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sábado, 18 de março de 2017

"Que assim sai a manhã serena e bela" - Soneto de João Xavier de Matos



William Oliver (English artist, 1823–1901), 'Olivette', ca. 1845



Que assim sai a manhã serena e bela


Que assim sai a manhã serena e bela
Como vem no horizonte o sol raiando!
Já se vão os outeiros divisando,
já no céu se não vê nenhuma estrela

Como se ouve a rústica janela
do pátrio ninho o rouxinol cantando!
Já lá vai para o monte o gado andando,
já começa o barqueiro a içar a vela.

A pastora acolá, por ver o amante,
com o cântaro vai à fonte fria;
cá vem saindo alegre o caminhante; 

Só eu não vejo o rosto da alegria:
que enquanto de outro sol morar distante,
não há de para mim nascer o dia.


João Xavier de Matos
[Poeta português, 1730/5–1789]


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

"Poesia depois da chuva" - Poema de Sebastião da Gama



William Oliver (English artist, 1823–1901), 'The Letter' 
 

Poesia depois da chuva
A Maria Guiomar  

Depois da chuva o Sol - a graça.
Oh! a terra molhada iluminada!
E os regos de água atravessando a praça
- luz a fluir, num fluir impercetível quase. 

Canta, contente, um pássaro qualquer.
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça.
O fundo é branco - cal fresquinha no casario da praça.

Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.

Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado
antes do Sol, não duvidava agora.)
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual
às manhãs do princípio!

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro.
Grácil, tão grácil!... Pura imagem da Tarde...
Flor levada nas águas, mansamente...

(Fluía a luz, num fluir impercetível quase...)


Sebastião da Gama (1924–1952)
in 'Pelo Sonho é que Vamos', 1953



William Oliver (English artist, 1823–1901), 'An English Rose' 


"A beleza das coisas existe no espírito de quem as contempla."

David Hume
[Filósofo, historiador e ensaísta britânico nascido na Escócia, 1711–1776]
 
 

domingo, 1 de janeiro de 2012

"Ainda te falta dizer isto" - Poema de Albano Martins



William Oliver (English artist, 1823–1901), 'A Spanish Lady'


Ainda te falta dizer isto


Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há 
flores que de ti 
dependem, que foste 
tu que deixaste 
algumas lâmpadas 
acesas. Que há 
na brancura 
do papel alguns 
sinais de tinta 
indecifráveis. E 
que esse 
é apenas 
um dos capítulos do livro 
em que tudo 
se lê e nada 
está escrito. 
in 'Escrito a Vermelho', 1999



William Oliver (English artist, 1823–1901), 'The Billet Doux', 1882 


Nascer todas as manhãs

 
"Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca. Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição. Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento. Esquecer em cada poente o do dia anterior. Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória. Nascer todas as manhãs."

Miguel Torga, in "Diário (1982)"

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

"Aula de português" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


William Oliver
(English artist, 1823–1901), 'Portrait of a Lady', 1877


Aula de português


A linguagem
na ponta da língua
tão fácil de falar
e de entender 

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, equipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima. 

O português são dois; o outro, mistério.


Carlos Drummond de Andrade (1902–1987),
in 'Boitempo', 1986
 



Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda.


Cecília Meireles,
in 'Romanceiro da Inconfidência'