, é tudo perdoar." - Léon Tolstoi


  Rob Hefferan

  • "O homem ama, porque o amor é a essência da sua alma. Por isso não pode deixar de amar." - Léon Tolstoi


Rob Hefferan 

  • "O segredo da felicidade não é fazer sempre o que se quer, mas querer sempre o que se faz." - Léon Tolstoi


  Rob Hefferan

  • "Não existe grandeza onde não há simplicidade, bondade e verdade." - Léon Tolstoi


Rob Hefferan

  • "A poesia na idade da alegria é a alegria mesma. Na idade da descoberta é a descoberta. A poesia não precisa de comover. Precisa é de mover: de mover todas as energias possíveis.” - Maria Alberta Menéres, in 'O poeta Faz-se aos 10 Anos'.


  Rob Hefferan