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quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

"Devo-te" - Poema de Vítor Matos e Sá

 

Wilfrid Gabriel de Glehn (Impressionist British painter, 1870-1951),
The beloved, 1932, Private collection.



Devo-te 


Devo-te tanto como um pássaro
deve o seu voo à lavada
planície do céu.

Devo-te a forma
novíssima de olhar
teu corpo onde às vezes
desce o pudor o silêncio
de uma pálpebra mais nada.

Devo-te o ritmo
de peixe na palavra,
a genesíaca, doce
violência dos sentidos;
esta tinta de sol
sobre o papel de silêncio
das coisas - estes versos
doces, curtos, de abelhas
transportando o pólen
levíssimo do dia;
estas formigas na sombra
da própria pressa e entrando
todas em fila no tempo:
com uma pergunta frágil
nas antenas, um recado invisível, o peso
que as deixa ser e esquece;
e a tua voz que compunha
uma casa, uma rosa
a toda a volta - ó meu amor vieste
rasgar um sol das minhas mãos! 


Vítor Matos e Sá
, in 'O Silêncio e o Tempo'
 

terça-feira, 2 de maio de 2023

"Tragam-me um homem que me levante com os olhos" - Poema de Cláudia R. Sampaio



John Singer Sargent (1856–1925), Wilfrid and Jane de Glehn, The Fountain,
 Villa Torlonia, Frascati, Italy, 1907. Art Institute of Chicago, USA.
 


Tragam-me um homem que me levante
 

Tragam-me um homem que me levante
com os olhos
que em mim deposite o fim da tragédia
com a graça de um balão acabado de encher
tragam-me um homem que venha em baldes,
solto e líquido para se misturar em mim
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
leve, leve, um principiante de pássaro
tragam-me um homem que me ame em círculos
que me ame em medos, que me ame em risos
que me ame em autocarros de roda no precipício
e me devolva as olheiras em gratidão de
estarmos vivos
um homem homem, um homem criança
um homem mulher
um homem florido de noites nos cabelos
um homem aquático em lume e inteiro
um homem casa, um homem inverno
um homem com boca de crepúsculo inclinado
de coração prefácio à espera de ser escrito
tragam-me um homem que me queira em mim
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
um homem mundo onde me possa perder
e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
atirando-me à ilusão de sermos duas
novíssimas nuvens em pé.


Cláudia R. Sampaio
, in 'Ver no escuro', 2016
 
 
Cláudia R. Sampaio, Ver no escuro, 2016, 
 Editora: Tinta-da-China
 

«O que arde também cura. Quando, neste livro, nos deparamos com relâmpagos, brasas e incêndios, detetamos igualmente uma ideia de restabelecimento ou terapia, que se parece, aliás, com o seu avesso: uma doença febril, convulsiva, violenta. Os poemas de Cláudia R. Sampaio são disfóricos mas reativos, respondem ao mundo e aos ataques do mundo, muitos deles sujos, asquerosos. Esse imaginário quase abjecionista não é uma pose, uma auto‑indulgência, é a convicção de que, apesar de estarem ‘acima das condições atmosféricas’, os poemas têm cabeça e têm corpo, ambos amotinados, complicados. Anotações citadinas confirmam então que os outros talvez sejam mesmo o inferno; elegias domésticas transformam os pais em criaturas mitológicas, terríficas; e poemas de perda e desejo combinam imagens agressivas e anáforas surreais‑românticas. Ver no Escuro é uma sequência sobre o facto de estarmos vivos, ou antes, sobre a consciência e ‘infra‑consciência’ desse facto. Consciência que é um desassossego pessoano, uma exasperação tenebrosa, uma ‘melancolia aflita’.» — Pedro Mexia (daqui)
 
 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

"Vossos Olhos, Senhora, que Competem" - Soneto de Luís de Camões


 A Nude in a Landscape
 
 

Vossos Olhos, Senhora, que Competem


Vossos olhos, Senhora, que competem 
Com o Sol em beleza e claridade, 
Enchem os meus de tal suavidade, 
Que em lágrimas de vê-los se derretem. 

Meus sentidos prostrados se submetem 
Assim cegos a tanta majestade; 
E da triste prisão, da escuridade, 
Cheios de medo, por fugir remetem. 

Porém se então me vedes por acerto, 
Esse áspero desprezo com que olhais 
Me torna a animar a alma enfraquecida. 

Oh gentil cura! Oh estranho desconcerto! 
Que dareis c' um favor que vós não dais, 
Quando com um desprezo me dais vida? 


Luís de Camões
, in "Sonetos" 


Galeria de Wilfrid Gabriel de Glehn
Wilfrid Gabriel de Glehn, Standing Figure, Two Poses 


Wilfrid Gabriel de Glehn, The Wiltshire Downs from the Walnut Tree at Stratford Tony


Wilfrid Gabriel de Glehn, View from Wilfrid de Glehn’s garden at Stratford Tony


Wilfrid Gabriel de Glehn, Wiltshire Afternoon


Wilfrid Gabriel de Glehn, Wittenham Clumps, Vale of the White Horse, Wiltshire


Wilfrid Gabriel de Glehn, An Italian artilleryman kitchen in the Corso, 1917


Wilfrid Gabriel de Glehn, Soldiers Convalescing at Granada, 1912



O Caminho da Salvação


"A cegueira e a obstinação dos homens lembra-me às vezes a cegueira e a obstinação das varejeiras enfrenizadas contra as vidraças. Bastava um momento de serenidade, dez-réis de bom senso, e em qualquer fresta estava a liberdade. Mas o demónio da mosca, quanto mais a impossibilidade se lhe põe diante, mais teima. O resultado é cair morta no peitoril.
Não se pode fazer ideia da maravilha de criança que era a filha de um poeta de meia tigela que hoje me lia versos impossíveis, a empurrá-la enfastiado com a mão esquerda, quando ela graciosamente o interrompia. A canção enluarada, a quadra perfeita, o soneto verdadeiro que justificavam aquele homem estavam ali, a brilhar nos olhos da pequenita; e o desgraçado às turras à janela, a zumbir e a magoar-se, sem ver que tinha diante de si o verdadeiro caminho da salvação!"

Miguel Torga
, in "Diário (1943)" 
 

domingo, 7 de abril de 2013

"O Amor tudo mata quando morre" - Poema de José Jorge Letria


Wilfrid Gabriel de Glehn (Impressionist British painter, 1870–1951), Tourrettes, 1923
 


O Amor tudo mata quando morre


Eu morro dia a dia, sabendo-o, sentindo-o, 
com a morte do amor em mim. 
Esvaiu-se, ensandeceu, partiu, 
espécie de sol sepultado por mãos ímpias, 
numa cratera de lua, algures, 
ou na tristeza de um retrato emudecido 
pela ausência de vozes em redor. 
Sem ele, a casa ficou deserta 
de risos, acenos e afetos, de tudo, 
as mãos ficaram ásperas, secas, 
a pele do rosto gretada, fria, 
e o sangue tornou-se lento e espesso, 
incapaz de dar vida às pequenas folhas 
orvalhadas da imaginação das noites. 
A erva cresce em redor de mim, 
os limões ficaram ressequidos sobre 
a toalha bordada, num canto da mesa. 
O amor tudo mata quando morre, 
detendo no seu movimento elementar, 
a máquina que ilumina o coração do dia.


José Jorge Letria, in "Quem com Ferro Ama"
 


Galeria de Wilfrid Gabriel de Glehn

Wilfrid Gabriel de Glehn, Olive Trees, Corfu, 1909


Wilfrid Gabriel de Glehn, The Avon, Wiltshire


Wilfrid Gabriel de Glehn, The Avon, Wiltshire


Wilfrid Gabriel de Glehn, The Mouth of the Helford River


Wilfrid Gabriel de Glehn, Snow at Stratford Tony


Wilfrid Gabriel de Glehn, Ebble - The Trout Stream at Stratford Tony


Wilfrid Gabriel de Glehn, Misty Day - Ground swell on the Cornish Coast 


Wilfrid Gabriel de Glehn, Vallée de Roquefavour, near Marseilles


Wilfrid Gabriel de Glehn, Stratford Tony, Wiltshire


Wilfrid Gabriel de Glehn, Saint-Paul, Vallée du Var, Provence, 1936
 


O que se sente não se consegue dizer


"O que habitualmente se sofre (se sente) não se pode contar. Não é só porque isso é normalmente ridículo (porque a grande maior parte do que se pensa e sente é ridículo) e só o que é grande é que cai bem e vale portanto a pena dizer-se. É que o dizer-se altera o que se diz. O sentir é irredutível ao dizer. Só o estar sofrendo diz o sofrer. Na palavra ninguém o reconhece ou reconhece-o de outra maneira, essa maneira em que já o não reconhece o que o conta. Mas dizia eu que a generalidade do que se pensa, sente, é ridícula. São raros os momentos de «elevação». A quase totalidade do tempo passamo-la distraídos, alheados em ideias sem interesse, nascidas de coisas sem interesse, as coisas que vai havendo à nossa volta ou no nosso divagar imaginativo ou que nem sequer chega a haver porque há só a abstração total no quedarmo-nos pregados às coisas que nem vemos nem nos despertam ideia alguma e estão ali apenas como ponto de fixação do nosso absoluto vazio interior." 
 

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'


Vergílio António Ferreira
Portugal
1916 // 1996
Escritor/Ensaísta/Professor 


Wilfrid Gabriel de Glehn


"Fraternidade" - Poema de Miguel Torga


Wilfrid Gabriel de Glehn (Impressionist British painter, 1870-1951), Night



Fraternidade


Não me dói nada meu particular.
Peno cilícios da comunidade.
Água dum rio doce, entrei no mar
E salguei-me no sal da imensidade.

Dei o sossego às ondas
Da multidão.
E agora tenho chagas
No coração
E uma angústia secreta.

Mas não podia, lírico poeta,
Ficar, de avena, a exercitar o ouvido,
Longe do mundo e longe do ruído.


Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'



Galeria de Wilfrid Gabriel de Glehn
Wilfrid Gabriel de Glehn, Dance of the Nymphs (The Landing Place) Corfu, 1910



Wilfrid Gabriel de Glehn, The Mill Pond at Poltesco, Ruan Minor, Cornwall


Wilfrid Gabriel de Glehn, Sun breaking through Clouds, Granada, 1912


Wilfrid Gabriel de Glehn, In the Shadows, Versailles, 1918


 Wilfrid Gabriel de Glehn, Notre Dame de Paris - Sunrise


Wilfrid Gabriel de Glehn, The Statue of Vertumnus, Frascati, 1907 


Wilfrid Gabriel de Glehn, The French Pavilion, Parc du Château de Versailles


Wilfrid Gabriel de Glehn, Uma porta veneziana, 1913
 


O Medo do Aborrecimento


"O género de aborrecimento de que sofre a população das cidades modernas está intimamente ligado à sua separação da vida da Terra. Essa separação torna o seu viver ardente, poeirento e ansioso, tal como uma peregrinação no deserto. Nos que são suficientemente ricos para escolher o seu género de vida, o estigma peculiar de insuportável aborrecimento que os distingue é devido, por muito paradoxal que isso possa parecer, ao seu medo do aborrecimento. Ao fugirem do aborrecimento que é fecundo, são vítimas de outro de natureza pior. Uma vida feliz deve ser, em grande medida, uma vida tranquila, pois só numa atmosfera calma pode existir o verdadeiro prazer."

Bertrand Russell, in "A Conquista da Felicidade"



Bertrand Russell
Inglaterra
1872 // 1970
Filósofo, Matemático, Crítico social, Escritor


"Litania" - Poema de Eugénio de Andrade


  Wilfrid Gabriel de Glehn (Impressionist British painter, 1870-1951), Youth, 1925
 


Litania


O teu rosto inclinado pelo vento; 
a feroz brancura dos teus dentes; 
as mãos, de certo modo, irresponsáveis, 
e contudo sombrias, e contudo transparentes; 

o triunfo cruel das tuas pernas, 
colunas em repouso se anoitece; 
o peito raso, claro, feito de água; 
a boca sossegada onde apetece 

navegar ou cantar, ou simplesmente ser 
a cor dum fruto, o peso duma flor; 
as palavras mordendo a solidão, 
atravessadas de alegria e de terror, 

são a grande razão, a única razão. 


Eugénio de Andrade, 
in “Poesia e Prosa”



Galeria de Wilfrid Gabriel de Glehn
Wilfrid Gabriel de Glehn, My Drawing Room, Stratford Tony


Wilfrid Gabriel de Glehn, The Garden at Stratford Tony, Wiltshire 


Wilfrid Gabriel de Glehn, Vallée du Var, Provence


Wilfrid Gabriel de Glehn, Classical Idyll before the Baôu of Saint-Jeannet, 1943


Wilfrid Gabriel de Glehn, Cowslip Down, looking towards Salisbury


Wilfrid Gabriel de Glehn, Cowslip Down, Wiltshire


Wilfrid Gabriel de Glehn, Crossing the Bridge at Tourettes-sur-Loup, 1925


 
Wilfrid Gabriel de Glehn, Dan Outside the Church at Stratford Tony, Wiltshire


"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar."

Clarice Lispector, in 'Um Sopro de Vida: pulsações'


Clarice Lispector
Brasil
1920 // 1977
Escritora

sexta-feira, 5 de abril de 2013

"Desinferno II" - Poema de Luiza Neto Jorge


Portrait of Clare Collins, 1927
 
 

Desinferno II


Caísse a montanha e do oiro o brilho 
O meigo jardim abolisse a flor 
A mãe desmoesse as carnes do filho 
Por botão de vídeo se fizesse amor 

O livro morresse, a obra parasse 
Soasse a granizo o que era alegria 
A porta do ar se calafetasse 
Que eu de amor apenas ressuscitaria  
 
 
Luiza Neto Jorge, in “Poesia”



Galeria de Wilfrid Gabriel de Glehn
Wilfrid Gabriel de Glehn, Self-Portrait, 1944


Wilfrid Gabriel de Glehn, Jane de Glehn in her Garden at Stratford Tony


Wilfrid Gabriel de Glehn, Wilfrid de Glehn’s garden at Stratford Tony, Wiltshire


Wilfrid Gabriel de Glehn,  A Distant View of Salisbury


Wilfrid Gabriel de Glehn, Blake's Pool, Stratford Tony, Wilts.


Wilfrid Gabriel de Glehn, Reflets dans l'eau


"A arte não pode ser política, nem sujeição social, nem glosa duma ideia que faz época; nem mesmo pode estar de qualquer forma aliada ao conceito «progresso». É algo mais. É o próprio alento humano para lá da morte de todas as quimeras, da fadiga de todas as perguntas sem solução."- Agustina Bessa-Luís