quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

"Devo-te" - Poema de Vítor Matos e Sá

 

Wilfrid Gabriel de Glehn (Impressionist British painter, 1870-1951),
The beloved, 1932, Private collection.



Devo-te 


Devo-te tanto como um pássaro
deve o seu voo à lavada
planície do céu.

Devo-te a forma
novíssima de olhar
teu corpo onde às vezes
desce o pudor o silêncio
de uma pálpebra mais nada.

Devo-te o ritmo
de peixe na palavra,
a genesíaca, doce
violência dos sentidos;
esta tinta de sol
sobre o papel de silêncio
das coisas - estes versos
doces, curtos, de abelhas
transportando o pólen
levíssimo do dia;
estas formigas na sombra
da própria pressa e entrando
todas em fila no tempo:
com uma pergunta frágil
nas antenas, um recado invisível, o peso
que as deixa ser e esquece;
e a tua voz que compunha
uma casa, uma rosa
a toda a volta - ó meu amor vieste
rasgar um sol das minhas mãos! 


Vítor Matos e Sá
, in 'O Silêncio e o Tempo'
 

Sem comentários: