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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

"No Calvário" - Poema de António Gomes Leal


Domenico Tintoretto (Domenico Robusti, c.1560–1635), Maria Madalena
(Penitent Magdalene), 1598-1602, Museu Capitolino, Roma

Domenico Robusti
, também conhecido como Domenico de Tintoretto, foi um pintor italiano de Veneza. Ele cresceu sob a tutela de seu pai, o renomado pintor Jacopo Tintoretto (ca. 1518 — 1594).


No Calvário


Maria, com seus olhos magoados,
céus espirituais, lavava em pranto
as largas chagas de Jesus, enquanto
ria ao pé um dos três Crucificados

Semblantes de mulher mortificados
escondiam a dor no casto manto.
Uma mulher de Henon chorava a um canto.
Jogavam sobre a túnica os soldados.

Marta, os pingos de sangue, alva açucena,
dir-se-ia no bom seio recolhê-los.
alguns riam, brutais, daquela pena.

Salomé tinha um mar nos olhos belos.
João fitava a Cruz – Mas Madalena
limpava a Cristo os pés com seus cabelos.


António Gomes Leal


segunda-feira, 13 de abril de 2015

"Não choreis os mortos" - Poema de Pedro Homem de Melo




Não choreis os mortos


Não choreis nunca os mortos esquecidos 
Na funda escuridão das sepulturas. 
Deixai crescer, à solta, as ervas duras 
Sobre os seus corpos vãos adormecidos. 

E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos, 
Agonizar... guardai, longe, as doçuras 
Das vossas orações, calmas e puras, 
Para os que vivem, nudos e vencidos. 

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos, 
Da multidão sem fim dos que são vivos, 
Dos tristes que não podem esquecer. 

E, ao meditar, então, na paz da Morte, 
Vereis, talvez, como é suave a sorte 
Daqueles que deixaram de sofrer. 


Pedro Homem de Melo, in "Caravela ao Mar"



Tintoretto, como era conhecido Jacopo Robusti, (Veneza, ca. 1518 — 31 de Maio de 1594) foi um dos pintores mais radicais do "maneirismo".


Maneirismo

O termo "Maneirismo", que originalmente foi empregue para definir a pintura amaneirada e formalista de um grupo de pintores italianos de meados do século XVI, como Rosso Fiorentino e Pontormo, foi mais tarde utilizado para indicar um período artístico que, desenvolvido na centúria de quinhentos, encerrou o Alto Renascimento  em Itália e antecedeu o Barroco.

[Alto Renascimento Renascimento Plenoou até Renascimento Clássico, consiste num curto período de tempo (c. 1495-1520) em que um grupo de quatro génios – BramanteLeonardo da VinciRafael Miguel Ângelo, aprofundou as conquistas artísticas dos seus predecessores e elevou o Renascimento à sua máxima expressão.]

Durante o século XVI, a rígida estrutura espacial e gramatical do Renascimento, baseada no cumprimento de regras e de proporções harmónicas simples sofre um processo de decomposição e de enriquecimento, aceitando novas qualidades como a tensão, a instabilidade e a complexidade.

Na terceira década do século XV, as bases políticas, sociais e culturais sobre as quais se desenvolvera o Renascimento, tinham-se transformado enormemente. A Itália, invadida pela França e pela Espanha, perdeu nessa altura a sua independência, gerando-se um clima de instabilidade política ao qual se associou a crise interna da Igreja Católica, minada por uma rebelião que conduziu quase metade da Europa ao protestantismo. Foi precisamente esta Igreja que, empenhada numa profunda revisão dos seus fundamentos filosóficos organizou em 1547 o Concílio de Trento, apresentando-se então como um dos principais agentes desta reorientação cultural e artística.

  • Arquitetura
A diluição dos cânones clássicos estava já presente nos projetos finais de Donato Bramante  e de Miguel Ângelo, dois dos mais marcantes arquitetos humanistas. Um dos primeiros edifícios maneiristas, a Galleria degli Uffizi foi construída em Florença por Giorgio Vasari. O mais interessante e influente arquiteto do século XVI foi Andrea Palladio. Centrando a sua atividade em Vicenza, para onde desenha inúmeras Villas (residências nobres rurais) e palácios urbanos, realizou também alguns projetos de igrejas para Veneza. O seu trabalho mais divulgado é a Villa Capra (também conhecida como Villa Rotonda),  um edifício inteiramente simétrico, de planta quadrada (pontuada por uma cúpula central), em cujas fachadas este arquiteto aplicou pórticos de templos romanos. Neste projeto as proporções geométricas, tanto no desenho da planta como na composição dos alçados ganharam especial significado simbólico. 

Giacomo Vignola, um arquiteto mais conhecido pelo seu Tratado de Arquitetura que pelos trabalhos de arquitetura, realizou, na segunda metade do século o projeto para a Igreja de Jesus de Roma. Este templo, sede da ordem dos Jesuítas, procurava encarnar e sintetizar o espírito da Igreja contrareformista, saída do Concílio de Trento, assumindo-se como um dos edifícios mais influentes deste período. Acompanhando a expansão desta ordem jesuítica por todos os continentes, esta igreja tornar-se-á um dos modelos fundamentais do Barroco

Uma das mais notáveis construções maneiristas portuguesas, diretamente influenciada pela obra de Palladio e pelo tratado de Serlio, é o claustro de D. João III do Convento de Cristo em Tomar, projetado por Filipe Terzio. Outro projeto deste arquiteto, a Igreja de São Vicente de Fora (Lisboa), construída nos finais de quinhentos, representa a plena assimilação do modelo de templo contra-reformista, anunciado pela Igreja de Jesus de Roma.

  • Artes plásticas e Decorativas
Tal como na arquitetura, ao nível das artes plásticas o maneirismo constituiu um período de intensa liberdade criativa, determinando uma rutura com os modelos clássicos pela eleição de qualidades formais e simbólicas como o artifício, a inquietude, o oblíquo e o assimétrico.

"Juízo Final", fresco executado por Michelangelo para a parede da Capela Sistina (1534-41), representou uma das primeiras pinturas realizadas dentro do espírito da Contrarreforma. Mas já na década anterior se começaram a desenhar os contornos formais daquilo que constituiria a gramática maneirista. Protagonizado por pintores italianos como Rosso Fiorentino, Pontormo, Parmigianino, e Agnolo Bronzino, rapidamente este movimento alcançou uma dimensão internacional.

Tintoretto, expoente máximo do maneirismo veneziano, desenvolveu uma pintura de carácter anticlássico mas elegante, influenciada pela obra de Ticiano e de Michelangelo, que se destacava pelas pinceladas livres e rápidas, pelo acentuado claro-escuro e pelo abandono dos valores compositivos clássicos, como a simetria a e proporção. 

El Greco, um pintor de origem grega mas igualmente formado em Veneza e posteriormente radicado em Espanha, desenvolveu uma linguagem bastante original, cruzando a tradição da Escola Veneziana com influências bizantinas. Os seus quadros, invarialvelmente de tema religioso, transmitiam uma exaltada espiritualidade, pela intensidade do cromatismo e da textura, pelo sentido de movimento e violência das formas e pela deformação das figuras representadas. 

Sem alcançar o nível de densenvolvimento da pintura, a escultura do século XVI foi dominada pelos últimos trabalhos de Michelangelo, como as estátuas tumulares da Sacristia Nova de S. Lourenço em Florença, ou as esculturas inacabadas do túmulo do Papa Júlio II, que o próprio artista designou de "Escravos"


 uma das mais conhecidas obras do Maneirismo.


Giambologna ou Giovanni Bologna, escultor florentino, realizou (cerca de 1580) uma das esculturas mais significativas deste estilo, "O Rapto das Sabinas", uma complexa composição de escala monumental, com três figuras que se movem em espiral ascendente. 
Desenvolvendo um estilo mais sereno e elegante, Benvenuto Cellini tornou-se conhecido pelas elegantes e requintadas peças de ourivesaria.


  • Literatura
Aspeto literário que aponta para um certo culto formal, para conceitos subtis, para um sentido negativo da vida. Depois do estudo da produção do século XVII, poderemos ver que Camões, na sua época, é já um poeta amaneirado a fazer a transição da sobriedade clássica para os exageros do Barroco, quer pela subtileza conceitual que afirma no soneto «Amor é fogo que arde sem se ver», quer por uma forma de expressão onde é evidente o preciosismo da linguagem, quer, ainda, pelo conteúdo da sua mensagem poética. Nesta, a nota de desalento constitui uma inspiração importante; isto pode observar-se na epopeia, no episódio do Adamastor e na elegia aos mortos pelo escorbuto. Como aqueles, o poeta é um vencido face ao destino. (daqui)

sábado, 28 de março de 2015

A Arte inspirada nas Histórias da Bíblia - "A Última Ceia"



Última Ceia


 A Última Ceia é o nome dado à última refeição que, de acordo com os cristãos, Jesus dividiu com seus apóstolos em Jerusalém antes de sua crucificação. Ela é a base escritural para a instituição da Eucaristia, também conhecida como "Comunhão". A Última Ceia foi relatada pelos quatro evangelhos canônicos em Mateus 26:17-30, Marcos 14:12-26, Lucas 22:7-39 e João 13:1 até João 17:26. Além disso, ela aparece também em I Coríntios 11:23-26.3. O evento é comemorado na chamada Quinta-feira Santa.
Na Primeira Epístola aos Coríntios está a primeira menção conhecida à Última Ceia. Os quatro evangelhos canônicos afirmam que a Última Ceia ocorreu perto do final da Semana Santa, após a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, e que Jesus e seus discípulos dividiram uma refeição antes que ele fosse crucificado no final da semana. Durante a ceia, Jesus previu sua traição por um dos discípulos ali presente e antecipa que, antes do amanhecer do dia seguinte, o apóstolo Pedro iria negar conhecer Jesus.
Os três evangelhos sinóticos e a Primeira Epístola aos Coríntios incluem um relato da instituição da Eucaristia, na qual Jesus reparte o pão entre os discípulos dizendo: "Este é o meu corpo". O Evangelho de João não inclui esta parte, mas afirma que Jesus lavou os pés dos discípulos, dando-lhes um novo mandamento: "Ame os outros como eu vos amei" e reproduz um detalhado discurso de adeus feito por Jesus, chamando os apóstolos que seguiam seus ensinamentos de "amigos e não servos".
Alguns académicos veem na Última Ceia a fonte das primeiras tradições cristãs sobre a Eucaristia. Outros entendem que o relato é que deriva de uma prática eucarística já existente no século I e descrito por Paulo.
O termo "Última Ceia" não parece no Novo Testamento. Porém, tradicionalmente, muitos cristãos se referem ao episódio da última refeição de Jesus desta forma. É provável que o evento seja o relato de uma última refeição de Jesus junto aos seus primeiros seguidores e tornou-se um ritual de lembrança. Os anglicanos e os presbiterianos utilizam o termo "Ceia do Senhor", defendendo que o termo "última" sugere que esta foi uma entre muitas ceias e não "a" ceia. A Igreja Ortodoxa utiliza ainda o termo "Ceia Mística", que se refere tanto ao episódio quanto à celebração eucarística dentro da liturgia. (daqui)



Arte Cristã

A Última Ceia  é um dos temas mais populares da arte cristã. Representações dela remontam ao cristianismo primitivo e podem ser vistas nas catacumbas de Roma. Artistas bizantinos frequentemente focavam nos apóstolos recebendo a comunhão ao invés de figuras reclinadas ceando. Na época do Renascimento, a Última Ceia era um tópico favorito da arte italiana.
Há três grandes temas nas representações artísticas da Última Ceia. O primeiro é a dramática e dinâmica cena de Jesus anunciando sua traição. O segundo é o momento da instituição da Eucaristia, geralmente solene e mística. O terceiro grande tema é o Discurso de Adeus, no qual Judas Iscariotes já não está mais presente, com obras geralmente melancólicas por conta da iminente despedida de Jesus. Existem outros temas menores, como o lava-pés.
Exemplos bem conhecidos incluem a obra de Leonardo da Vinci, que é considerada a primeira do Alto Renascimento por conta de seu alto nível de harmonia, a obra de Tintoretto, que é diferente por incluir personagens secundários carregando ou levando embora os pratos da mesa e a obra de Salvadore Dali, que combina os típicos temas cristãos com abordagens modernas do surrealismo(daqui)


Afresco de A Última Ceia, provavelmente a representação mais conhecida da Última Ceia, 1495-1498,

Leonardo da Vinci pintou A Última Ceia, um incrível trabalho, o mais sereno e distante do mundo temporal, durante anos caracterizado por conflitos armados, intrigas, preocupações e emergências. Ele a declarou como concluída, mas eternamente insatisfeito, continuou a trabalhar nela. Foi exposta à vista de todos e contemplada por muitos. Desde então, ele foi considerado, sem discussão, como um dos primeiros mestres da Itália, senão o primeiro. Os artistas vinham de muito longe, para, no refeitório do Convento de Santa Maria delle Grazie, analisar cuidadosamente a pintura, copiando-a e discutindo-a. (daqui)
 
 
(Esta obra é uma representação moderna da famosa A Última Ceia de Leonardo da Vinci).

A Última Ceia, realizada por Salvador Dalí em 1955, é uma famosa pintura a óleo sobre tela que mede 167 cm de altura e 268 de largura. O quadro está na Galeria Nacional de Arte de Washington DC. Essa obra causou polémica quando apresentada ao público, pois a imagem de Dali como artista irreverente e provocador não combinada com o tema religioso.
Alguns críticos a denunciaram como banal, enquanto outros acreditam que Dali conseguiu dar mais vida à imagem tradicional da devoção. Jesus e seus 12 apóstolos estão reunidos numa sala modernista envidraçada. Os apóstolos, com as cabeças baixas, ajoelham em torno de uma grande mesa de pedra, suas formas sólidas contrastam com a transparência de Cristo. Sobre a cena, paira misteriosamente a imagem de um homem com os braços abertos, como se abençoasse o grupo ali reunido, talvez tendo alguma relção ao espírito santo. Dali construiu este quadro surrealista baseando-se nos estudos de Leonardo da Vinci, que pintou a mais famosa das Santas Ceias. (daqui)